OPINIÃO
Novembros relativos
Se tudo é relativo porque é que eu sou obrigado a ficar absolutamente na mesma?
Agora é que eles nos dizem a sorte que tivemos: o IPMA acaba de nos informar que o mês passado de Novembro foi o mais quente dos últimos 34 anos. Como se não bastassem já as saudades desse calor luminoso (média: 18,6 graus!) o IPMA vem lembrar-nos que tão cedo não havemos de andar aos bofes de manga curta, a amaldiçoar o sol a pico que nos está a queimar os cimos das tolas.
Depois borram sempre a pintura: Novembro de 2016 foi "o quinto valor mais alto desde 1931". Então, vá lá: o que se passou em 1931? E em 1981, os tais 34 Novembros atrás? Foram meses espectaculares? Devem ter sido. E nos outros 4 Novembros muito melhores do que este, hein? Que fizemos nós para merecer tanto azar relativo?
Nestas noites frias tenho o ar condicionado do meu escritório regulado para 20 graus patuscos e quentinhos. Depois lembrei-me que nas tardes escaldantes do Verão punha a máquina nos deliciosamente gelados 20 graus...
Serão a mesma temperatura? Eu não acredito. Num caso aperto o botão com o sol do aquecimento e noutro aperto o do floco de neve que faz frio. Quando está frio estão 10 graus lá fora e mais 10 cá dentro. Quando está calor estão 30 graus lá fora e menos 10 cá dentro. Mas a verdade é que estão sempre 20 graus certinhos e imutáveis cá dentro.
Se tudo é relativo porque é que eu sou obrigado a ficar absolutamente na mesma? É como a história dos Novembros. Os números mentem - e é fácil falar depois das coisas terem acontecido.
EDITORIAL
A corrupção, esse eterno pesadelo
No Dia Mundial dedicado à luta contra a corrupção, nada mais natural do que falar dela e dos pesadelos que nos traz. Mas não é muito comum, entre nós, ouvir o que ontem se ouviu. O ministro da Saúde, Adalberto Campos Fernandes, disse que “a fraude na saúde [sector que ele próprio agora tutela] é endémica” e a Procuradora-geral da República generalizou tal constatação, dizendo que “não é só na saúde que a corrupção é endémica, mas em todas as áreas onde há muito dinheiro público a ser utilizado.” Para “melhorar” o quadro, ficámos a saber que a criminalidade económico-financeira “recorre e meios cada vez mais sofisticados”, enquanto quem a investiga e combate carece deles. Claro que a direcção da PJ (onde o encontro, aliás, se realizou) pede mais meios e que o governo, naturalmente, irá deitar contas à vida e ao assunto. Mas fará o necessário? Conseguiremos, um dia, tornar menos insuportável este eterno pesadelo?
EDITORIAL
PSD e CDS têm de se moderar, sob pena de asfixiarem Marcelo
Marcelo Rebelo de Sousa vai hoje receber o apoio oficial dos dois partidos da ex-coligação à sua candidatura a Belém. Apesar de a sua filiação partidária ser mais do que conhecida, como reagirá o eleitorado de esquerda e de centro esquerda às declarações do PSD e do CDS em favor de Marcelo Rebelo de Sousa? Até há algumas semanas atrás o mais certo era esse factor não ter qualquer influência na hora de ir às urnas, mas este mês e meio de controvérsia à volta da formação do Governo deixou marcas, designadamente, alargando a animosidade entre direita e esquerda para níveis muito próximos do PREC. É certo que Marcelo tem níveis de popularidade incomparáveis relativamente às outras candidaturas e ontem mesmo uma sondagem continuava a garantir-lhe a vitória à primeira volta das presidenciais, mas, em política, as seis semanas que faltam para dia 24 de Janeiro podem revelar-se uma eternidade. Ou seja, nada está garantido, porque há factores que podem pesar, tendo em conta que o único objectivo da esquerda neste momento é obrigar Marcelo a uma segunda volta. De acordo com as sondagens, esse objectivo vale mais ou menos cinco por cento, o que nem é muito se os cinco candidatos à esquerda – Maria de Belém, Sampaio da Nóvoa, Marisa Matias, Edgar Silva e Henrique Neto – conseguirem mobilizar todo o seu eleitorado, travando assim a operação de charme que Marcelo há muito vem desenvolvendo junto destes sectores e que passou pela híper mediatizada deslocação do candidato à Festa do Avante, até à manifestação crítica de um distanciamento cada vez maior face a Cavaco Silva. Ora o apoio dos partidos da coligação pode deitar a perder todos os esforços de Marcelo no sentido de fazer voar esta candidatura para fora do seu espaço político tradicional, que, nesta altura, não dispõe de votos suficientes para o investir como inquilino do Palácio de Belém. Qualquer sinal de radicalismo por parte do PSD e do CDS afastará o eleitorado moderado de esquerda e transformará este apoio no abraço de urso que pode asfixiar Marcelo.
OPINIÃO
O jogador
António Costa é um jogador profissional que apostou o país para não ter de sair do jogo. Inaceitável? Com certeza. Só que a concretização dessa insensatez é a maior prova do seu talento.
Tenho um leitor que me envia mails regulares a perguntar quando é que me retrato da minha velha opinião acerca de António Costa. Se antes das eleições eu andava a elogiar as suas qualidades e a considerá-lo um excelente candidato a primeiro-ministro, e se depois das eleições acabei a escrever cobras e lagartos acerca dele e da sua estratégia de assalto ao poder, então só me ficaria bem, afirma o leitor, assumir publicamente que me enganei.
A certa altura, já desesperado com a ausência do meu acto de contrição, o leitor até enviou uma sugestão de início de texto, para, segundo ele, me “ajudar a começar”: “Logo a seguir às eleições, no meu comentário semanal neste jornal, considerei que António Costa era a pessoa indicada para continuar à frente do PS. Passados dois meses tenho de reconhecer que me enganei redondamente...” Há que louvar tanto trabalho em prol da coerência de um articulista. E embora tal não chegue para obter o desejado arrependimento, chega, pelo menos, para obter esta justificação.
A pergunta é pertinente: se entendo que António Costa enganou os portugueses, se considero o seu governo politicamente ilegítimo, se não acredito em messias, porque é que não admito simplesmente que me enganei em relação a ele? A resposta mais simples é esta: porque ainda não o percebi totalmente. Digamos que faltam algumas peças para completar o seu puzzle, que só o tempo trará.
José Sócrates, Passos Coelho e António Costa têm uma característica em comum: demasiado jovens para terem um percurso político pré-1974, cresceram no seio das jotas, têm formação académica limitada, ninguém lhes conhece qualquer pensamento original, e são essencialmente pragmáticos. Chegaram ao poder munidos de meia-dúzia de post-it ideológicos que colaram na secretária com a mesma convicção com que nós penduramos a lista de compras na porta do frigorífico (os post-it actuais são “crescimento” e “qualificação”), e a partir daí foram gerindo aquilo que lhes acontecia da melhor forma que foram capazes (demasiadas vezes, não chegou). “Esquerda” ou “direita” não eram o caminho, mas apenas as muletas que lhes permitiam caminhar: apoiavam-se numa ou noutra, consoante o que lhes era mais útil a cada momento.
Estando eles totalmente concentrados na acção e faltando ao seu percurso qualquer reflexão consistente, os pragmáticos são demorados de compreender. Para utilizar uma metáfora condizente com a nova aposta no sector primário, é preciso abrir o melão para conhecermos a sua qualidade – e neste momento António Costa é ainda um mistério. Esse é o único estado de graça que estou disposto a conceder-lhe.
Se virmos bem, há sinais contraditórios. O percurso de António Costa na Câmara de Lisboa é, em boa parte, o de um liberal, que quis simplificar procedimentos e abrir a cidade à iniciativa privada. A frieza com que assaltou São Bento é coisa muito mal feita, mas de uma forma muito bem feita. As suas qualidades políticas são indiscutíveis, mas ainda ninguém sabe como ele as irá utilizar. Quando António Costa afirma no Parlamento que “aquilo que o PCP não está disponível para apoiar é aquilo que nós não estamos disponíveis para propor” eu sinto um arrepio na espinha. Mas pode ser mera estratégia – passei de o criticar por mentir a desejar que nos minta. António Costa é um jogador profissional que apostou o país para não ter de sair do jogo. Inaceitável? Com certeza. Só que a concretização dessa insensatez é a maior prova do seu talento.
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