domingo, 8 de novembro de 2015

O eleitorado que morreu


08.11.2015
DOMINGOS DE ANDRADE
Há uma parte do país votante que morreu. Que se juntou a outra parte descrente que já não vota. São 40%. Serão muitos mais agora. É o inferno da democracia. Quando se desiste de acreditar no "um homem, um voto".
Foram esses votantes, e não outros, que deram duas maiorias a Cavaco Silva, quando ele tinha um projeto para o país. E que lha tiraram no tempo em que o país precisava de algo mais do que betão e estradas.
Os mesmos que colocaram no poder Guterres e as ideias dos Estados Gerais, de que ainda hoje sentimos as políticas - já poucas, é verdade, na educação ou na ciência. Esses que não gostaram de o ver fraquejar na liderança, mas que deram escassa margem a Durão Barroso. E que cresceram quando viram no Sócrates do primeiro mandato algo mais do que palavras vãs. Que deram há quatro anos uma maioria à direita de Passos e Portas e que agora a recusaram. Pela arrogância das decisões e pelo caminho único e molar da austeridade. Um centrão que votou mais Bloco, ou mais CDU, ou mais PAN por necessidade de evitar as ditaduras da maioria. Porque queria castigo domiciliário para a coligação, mas não cadeia. E que não votou mais PS por não ver no líder socialista o desígnio do Portugal que ansiava.
Os outros eleitores são-no por fé clubística, por ideais, por princípios filosóficos, por herança familiar, por necessidades filiais, por cartão de sócio. E são fixos, pouco voláteis. E são importantes. São o sistema.
O retrato do país político é hoje este, e não outro. Na hipótese mais do que provável de formar Governo, cabe a António Costa, o bom e não o mau, o que parece ter sabido impor-se no poder quando o poder lhe fugiu, e não o homem titubeante da campanha, o hábil negociador e não o do discurso fácil e radical, mostrar que tem um projeto para o país. Um que não assente apenas numa inversão de medidas austeras, cujos princípios todos apoiamos, mas cujos fins tememos. É que não há forma de aumentar a despesa do Estado sem encher o Estado com receita.
Cabe a António Costa mostrar que o acordo programático com Bloco e PCP (o PEV, já se sabe, inclui-se aqui) também é político e que o futuro Governo tem um líder, não alguém que rodopia em função das necessidades dos seus parceiros. Porque do presente só há três certezas: o PS está a perder o seu centro; o Bloco a monopolizar o protesto e o acordo à Esquerda; e o PCP a querer manter a rua, porque sabe que acaba no dia em que deixar a rua ao abandono.
E uma quarta: a Direita sempre teve um projeto para o país. Governar.

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