Quinta, 12 Novembro 2015
HOJE vou usufruir deste cantinho para partilhar convosco uma opinião em relação à minha actual situação como paz em Moçambique, que constitui igualmente uma legítima manifestação à minha indignação sobre como estou a ser tratado. Gosto muito de ser falado, sobretudo em tempo de crise política ou tensão político-militar, como a que se vive neste momento no país chamado Moçambique. Orgulho-me de ser necessária.
É assim que sinto uma aproximação com as minhas características e com os ideais dos meus detractores. Não quero acreditar que os políticos não consigam solução para ultrapassar as dificuldades que aparentam ter e impedem a minha existência neste país. Parece que poucos sentem o valor da minha existência como paz de outras virtudes, neste caso pacíficas e não paz de terror que se pretende impor permanentemente a esta sociedade.
Parece que o meu mal é de eu existir como paz. Pelo menos aparenta ser isso o que dá para perceber da forma como sou vista em Moçambique. Mas mesmo assim, reprovo com vigor, a obsessão doentia pela guerra, pela hipocrisia ou intolerância política, e aparente incompreensão da diversidade de opiniões e arrogância que levam as pessoas ao sofrimento e desconfiança. Com a guerra eu não existo, sou expulsa das mentes dos seres humanos.
Mas por que é que há mais gente a dizer todos os dias em Moçambique paz, paz, paz, paz, paz, paz, do que os que não querem que eu exista? Por que é que há por aí tantos “brilhantes” pensadores políticos a falarem de forma sistemática sobre mim? É porque eu sou muito importante como instrumento de harmonia e entendimento numa sociedade como a moçambicana, daí que seja necessária a minha valorização efectiva.
Apesar de tanto se ter falado de mim nos últimos tempos neste país, não parece haver resultados palpáveis para que eu exista. Pelo contrário, ouço discursos perigosos e desencontrados dos políticos, detentores do poder, bispos católicos e outros estratos da sociedade. Pelo contrário, vejo o reacender do fogo das armas, ameaçando-se deste modo a minha existência.
Assumindo-se como imperativa a minha existência, então, neste tempo de incertezas e nuvens negras no horizonte em que parece haver gente empenhada em carregar, empurrando a sociedade moçambicana para a angústia e para a tristeza, é tempo de dizer basta, exigindo pela nossa afirmação de cidadania, para que eu, como paz, o meu mal não seja o que sou. Se assim não me fizerem, muito mal irá sempre para todos.
Por isso, em Moçambique ainda preciso de dar mais saltos para frente, mesmo que não possa supor que características que me virão a definir no futuro, enquanto o país continuar a falar sobre mim em termos teóricos, pois que não sou feita de guerra.
Embora pese muito, a certos espíritos, a verdade é que não fazer nada para a minha manutenção no país é, de falta grave, um atentado ao desenvolvimento social e económico deste país. E isso deixa-me profundamente insatisfeita. Quero ser gerida com realismo mas ao mesmo tempo com visão, determinação e sentido de responsabilidade, que são provas cabais de que não se pode esperar “milagres” para a existência da paz efectiva em Moçambique.
Quero acreditar que ninguém tenha dúvidas em relação a isso, e a partir daí deve trabalhar no sentido de despertar consciências e mentalidades bem como alertar a sociedade para o perigo que hoje representa para a paz o retomar dos confrontos armados entre as forças residuais da Renamo e membros das Forças de Defesa e Segurança.
Mouzinho de Albuquerque
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