EDITORIAL
Editorial:
Não faz sentido nenhum mudar a lei fundamental no meio de uma crise política.
À medida que evolui a crise política e que os caminhos se vão estreitando, os partidos começam a enveredar por tácticas mais ousadas e imaginativas e por um discurso com uma linguagem cada vez mais crispada, que faz com que a possibilidade de diálogo se esvaneça. Exemplo disso são as palavras de Passos Coelho que esta quinta-feira, numa sessão com militantes do PSD e CDS, usou palavras como “golpistas” ou “fraudulentos” para se referir àqueles que, à esquerda, querem fazer uma aliança para governar. O primeiro-ministro em gestão atirou ainda para cima da mesa a ideia de uma revisão extraordinária da Constituição que viabilizasse eleições antecipadas.
A ideia em si não é completamente esdrúxula, já que essa lei travão talvez tenha sido pensada para tempos políticos bastante mais conturbados do que aqueles que nós estamos a viver, em que os governos se sucediam uns aos outros a uma velocidade estonteante. Mas também não passou a ser descabida ou anacrónica. Como recordava Jorge Lacão, a janela dos seis meses (em que não pode haver eleições após umas legislativas) dá tempo para que os deputados “encontrem soluções de governabilidade”, que é precisamente o que está a acontecer. Passos Coelho poderia ter razão, se o enquadramento legal colocasse o Presidente da República sem alternativas para assegurar a gestão do país neste período de transição; mas é a própria Constituição que dá a Cavaco Silva a possibilidade de nomear o governo alternativo que lhe foi apresentado, manter o actual em gestão, ou, num cenário mais extremo que não este, optar por um de iniciativa presidencial.
O próprio Passos sabe que é uma impossibilidade que o PS se junte agora à direita para mexer na Constituição, mas politicamente convém-lhe construir um discurso para a opinião pública em que aparece a forçar a ideia de que a maioria de esquerda deve ser revalidada em eleições, sejam elas quando forem.
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