Um texto meu de 2007 sobre o Sergio Viera
Hoje escrevo ao Coronel
Faça como eu digo e não como eu faço – bem prega Frei Tomás
Na minha parca bagagem de leituras, uma das obras que mais me marcou foi «Ninguém escreve ao coronel» de um mestre da literatura universal, Gabriel Garcia Marques, prémio Nobel da Literatura de 1983. O romance relata a paciência de um coronel que passou décadas a deslocar-se ao correio, na eterna esperança de receber uma correspondência que nunca mais lhe chegava às mãos. E não chegou.
Hoje eu escrevo ao coronel.
Ao Coronel Sérgio Viera e espero que a correspondência não leve décadas a chegar-lhe às mãos.
Por correio electrónico e por este canal tudo vai mais rápido e seguramente que chega…
Decidi escrever-lhe depois de ler a sua coluna regular «Carta a muitos amigos» na última edição do semanário «domingo».
Na sua crónica com o título “Justiça e ignomínia” o coronel manifesta o seu total repúdio sobre a forma como foram conduzidos os processos que culminaram com a execução de Sadam Hussein, e outros seus pares enquanto durou aquele regime.
E para manifestar o seu repúdio escreve, a dado passo, o coronel e cito: “Mas, porque um Estado, como primeira obrigação em relação à pessoa humana, deve proteger a vida do cidadão, então existindo a pena de morte, o retirar o direito à vida, nunca pode surgir como palhaçada, uma vingança e necessita de se revestir de grande dignidade” (sic).
Quando o partido de que é membro sénior o Coronel, saiu de fresco das matas e cheirando ainda a pó das armas, embriagado de Marx e Lenine, as práticas de eliminação de outros foram marca dominante. Isso está amplamente documentado.
Com uma diferença: Sadam Hussein pelo menos teve direito a um julgamento “fantoche” e os cá da casa não. Minto coronel?
Lembrar-se-á o ilustre coronel que o seu camarada partidário que decidiu escrever memórias assinou a nota que dá conta que a Frelimo mandou matar os chamados «reaccionários» no espírito das tradições partidárias. Como também há-de lembrar-se, caro coronel, que um dia, em plena Assembleia da Republica disse, a plenos pulmões e de viva voz para que todos os moçambicanos ficassem a saber, que uns moçambicanos mataram outros sem direito a julgamento porque eram “reaccionários” e “traidores da causa nacional”.
Para lhe refrescar a memória, coronel, é melhor citar a nota histórica assinada pelo seu “camarada” Jacinto Veloso. O seu nome também lá aparece!
“No espírito das tradições, usos e costumes da luta de libertação nacional, o Comité Político Permanente da Frelimo reuniu e condenou por fuzilamento os seguintes desertores e traidores do povo e da causa nacional, os quais já foram executados: Uria Simango; Lázaro Kavandame; Júlio Razão Nilia; Joana Semião e Paulo Gumane, em ordem a evitar possíveis reacções negativas, nacionais ou internacionais, que podem advir em consequência destes contra-revolucionários, a comissão política publica esta acta como decisão revolucionária do partido Frelimo e não como acta judicial”.
Lembra-se agora, ilustre coronel?
Na mesma nota de fuzilamento “no espírito das tradições, usos e costumes da luta de libertação nacional”, adiante, ficou-se a saber que:
“Foi decidido nomear um comité para compilar o dossier e preparar a comunicação pública”.
“O camarada Comandante-em-chefe decidiu que o comité fosse dirigido pelo camarada Sérgio Viera e adicionalmente terá os seguintes camaradas: Óscar Monteiro, José Júlio de Andrade, Matias Xavier e Jorge Costa”.
Onde está a comunicação pública, do chefe do comité, no caso, o “nosso” coronel?
“O povo moçambicano não sofre de amnésia” escreveu ainda o coronel Vieira na sua crónica dominical.
Sendo essa uma verdade irrefutável, hoje escrevo eu ao coronel.
Olhe que me ía esquecendo! Pelo menos os “fantoches” do Iraque fizeram questão de tornar público onde se encontram as tumbas das suas vítimas. Será que o coronel pode-se dignar a dar uma mínima ideia acerca do local onde foram sepultados os famosos reaccionários? Pelo menos para o sossego das famílias daqueles “malditos reaccionários”.
Fico à espera. A política que os reaccionários defendiam faz hoje o seu ganha pão, pelo que sendo amanhã 3 de Fevereiro ficava bem render-se à evidência, pedir desculpas às famílias pela parte que lhe toca, e entregar-lhes o direito aos despojos dos seus entes queridos. Até os chineses devolvem os cadáveres às famílias das suas vítimas. Nem se preocupe com os funerais condignos porque as famílias se encarregarão disso, certamente!...
Fico à espera! Responda por e-mail. O correio electrónico é mais rápido do que o dos tempos do figurão do Gabriel Garcia Marquez.
Um abraço.
CANAL DE MOÇAMBIQUE – 02.02.2007

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