O reitor da principal
universidade privada
moçambicana, A Politécnica,
Lourenço do
Rosário, considera que a Assembleia
da República (AR) converteu-se
num notário do Governo
da Frelimo e da Renamo, hipotecando
com essa actuação a sua legitimidade
perante o eleitorado.
Rosário, que é também chefe do
diálogo entre o Governo moçambicano
e a Renamo caracterizou a
postura do parlamento moçambicano,
quando falava sobre o tema
“Papel das Instituições na Consolidação
da Democracia e do Desenvolvimento”,
no âmbito do 1º
Grande Fórum Mozefo.
“A Assembleia da República tornou-se
num notário do Governo
e da Renamo, quando se limitou a
chancelar o acordo sobre a lei eleitoral,
que foi alcançado pelas duas
partes e agiu do mesmo modo em
relação a outras matérias”, disse
Rosário, aludindo ao pacote eleitoral
que conduziu as eleições gerais
de 15 de Outubro de 2014.
Devido à marginalização da AR e
à falta de um debate mais amplo,
prosseguiu o académico, a lei eleitoral
“chancelada” pela AR acabou
“partidarizando” as instituições
eleitorais a favor da Frelimo e da
Renamo.
Para o académico, o parlamento
perdeu legitimidade perante
o eleitorado pela sua ausência do
processo de diálogo entre o Governo
e a Renamo, no contexto da
crise político-militar vigente no
país.
Lourenço do Rosário considerou
ainda que o processo negocial que
as duas partes vinham travando
no Centro de Conferências Joaquim
Chissano está morto.
Por seu turno, o ex-vice presidente
da AR, Abdul Carimo, criticou
a “privatização do interesse”
público pela Frelimo e Renamo,
defendendo que as matérias de
interesse geral devem ser objecto
de um debate público alargado.
“O interesse público não pode
ser um monopólio dos dois contendores
(Frelimo e Renamo), é
importante alargar a participação
a mais segmentos da sociedade,
para que os consensos sejam os
mais alargados”, disse Carimo, actual
director da Unidade Técnica
de Reforma Legal (UTREL) de
Moçambique.
O Bastonário da Ordem dos Advogados
de Moçambique, Tomás
Timbane, considerou que falta
nos servidores públicos do país
um sentido de compromisso com
os princípios de um estado de direito.
“No campo formal, Moçambique
é um estado de direito, mas sente-
-se o desconforto dos poderes pú-
blicos com os princípios e regras
AR tornou-se num notário do Governo e da Renamo
de um Estado de direito”, afirmou
Timbane.
O jurista criticou a violação da
Lei de Probidade Pública pelos
detentores de cargos públicos e as
pressões do poder político sobre
o judiciário, considerando essas
práticas fatores de fragilização
das instituições democráticas.
“Quando os juízes são obrigados a
participar nas reuniões dos governos
provinciais e distritais, é óbvio
que há ali um factor de condicionamento
da sua independência”,
defendeu Tomás Timbane.
(Ricardo Mudaukane)
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