domingo, 13 de dezembro de 2015

Malehice parou para celebrar 100 anos da vovó Mariana

A aldeia de Malehice, distrito de Chibuto, província de Gaza, parou literalmente ontem, sábado, para festejar os 100 anos da vovó Mariana Camilo Muianga, mãe do antigo estadista moçambicano, Joaquim Alberto Chissano. 
Ela nasceu no dia 9 de Dezembro de 1915 e os filhos, netos, bisnetos e trinetos escolheram o dia deontem para lhe dar os parabéns pelo centésimo aniversário natalício. Gerou dez filhos dos quais três faleceram. De origem camponesa, dinamizou ao longo da sua vida a unidade familiar e fundou a Associação “Tsika Ulolo” (deixa de ser preguiçoso) onde desempenha agora a função de conselheira. A associação tem uma cooperativa que pratica agricultura, cria aves, peixe e recentemente abriu um telecentro que apoia a formação de jovens em informática. Para melhor entendimento da sua trajectória, domingo conversou com ela e com os seus familiares.
A vovó Mariana Muianga nasceu em Malehice no dia 9 de Dezembro de 1915. É uma cidadã camponesa que se tornou pessoa de referência na sua aldeia pela humildade que marcou a sua educação no seio familiar, com grande influência da Igreja Católica. Frequentou a escola até ao nível rudimentar que teve depois de abandonar para trabalhar na machamba. Diz que aprendeu a cultivar amendoim e feijão em casa de seus avós paternos e que o Padre Joaquim da Cruz da Boavida ensinou-lhe a cultivar o arroz, couve, cebola, batata e a criar gado bovino. Foi assim que os seus filhos José Luís e Joaquim Chissano apascentaram o gado da família.
Criei os meus filhos através da enxada até que mais tarde fui ensinar a segunda classe às irmãs católicas pela mão do Bispo Dom Rafael,recebendo 200 escudos”, disse.
Quando se casou, deixou de dar aulas para melhor cuidar do seu primeiro filho, cujo pai, era também um professor e depois agrimensor e que conheceu na Missão. Fui lobolada por apenas 25 escudos e mais tarde casei-me com ele”, lembra-se vovó Mariana Muianga. Quem celebrou o casamento foi o falecido Padre Joaquim da Cruz Boavida numa que casota que ainda hoje se vê no recinto da Missão.
Recorda que o falecido Presidente Samora Moisés Machel tinha ordenado que a casota fosse reabilitada e preservada, porém, ela foi apenas abandonada.
Depois do seu casamento, a vovó Mariana ficou a criar e a educar os seus dez filhos, dos quais três faleceram (dois rapazes e uma rapariga). Sobrevivem agora sete, neste caso, seis homens e uma senhora.
Com o advento da independência nacional, começou a militar activamente ouvindo e cumprindo atentamente o que a Frelimo e o seu Governo apregoava. Juntamente com o marido, participou na criação da Aldeia Comunal de Malehice. O marido deu o seu contributo como agrimensor, orientando o corte de certas àrvores para a construção das ruas, enquanto a vovó Mariana explicava as comunidades o que se pretendia. Hoje, a aldeia transformou-se numa vila com muitas casas de alvenaria, àgua canalizada e luz eléctrica.
SEGREDO DA LONGEVIDADE
Ao perguntarmos sobre qual seria o segredo para se alcançar muitos anos de vida, a vovó Mariana Muianga respondeu: “quem conhece o segredo é Deus. Não existe outra força suprema que o supere. Mesmo os doutores que dizem que sabem muito, não conseguem superar a força divina”.
Explicou-nos que o tipo de alimentação que hoje consumimos pouco nos ajuda. “É totalmente diferente do que comíamos antigamente”. Diz também que respeitando e ouvindo os mais velhos contribui para a longevidade de vida, já que por essa via se consegue a bênção divina.“É necessário que haja o amor e respeito e espírito de solidariedade para que haja sorte. Sem isso, pode ser difícil haver harmonia entre as pessoas”remata a vovó Mariana Muianga. 
Joaquim Chissano, seu filho, conta-nos que a sua mãe mobilizou muitas pessoas para se envolverem em aspectos nobres da vida quotidiana. As características de ajuda ao próximo tornaram-na numa pessoa que sempre acolheu gente em sua casa que isoladamente não conseguiam resolver certas dificuldades.
“Uns vinham numa situação de extrema pobreza e sem amparo. Houve casos, quando éramos menores, de famílias que deixavam seus filhos ao cuidado da nossa mãe para educação”, recordou-se o filho, Joaquim Chissano.
Ela é uma pessoa forte e trabalhadora e coloca a sua fé em Deus e no amor pelas pessoas. É uma pessoa de família, desde o amor conjugal, filial e promotora da unidade familiar. É dessa forma que nos guia.”, frisou Joaquim Chissano.
Segundo Joaquim Chissano, a avó (materna) faleceu com pouco mais de 99 anos e durante esse tempo continuou a educar e a aconselhar os filhos e netos. O mesmo tem sido feito pela vovó Mariana Muianga que pela sua boa memória ajudou os filhos conhecer muitos familiares, incluindo os falecidos.
Ela tem-nos contado tudo sobre o passado da nossa família, porque felizmente a sua memória está lúcida até agora”,disse Joaquim ChissanoSegundo ele, a mãe acompanhou vários sofrimentos incluindo o de viver sem Joaquim Chissano quando este foi-se juntar à Frente de Libertação de Moçambique (Frelimo).
Joaquim Chissano explicou-nos que ela e outros familiares seus não deviam ter qualquer conhecimento antecipado sobre a sua integração na Frelimo por causa das represálias que a família sofreria por parte da polícia política do regime colonial fascista português.
Ao perguntarmos se quando se soube mais tarde que se tinha juntado à Frelimo, a família não sofreu qualquer represália, Chissano disse-nos que o pai, quando foi interrogado, reverteu a responsabilidade pelo seu desaparecimento aos próprios interrogadores, dizendo que “meu filho estava nas vossas mãos em Portugal e que de lá desapareceu.  Por isso devem ser vocês a explicarem-me onde se encontra”.
 Por seu turno, a vovó Mariana disse que o marido sofreu bastante com isso, porque lhe reduziram o salário como forma de o castigar e de pressioná-lo para indicar o paradeiro do filho.
Joaquim Chissano explicou que, mesmo assim, através dum primo seu, já falecido, encontrou formas de passar a informação de que já se encontrava na França e não em Portugal. Para não falar de questões de luta, na altura justificou-se dizendo que “se encontrava a preparar-se para ser homem”.
Nesse período, a mãe viveu longo tempo sem saber o que se passava com ele, embora mais tarde tivesse tido conhecimento através dos jornais, ou das autoridades coloniais de que tinha “um filho terrorista”.
Aliás, segundo Joaquim Chissano,“O próprio padre da Missão de Malehice falava da minha ingratidão por ter saído de Portugal. Na sua óptica devia ter ficado lá em Portugal para agradecer o facto de ter conseguido estudar naquele país”.
Conta que a mãe ficou alegre quando se tornou Primeiro-Ministro do Governo de Transição, após a assinatura dos Acordos de Lusaka, em 1974, embora reconhecesse que tal significasse um prolongamento do seu afastamento. Idem quando se tornou Ministro dos Negócios Estrangeiros, depois da independência nacional, porque o seu trabalho se virara para o exterior.
“Ela recebeu isso como uma missão do povo moçambicano, também, sendo muito religiosa, achou isso como uma incumbência divina. O mesmo aconteceu quando fui Chefe do Estado, tendo acompanhado os momentos difíceis que vivemos no país”,frisou Joaquim Chissano.
Para José Luís Chissano, primeiro filho da vovó Mariana, torna-se difícil dizer algo sobre sua mãe na medida em que só ela se encontra em melhores condições de falar sobre ele, como filho.“O que posso dizer é que ela é uma mulher com muita força pelo que fez para o nosso crescimento e trabalho feito na comunidade”. A prova disso é a força que ainda dá à direcção da Associação Agrícola “7 de Setembro” como conselheira da direcção da agremiação. Por iniciativa dela conseguiram juntar dinheiro para comprar um tractor. 
DESEJO DA FAMĺLIA
José Luís Chissano deseja que Deus dê à mãe mais vida e saúde e que não se canse de corrigir os erros dos filhos. “ Diariamente, sempre se preocupa em saber como passamos a noite, como passaremos o dia e dá sugestões. Isso para mim é muito importante”. Por seu turno Joaquim Chissano disse-nos que a mensagem que tem para a progenitora é de agradecimento pela educação dada pelos incentivos e encorajamentos que ela sempre deu. Queremos que continue a ser o modelo que nos une na vida”.
Joaquim Chissano recordou-se das palavras emocionantes da mãe quando se realizou a homenagem pela sua reforma. Quando muitos pensavam que eu havia de voltar para ficar aqui na aldeia”.Nessa altura, a minha mãe disse que eu não era dela, mas sim do mundo, porque iria cumprir com muitas outras tarefas. Hoje muita gente diz que a tua mãe tinha razão. Sempre que me despeço dela para qualquer missão, a minha mãe diz “uyo pfumela” (tu aceitaste), querendo dizer “tu juraste e tens que cumprir”.
Líder da Associação “Tsika Ulolo”
Depois de se envolver (ela e o falecido marido) na dinâmica de criação das aldeias comunais, pouco tempo depois da independência nacional em 1975, a vovó Mariana Muianga decidiu criar a Associação “Tsika Ulolo” que tem a Cooperativa Agro-pecuária “7 de Setembro”. Segundo Roda Zucule, membro da agremiação, a cooperativa foi criada em 1976 e integra 65 membros. Explora 72 hectares de terra cultivando cereais e hortícolas diversas.
De acordo com Roda Zucule, a cooperativa abriu recentemente uma nova linha de produção de peixe contando com 51 tanques piscícolas. Com os rendimentos da cooperativa, a associação abriu um Telecentro de Malehice, que forma os filhos dos associados e jovens da aldeia em tecnologias de comunicação e informação.
“Devido à sua idade avançada e experiência de vida e de trabalho, hoje, a vovó Mariana se tornou conselheira. É através de seus conselhos que desenvolvemos a nossa associação”,palavras de Roda Zucule.
Texto de Artur Saúde
Fotos de Artur Saúde

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