domingo, 13 de dezembro de 2015

Nyusi fortalece repressão no OE para 2016 Por Abílio Maolela

Numa altura em diz que o diálogo e paz são prioridade

A Assembleia da República aprovou esta quinta-feira, com o voto maioritário da Frelimo, a proposta de Orçamento de Estado e o Plano Econó- mico e Social (PES) para 2016, que volta a atribuir maior bolo ao sector de repressão, numa altura em que o país se encontra mergulhado numa crise financeira e política. Trata-se das Forças Armadas de Defesa de Moçambique (FADM), Serviços de Informação e Segurança do Estado (SISE) e o Ministério de Interior. A primeira proposta submetida à Assembleia da República, em Outubro último, indicava um orçamento de mais de nove mil milhões de meticais para o Ministério de Interior, mais de cinco mil milhões de meticais às FADM e cerca de mil milhões de meticais ao SISE. Devido ao elevado valor proposto para o próximo ano, o documento foi devolvido, após as audições nas comissões, fazendo com que o governo amputasse cerca de 15 mil milhões de meticais (dos 261 milhões ora propostos para 246 mil milhões). Apesar dos reajustes feitos no documento, cuja versão final ainda não foi disponibilizada à imprensa, é um dado adquirido que o sector da repressão continuará no topo das preferências do governo moçambicano. Desde 2005 que este sector tem merecido a maior parte do bolo, facto que resultou numa revolução completa dos meios das Forças de Defesa e Segurança (FDS) desde aeronaves, tanques de guerra, embarcações, armamentos sem deixar de lado os trajes destes elementos. Em Novembro último, imagens de tanques de guerra descarregados no porto de Maputo inundaram as redes sociais, facto que mostrava claramente que o governo de Nyusi deverá continuar a se fortalecer militarmente, mesmo com os cofres vazios. Estes dados contrariam o discurso do Presidente da República e da Constituição, segundo o qual a “agricultura é a base do nosso desenvolvimento”. De acordo com o documento anterior, a agricultura receberia um orçamento de 18 mil milhões de meticais (9,5%), contra 20 mil milhões do somatório do orçamento do MINT, FADM, SISE, Casa Militar, Assembleia e Presidência da República. O Orçamento do Estado para 2016 é aprovado numa altura em que a Frelimo acaba de chumbar o projecto de revisão pontual da Constituição da República submetido ao parlamento pela Renamo que de seguida anunciou que a confrontação poderia seria o próximo passo. 246 mil milhões de meticais para 2016 Para o ano de 2016, o governo preparou um orçamento de 246 mil milhões de meticais para suportar as despesas. Deste valor, 184 mil milhões o correspondente a 74,8% serão resultantes de recursos domésticos: 176,4 mil milhões de meticais das receitas de Estado e 7,6 mil milhões com recurso ao crédito interno. Os restantes 62 mil milhões de meticais são recursos externos, dos quais 40% provém de donativos e 60% de créditos para projectos. Dos 246 mil milhões de meticais, que representam uma redução de 1,9% do PIB, em comparação ao Orçamento de 2015, 136,1 mil milhões de meticais (55,3%) serão gastos em despesas de funcionamento, sendo que 83,9 mil milhões em despesas de investimento e 26 mil milhões em operações financeiras. Sendo o Estado o maior empregador do país, 52,4% das despesas de funcionamento serão gastos com o pessoal e apenas 21,3% estará destinado à aquisição de bens e serviços. No concernente aos Encargos da Dí- vida, fixados em cerca de 12.5 mil milhões de meticais (1,8% do PIB), 7,2 mil milhões destinam-se ao pagamento de juros internos relativos aos vencimentos de obrigações e de bilhetes de tesouro, enquanto 5,3 mil milhões ao pagamento da dívida externa, provenientes do investimento em infra- -estruturas. Quanto aos subsídios, o governo de Filipe Nyusi não prevê o subsídio aos combustíveis, mas mantém o subsídio aos preços e as empresas públicas no montante de 2,1 mil milhões de meticais. Entrando nas despesas de investimento, que estão orçadas em 83,9 mil milhões de meticais 41,3 mil milhões provêm dos fundos do Estado e os restantes são de investimento externo, priorizando as infra-estruturas econó- micas e sociais. O governo de Filipe Nyusi vai alocar 66,6% do orçamento ao sector económico-social, o equivalente a 138,1 mil milhões de MT. Neste sector, só a educação, saúde e acção social absorvem 53%, seguidos pelas infra-estruturas que consomem 30% e os 17% cabem à agricultura e restantes áreas. A proposta, ora aprovada, apresenta um défice de 69,7 mil milhões de meticais (10,2%) do Produto Interno Bruto. Para colmatar este défice, o governo recorreu ao crédito interno no valor de 7,6 mil milhões; 24,8 mil milhões de donativo externo e 37,2 mil milhões de meticais do crédito também externo. Internamente, o governo refere que as receitas do Estado serão obtidas, entre outras medidas, através da modernização do sistema de arrecadação de impostos com a introdução das má- quinas fiscais; facilitação nos terminais rodoviários com impacto na redução do custo de desembaraço aduaneiro e o pagamento de impostos através de meios electrónicos. PES revê em baixa o crescimento económico Para o segundo ano do mandato de Filipe Nyusi, o governo revê em baixa o crescimento económico do país, situando em 7%, contrariando a previsão inicial de 7,8%. O governo justifi- ca este ajuste, baseando-se nos indicadores do primeiro semestre deste ano, em que o crescimento foi de 6,3%, o que “faz prever o não alcance da taxa de crescimento do PIB de 7,5, projectado para este ano, podendo situar-se nos 7%”. “Este crescimento será impulsionado pelo desempenho positivo dos sectores da agricultura, electricidade e gás, construção, comércio, indústria extractiva, transportes, pescas e serviços financeiros”, perspectiva o governo, na voz do Primeiro-Ministro Carlos Agostinho do Rosário. A agricultura prevê produzir 100 mil toneladas de castanha de caju; 70 mil de algodão; 2,8 milhões de toneladas de cereais; e 11 milhões de tubérculos. A pesca, por seu turno, perspectiva um crescimento de 4,8%, justificado pela produção der 277 mil toneladas do pescado, sendo 238 mil provenientes da pesca artesanal. Entretanto, a pesca Comercial, onde devíamos incluir a badalada Empresa de Atum (EMATUM), andará de rastos e só será suportado pelo camarão, que produzirá cerca de três mil toneladas. O sector da construção não prevê grandes novidades. A maior parte das obras são de reabilitação e de reconstrução. A indústria extractiva espera atingir um crescimento de 10%, impulsionado pelo aumento da produção do carvão mineral, na ordem das 7 milhões de toneladas; 170 milhões de gigajules de gás natural e 600 mil barris de condensado. Para a concretização destes projectos, o governo de Moçambique compromete-se a manter a taxa anual de in- flação em 5,6%. Apesar da constante depreciação da moeda nacional face ao dólar americano, o governo garante constituir reservas internacionais lí- quidas, no valor de 2,7 mil milhões de dólares, suficiente para cobrir 4,3 meses de importação de bens e serviços. O maior desafio para o próximo ano é controlar as importações. Segundo o Primeiro-Ministro Carlos Agostinho do Rosário, em 2016, as importações vão aumentar em 10,9%, para fazer face às necessidades de investimento dos grandes projectos, com destaque para as importações que serão induzidas com a construção da Fábrica de Processamento de Gás Natural Liquefeito. Em contrapartida, as exportações dos grandes projectos vão decrescer na ordem dos 5,4%, embora se perspectiva o crescimento das exportações em 7,4%, atingindo o valor de 3,6 mil milhões de dólares americanos, resultantes do incremento de 14% nas exportações tradicionais (camarão, tabaco, castanha de cajú, etc.). O decréscimo das exportações dos grandes projectos, em particular na mineração (carvão mineral, gás natural) deve-se à contínua queda dos preços destes produtos no mercado internacional.

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