sexta-feira, 18 de novembro de 2016

Donald Trump aceita pagar 24,5 milhões de euros para evitar julgamento por fraude


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O presidente eleito evita assim testemunhar em tribunal antes de tomar posse. Antigos alunos da Trump University acusavam a instituição de os ter enganado com anúncios falsos.

Donald Trump em 2005, na apresentação do programa educacional a que chamou University (que não era, na verdade, uma universidade)
Scott Gries/Getty Images
Donald Trump chegou a acordo com o Ministério Público de Nova Iorque e vai pagar 25 milhões de dólares (cerca de 23 milhões de euros) às vítimas de uma fraude relativa à Trump University, uma instituição de que o presidente eleito dos Estados Unidos foi dono até 2010. Com esta decisão, Trump evita ir a tribunal dar explicações em pleno processo de transição de poder na Casa Branca.
Além de aceitar ressarcir os alunos queixosos dos danos causados, o futuro presidente norte-americano vai ter pagar uma coima de cerca de 1 milhão de dólares (cerca de 944 mil euros) ao Estado de Nova Iorque. No total, Trump pagará 26 milhões de dólares (cerca de 24,5 milhões de euros).
Muitos antigos alunos da Trump University — que, apesar do nome, não tinha estatuto legal de universidade — acusavam a empresa de fazer anúncios publicitários enganadores, prometendo seminários em que seriam revelados os segredos comerciais do próprio Trump, que escolheria pessoalmente os professores. O milionário acabou por admitir que não tinha escolhido nenhum e os alunos sentiram-se defraudados. Além disso, antigos trabalhadores da instituição afirmam que os formadores não tinham preparação adequada e que recorriam a técnicas de venda agressivas durante as aulas. Os cursos na Trump University (de imobiliário, empreendedorismo e gestão de fundos) podiam custar mais de 30 mil dólares (28 mil euros).
“Donald Trump burlou milhares de americanos inocentes em milhões de dólares”, lê-se num comunicado emitido esta sexta-feira por Eric Schneiderman, o procurador-geral do estado de Nova Iorque. O magistrado lembra que o agora presidente eleito “apresentou queixas sem fundamento e recursos infrutíferos” durante três anos e que “se recusou sempre a fazer acordos, mesmo com valores modestos para compensação das vítimas da sua falsa universidade”.
Este acordo põe fim aos três processos que Donald Trump enfrentava por causa da Trump University, um dos quais devia chegar a julgamento ainda este mês. Assim, o presidente eleito já não terá de ir a tribunal a poucas semanas de assumir o cargo em Washington. Este pode ser, aliás, um dos passos da equipa de Trump para reduzir o número de processos que pendem sobre o magnata. Ainda na quarta-feira, lembra o The Washington Post, o republicano desistiu de uma ação judicial contra o condado de Palm Beach, na Florida, com o qual mantinha uma disputa há anos.
Estados Unidos da América

América Republicana

A ignorância sobre os EUA na Europa – mesmo entre as classes letradas – é profunda e faz-se sentir particularmente quando se discute a realidade política norte-americana.
Na sequência das últimas eleições nos EUA, as atenções têm estado centradas na figura do Presidente eleito Donald Trump. Dada a importância do cargo de POTUS e as características muito particulares destas eleições presidenciais esse enfoque é compreensível mas corre o risco de obscurecer outros aspectos importantes do panorama político nos EUA. Entre esses aspectos, vale a pena realçar que as últimas eleições reforçaram o papel do GOP como o partido dominante nas várias esferas de governação dos EUA.
Os dados poderão ser surpreendentes – ou mesmo estranhos – para quem conhece os EUA essencialmente por via de Hollywood, da comunicação social e do sistema universitário: tudo meios onde a esquerda é praticamente hegemónica. A realidade, no entanto, é bem distinta da imagem caricatural que se forma com base nessas fontes. A ignorância sobre os EUA na Europa – mesmo entre as classes letradas – é profunda e faz-se sentir particularmente quando se discute a realidade política norte-americana.
Assim, o Partido Republicano tinha – e continuará a ter, apesar de uma ligeira redução na margem – uma sólida maioria na Câmara dos Representantes com, para já, 239 congressistas eleitos contra apenas 193 representantes do lado do Partido Democrata. No Senado, o panorama é similar, mantendo-se uma maioria Republicana ainda que com uma margem ligeiramente menor do que até agora. Mas o domínio Republicano torna-se ainda mais evidente à medida que o nível de governação se aproxima das populações.
Baixando do nível federal para o estadual, é possível constatar que 31 dos 50 Governadores pertencem ao Partido Republicano. Talvez ainda mais significativo é o facto de o Partido Democrata controlar apenas 13 das legislaturas a nível estadual, contra 32 sob controlo Republicano e 5 que se encontram divididas (Senado estadual Republicano e Câmara Democrata ou vice-versa).
O reforço do domínio do GOP a nível estadual que resultou das últimas eleições foi de tal ordem que abriu inclusivamente a discussão sobre a possibilidade de os Republicanos poderem vir a ter força suficiente para promover alterações constitucionais. Os requisitos para que tal possa acontecer não estão ainda reunidos mas o facto de a discussão estar na ordem do dia ilustra bem a gravidade dos problemas de afirmação dos Democratas em muitos Estados e comunidades locais dos EUA.
Importa aqui realçar que o GOP não é, na realidade, um partido homogéneo mas uma coligação diversa e pluralista de muitas correntes de pensamento e grupos sociais. Para dar apenas alguns exemplos, o establishment representado por John McCain, o conservadorismo de Ted Cruz, o liberalismo clássico de Rand Paul e o populismo de Donald Trump são realidades muito diferentes mas todas co-existem no GOP. Parte da explicação para esta big tent passa pelo sistema político e eleitoral dos EUA que favorece (deliberadamente) a agregação em dois grandes blocos e tem tendencialmente um impacto civilizador e acomodativo de movimentos mais radicais que surgem ciclicamente.
Mas isso não chega, naturalmente, para explicar o sucesso dos Republicanos quando comparado com o (relativo) insucesso dos Democratas nos EUA de hoje. Procurar identificar os principais factores que estão na base desse notável sucesso é um tema igualmente interessante e importante, mas que fica para outro artigo.
Professor do Instituto de Estudos Políticos da Universidade Católica Portuguesa

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