sexta-feira, 19 de fevereiro de 2016

A verdade da guerra, por Ericino de Salema

RELATIVIZANDO
O jornalista recorre, normalmente (jornalismo noticioso), a promotores de notícias, vulgo fontes, para realizar o seu trabalho, que se resume a informar os leitores, ouvintes ou telespectadores sobre assuntos de interesse geral e/ou público que devem, em regra, possuir a actualidade como sua característica, além, naturalmente, de outros valores-notícia (o que faz com que, em centenas de milhões de acontecimentos que ocorrem em cada segundo, só uma parte muito ínfima sejam noticiáveis) como a proximidade e a ‘inediticidade’ (algo inédito). Não é, pois, por acaso que o jornalista só se acha ou é valorizado, pelos seus pares ou pela sociedade, quando possua fontes de informação, sobretudo as privilegiadas: na situação contrária, o jornalista terá tudo para ser um mero cronista.
A comunidade jornalística chegou, há muito, à conclusão de que não existem fontes sem interesses, por via do que o jornalista deve ser muito criterioso e rigoroso na sua selecção, perguntando sempre, de si para consigo, que interesses, para além dos óbvios, aquele que faz chegar uma certa informação de interesse público tem nela. Só para se ter uma ideia mais clara: vezes há em que a fonte do jornalista, numa situação de exposição de actos corruptos de um ministro, seja o vice-ministro do mesmo pelouro, que é, pelo menos sob o ponto de vista formal, a segunda figura do respectivo departamento governamental. A isso, se ajunta o facto de, em bom rigor, não existir verdade absoluta, embora esta [a verdade] seja, em si, o valor supremo do jornalismo.
Se, em termos gerais, o jornalista deve ser muito criterioso e rigoroso na sua relação com as fontes, há situações muito especiais em que esse procedimento deve ser observado de forma redobrada. Situações de guerra, ou de quase guerra, constituem um exemplo paradigmático disso, pois, em situações tais, luta-se não só com as armas de fogo e outros artefactos, mas também com a informação enquanto propaganda. As palavras que seleccionamos para titular este texto – A verdade da guerra (2002) – constituem, de resto, o título de uma obra científica (tese de doutoramento em jornalismo) do jornalista, escritor e académico José Rodrigues dos Santos, na qual o outor partilha as suas experiências de cobertura de várias situações de guerra (no Iraque e nos Balcãs, por exemplo), fazendo o relevante e indispensável enquadramento teórico.
Uma das conclusões a que José Rodrigues dos Santos chegou é de que a verdade é a primeira vítima numa situação de guerra. Aliás, o quadro teórico apresentado nessa obra sugere que tal já fora constatado muito antes, por outros estudiosos. Por outro lado, numa situação de guerra os jornalistas não trabalham necessariamente com fontes, mas com aquilo a que se denomina de ‘minders’, ou seja, qualquer coisa como ‘gestores de consciências’, quais profissionais de propaganda, que, comumente, o exército e as forças de guerrilha os têm às catadupas.
Vem isto a propósito dos incidentes da semana passada em Muxúnguè, na província de Sofala, no âmbito dos quais quatro viaturas civis foram alvo de ataques, que estão a ser, sobretudo pela imprensa oficial/governamental, atribuídos à Renamo, com recurso a construções do tipo “...a Renamo atacou...”, “...a Renamo protagonizou mais um ataque...”, o que, desacompanhado da relevante consubstanciação, precedida pelo distanciamento dos jornalistas, é no mínimo, problemático. Pode até, por hipótese, ser a Renamo quem mesmo protagonizou aqueles ataques, como pode ter sido, também por hipótese, outros entes, e não a Renamo.
A cultura jornalística funda-se, no seu dia-a-dia, num elemento originalmente de pendor filosófico, que é a objectividade. Se, em termos filosóficos, a objectividade é, em grande medida, um mito, em termos jornalísticos ela é um sagrado ritual estratégico, a que os jornalistas se socorrem para credibilizar o seu trabalho. Nesse quadro, em jornalismo rigoroso o jornalista não diz que “...a Renamo atacou...”, mas sim, por exemplo, que “...o porta-voz da Polícia diz que a Renamo é responsável pelos ataques...”. Nos casos em que o próprio jornalista tiver presenciado os acontecimentos, este já o (re)constrói jornalisticamente por via de uma narrativa ‘mais directa’, mas com o dever de cuidar sempre de evitar cair em emoções e/ou em conclusões precipitadas. Por exemplo, nem sempre é razoável concluir que se um certo ataque foi protagonizado por gente com uniforme da Polícia da República de Moçambique (PRM), logo, e de forma automática, esses agentes são efectiva e comprovadamente elementos da PRM!
Para o caso em apreço (o da semana passada, em Muxúnguè), além de a Renamo ainda não ter reivindicado a autoria, há que considerar outros elementos, como o ‘timing’. Os incidentes (dos quais apenas se registaram alguns feridos ligeiros, o que, sendo até bom, por a vida ser o mais precioso bem jurídico, não deixa de ser descomunal em situações tais) se verificaram, por um lado, dias depois do chefe de mobilização e propaganda da Renamo em Sofala, Horácio Calavete, ter proferido declarações muitos graves, que a todos deveriam nos envergonhar enquanto construtores do Estado de Direito Democrático, que tem a responsabilização como uma das suas características, e, por outro lado, os incidentes se registaram numa altura em que alguns jornalistas já se movimentavam em direcção à ‘parte incerta’, ao encontro do líder da Renamo, Afonso Dhlakama. Há a considerar ainda, em termos de análise, o facto de os alegados ataques da Renamo terem decorrido das 5 às 7 horas, sensivelmente, na região, em concreto, de Zove, ali em Muxúnguè, a por aí dois quilómetros de uma posição das Forças de Defesa e Segurança, que, entretanto, consta, só se fizeram ao local por volta das 9 horas. Muito estranho, não?
Particularmente, gosto muito da escola da BBC, que, mesmo nas situações em que as próprias forças britânicas são parte de um certo conflito, os jornalistas daquela estação pública, em homenagem ao princípio da independência jornalística, procuram sempre fontes independentes para confirmar o que os ‘minders’ dizem. Não as achando, diz-se claramente que ‘nenhuma fonte independente confirmou estas informações’!

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14 comentários
Comments
Mussá Mohamad Gigante têxto...

Faz me recordar, programas noticiosos como "balanço geral", em que percebe-se claramente que a sua fonte principal são as esquadras e postos da PRM...
O repórter desloca se ao posto da polícia, entrvísta o porta voz e assume o que aquele diz como verdade suprema...aseguír, é arrastado o indiciado, visivelmente amedrontado, é entrevístado,quase que julgado pelo repórter, com perguntas retóricas do tipo "porque você roubou?"..."não sabes que isso é errado?"...etc...

Ora...aquí não há cruzamento de fontes...e a quererem noticiar isto, no mínimo, sensurarem a imagem dos indiciados que gozam de presunção de inocência...e aínda não passaram pelo tribunal.

Enfim, acho que se formos a fundo, vamos perceber que muítos, jornalístas ou programas noticiosos, cometem delítos no seu dia a dia de trabalho...principalmente contra a imagem e honra do cidadão pacato...
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Andre Dimas Balanso geral promove uma especia de "linchamento" de caracter ou imagem de inocentes, quase que de uma forma "autorizada" pela policia da republica. Nos bairos entao virou altenativa as novelas que em nada ajudao as nossas populaçoes com defice de qualidade de imformaçao e escola.
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José de Matos Excelente texto, obrigado !
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Miguel OM De Brito Ericino de Salema, o teu texto no Savana impresso vem "co-assinado" pelo Eugénio Lisboa! Creio que foi erro de impressão.
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Ericino de Salema Sim, Miguel OM De Brito: foi mesmo erro de paginação e, como consequência, também de impressão do jornal!!!
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Abrao Caetano Excelente
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Andre Dimas O B R A !GFgona
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Nelson Sadoque Sadoque Obra de génio!
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Jeremias L. Chauque Grande texto, que revela um grau de consciencia muito elevado e so para grandes mentes.
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Rosario Fome Boa lavra
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Chico Pita Hoje os artigos publicados nos pasquins da praça de jornalismo não tem nada. Triste.
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Calisto Jossefa É daí que que trocaram o Ernesto Martinho com o outro porque ele era imparcial e investigador.
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João Carlos Opinião bastante lúcida é pertinente . Espero que caia em terreno fértil ávido dos preceituamos expostos no artigo .
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