A DERROTA DE COLOLO SÓ PROVOU QUE A ÚLTIMA SETA É QUE DÓI MAIS DE FACTO
Por Gustavo Mavie
Desde que o candidato da Frelimo, Amisse Cololo, foi derrotado pelo da Renamo, Paulo Vahanle, na 2.a volta na eleição intercalar realizada na cidade de Nampula a 14 deste mês, tenho estado a ouvir uma barragem de sentenças díspares mas quase todas condenando Nyusi como o único culpado, no que só prova a veracidade do axioma jurídico que reza que cada cabeça é uma sentença.
De entre as sentenças que me trouxeram à memória a tese que reza que a última seta é a que dói mais, que inspirou-me o título deste artigo, são os tais que culpam o presidente Filipe Nyusi, indo tão longe como alegar que ele tem liderado mal o partido Frelimo, daí que ‘’sofremos esta asfixiante derrota nesta intercalar de Nampula!’’
Algumas dessas acusações constam em artigos assinados por alguns membros da Frelimo que estão zangados com esta derrota de Cololo, incluindo dum tal Membro Sénior que tal como todos os outros, estão circulando nas redes sociais e noutras plataformas, como Watsaap, intitulado Perda de Nampula: um aviso ao Camarada Presidente Nyusi. O seu autor deixa entender que essa derrocada de Cololo é exclusivamente consequência lógica da maneira errónea como Nyusi tem dirigido a Frelimo.
Ora, se de facto o seu autor é sénior, então deve rever o passado como aconselhou há centenas de anos Cícero, para que se valha dele, e tornar-se num político sénior de facto. É que Cícero vincava que todos os que não se valem da experiência do passado para avaliarem o presente e perspectivar o futuro, acabam morrendo crianças, muito embora sejam adultos em idade.
Pressinto que alguns dos que me lêem agora estão provavelmente dizendo para os seus botões, lá está o Gustavo Mavie a defender ingloriamente Nyusi, mas garanto que ao longo deste artigo irão se aperceber que não é defesa nenhuma, mas apenas a não aceitar que se faça um julgamento injusto a ele. É que não é a primeira vez que um candidato da Frelimo perde com um da Renamo e mesmo doutros partidos, como o provarei ao longo deste artigo.Os factos e dados estatísticos mostram que desde o tempo em que o presidente de Moçambique era Joaquim Chissano, que já começou a haver candidatos da Frelimo a serem derrotados pelos da Renamo. Essas derrotas começaram nas segundas eleições municipais realizadas em 2003, que se seguiram às primeiras de 1998, por sinal as únicas em que os candidatos da Frelimo ganharam em todos os 33 municípios que perfaziam então o que rotulo por Primeiro Mapa dos Territórios Municipais moçambicanos.
É verdade que esta derrota de Cololo é a primeira sim que ocorre agora que Nyusi é presidente, mas já não é seguramente a primeira sequer de um candidato da Frelimo a edil naquela cidade. A primeira foi quando o agora assassinado Mahamudo Amurane ganhou em 2013 como candidato do MDM durante o segundo mandato do ex-presidente Armando Guebuza. Já quando Guebuza era presidente, os candidatos a edis da Frelimo em Quelimane, Beira e Guruè, foram derrotados na altura pelos do MDM, uma vez que a partir das eleições autárquicas de 2008 a Renamo pautou pelos boicotes a todas as eleições municipais.
Como se pode ver, a derrota de Cololo em Nampula é a primeira sim no ciclo de governação de Nyusi, mas não é de forma alguma, a primeira dum candidato da Frelimo na cidade de Nampula, do mesmo modo que as que ocorreram durante o reinado de Guebuza não eram também as primeiras. Aferir a veracidade disto já não é coisa de feiticeiros e nem exige muito esforço e tempo. Basta um click nos arquivos da Google que qualquer um confirmará que não estou aqui a mentir ou a arrogar-me em juiz da causa de Nyusi, como tem sido tendência doentia de algumas mentes indolentes rotularem outros de lambe-botas. Tanto mais que não sou jurista, se bem que o meu saudoso colega, Albino Magaia, já disse e correctamente, que nós jornalistas não somos juristas sim, mas julgamos e condenamos! Portanto, já na governação do presidente Joaquim Chissano, os candidatos da Renamo ganharam em três municípios nas segundas eleições autárquicas de 2003, com destaque para a cidade da Beira, em que ganhou Davis Simango quando ainda era da Renamo. Isto tudo prova que tentar ver na derrota de Cololo como sendo culpa de Nyusi, é no mínimo um mau julgamento dum caso igual, ou uma revelação duma ignorância do passado, senão uma maldade contra ele.
Assumo que os que se choram ruidosamente de dor por esta derrota, o fazem pela tal lógica de que a última seta é que dói mais, mas não porque seja a primeira seta ou derrota de um candidato da Frelimo. Não é. Os que acusam Nyusi de ser o mau da fita, estão a tentar provar que o mesmo não é o mesmo, como dizia o agora falecido jornalista português, Augusto de Abelaira.
Com isto não quero dizer que as causas que levaram às derrotas dos candidatos da Frelimo nos tempos de Chissano e Guebuza sejam as mesmas que causaram a derrota de Cololo nesta era de Nyusi. O que quero dizer é que não se pode fazer sentenças em cima do joelho, para que não se culpem inocentes quando o problema ou problemas que estão por detrás disso podem ser os mesmíssimos dessa altura, que foram transitando desse momento até aos dias em que Nyusi é que é o presidente. Cá comigo vejo tais problemas como sendo os mesmos.
Assumo também que o mais que pode ter acontecido de lá para cá, é que estes problemas afectam já pessoas doutras gerações com menos tolerância que as gentes do pós independência, que como sabemos, veneravam cegamente todos os que se assumissem ou se apresentavam como camaradas. Mas é preciso ter em conta que já há muitos dissidentes de entre os antigos membros da Frelimo, dai que entre os mais de quatro milhões de membros, só pouco mais de metade é que tem votado para a sua Maçaroca. Entre os que não votam, há também muitos infiltrados que se filiaram à Frelimo só para poderem satisfazer os seus interesses pessoais.
É isto que para mim explica que a Frelimo tenha mais de quatro milhões de membros, mas já nas eleições haja apenas cerca de três milhões que votam a seu favor. Aqui a Direcção da Frelimo tem de refazer os seus dados e posicionamento, porque há de facto uma matemática política que não é correcta ou é uma incógnita ainda. Esta conta só dá razão ao conceituado académico e politico norte-americano, Dr. Henry Kissinger, quando diz que em qualquer organização política, apenas 10% dos membros é que são genuínos, dado que os restantes 90%, só dão, segundo ele, dores de cabeça aos tais 10%. Creio que é o caso da Frelimo, tanto mais que entre os que votam nas horas eleitorais, contam-se os seus simpatizantes ou os tais membros do coração de que falou Guebuza, mas que infelizmente não têm beneficiado do bolo na hora em que é distribuído, porque quase todo ele vai para os que detêm cartões de membros, mesmo que sejam os tais infiltrados ou que não façam parte dos tais 10%.
O que a mim prova que há muitos infiltrados, é que boa parte dos que são nomeados a cargos de chefia e direcção é por confiança, mas são ao mesmo tempo os que na sua maioria desviam os fundos do erário público e cometem outro tipo de falcatruas, como o caso dos seus edis que vendem terrenos que deviam dar aos munícipes e priorizam a compra carros de luxo para si e suas famílias, em prejuízo da aquisição de meios adequados para a limpeza das cidades e sua manutenção. Ora, como é que são de confiança se são ladroes? Por isso eu subscrevo a opinião dos que defendem que as nomeações deviam ser na base de mérito ou méritocracia, e não só por ser membro de cartão.
AS DERROTAS DOS EDIS DA FRELIMO SÃO REFLEXO DA INVIABILIZAÇÃO PELA RENAMO 'A GOVERNAÇÃO DA FRELIMO E TAMBÉM DE MAL-SERVIR
Para mim, estou convencido que as derrotas que os edis da Frelimo começaram a sofrer já nos tempos de Chissano, foram sendo causados em parte pela inviabilização da governação da Frelimo pela guerra dos 16 anos da Renamo, tal como diagnosticada pelo Eng. Castigo Langa, através dum célebre artigo que publicou há uns anos, mas também pelos problemas solúveis que entretanto não foram sendo sanados.
Tais problemas foram transitando de presidente em presidente, e de eleição em eleição, até aos dias de hoje. Acredito que há os que foram obviamente se agravando com o tempo, e que logicamente foram saturando as mentes e os corações dos eleitores, incluindo dos que no passado morriam de amores pela Frelimo. É que mesmo o casamento que se funda no amor, se desfaz ou morre quando um dos conjugues comete erros desgastantes.
Alguns desses problemas consistiram na não resolução de alguns dos problemas mais básicos que estão afectando os munícipes, como a falta duma limpeza adequada das urbes, como a de Maputo, onde ainda é simbolicamente varrida com vassourinhas feitas pelos próprios varredores, quando já devia ser feita por carros de aspiração que engoliriam, por assim dizer, o lixo que nos envergonha e embaraça perante os nossos visitantes estrangeiros, passando pela eterna acumulação do lixo malcheiroso em contentores, até à falta de transporte público que agora força milhões de munícipes a recorrer aos My Loves! Isto é uma incúria que tem inibido a maioria de votar pela Frelimo, e levado os que votam a ter uma tendência de penalizar os governantes do dia, votando pela oposição, como se viu agora em Nampula. Mesmo o MDM foi aqui preterida desta vez porque os seus munícipes sabem o Amurane fez o bom trabalho que fez, não porque era do MDM, mas tão apenas porque ele era como era, isto é, estava apenas motivado e comprometido em bem servir os seus co-munícipes. O que lhes prova que não foi porque era do MDM, é porque já os edis Davis Simango da Beira e Manuel de Araújo de Quelimane e o do Guruè, não fizeram nada de vulto. Isto prova que na eleição dum edil há que se ter sempre em conta o que é a integridade da pessoa em si, e não com base no partido de que é membro. Amurane era o único que estava fazendo um trabalho serio, e que pagou caro por não ter aceitado ser corrupto. É o mesmo que se passou com o Dr. Eneas Comiche que pagou pelo seu afastamento pelas chamadas bases, por ter pautado pela integridade e recusa aos que queriam viver de esquemas e outras falcatruas.
Portanto, não se pode esperar uma participação massiva nas eleições municipais porque a maioria dos munícipes não vê razão para continuar a eleger edis que deixam as estradas esburacadas, e que passam a vida a fingir que as reparam, mas que na verdade só as envernizam, para que assim que vier a próxima chuva, limpe esse verniz, e assim tenham outro pretexto para mobilizar outros milhões de meticais, para os desviar com a alegação de que os gastaram na reparação das mesmas estradas que são sempre vulneráveis às enxurradas, como certamente o farão agora que a chuva que tem limpado esses seus vernizes.
Estes problemas e muitos outros, são os que a meu ver desapontam e irritam os menos tolerantes, contando-se entre estes os que optam por não votar simplesmente e que são em número crescente como se viu agora nesta intercalar de Nampula, em que 75% não votaram, e os que preferiram penalizar quem governa mal - que é a Frelimo, aliás, que são os falsos camaradas que abocanharam os cargos para poderem acumular fortunas. São estes endinheirados que acabam prejudicando a boa imagem deste partido que em tempos era sinónimo do próprio povo, daí o slogan que rezava que a Frelimo é o povo, o povo é a Frelimo. Este povo adorava e venerava a Frelimo por o ter libertado do diabólico colonialismo português, e por o ter dado uma Pátria e todos os direitos que antes era-lhe negado pelos colonialistas – como o direito à saúde, à educação e a ser tratado com igualdade, dignidade e respeito.
Para mim, a vitória da oposição em Nampula como noutras cidades não são devido ao seu mérito, mas ao demérito de alguns membros da Frelimo. É devido às falcatruas e má prestação que alguns infiltrados na Frelimo fazem. Estes é que são os culpados pelas derrotas dos candidatos da Frelimo. Nyusi só apanha por tabela, porque é ele que está no leme deste barco agora no alto mar como anteviu também o mesmo Mwalimo Nyerere que estaria. É este mal-servir que está por detrás da derrota de Cololo por Vahanle da Renamo, um partido que nunca fez nada de bom, mas que agora começa incrivelmente a ser encarado como o melhor ou alternativa.
Este fenómeno da Renamo lembra-me aquela galinha depenada viva por Hitler no meio duma dor insuportável, mas que quando no fim lhe deu uns poucos grãos de milho, ela corria atrás dele amorosamente. Com este caso da galinha, Hitler queria provar aos seus subordinados, que há também pessoas que se comportam como aquela ave doméstica, isto é, que mesmo quando as trata muito mal, tais pessoas te amam mais. Até há Dezembro de 2016, a Renamo matava-nos sem piedade e não nos deixava viajar à vontade. É o que o artigo do Eng. Castigo Langa explicava e pode ser lido retroactivamente na Internet.
O ADVENTO DA GLOBALIZAÇÃO MATOU O ESPÍRITO DE BEM-SERVIR DOS GOVERNANTES EM MUITOS PAÍSES
A tendência de servir mal voltou a estar em voga depois da queda do sistema socialista e subsequente imposição da Globalização, um fenómeno que reactivou o espírito capitalista e o egoísmo exacerbado da maioria dos que ascendem aos cargos públicos. Esta tendência levou o agora falecido Secretário-geral das Nações Unidas, Boutros-Boutros Ghali, a alertar que os políticos que se deixarão levar por esta politica desumana, seriam atirados pelos seus povos para o lixo. Ele avisou várias vezes entre 1992 a 1996 que se os políticos no poder continuassem a se deixar manipular pelos actores da desumana Globalização Económica, iriam pagar um preço político muito caro, porque os seus eleitores não mais votariam neles nos períodos eleitorais.A eleição do apolítico Donald Trump nos EUA e a inesperada vitória eleitoral na França do recém-criado partido Le France en Marche e do seu próprio líder fundador, Emmanuel Macron, são uma prova irrefutável do tal preço que seria pago pelos políticos que cumpririam cegamente com os ditames dos mentores da Globalização Económica.
O jornalista Bill Emmott vinca num recomendável artigo que publicou o ano passado, que já vivemos de facto nessa ‘’era politicamente turbulenta’’ de que Ghali antevia, e que ele baptizou com a épica frase ‘‘Terramoto Político’’. ‘’ Partidos com apenas um ano de idade recentemente ascenderam para o poder na França e na enorme área metropolitana de Tóquio. Um partido com menos de cinco anos lidera pesquisas de opinião de preferência eleitoral na Itália. Um neófito político (Donal Trump) está sentado na Casa Branca, para um profundo desconforto dos republicanos e democratas há décadas estabelecidos no Mundo da política.
Como se vê, a Frelimo não é a única formaçao histórica que está sendo preterida, e eu já escrevi um artigo sobre esta tendência o ano passado, mais concretamente a 28-o7-2017. Tudo isto mostra que se a Frelimo não quer que aconteça com ela o que aconteceu com os partidos históricos nos EUA, na Franca e noutros países como na Alemanha em que nas ultimas eleições do ano passado não houve nenhum partido que teve votos suficientes para formar um governo sem ter que se coligar, então deve forçar os seus membros que exercem cargos a servirem mais o publico que os elegeu do que a eles próprios. De contrário, nas próximas eleições será oposição porque o povo elegerá outros no seu lugar, mesmo que não sejam uma alternativa real mas apenas ramos secos ou ferro em brasa. Já dava este conselho quando a Frelimo completou 50 anos em 2012, mas em vão.
gustavomavie@gmail.com
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