segunda-feira, 7 de novembro de 2016

"Se Hillary Clinton for presidente não será marioneta de Bill"


Robert Sherman é embaixador em Portugal desde 2014
Na residência na Lapa, com o Tejo como pano de fundo, o embaixador dos EUA em Lisboa, Robert Sherman, diz que o próximo presidente tem três grandes desafios: recuperar a credibilidade, chegar à classe média e definir o papel da América no mundo.
Estamos na reta final. Ainda é de esperar alguma surpresa?
Como embaixador não posso tomar posições políticas, mas olhando para as eleições de um ponto de vista matemático a importância da eleição não se mede pelo que as sondagens dizem em termos nacionais, mas pelo que está a acontecer no Colégio Eleitoral - os votos dos estados individuais. E o caminho para a vitória de Donald Trump é pouco provável. Diria que nada é impossível, mas de um ponto de vista matemático dificilmente chegará ao número mágico de 270 votos eleitorais.
Quando a campanha começou, todos acharam que seria fácil para Hillary. Porque foi tão difícil?
É importante compreender a forma como os americanos votam para o presidente, que é diferente dos europeus. O voto para o presidente é o mais íntimo para um americano. Votamos de forma diferente para o presidente do que para um senador ou governador. Queremos sentir que temos uma ligação com aquela pessoa. Para a classe média, e eu cresci na classe média, antes uma pessoa - o pai - trabalhava, conseguia pagar as contas todos os meses, mandar as crianças para a universidade, poupar algum dinheiro para a reforma para que quando chegasse aos 65 anos tivesse uma vida tranquila. Agora, a classe média não pode fazer isso. São dois a trabalhar, não conseguem pagar as contas, os filhos saem da universidade com enormes empréstimos por pagar, o que significa que começam atrás na vida, não há dinheiro de lado para a reforma. Estas pessoas não veem que as coisas estejam materialmente melhores nas suas vidas nos últimos 20 anos. Por isso dizem que vão votar em qualquer pessoa de fora do sistema. Não interessa quem. É melhor do que votar em mais um político do aparelho que continue a prometer que a vida vai melhorar quando não vai. Para estas pessoas, Hillary Clinton é a personificação do establishment, que não lhes trouxe nada. As pessoas tendem a subestimar Trump como político, mas não se pode subestimar este sentimento. Tem de ser tido em conta pelo próximo presidente, seja quem for.
Não sabemos quem será o próximo presidente, mas qual acha que será o seu maior desafio?
Há vários. O que se pode ver é que ambos os candidatos saíram fragilizados por esta campanha. A questão do temperamento de Trump, se serve ou não para presidente, e a questão de Hillary Clinton ser ou não confiável. É um legado complicado de levar para a Sala Oval. Por isso o primeiro desafio do presidente será recuperar a credibilidade da presidência. Não só para os EUA como para o mundo é importante ter um presidente americano forte mas também credível. Outro desafio é aquilo de que já falei: chegar à classe média. Estas são pessoas que veem como no nosso país os ricos ficaram mais ricos e a população imigrante e os mais pobres têm recebido apoios e se interrogam: "Então e eu?" E em terceiro lugar, vivemos num mundo difícil e perigoso e a América tem um papel a desempenhar. Qual? Aqui há duas visões muito diferentes por parte dos candidatos. O candidato republicano promete ser mais insular, trazer a América de volta dos seus compromissos no mundo. A candidata democrata tem falado mais no modelo seguido por Obama, de parcerias e trabalhar em conjunto para resolver os problemas do mundo. Os eleitores terão de escolher.
E quanto aos juízes do Supremo?
A questão do Supremo é importante. Muitas vezes, o Supremo liderou o caminho de reconhecer direitos para os americanos. Tornou-se uma questão filosófica entre democratas e republicanos. Os segundos querem um tribunal mais focado, menos intervencionista. Os democratas dizem que a Constituição é um documento que vive e respira e o tribunal pode estender os direitos à medida que a sociedade o exige. Há argumentos de boa-fé dos dois lados. Quem for eleito irá determinar para que lado o Supremo vai.
Os republicanos entretanto prometeram bloquear os nomeados de Hillary, caso ela vença...
Nem todos. A minha resposta para isso é que as eleições têm consequências. Não é uma declaração partidária. Mas no nosso sistema, quando um presidente é eleito, independentemente de que partido venha, tem o direito de nomear quem acha que é melhor para o Supremo. E no nosso sistema o Senado tem de votar essa pessoa e decidir se a aprova ou não. Vai haver muita pressão sobre o Congresso para que cumpra esta responsabilidade. Não podemos levar à letra o que as pessoas dizem no calor da campanha como indicativo do que vão fazer quando as coisas acalmarem e tiverem de enfrentar o facto de que há um novo presidente e o país tem de seguir em frente.
Suceder a Barack Obama é um desafio por si só?
Acho que sim. Mas cada presidente é diferente. Não vai haver outro Barack Obama, tal como não houve outro Ronald Reagan ou outro John Kennedy. O que esperamos no nosso país é que o próximo presidente seja sempre melhor do que o anterior. O presidente Obama - e sou suspeito porque ele me nomeou para este excelente cargo aqui em Portugal - tem sido um presidente tremendo para os EUA e um excelente líder mundial, em temos de estabelecer um padrão e dar dignidade ao cargo. E espero que o nosso próximo presidente, quer seja Donald Trump ou Hillary Clinton, seja melhor do que isso.
Se for Hillary, o que esperar de Bill Clinton na Casa Branca?
Bom, isso teremos de ver. Mas uma coisa é clara: temos um presidente dos EUA. E se Hillary Clinton for a presidente não vai ser a marioneta de Bill Clinton. Vai ser ela a tomar aquelas decisões. Há apenas uma pessoa sentada atrás da secretária na Sala Oval. E é um lugar muito solitário. Acho que ela terá a vantagem de o marido já ter desempenhado aquele papel e saber como é difícil. Por isso pode ser um forte conselheiro. Quanto ao papel que vão arranjar para ele, não sei. Mas uma coisa sei: ele marca presença pelo mundo, é inteligente, capaz, por isso não me surpreenderia que assumisse uma pasta global específica, definida pela mulher, a presidente.
Imaginemos que no dia 9 acordamos com Trump como presidente. O que podemos esperar?
Não sabemos. No caso de Hillary Clinton temos uma história, ela foi primeira-dama, senadora, secretária de Estado, sabemos um pouco do que pensa, da sua forma de lidar com os problemas. Com Donald Trump... ele está no mundo dos negócios, do entretenimento. Não há um registo de cargos públicos em que nos possamos basear. A única coisa que podemos fazer é presumir que o que disse na campanha é o que tenciona fazer como presidente. Também sei outra coisa: todos os presidentes, quando assumem o cargo, percebem que as decisões são muito mais difíceis quando se está sentado na Sala Oval do que eram quando estavam em campanha. Tenho algum acesso privilegiado como embaixador e dá para perceber que se as decisões fossem fáceis teriam sido tomadas pelo pessoal a níveis muito mais baixos. Se chega ao presidente dos EUA, muitas vezes é porque a opção é entre duas escolhas más, com os conselheiros divididos sobre qual a melhor. E as consequências são monumentais. A retórica da campanha acaba suavizada pelo facto de a pessoa ter mesmo de governar. Teremos de ver como é que ele assume o cargo.
Pode rodear-se de uma equipa bem preparada...
Sim, esperamos sempre que um presidente se rodeie de uma equipa forte de conselheiros. E não só pessoas que concordem com ele, mas que lhe digam o outro lado da história. Vimos Barack Obama fazer isso quando manteve Robert Gates como secretário da Defesa, quando já vinha da Administração Bush e era republicano. E quando escolheu a rival das primárias, Hillary Clinton, para secretária de Estado. Há uma excelente autora americana chamada Doris Kearns Goodwin que escreveu um livro chamado Team of Rivals, sobre Abraham Lincoln. E sei que o presidente Obama concorda com essa ideia: rodeia-te de pessoas que não concordam necessariamente contigo mas que podem dar-te um vasto leque de visões e conselhos. Mas, em última instância, a decisão do presidente é solitária.
O que pode Portugal esperar do próximo presidente dos EUA?
A relação com Portugal irá continuar forte, seja quem for o presidente. Há a ideia na nossa Administração de que Portugal tem sido um aliado forte, o segundo país a reconhecer a nossa independência, um apoio nos nossos compromissos militares nos Balcãs, no Afeganistão, no Iraque, membro da coligação que combate o Estado Islâmico. O facto é que a América precisa dos seus aliados, precisa da parceria com os aliados quando se envolve pelo mundo. O que se passa agora é não só o reconhecimento de Portugal como um aliado forte, mas também de Portugal como um local para os americanos fazerem negócios, fazerem férias, investigação. Há uma ligação próxima entre os EUA e Portugal pelo simples facto de os nossos países serem vizinhos transatlânticos.

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