Um pouco perturbado quando leio coisas como as que li hoje:
Palcos de guerra supérfluos
Leio no boletim da AIM que a Procuradoria da República notificou os editores dos jornais “Canal de Moçambique”, “MediaFax” bem como o académico Carlos Nuno Castel-Branco para se apresentarem lá. Pesa sobre eles a acusação de “abuso de liberdade de imprensa”. Abano a cabeça incrédulo e pergunto-me a mim próprio para que isto serve e que tipo de País algumas pessoas querem construir. Por ser fã de Guebuza recuso-me a acreditar que isto seja da sua autoria. Parece-me excesso de zelo desnecessário e contraproducente tendo em conta a actual impopularidade do Governo. Parece-me uma maneira de descredibilizar o Governo ainda mais. É difícil perceber certas coisas.
A carta de Castelo-Branco foi infeliz na forma, creio que disso ele próprio também tem consciência. O conteúdo é discutível. E é aí onde reside a questão. Se o conteúdo é discutível, então devia ser discutido. Há muita gente com capacidade para fazer isso. O Gabriel Muthisse reagiu no seu mural e houve uma discussão interessante com a participação do próprio Castel-Branco. O Gustavo Mavie reagiu no Notícias e essa reacção foi comentada por alguns pelo Facebook fora. Eu também escrevi alguns textos em que, sem me referir directamente a Castel-Branco tentava reflectir aspectos da sua intervenção. A essência dum País é isso mesmo: o debate de ideias, mesmo que os ânimos estejam muito levantados. A tendência de se sentir ofendido ao ponto de mobilizar institutições como a Procuradoria não ajuda em nada a construir o nosso País. Um País não se constrói na ausência de debate. Que esse debate fique por vezes pouco civilizado é natural dada a natureza das questões em discussão. Se as pessoas entretanto se retractam tanto melhor.
Não sinto nenhuma simpatia pelo jornal “Canal de Moçambique” que, quanto a mim, tem investido num tipo de jornalismo bastante ideológico que não ajuda em nada a construir um País melhor. Mas penso que é do interesse de todos nós que mesmo um jornalismo de má qualidade tenha a possibilidade de se articular, por mais não seja para que pela interpelação da sua má qualidade os leitores se constituam como os maiores censores. Os meios de comunicação de massas no País deviam dispôr dum organismo colegial com a explícita tarefa ética de zelar pela qualidade jornalística e deontológica do seu produto. A Procuradoria nunca se devia meter nisto por uma questão de princípio, a não ser, claro, que um lesado – no caso, o Presidente da República – manifeste esse desejo, desejo esse, apresso-me a dizer, politicamente mal aconselhado.
O Governo não tem, neste momento, necessidade de mais palcos de guerra.

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