terça-feira, 8 de novembro de 2016

Armadilharam a democracia em benefício próprio, e agora?


Canal de Opinião por Noé Nhantumbo
Já não produz efeitos práticos lamentar ou chorar, pois o “leite derramou-se”.
Aulas de sapiência e palestras bem como outros expedientes afins, visando legitimar um Governo e um regime que se furtou e se tem furtado a estabelecer uma separação rigorosa e efectiva dos poderes democráticos são exercícios em benefício próprio de uma elite avantajada e vantagista.
Agora que os apertos económico-financeiros nacionais e internacionais mostram o tipo de consequências, tudo agravado por uma crise política despoletada pela “vitória arrancada”, não há mãos a medir.
Contrata-se todo o tipo de agente propagandista, e mesmo os que, devido à sua idade, deveriam estar a gozar da reforma efectiva e cuidando dos netos e bisnetos, são chamados a dar o seu contributo na “salvação do convento”.
Os elementos que salvariam o país da descida dantesca para o abismo foram desconsiderados sistematicamente por aqueles que jamais conceberam que a viabilidade de Moçambique como país e nação passa pela partilha, alternância democrática do poder, reconciliação, perdão, honestidade e hombridade.
Uma nação fundada com condimentos de exclusão e poder absoluto produziu os únicos frutos de seu AND.
De maneira inconsistente e muito pouco lógica verifica-se uma recusa estratégica de dar oportunidade a entendimentos produtivos.
Uma vaga de legalismos entorpecentes e de nenhum valor prático para acelerar negociações aparentemente viciadas demonstra uma clara repulsa à paz tanto propalada como objectivo das partes beligerantes.
Aquela propaganda que procura incutir nos distraídos a ideia de que só uma das partes é que é partido armado tem um potencial perigoso de produzir miopia e instrumentalização dos cidadãos.
E os promotores dessa ideia sabem muito bem dos seus efeitos.
No passado, cantavam “bandidos armados” a soldo de regimes racistas da região. Hoje, já desenterram aqueles discursos sob os mais elaborados eufemismos.
Seitas e igrejas, líderes religiosos, “académicos orgânicos” no país e na diáspora são recrutados para aumentar os bombardeios verbais e audiovisuais.
Não que seja propriamente desespero de causa ou reconhecimento de que as coisas não andam bem, mas é estranho que “anciãos” não consigam desassociar-se de maneira efectiva do que sabem ser a causa dos problemas que milhões de moçambicanos vivem.
Há uma necessidade inadiável de chamar ladrão a quem é ladrão.
A captura do Estado e a sua transformação em “vaca leiteira” da elite político-governamental”, dos ministros-empresários e daquela fauna acompanhante de amantes, concubinas, filhos, enteados já não é mais sustentável, como nunca foi.
Havia a ilusão de que se podia esconder indefinidamente e de que jamais haveria consequência sobre qualquer coisa que alguns fizessem através de cartórios privativos.
Uma combinação infeliz de factos na arena nacional e internacional destapou a panela “fervilhando de vermes”.
Crises são processos sociopolíticos normais, mas quando se ultrapassam os limites do bom senso e se ignoram os sinais dos tempos, correm-se riscos graves, como se pode ver.
Alguma ingenuidade fez alguns acreditarem que uma guinada para Pequim seria a solução de tudo.
Desde investimentos em “elefantes brancos” sobrefacturados até ao rearmamento, alguns supunham que estava tudo garantido.
Uma engenharia eleitoral elaborada com colaboração alegadamente de especialistas internacionais, um apoio extraordinário de Governos amigos como o Brasil e Portugal encorajou o Executivo de AEG a avançar com projectos, sem se preocupar com a legalidade dos mesmos.
Chutou-se o Parlamento para o lado, desprezou-se a legalidade básica, em nome de um poder que era visivelmente ditatorial.
Quando os “camaradas” começaram a acordar, já era tarde.
Uma máquina poderosa estava montada e ainda se faz sentir.
Temos um PR novo, mas não temos novidades na esfera governativa.
Continua-se vivendo como an tes e (por que não dizer?) pior, pois hoje a inflação galopa e a instabilidade bem como as hostilidades e assassinatos politicamente motivadossão e estão na ordem do dia?
Soluções? Parece que teremos que esperar que o próximo congresso dos “camaradas” desamarre o PR, e o seu Executivo receba carta-branca para agir. Tudo indica que só uma remodelação vigorosa do Comité Central da Frelimo é que trará algum ar fresco para a arena política nacional.
Não nos iludamos pretendendo que algo mudou. Quem “baralha e distribui as cartas” são os mesmos de 1975.
Agora que os moçambicanos já abriram olhos e ensinam, a cada dia que passa, que também contam nas “equações moçambicanas”, outro “galo começa a cantar”.
Os próximos passos em termos políticos serão definidores e é preciso ver os partidos políticos batendo-se pelo voto dos cidadãos e fiscalizando as eleições.
Mas é preciso que a PRM e a FIR bem como as FADM fiquem nos quartéis desde já.
Reconheçamos que as “passeatas” pós-eleitorais de Afonso Dlahkama provocaram nervos em certas pessoas. Sem sangue-frio e sem análise prática e crítica, decidiram-se pela guerra, confiando numa vitória fácil e fulminante.
Sem um capital de experiência efectivo após a reforma quase compulsiva dos veteranos da guerra civil, a guerra já se generaliza, e as opções dos políticos escasseiam.
Negociar sem ceder tornou-se num exercício caricato e dispendioso em termos humanos e financeiros.
Estão morrendo moçambicanos inocentes porque uns arvoram-se o direito de recusar a partilha do poder. Não querem aceitar soluções transitórias em nome de uma legalidade que atropelam sempre que lhes convenha.
Cabe aos moçambicanos, cada um no seu canto e com recurso aos meios de que cada um de nós disponha, exigir que haja sensatez entre os nossos políticos. (Noé Nhantumbo)
CANALMOZ – 08.11.2016

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