FOI ASSIM QUE EU ESCAPEI À MORTE SOB AS MÃOS DA TEIA ASSASSINA FRELIMISTA, QUE DEPOIS RAPTOU A MINHA ESPOSA E FILHA DE TENRA IDADE. AMBAS CONTINUAM NO CATIVEIRO JÁ LÁ VÃO 42 ANOS
Querem saber como foi? Estávamos sensivelmente nos finais do mês de Agosto de 1973, acabávamos de regressar de mais um ataque, mal sucedido, ao quartel do exército colonial Português no Estima Songo próximo da barragem de Cabora-Bassa. Pela primeira vez o 4º sector-região sul do rio Zambeze, foi palco de uso de uma arma de destruição de calibre 122 mm de fabrico soviético, sem que provocasse danos no alvo previamente selecionado, por incapacidade dos seus utilizadores Américo Mfumo e António Hama Thai, que não reuniam conhecimentos para uso dessa arma. Após esse ataque, falhado, regressámos à base central do sector do que eu era comandante. No dia seguinte reunimo-nos de novo para estudarmos a melhor forma e a mais rápida e segura de forma a transportar o material bélico que se destinava a Manica e Sofala. Os participantes nessa reunião, foram todos os ex-camaradas quadros superiores, cujos nomes abaixo registo:
1º Zeca Caliate-Henrique João Ataíde, apelido de guerra comandante do 4º sector,
2º Joaquim Matias, vice-comandante do 4º sector,
3º João Fascitela Phelembe, comissário político da Província de Tete,
4º Tomé Eduardo-Omar Juma, chefe da segurança da Província de Tete,
5º Américo Mfumo, chefe de artilharia da Província de Tete,
6º Sisínio Mbaga, especialista de transmissões da Província de Tete,
7º António Hama Thai, comandante da base de artilharia do 4º sector,
8º Fernando Napulula,comandante do 5º Destacamento,
9º Manuel Mendes, comandante da base central 4º sector,
10º Diniz Moine, quadro responsável de sabotagem do 4º sector,
11º António Neves chefe da segurança do 4º sector,
12º José Ajape, responsável sectorial de SERECO,
Antes do fim da reunião houve uma mudança súbita do tema em discussão que ao principio parecia estar a decorrer normalmente. Não estava incluído na agenda de trabalhos qualquer outro assunto, mas levantou-se fora de propósito um problema muito antigo relacionado com a morte do ex-adjunto comandante e comissário político sectorial Armando Tivane, que tinha sido abatido pelo inimigo numa operação dos comandos do exército Português ao meu sector. A teia Machelista, não gostou que isso tivesse acontecido e queriam responsabilizar-me, por eu ter aceite o pedido de Tivane para participar em conjunto no contra-ataque aquela força inimiga, que afinal o alvejou mortalmente após ter caído numa cilada preparada anteriormente. Eu tinha rejeitado terminantemente a responsabilidade sobre a morte daquele ex-camarada, mas o assunto sem motivo aparente voltou à mesa da discussão.
Nesta mesma reunião, foi levantada uma outra questão, que durante o tempo que eu tinha permanecido no sector, tinham constatado alguns indícios de corrupção na região, ao que eu, na minha qualidade de chefe do sector, respondi não saber nada sobre o assunto, e que durante o período da minha chefia naquele sector, nunca tinha recebido um único escudo para custear despesas para sustentar a guerra, que a Frelimo mantinha. Aproveitei esta circunstância e fiz-lhes ver que há muito não recebiamos verbas de manutenção. Eu sabia que havia outras frentes, a quem a Frelimo enviava dinheiro que era gasto por alguns chefes que misturavam os interesses da guerra com corrupção e dei exemplos de alguns dirigentes que levavam uma boa vida e de luxo, nas grandes cidades de Dar-és-Salaam, Lusaka, Blantyre, Addis Abeba, Argel, etc. Intitulavam-se ´´Freedom Fighters´´, lutadores pela liberdade, mas com garrafas de Whiskey nas malas diplomáticas e faziam-no em nome do povo Moçambicano... estes sim, eram absolutamente corruptos até a medula óssea. Nós, pelo contrário passávamos dias e noites a planear emboscadas e ataques às forças inimigas, esse era o nosso dia-a-dia. Mas em tudo isso, o grupo chefiado por João Phelembe, o que pretendia, era confundir-me, pois o objetivo era culpar e condenar á morte o comandante Zeca Caliate. Era tudo falso, uma montagem sem fundamento que eu rejeitei prontamente. Se na Frelimo houvesse liberdade de expressão, eu talvez tivesse sido o primeiro comandante a apresentar a minha demissão de comandante da região, perante tal e grave desconfiança. Mas se o fizesse, matavam-me na mesma.
Mas até aí tudo bem, a verdade porém, foi quando a reunião se prolongou até ao terceiro dia, eu e outros estávamos saturados daquilo e sabíamos que algo de desagradável podia acontecer. Eu tinha informações confidenciais vindas de Nachingwea, da parte de alguns camaradas que lá se encontravam e que me mandavam mensagens alertando-me do perigo que corria, pois havia zunzuns de que Samora Machel e Joaquim Chissano, queriam livrar-se do comandante Zeca Caliate, pelo facto de ele ter autorizado o seu adjunto e comissário político do 4º sector Armando Tivane a fazer parte do ataque ao inimigo do qual viria a morrer em combate. Para tal, encarregaram Sebastião Marcos Mabote chefe das operações e José Phailane Moiane, chefe da defesa de Tete a criação de um plano para assassinar o comandante Zeca Caliate, mais, porque Zeca Caliate era visto como muito popular no seio de quadros e combatentes e tinha fama no seio do povo onde passava, mais do que qualquer outro comandante naquela frente de Tete. Esta foi a razão principal, mas eu não acreditava muito nisso e pensava que essas informações vindas por parte de meus amigos, faziam por inveja, quando afinal era verdade.
A elaboração de um plano para eliminar fisicamente o comandante Henrique João de Ataíde, minha alcunha de guerra, não era tarefa fácil e para isso, incumbiram a missão a um individuo experiente, que assassinou outro comandante de nome Lino Ibraim tido como braço direito e testemunha da morte de Filipe Samuel Magaia no Niassa. Ibraim após a morte de Magaia foi enviado para Cabo Delgado onde foi executado por João Fascitela Phelembe, que desta vez, contou com a colaboração do chefe da Segurança Províncial o makonde Tomé Eduardo-Omar Juma. Felizmente, ao anoitecer quando fui para a minha palhota para me deitar, encontrei repentinamente por cima da minha cama feita de madeira, a cópia de uma mensagem escrita a mão em letras maiúsculas, que eventualmente tinha passado o meu amigo ( ANJO DO BEM E DA GUARDA, DE NOME NHADAN ) que sempre me acompanha, e que naquele tempo estava ligado discretamente aos rádios de transmissões, foi ele que deixou ali aquela cópia já descodificada, a qual tinha sido assinada por Sebastião Marcos Mabote e José Phailane Moiane, onde os dois ordenavam a minha execução pela morte do meu adjunto, Armando Tivane, por o ter deixado participar no combate onde ele morreu. O original dessa mensagem, foi entregue em mãos a João Fascitela Phelembe, (comissário político da Província e outra cópia ao chefe da Segurança), Tomé Eduardo.
Depois de ler aquela mensagem, comecei a pensar no que devia fazer perante uma situação daquelas. Eu era muito jovem, ainda não tinha completado os meus 25 anos de idade. Não encontrava solução que me levasse a bom porto neste problema. Suicidar-me!!?? Não. Era o que aqueles patifes queriam que acontecesse à minha vida. Estavam todos enganados e foi numa fração de segundos que encontrei meia janela aberta como saída... fugir para onde??? para a Rhodesia do Ian Smith?? Não. Atravessar rio Zambeze para 1º sector e alcançar a Zâmbia para depois pedir Asilo político?? A única hipótese que via para a minha sobrevivência era uma rendição Incondicional ao meu inimigo, para ser ele a executar-me para se vingar da Frelimo??...
Eu não sabia o que era medo, a minha fuga não se tratou de uma loucura ou deserção, era uma questão de sobrevivência, para depois poder chamar a atenção da opinião pública nacional / internacional, sobre vários acontecimentos de assassinatos de camaradas praticados injustificadamente no seio daquela organização que se auto-denominava de libertação e que se tinha transformado em movimento de liquidação de seus próprios camaradas, após a morte de comandante principal Filipe Samuel Magaia! A partir daquele momento, não me sentia a mesma pessoa e estava transtornado como um bicho selvagem que podia cometer estragos incalculáveis, felizmente com a ajuda dos meus guarda-costas, soube controlar-me e esforcei-me até encontrar força suficiente e comecei a preparar-me, para nunca mais na minha vida voltar a aturar aqueles idiotas. Naquela noite, aquele grupo de patifes que se preparavam para me assassinar na manhã seguinte, encontravam-se todos adormecidos. Eu já tinha preparado a minha longa viajem para nunca mais voltar a vê-los á face desta terra. Mas antes de abandonar a base, passou-me pela cabeça de neutralizá-los, foi quando novamente o meu anjo ``NHADAN`` voltou aconselhar-me e dirigiu-me as seguintes palavras...`` Comandante Zeca Caliate não faça isso, se o fizeres serás igual a eles, siga o seu destino.`` desisti de os matar e até hoje não me sinto arrependido por não o ter feito.
Após estes acontecimentos, seguiram-se vários episódios naquela manhã, quando aqueles bandidos se levantaram e verificaram que o comandante Zeca Caliate já não se encontrava na sua barraca, bem como os seus guarda-costas e escapou-se da morte que me tinham preparado , ficaram alarmados e imediatamente aquele grupo de assassinos encabeçados por João Fascitela Phelembe e Tomé Eduardo resolveram não acatar as ordens de Sebastião Marcos Mabote de José Phailane Moiane nem de Samora Moisés Machel. Assim nomearam desordenamento o sucessor de Zeca Caliate na chefia do 4º sector, entregando os poderes a António Hama Thai, sem consultar ninguém, a seguir debandaram rumando para o 1º sector da região norte do rio Zambeze.
Por sua vez António Hama Thai, sem sucesso na sua pretensão de capturar e assassinar Zeca Caliate, viu-se obrigado a abandonar desordeiramente a base central do 4º sector e foi se instalar longe daquele local. Depois iniciou uma operação que denominou de perseguição, captura vivo ou morto de Caliate!... Só que não era tarefa fácil deitar a mão esse animal, que era conhecido oficialmente na Frelimo como comandante astucioso e veterano de guerra naquela frente de Tete.
Várias tentativas sem sucesso e ao último dia, isto é aos 6 de Setembro de 1973, como ele desconfiava que seria provável a rendição de Zeca Caliate no quartel mais próximo do exército colonial, que se localizava junto ao rio Luie na antiga cantina de um Senhor Paquistanês de nome Nur-Mamed, o grupo comandado por ele próprio Hama Thai, montou uma emboscada à volta daquele quartel para tentar capturar e assassinar-me. Felizmente não teve sorte, pois quando eu ultrapassei essas emboscadas, já passava das 17 horas, eles entretanto tinham-se deixado adormecer, e só acordaram depois das 19 horas, eu Zeca Caliate``Henrique João Ataíde`` meu nome de guerra, já me encontrava com a tropa Portuguesa a formalizar a minha rendição incondicional. O Hama Thai, saiu com o seu grupo a disparar a torto e a direito na direcção do quartel de Nur-Mamad, mas sem causar danos e a tropa que lá se encontrava aquartelada, ripostou com lançamento de alguns obuses de morteiro que afugentou aqueles intrusos loucos. Foi assim que escapei ileso ao fogo dos meus perseguidores assassinos. Este facto de um grupo de guerrilheiros terem adormecido numa emboscada quando o comandante Zeca Caliate estava a passar na direção de Luie, foi testemunhado e confirmado mais tarde por outro guerrilheiro combatente que participou nesta mesma emboscada de nome Xavier Sandramo, que mais tarde também veio se juntar a mim em Tete.
Quando António Hama Thai e seu grupelho de assassinos, fracassaram, rumaram na direção de 3º Destacamento que se localizava na zona de Mucumbura, onde tentaram capturar vivo ou morto o comandante daquela base que se chamva Faquisson Sandramo Banda, também conhecido por (Kalulu-Sapezeka), felizmente o Hama Thai não conseguiu deitar a mão aquele que era temível comandante, ele também escapou como eu e veio se juntar a mim em Tete, infelizmente não teve a mesma sorte que eu, segundo consta após a Independência de Moçambique, a Frelimo recapturou e assassinou-o.
ANTÓNIO HAMA THAI, furioso por não ter conseguido capturar os comandantes Zeca Caliate nem Faquinos Sandramo Banda, decidiu vingar-se e dirigiu-se para a base do povo que se situava nas proximidades daquele destacamento, tendo encontrado a minha mulher que se chamava VIOLETA ZECA BENI CHABOOCA, raptou-a e foi abusada sexualmente segundo informações que tive mais tarde, com a filha menor de nome LAURINDA ZECA CALIATE ao colo, ambas foram arrastadas para a base de Pinda, no 2º destacamento próximo de Magóe. Hama Thai deixou-as entregue às mãos do velho Fernando Matavela conhecido por (Dique Tongànde) seu nome de guerra e continuou a sedá-la. Depois da Independência mandou-a passear juntamente com a minha filha. Antes de deixar Moçambique soube desta notícia sobre a minha mulher e filha que muito sofria às mãos daqueles patifes, tudo fiz para as libertar, mas infelizmente não foi possível e pior com o culminar do 25 de Abril de 1974 em Portugal que entregou Moçambique a um bando de criminosos, não havia nada a fazer. O meu rumo foi o Exílio, onde me encontro à espera que um dia a Frelimo me devolva a minha família sem rancores.
Zeca Caliate, General Chingòndo um dos sobreviventes da teia do mal Frelimo!
Europa, 12 de Novembro de 2015
(Recebido por email)
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PS: Aqui está a minha caixa de correspondência, basta escrever para ZECA CALIATE, VOZ DA VERDADE, APARTADO Nº 11 LOJA CTT/PC PÓVOA DE SANTA IRIA - 2626-909 PÓVOA DE SANTA IRIA - PORTUGAL