OPINIÃO
Relendo há dias o livro que Joaquim Manuel Magalhães nos outorgou com a advertência de que revogava tudo o que tinha publicado antes (Um Toldo Vermelho, 2010, Relógio D’Água), percebi que a sua poesia — aí submetida ao êxtase e ao suplício, à execução e à redenção — fornecia com enorme violência a ancoragem literária para uma metáfora de origem histórica que se literalizou, a metáfora do Terror (assim, com maiúscula). Como à entrada do jardim de Tarbes, esta inscrição poderia abrir o livro: “É proibido entrar no jardim com flores na mão”. Quem falou desta inscrição no jardim de Tarbes foi o escritor francês Jean Paulhan (1884-1968), que nomeou e caracterizou aquilo a que ele chamou “o Terror nas Letras”, estabelecendo uma dialéctica antagonista entre o Terror e a Retórica. Segundo ele, o Terror literário é uma espécie de poder destituinte que a modernidade praticou através da recusa: recusa de uma retórica enquanto lugar-comum, vontade de superação e escolha da diferença. Neste sentido, o modernismo foi uma sucessão de poéticas terroristas. Dizendo isto, torna-se necessário ressalvar: por esse livro, e recuperando esse velho tópico do terror literário, Joaquim Manuel Magalhães surge como um terrorista, praticando um verdadeiro exercício de extermínio, na medida em que, a partir daí, ele deixa de ter qualquer mundo comum a partilhar ou passível de ser seguido (nos temas, nos processos, na retórica, em suma): a sua poesia deixou de ser uma representação para todos aqueles que viam nela uma lição, um modelo e uma certa genealogia. É como se ela tivesse querido pôr à distância os seus amadores, mas não para se aproximar dos seus inimigos. E assim passamos do Terror à Guerra, dois motivos que justificam amplamente este regresso ao último livro de Joaquim Manuel Magalhães, pois os pacíficos ambientes literários em que vivemos são uma prova da sua patologia. Onde estão as flores do terrorismo? Porque é que nem se cria (nem do lado da produção nem do lado da recepção) a ocasião para a polémica e a conflitualidade públicas? Onde estão os “misólogos” (um neologismo de Paulhan) para enfrentar a interminável procissão dos escritores-filólogos que amam e são amados desesperadamente? O ethos do escritor veiculado pela velha tradição humanista — essa coisa nauseabunda — parece que recuperou forças e está novamente de boa saúde. Ora, é tudo isto que o livro e o gesto de Joaquim Manuel Magalhães, com toda a sua radicalidade, nos obrigam a pensar. Ele foi, na literatura portuguesa recente, a manifestação mais visível quer de uma concepção terrorista da literatura, quer da literatura como um campo de batalha, onde também a violência crítica é praticada como uma elevada luta. Sabemos como esta concepção foi consagrada pela metáfora da esgrima literária, um topos da idade clássica que Baudelaire actualizou e revitalizou. Joaquim Manuel Magalhães fez algo que corresponde a passar do apolíneo para um dionisismo trágico, sem aquele pathos muito modernista da transgressão, mas dando sentido à literatura como campo de batalha e como motivo de dilaceração. Fê-lo como um suicídio em acto da poesia, praticando uma imensa hecatombe. Desde 2010, não sei nada dele, nunca mais li uma linha nem um verso que ele tenha publicado (ou será que algo me escapou?); ao reler o seu livro, que nunca foi republicado, apeteceu-me chamar-lhe poeta-energúmeno. Se ele ler este texto, quero que saiba que também tenho boas razões para, um dia, esgrimir contra ele. Quem vai à guerra dá e leva.
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