sexta-feira, 11 de dezembro de 2015

“A nossa ideia de Moçambique”


por: Armindo Chavana, Jr.
Hoje, Moçambique tem o gigantesco desafio de (re) construir a sua base ampla de informação, saber e conhecimento e assegurar, no quadro dessa grande amplitude, o império dos valores da diversidade e da inclusão.Neste momento, os institutos académicos de estudos e pesquisa de que o pais dispõe são ainda muito poucos, face aos desafios. Fomenta-los em numero, género e qualidade pode, do ponto de vista estratégico, resultar numa melhor abordagem da ideia colectiva de Moçambique. São esses institutos que, com as suas ferramentas metodológicas, sabem buscar, apreender e problematizar os vários conceitos de Estado, nas suas mais diversas nuances, frentes e formas, transformando-os, ou propiciando a sua transformação na visão que nos aglutina: ou nessa coisa magna, reguladora do nosso estado de direito democrático, referencial da nossa convivência na diversidade, e farol do nosso futuro.Contudo, alguns desses institutos, organizações do tipo watchdog e plataformas da sociedade civil, que têm no governo o objecto preferencial da sua análise, são exageradamente cáusticos com o executivo, não lhe reconhecendo qualquer mérito ou crédito na sua acção governativa sendo que, numa situação de vis-a-vis um interesse estrangeiro e o governo, encostam, por tendência, este a parede. Pode ser essa (ou parecer essa) a sua missão vocacional, porém, quando no processo desequilibram crítica e reconhecimento público, mesmo quando devido, (substituindo-se aos partidos políticos), provocam a erosão política do governo (pelo flanco menos esperado) fragilizando o estado. Também, convenhamos: que desperdício de recursos quando quem sabe (infelizmente ainda poucos no nosso país) no lugar de iluminar a maioria, apetrechando-a do conhecimento necessário, a distrai com abordagens manipulativas!Por outro lado, há evidências (muitas) de instituições científicas estarem a produzir conhecimento de bastante qualidade com impacto positivo no desenvolvimento do país como, por exemplo, o essencial do IESE. A Universidade Eduardo Mondlane, como a mais antiga e mais prestigiada de Moçambique, devia recuperar o papel do Centro de Estudos Africanos na liderança dos estudos económicos e sociais, e não só, vincando valores como pátria, qualidade, e rigor cientifico. O CEA é a impressão digital do pensamento pós-colonial na nossa pátria, e é nele que se estrutura toda a visão (do ponto de vista das ciências sociais) do pais que queríamos (e queremos) ser. Restaurando o CEA (e publicando intensivamente o resultado das suas pesquisas) ela pode, também, perfilar-se como um actor importante na afirmação de novos padrões e valores.Valeria o mesmo para a comunicação social: um pais de 24 milhões de habitantes não se pode contentar com uma circulação de menos de 200 mil cópias na globalidade da sua imprensa, que nem é, sequer, plurilingue, apesar dos seus mais de 17 idiomas nacionais. Ademais, neste momento, a língua que ela usa é a que menos se fala no país. Em momentos difíceis do nosso percurso histórico a comunicação social conseguiu contribuir, significativamente, para impedir o colapso do país. Hoje, ela é também instrumental nos processos de (re) construção. É esse potencial indutor da mudança e do crescimento que ela deveria recuperar como o principal factor da sua agenda editorial, na qualidade de quarto poder.As rádios comunitárias, e as emissões em línguas locais da Rádio Moçambique, são um exemplo bem sucedido de construção de uma base de informação de tipo amplo, no país. Embora o rácio per capita esteja ainda muito aquém do desejado, (relativamente as comunitárias) esta plataforma supera os meios de comunicação em língua portuguesa no que toca a democratização da informação veiculada, seu debate ,e alcance social. O povo e os seus interesses podem estar sub-representados no mainstream media (a mídia dominante) mas, na midia de maior alcance qualitativo, neste momento, ( comunitárias e emissões em línguas locais da RM), são imperadores. Pode ser a incapacidade de penetrar e dar primazia a uma agenda popular, (os actores sociais em momentos de conturbação, sobretudo, demandam aquela informação que os ajuda a tomar decisões de melhor qualidade e menor risco nas suas vidas) que impede as nossas principais publicações de ultrapassar, até, a fasquia das vinte mil cópias, de tiragem. A ideia de Estado não se consolida dissociada dos mecanismos de partilha do saber (incluindo conhecimento de senso comum), de base ampla, e socialmente equilibrado, do ponto de vista da representatividade. O ideário comum constrói-se no saber comum (mesmo quando a produção e a circulação do saber/conhecimento são monopólio de poucos, a cadeia de valor que propicia a ideia de nação, nunca deve perde de vista a grande escala, pressuposto subjacente , e intrínseco, do estado moderno, e do capitalismo. Os estados que não democratizaram o seu debate, aceitando a pluralidade de opinião, em toda a sua cadeia de valor, como um dado sine quan non, criaram um conceito inquinado deles próprios, e faliram. Moçambique não quererá seguir por esse caminho. O nosso debate enferma, ainda, dos vícios da monopolização, da extrema politização e, de ser, por tendência, mutuamente exclusivo e não democrático (há ainda os que reclamam a posição de gatekeeper, excluindo os demais da discussao): não falamos uns com os outros, falamos para os outros e, não raras vezes, levantamos a voz e não melhoramos o argumento. Por vezes nem nos preocupamos com a honestidade intelectual das nossas posições. Essa deturpação do debate pode ser corrigida se, como nação, acordarmos num pacto de tipo novo, relativamente aos seus preceitos, premissas basilares e termos de referencia. Quais?
Ps. Quanto a depreciação do metical, fomentamos o pânico no lugar do debate das saídas da crise, que é também, global; (esta semana, 8 de dezembro, a Anglo-American anunciou que vai despedir 85 mil trabalhadores (incluindo mineiros moçambicanos na África- do- Sul); especula-se que o barril do petróleo poderá descer até 20 dólares, quando, a menos de um ano, esteve quase a 100: as economias do Brasil e da China, aliados estratégicos de Moçambique, estão em downturn- desaceleração, e reduziram os seus consumos); quando constituímos a EMATUM no lugar de debater segurança estratégica do Canal de Moçambique (na perspectiva dos nossos interesses nacionais) privilegiamos outras abordagens que, embora não menos importantes, não eram, contudo, as mais determinantes. (na mesma altura, o Egipto celebrava um investimento de 8 biliões de dólares na segurança do Canal de Suez e a ENI, a descoberta de mais de 900 triliões de metros cúbicos de gás no país dos faraós). O metical também é forte, quando forte é também a sua associação a uma comodity bem cotada na bolsa. Os acontecimentos do Egipto e mais recentemente de Timor-leste (que também anunciou a descoberta de grandes quantidades de gás), podem tornar o nosso recurso, e por tabela a nossa moeda, também menos competitivos.Num mundo cada vez mais conturbado e cheio de violência, a imprensa teria a responsabilidade de nos brindar com um jornalismo de esperança, e não de achas à fogueira como tem sido até aqui. Isso não reduz o seu papel de watchdog, pelo contrario, reforça-o e aumenta a confiança dos seus leitores. (x)

Sem comentários: