Desde que a temperatura política disparou no Brasil, o ex-Presidente Luiz Inácio Lula da Silva vem se deslocando pelo país para conversar com políticos, integrantes do Governo, sindicalistas e líderes de movimentos sociais, no sentido de obter uma ampla adesão em prol da manutenção do mandato da Presidenta Dilma Rousseff.
As articulações de Lula ganharam ímpeto a partir de 2 de dezembro, data em que o presidente da Câmara dos Deputados, Eduardo Cunha, anunciou ter recebido o pedido de impeachment contra a presidente, formulado e subscrito pelos juristas Hélio Bicudo, Miguel Reale Jr. e Janaína Paschoal.
Desde então, Lula tem sustentado que um eventual novo governo, composto pelos direitistas que querem derrubar Dilma, iria causar o desemprego para conter a inflação, um desemprego que, há poucos meses, em dezembro de 2014, era de 4,3%.
“Há uma diferença muito grande entre um governo administrado com uma concepção de esquerda e um governo com concepção de direita”, diz o Deputado Ênio Verri, do PT do Paraná.
“Para um governo de concepção de esquerda como o nosso, o objetivo principal é uma política de aumento de emprego, melhora da renda e, principalmente, desconcentração da renda no país, o que foi muito bem feito nesses anos todos do Governo Lula e no primeiro mandato da Presidenta Dilma. Ocorre que, se a direita quiser assumir através do golpe e não da eleição, porque foi derrotada nas eleições, ela vai ter as práticas tradicionais, ou seja, a prática de cortar direitos sociais, aumentar a taxa de juros, reduzir o crédito e, principalmente, levar adiante o processo de privatização, mais do que já fez.”
O Deputado Ênio Verri continua:
“As receitas históricas das políticas neoliberais concentram a renda e aumentam a miséria no país. Vimos isso nos 500 anos da História do Brasil, vimos isso mais recentemente no Governo Fernando Henrique, um governo de prática claramente neoliberal de direita. Ou seja, uma elite continuará ganhando muito e a grande maioria terá uma radical queda do poder aquisitivo, o aumento da taxa de desemprego, e, principalmente, como eles irão optar por uma redução do tamanho do Estado, será natural que reduzam ou eliminem todas as conquistas sociais que foram realizadas nestes últimos 13 anos.”
Sobre os movimentos que acompanham e apoiam os Presidentes Lula e Dilma, o Deputado Ênio Verri argumenta que “são manifestações não só das centrais sindicais, dos movimentos sociais, movimento dos sem-teto, mas também da CNBB – Conferência Nacional dos Bispos do Brasil, do Conic – Conselho Nacional das Igrejas Cristãs do Brasil e de vários partidos do campo democrático popular”.
“A posição é muito clara”, adverte o deputado petista. “Esses movimentos não vão admitir a manutenção dessa política pró-impeachment e, se necessário, vão às ruas para protestar. Isso é uma unanimidade. Já houve reuniões em todos os Estados, da Frente Brasil Popular, que unifica movimentos e partidos políticos para elaborar estratégias de enfrentamento a esse golpe que a elite brasileira quer aplicar ao povo brasileiro. Esse movimento está sendo articulado e não terá uma bandeira exclusiva do PT, até porque entendemos que o PT apenas centraliza isso, mas são muitos os setores da sociedade que até nem votaram na Dilma mas que confiam na democracia e sabem que será um risco muito grande para um país que tem uma democracia que está amadurecendo ainda e que pode ser fragilizada por um movimento como esse. Serão setores ligados aos trabalhadores e aos movimentos sociais, mas também setores de classe média como intelectuais, professores, trabalhadores no setor liberal como advogados, médicos, que irão juntos, primeiro seguindo suas associações e depois de forma individual, manifestando-se pela democracia, contra o golpe e, principalmente, pela manutenção da construção da República, que está sendo feita de forma recente aqui no Brasil.”
O Deputado Afonso Florence, do PT da Bahia, complementa o raciocínio de seu colega Ênio Verri:
“Dois aspectos fundamentam nossa luta contra esse esforço da oposição de realizar um golpe institucional no Brasil”, diz Florence. “Em primeiro lugar, a defesa da legalidade democrática. A Presidenta Dilma foi eleita pelo voto popular e, se os golpistas perderam a eleição, temos que conseguir fazê-los ser submetidos às regras democráticas – e em 2018 teremos novas eleições. A Presidenta Dilma tem que poder governar. Eles pretendem, sem nenhum fundamento jurídico, tentar sacá-la do Governo para ocupar sua posição. Em segundo lugar, é óbvio que é um ataque dos setores reacionários brasileiros contra as conquistas populares obtidas durante os mandatos do Presidente Lula e da Presidenta Dilma.”
O Deputado Afonso Florence lembra, então, que “a relação dos movimentos sociais, hoje, com o mandato da Presidenta Dilma é de apoio à legalidade democrática, apoio ao mandato obtido nas urnas e de luta pela mudança da política econômica para que retomemos a geração de emprego, a redução das desigualdades e a promoção de justiça social que caracterizaram o Governo do Presidente Lula e o primeiro mandato da Presidenta Dilma”.
Finalmente, o Deputado Florence diz não ter dúvida de que, com esse acirramento da disputa política, a disputa se dá entre dois projetos: um neoliberal, com apoio de setores de forças políticas internacionais, do imperialismo que quer destruir a Petrobras; e outro, o do governo democrático popular da Presidenta Dilma, que sucedeu o Presidente Lula, com o apoio dos movimentos sociais organizados.
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DISCUSSÃO
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A sala de plenário da Câmara dos Deputados em Brasília parecia um estádio de futebol em dia de jogo nesta terça-feira à tarde. Quando Eduardo Cunha, o presidente da câmara baixa do Congresso brasileiro, abriu a votação para eleger a comissão parlamentar que irá avaliar o processo de impeachmentcontra Dilma Rousseff, houve desacatos e empurrões entre deputados e urnas partidas. Alguns parlamentares do PT, o partido de Dilma, tentaram obstruir o acesso às cabines de votação e gritaram aos microfones para que a sessão fosse suspensa. Houve confrontos entre deputados de partidos diferentes, que tiveram de ser separados por colegas. Seguranças da Polícia Legislativa foram chamados para garantir que a votação ocorresse.
A votação deveria ter acontecido na véspera, segunda-feira, mas foi adiada por Eduardo Cunha, numa manobra para impedir a nomeação de deputados moderados ou mais favoráveis a Dilma. A comissão que irá analisar o pedido de impeachment terá de integrar membros de todos os partidos com representação parlamentar, escolhidos pelos respectivos líderes partidários. Mas na segunda-feira o líder da bancada do PMDB, partido que faz parte da aliança governativa, comandada pelo PT, tinha escolhido maioritariamente deputados moderados e contrários ao impeachment, sob os protestos dos dissidentes do partido, a que Eduardo Cunha também pertence.
Nesta terça-feira, com o apoio de Cunha, foi formada uma lista alternativa de deputados, alinhados com a oposição ao governo de Dilma, que disputou a votação com a lista oficial, indicada pelos líderes partidários, e ganhou. Deputados da oposição empunharam uma bandeira do Brasil no centro da sala e um boneco do ex-presidente Lula da Silva vestido com farda prisional. “O dia está ganho, senhor presidente, pode encerrar a sessão”, disse um deputado ao microfone, dirigindo-se a Eduardo Cunha. Cunha sorriu. A reunião da Comissão de Ética encarregada de analisar o seu próprio processo de destituição – Cunha tem o seu nome envolto no escândalo de corrupção da Petrobras e está a ser investigado pelo Ministério Público – foi adiada pela quinta vez porque o presidente da Câmara dos Deputados marcou a votação da comissão do impeachment para a mesma hora.