segunda-feira, 9 de maio de 2016

Candidato que defende esquadrões da morte pode ser Presidente filipino


"Justiceiro" Rodrigo Duterte deverá ser o novo Presidente das Filipinas

Presidente da Câmara de Davao City defende assassinatos extrajudiciais para acabar com o tráfico de drogas e a criminalidade em geral.
Rodrigo Duterte deverá ser eleito Presidente das Filipinas ERIK DE CASTRO/REUTERS

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Um dos políticos mais polémicos das Filipinas, conhecido como “justiceiro”por suspeitas de mandar executar traficantes de droga e outros criminosos, deverá ser o próximo Presidente do país, de acordo com os primeiros números avançados após o fecho das mesas de voto.
Rodrigo Duterte é eleito presidente da Câmara de Davao City há sete mandatos consecutivos, num total de mais de 22 anos, e concorreu como bandeira da luta contra a corrupção e o crime organizado.
Cinco horas após o encerramento da votação, Duterte seguia com 39% dos votos, de acordo com um dos observadores, citado pela agência Reuters. Este valor coincide com os resultados de uma sondagem feita à boca das urnas.
Questionado sobre a sua mais do que provável vitória pela CNN Filipinas, Duterte deu uma resposta confusa: “Por vezes sou vitorioso e vencedor, por vezes há sempre derrotas e ficamos tristes, por vezes estamos doentes ou saudáveis. É assim que o Universo se rege todos os dias.”
O candidato populista, de 71 anos, tem sido comparado ao norte-americano Donald Trump, pelo desafio à política convencional. Tal como Trump, Duterte conseguiu canalizar o descontentamento da população com o falhanço dos políticos tradicionais, que não conseguiram resolver os problemas relativos à pobreza e às desigualdades, apesar de um crescimento económico sólido ao longo dos anos.
Mas a sua retórica inflamada, em defesa de assassinatos extrajudiciais para eliminar o tráfico de drogas e a criminalidade em geral, alarmou muitos dos que temem um regresso ao passado autoritário no país.
Quando estavam contados 70% dos votos, Rodrigo Duterte tinha 12,1 milhões de votos, bem à frente da senadora Grace Poe e do candidato apoiado pelo governo, Manuel Roxas – ambos com pouco mais de seis milhões de votos.

Rodrigo Duterte não tem papas na língua. Defende as execuções sumárias e disse que gostava de ter violado uma freira que foi morta. Mas porque é um outsider, para muitos filipinos é o rosto da mudança.


O presidente da câmara de Davao está à frente das sondagens e poderá ser o próximo Presidente das Filipinas MOHD RASFAN/AFP



Parece que entrámos na era da língua afiada na política. Enquanto os Estados Unidos se adaptam ao avanço de Donald Trump, as Filipinas, sua ex-colónia e aliada de longa data, está a assistir ao avanço do seu próprio fenómeno populista, o candidato presidencial Rodrigo Duterte.
Duterte conduz uma moto, faz graças sobre violações, e é o favorito nas presidenciais desta segunda-feira nas Filipinas, levando uma liderança sólida, mas ainda não garantida, sobre os seus rivais, com relações fortes à elite política e do espectáculo.  
As eleições estão a ser sobretudo combatidas no campo das questões internas, como a criminalidade, a corrupção, a pobreza e os transportes. Estão em causa anos de avanços económicos consistentes, conseguidos durante a presidência de Benigno Aquino III.
Mas Pequim tem aumentado a pressão para o controlo do mar do Sul da China e o Exército americano fortaleceu a sua presença no território filipino, fazendo com que a política internacional saltasse para a campanha. A votação terá implicações globais.
É fácil perceber porque é que se compara Duterte a Trump, [o presumível candidato republicano às presidenciais americanas]. Ambos se proclamamoutsiders da política, gostam de falar sem papas na língua e usar expressões chocantes - defendeu publicamente esquadrões da morte. Ambos fizeram comentários misóginos. E ambos são extremamente populares.
Para muitos filipinos, Duterte é o candidato da mudança.
Há muito tempo que a política filipina é um assunto de família, com clãs oligarcas a dominar a vida pública e frequentemente, também a vida privada. O actual Presidente Aquino é filho de uma antiga Presidente. O sucessor que escolheu, Manuel Roxas, é neto de um antigo Presidente. Entre os possíveis vice-presidentes, está Ferdinand Marcos Jr., filho do antigo ditador do país.
Grace Poe, que há muito se perfilou como a maior rival de Duterte, é a filha adoptiva de uma das estrelas de cinema mais amadas no arquipélago. Antes de se tornar senadora, em 2013, viveu vários anos nos Estados Unidos.
Já Duterte vem do Sul, da zona menos desenvolvida do país, e passou mais de duas décadas à frente da cidade de Davao, em Mindanao, onde se diz que patrulhava as ruas numa Harley-Davidson, tentando combater o crime. Quando um jornalista da revista Time o visitou em 2002, Duterte estava a beber brandy com uma pistola de calibre .38 à cintura. Para os seus apoiantes, ele é diferente dos outros.
“Há uma persistente hostilidade entre os eleitores da classe média e da classe baixa contra a elite que domina a política e a economia, apesar do forte crescimento com Aquino”, comenta Joshua Kurlantzick, investigador do Sudeste Asiático do Council on Foreign Relations.
Os críticos interrogam-se sobre como a língua afiada de Duterte se vai traduzir em termos políticos. A sua posição dura contra a criminalidade é atraente para muitos eleitores, mas ele parece apoiar também a impunidade oficial, quando ameaça “matar todos” os suspeitos de crime, ou “brinca” dizendo que gostaria de ter sido ele “o primeiro” a violar uma freira australiana que foi morta num motim prisional em 1989.  
Num relatório de 2015 intitulado “A ascensão do mayor do esquadrão da morte das Filipinas”, Phelim Kine, vice-director da delegação asiática da Human Rights Watch, traçava o historial de Duterte na aprovação de execuções sumárias para suspeitos de criminalidade. “A forma orgulhosa como Duterte pratica uma impunidade violenta deve ser o caminho para uma acusação, e não para um cargo político”, escreveu.

Um desafio internacional

O próximo Presidente das Filipinas tem um grande desafio pela frente: equilibrar as relações entre duas grandes potências, a China e os Estados Unidos.
A China reivindica a maior parte do mar do Sul da China, com base em mapas que se sobrepõem às zonas económicas marítimas reclamadas pelas Filipinas e outros países. As autoridades chinesas têm construído ilhas artificiais, corredores aéreos e portos [para além de instalar mísseis em algumas ilhas disputadas], e muitos temem que em breve começará a construir num novo local, o recife de Scarborough.
Esta construção de ilhas por parte de Pequim tem reaproximado as Filipinas dos Estados Unidos – para desagrado da China. Um novo pacto na área da defesa permite ao Exército americano construir instalações em cinco bases militares filipinas, e a um número cada vez maior de navios tem ancorado na antiga base americana de Subic Bay, não muito longe dos navios patrulha chineses.
Os detractores de Duterte têm em geral expressado algum apoio ao Governo de Aquino nas posições referentes ao mar do Sul da China, afirmando que apoiam a tentativa de Manila de desafiar a China através de um tribunal especial da ONU em Haia, em vez de uma pressão imediata para conversações bilaterais.
Duterte não tem sido claro sobre o que tenciona fazer caso seja eleito. Afirmou que poderia estar disposto a negociar directamente com a China, ou que poderia “pôr de lado” os diferendos, se Pequim, por exemplo, construísse comboios na sua terra natal. Caso isso não funcionasse, teria outro plano: ir de jet ski até ao recife de Scarborough e plantar lá a bandeira filipina.
Os seus comentário sobre a crise deixaram académicos de Manila preocupados. Jay L. Batongbacal, do Instituto dos Assuntos do Mar da Universidade das Filipinas, considera-os “perigosos”. A ideia de que o investimento numa grande infra-estrutura poderia resolver a disputa é “música para os ouvidos do Governo chinês”, comenta Richard Javad Heydarian, professor assistente da Universidade De La Salle e autor do livroAsia's New Battlefield: The USA, China and the Struggle for the Western Pacific.
Mas as palavras de Duterte apelam aos que têm muito a perder se os navios chineses continuarem a ir para sul. Domingo C. Cabacungan Jr., de 44 anos, é pescador na cidade de Infante, a leste do recife de Scarborough. Enquanto trabalha, tem sido perseguido pelas embarcações da guarda costeira chinesa. Diz que Duterte é o único candidato com força para enfrentar a China: “Tem um coração de pedra”.
Exclusivo PÚBLICO/The Washington Post

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