sexta-feira, 4 de agosto de 2017

Boaventura rima com ditadura

OPINIÃO


Queria esclarecer que o professor Boaventura Sousa Santos não é um idiota, ao contrário do que pensam vários amigos meus de direita.
Em primeiro lugar, queria agradecer publicamente ao professor Boaventura Sousa Santos a coragem de continuar a afirmar-se como um defensor da revolução bolivariana, apesar de tudo o que está a acontecer em Caracas (ver o seu texto “Em defesa da Venezuela”, publicado neste jornal a 29 de Julho). Muitos dos roedores portugueses que noutros tempos manifestavam o seu enorme apreço por Hugo Chávez começaram, nos últimos tempos, a abandonar o navio – Boaventura, ao menos, manteve-se firme, e bem. Chávez e Maduro são dois filhos da mesma mãe. Não há porque adorar um e odiar o outro. Nisso, o professor Boaventura é impecavelmente coerente.
Em segundo lugar, queria deixar aqui um pedido público para que o professor Boaventura nos dê o imenso prazer de escrevinhar uma sequela para o singelo artigo “Em defesa da Venezuela”, agora que as eleições para a Assembleia Constituinte foram finalmente realizadas, com mais 16 mortos, a prisão de dois líderes da oposição, a presença entre os eleitos da mulher de Nicolás Maduro e do seu filho Nicolasito (a sério, é assim que lhe chamam), a acusação de manipulação de votos por parte da empresa que organizou o acto eleitoral, e a notícia de que a União Europeia – Portugal incluído – recusa reconhecer o resultado de tais eleições. Neste momento, resta a Maduro a solidariedade de Cuba, do PCP e do professor Boaventura, uma troika de notáveis aliados e inspiradores faróis.
Em terceiro lugar, queria esclarecer que o professor Boaventura Sousa Santos não é um idiota, ao contrário do que pensam vários amigos meus de direita. Ele é um académico prestigiado e autor de alguns textos bastante recomendáveis. Há, aliás, um ensaio seu, chamado Onze teses por ocasião de mais uma descoberta de Portugal (está publicado em Pela Mão de Alice), de que gosto particularmente – e não, não estou a ironizar. É uma análise muito inteligente e bem construída do discurso mitológico e psicanalítico que está sempre a cair em cima do país. Como bom marxista que é, o problema do professor Boaventura não está na crítica à situação, que consegue ser bastante esperta, mas nas soluções práticas que apresenta para sair dela, que conseguem ser bastante estúpidas – como é o caso da defesa do regime venezuelano e da “revolução bolivariana”, que só foi romântica na sua cabeça e na de Nicolás Maduro, a quem o falecido Chávez um dia falou através de um passarinho.
Nesse aspecto, o professor Boaventura não inventa nada: limita-se a seguir os passos de uma longa fileira de intelectuais inteligentíssimos dos séculos XX e XXI, cujo ódio à democracia liberal e ao capitalismo os levaram (e ainda levam) a entregar-se nos braços de qualquer regime disposto a enfrentar o “imperialismo americano” e a dinamitar o fim da História anunciado por Fukuyama. Embora me chateie um bocadinho que seja um homem com este tipo de pensamento a formar em Coimbra, via Centro de Estudos Sociais, o corpo expedicionário do Bloco de Esquerda e do PCP, através de um exército de descamisados doutorados de que em tempos já falei nesta página, não há muito a fazer. É a vida, e não exclusivamente portuguesa – tem sido assim um pouco por todo o mundo. Manda a democracia que os nossos impostos paguem os salários até dos inimigos da democracia. O que convém nunca perdermos é isto: a capacidade de lembrar a toda a gente, de cada vez que um “Em defesa da Venezuela” é publicado, que Boaventura rima com ditadura. É isso que estou aqui a fazer.

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