quinta-feira, 10 de dezembro de 2015

Comer histórias, Por Elisio Macamo


Ku ga makungu
(comer histórias)

Esse é um ditado da minha língua materna. Quem chega atrasado onde se comeu só vai ouvir dos outros que a comida foi boa. O ditado continua assim: ku kolwa i ku nyikiwa (só recebendo é que se acredita). Pensei neste ditado ao voltar a ver mais uma manifestação da pobreza do nosso debate político. Desta feita, a demonstração é feita pelo texto de Sérgio Vieira, publicado no jornal O País, e pelo pseudo-debate que ele está a despoletar. Há três questões que esse texto levanta e que o ditado Xangan recupera com muita presciência. Uma tem a ver com os filtros ideológicos que possibilitam a nossa participação no debate político; a outra tem a ver com a tendência de ir com a manada no posicionamento público e a última refere-se à forma insistente como nós sempre julgamos tudo na base dos resultados, nunca dos processos. Abro um parenteses nas minhas sabáticas políticas para lançar algumas interjeições.

Filtros ideológicos

Sérgio Vieira tem sido vítima de ataques (alguns dos quais muito feios) de ambos os lados da trincheira política. Quando critica a oposição os adeptos desta levantam-se e lançam pedras. Invariavelmente, fazem alusão ao seu passado político e ao seu protagonismo na cultura intolerante, autoritária e violenta da história do Moçambique pós-colonial. Quando ele critica o governo os adeptos deste também fazem o mesmo e, curiosamente, usam os mesmos argumentos para não só o deslegitimar como também, através disso, minimizar a crítica. É a falácia clássica do ataque à pessoa. Mas há algo mais grave que se esconde por detrás do recurso a esta falácia. E isso não é prerrogativa da posição ou da oposição. É prerrogativa da nossa esfera pública. Nós participamos no debate de ideias armados até aos dentes de escudos ideológicos que filtram o que chega até a nossa cabeça para ser processado para o debate. Esses filtros dividem o mundo político entre os bons e os maus. Se as coisas estão mal, há alguém que é culpado. E é culpado em virtude de ser aquilo que é. Se é do governo é porque é ladrão, corrupto e intolerante. Se é da oposição é porque está a ser instrumentalizado de fora, é oportunista e quer apenas o poder para encher os seus próprios bolsos.

Neste ambiente ideológico nada é visto segundo os próprios méritos. O que é plausível é verdade. Isto produz quatro combinações argumentativas. Primeira: se se fala mal de quem não gosto ou de quem desconfio, então tudo o que se diz dessa pessoa tem de ser verdade, que os factos se lixem. Segunda: se se fala de quem gosto ou de quem confio, então tudo o se diz dessa pessoa é mentira, que os factos se lixem. Terceira: se se fala bem de quem não gosto ou de quem desconfio, então tudo o se diz dessa pessoa é mentira, que se lixem os factos. Quarta: se se fala bem de quem gosto e de quem confio, então tudo o que se diz é verdade, que se lixem os factos. Isto produz uma situação que me tem divertido imenso, apesar de triste. Vezes sem conta tem acontecido que um indivíduo que se pronuncia sobre um determinado assunto desagradando os fiscais dos filtros ideológicos recebe críticas duras e agressivas que não só discordam (o que não é grave, mas normal), como também põem em causa a sua sanidade mental, a sua competência académica e a sua integridade moral. Mas se a mesma pessoa no dia seguinte disser algo que passa o teste do filtro ideológico, as reacções mudam em noventa graus. De repente, essa pessoa é profunda, acertou, etc.

O que me diverte nisto é o facto de as pessoas se não darem conta de que elas usam a sua própria sensibilidade como critério de validação da verdade. “Muitas vezes não concordo consigo, mas desta vez acertou”, escrevem muitos, como se a verdade dependesse de si e como se ela estivesse estacionada em sua casa.

O espírito de manada

Muitas das reacções que vejo ao texto do Sérgio Vieira são desta natureza. Têm pouco a ver com os méritos das questões por ele levantadas. São um comentário aos filtros ideológicos que viabilizam a nossa participação no debate público. Aí entra, então, o espírito de manada. Se toda a gente concorda – ou acha pertinente e profundo – então é porque se trata da verdade. Ninguém quer ficar sozinho, toca daí a ecoar. Aqui também observam-se, naturalmente, os filtros ideológicos. Quem está contra junta-se à manada dos “ do contra”; quem está a favor junta-se à manada dos “a favor”. Órfãos ficam os méritos das questões levantadas, cuja validade se alimenta cada vez mais da confirmação da aprovação pelo filtro ideológico. Para ser claro e directo: considero o texto de Sérgio Vieira intelectualmente pobre, politicamente incauto e, como contribuição para o debate de ideias, inútil.

É intelectualmente pobre porque ao invés de primeiro estabelecer a veracidade das insinuações na base da crítica que faz dá-as por adquirido e monta toda a sua indignação aí. Em conversa de bar é permissível supor que o investimento em infra-estruturas e na EMATUM, por exemplo, esteja por detrás dos problemas cambiais que o país tem, dos cofres vazios e da deterioração das condições de vida da população. É também permissível supor que tudo isso seja resultado da ganância dum indivíduo e de seus sequazes. A questão, porém, é se as coisas são assim tão lineares como ele, e os seus coristas, as apresentam. Eu duvido, apesar de não ter aprofundado a questão para mim próprio. Ao duvidar não quero dizer que não seja possível. Quero apenas dizer que uma intervenção intelectual honesta não pode parar pela insinuação. Tem que montar um argumento mais sólido que mostre que essa articulação é válida e mesmo alguém que não veja o mundo como Sérgio Vieira o vê pode aceitar, se for objectivo. Na circunstância a força do argumento do seu texto está apenas na indignação e na revelação, entrelinhas, das pessoas que ele não gosta.

O texto é politicamente incauto porque revela quão profundo é o fenómeno da bicha no nosso imaginário. Sérgio Vieira, como todos nós, é vítima dos outros. Tive que reler o texto para me certificar de que se trata dum membro importante do partido que governa este país desde a proclamação da independência e que está, na verdade, a declarar a bancarrota moral e política do seu próprio partido, mas não se vê como parte do problema. Porque é que nos vem dizer isto? Não seria mais interessante, e politicamente honesto, dizer-nos o que está a andar mal nesse partido para ficar refém dum único indivíduo – que faz e desfaz – e o que ele tem feito para corrigir isso? A coisa fica mais patética ainda quando diz ter pena dos seus colegas partidários, nomeadamente o Ministro das Finanças e o Chefe de Estado, que vão ter que gerir cofres vazios. Portanto, mais duas vítimas, embora uma delas tenha sido Governador do Banco de Moçambique e a outra Ministro da Defesa. Porque é que devemos ter pena de indivíduos que deviam estar a par do que estava a acontecer? Devemos ter pena deles para podermos isolar melhor o diabo-mor? As pessoas da oposição (ou os independentes) que batem palmas ao lerem o texto de Sérgio Vieira deviam, na verdade, exigir contas a ele, pois ele é membro desse partido. Não é ele que deve vir aqui queixar-se. Ele deve vir pedir desculpas em nome dos que ele critica, pois ele faz parte dessa malta.

O patético ganha proporções ridículas quando no mesmo texto o autor avisa contra a possibilidade de gatunos ainda maiores subirem ao poder (suponho que ele se refira à oposição; ele escreve, e eu cito: “[H]averá vontade de entregar o poder a maiores gatunos, irresponsáveis, gentes que se querem vingar da punição a traidores da pátria? Vigaristas notórios além dos actuais e bem conhecidos?”). Se o partido onde os melhores filhos da nação se encontram não é capaz de evitar que “gatunos” assumam as rédeas do poder o que o leva a pensar que mesmo assim seja melhor com os mesmos gatunos? Ou por outra, a sua indignação não é pelo povo que vive “no limiar do salário mínimo”, mas sim pelo receio de que o seu partido perca o poder. O problema disto é profundo e tem muito a ver com tudo quanto houve de errado na concepção política que Sérgio Vieira defendeu no passado. É a ideia de que “só nós” é que podemos fazer o bem por este país, mais ninguém. É por isso mesmo que não lhe passa pela cabeça argumentar melhor o caso contra aqueles cujo nome ele não pronuncia no texto (nos tempos gloriosos ele teria sido chamado de boateiro), pois se é ele que o diz, movido como ele é, pelo bem-estar do povo, tem que ser verdade.

Finalmente, é inútil como contribuição para o debate porque não defende nenhum princípio. Indignação não é princípio. Não há ideia de sociedade a sustentar este texto. Há apenas a acusação de que vocês não fizeram as coisas como eu as teria feito. Dois exemplos. Primeiro: indigna-se com o despesismo da construção de infra-estruturas ao exemplo da ponte de Caia. No mesmo fôlego, porém, chateia-se que quem mandou construir a ponte não tenha pensado em incluir uma linha férrea. Aí pergunto-me: qual é o problema? Despesismo ou despesismo insuficiente? Mas aí está. O que devia estar em questão era a discussão dos processos decisórios, do modelo de sociedade que se quer. Segundo: levanta o espectro de greves sugerindo um pouco a ideia de que se as decisões dos governantes forem certas não haverá greves. Lá está. A greve só é problema na cabeça de quem ainda não entendeu o que é a democracia e como ela funciona. Isso remete-nos para os consensos que a Frelimo gloriosa tentou forçar sobre as pessoas. O perigo de grave, algo que é normal numa sociedade democrática, não pode em nenhuma circunstância ser a razão para não fazer o que um governo haja útil e pertinente. É justamente essa possibilidade que dá vida e energia a uma sociedade. Governar é fazer opções, muitas vezes difíceis.

Julgar pelos resultados

No fundo o texto de Sérgio Vieira, e o apoio entusiástico que ele está a ter nas redes sociais, é sintomático dum problema ainda maior no nosso país. É o problema de julgar a qualidade da política pelos resultados. Como o anterior governo mandou construir infra-estruturas e hoje temos cofres vazios e apertos cambiais essa decisão foi errada. Já vi textos ou comentários de pessoas que fazem a soma das despesas incorridas e deixam subentendido que o facto de hoje termos problemas revela que essas decisões foram erradas. A discussão mais importante sobre como estas decisões são tomadas, por quem, sob que assessoria, seguindo que trâmites e com que ideia de sociedade em mente não é feita por ninguém. E ela não é feita porque está todo o mundo mais ocupado a vilificar o diabo e a celebrar a sua própria presciência. Se não houvesse cofres vazios e apertos cambiais muito provavelmente estaríamos todos a celebrar as qualidades visionárias de quem tomou essa decisão. Iríamos incorrer no mesmo erro de julgar pelo resultado, não pelo processo. O que se perde neste tipo de postura intelectual é a oportunidade de fazer as discussões que são mesmo importantes para o país. Entristece-me ver uma pessoa sensata, com experiência de governação e que tanto deu pelos seus próprios ideais revelar uma cultura de gestão tão rudimentar como a que é sugerida pelo texto. Explica porque chegamos aonde chegamos.

E aqui volto ao ditado da minha língua materna. Comer histórias. O nosso problema é o problema de abordarmos os assuntos da nossa terra como se as soluções que nós preconizamos e gostaríamos que fossem implementadas fossem as únicas acertadas. Há gente que ainda nos quer enfiar na mente que tudo começou quando abandonamos a economia centralmente planificada. Igualmente, há gente que nos quer fazer crer que tudo advém de não estarmos a aplicar a economia do mercado como deve ser. A vida dum país, porém, não se compadece desse tipo de gente e postura. As soluções são em todos os momentos compromissos políticos que sempre produzem situações que (quase) nunca antes foram vividas. A arte consiste em saber gerir isso. Ter que aturar as vozes daqueles que constantemente nos dizem que há problemas hoje porque devíamos ter feito as coisas como eles acham que deviam ter sido feitas é parecido com o acto de comer histórias. Não enche a barriga. Enche apenas o ego daqueles que se consideram detentores da verdade.


Comments

Télio Chamuço Mais uma aula gratuita, mas valiosa, do insigne Professor!! Mais um serviço público prestado!! Prof. Elisio Macamo, ainda bem que "o temos"!!

Ousmane Seydi Si un jour je me mettrai au portugais c'est pour bénéficier, avant tout, de la richesse de vos posts. J'ai essayé avec la traduction automatique qui, comme vous le savez, n'offre pas exactement le contenu de la réflexion. Mais déja, elle permet de s'apercevoir de la profondeur de l'analyse. Bravo en tout cas.

Elisio Macamo merci, Ousmane. Je ne pense pas que les textes soient vraiment riche. seule la discussion peut les rendre riches. j’essai de faire valoir que le développement est vraiment la compétence dans le débat. c’est là où se trouve le défi.

Ousmane Seydi Tout en partageant votre point de vue, je dirai, cependant, que le développement est en partie la compétence dans le débat. Je dis en partie pour laisser une place à l'après-débat. Il me semble qu'il y a un autre défi à ce niveau: le défi de l'action.

Elisio Macamo oui, toute a fait d’accord. l’action est important. le problème, cependant, c’est que nous sommes souvent invités à passer à l'action, même quand nous n’avons aucune idée claire des problèmes que nous sommes censés résoudre. voilà pourquoi je pense que le débat est important. nous débattons en vue de formuler meilleur les problèmes. nos solutions nous conduisent dans l'action, mais les solutions sont toujours le point de départ pour encore un autre débat…

Ousmane Seydi "Nous sommes souvent invités à l'action sans avoir une idée claire des problèmes que nous sommes censés résoudre", d'où l'importance du débat ; car, ce sont les solutions issues des débats qui doivent nous conduire à l'action et que l'action ne sera que le point de départ d'un autre débat...Pour tout dire, le débat est en amon et en aval du développement. Il apparait fondamental d'élever son niveau, d'opter pour "la compétence dans le débat". Je ne saurais dire mieux et j'adhère parfaitement à cette idée. Mille merci M. Macamo. Voilà pourquoi je me désole de ne pouvoir suivre vos posts.


Julião João Cumbane Análise profunda e educativa esta tua, Elisio Macamo, do texto de Sérgio Vieira e da crítica que se faz ao mesmo. O problema está claramente identificado: "o fenómeno da bica". «Os outros é que são sempre o problema, eu nunca faço parte do problema». Pensa-se sempre que a indignação é um princípio. Não. É apenas um direito que é conferido por um princípio: o da liberdade de pensamento e de expressão. A prática de pensar que «as coisas andam mal porque não sou eu a fazê-las» é que faz com que em Moçambique se façam muitas arbitrariedades que resultam na destruição (incauta ou deliberada) da nossa história coletiva. As nossas instituições em Moçambique não têm memória, por causa dessa prática nociva. Ora, como tu pensas que se pode ultrapassar este entrave ao nosso desenvolvimento sustentável, caro Elisio?

Elisio Macamo continuando a discutir, interpelando-nos uns aos outros.

Julião João Cumbane Tudo bem, Elisio Macamo. Mas o debate é desviado e morto por aqueles que acham que sabem mais do que os outros e que as suas opiniões devem, por isso, ser as consideradas. Recentemente, a Zee Mavye expressou indignação pela postura do Lourenço do Rosário no dito "Primeiro Grande Fórum MOZEFO 2015", quando este insinuou que o Armando Guebuza não tomou os conselhos que ele (Lourenço do Rosário) e membros da sua equipa o deram para governar bem. Tenho estado a pensar que o chave do problema está na nossa educação para sabermos aceitar que somos todos importantes e que precisamos uns dos outros recíproca e igualmente. Não vejo como podemos «continuar a discutir e a interpelarmo-nos uns aos outros», sem a aceitação do princípio da igualdade da importância de cada um de nós na sociedade. Há como, Elisio? Acho que precisamos de "humanizar" a nossa educação, antes de mais nada. Sem isso ocorrer primeiro, estou com receio de que o "Tu Quoque" vai continuar a diminuir a importância do debate na nossa esfera pública.

Rui Matavele Matavele Boa analise Profe e interessante. Concordo com a sua abordagem plenamente, comentar que o regime anterior se calhar seja o motivo da auto-exclusao do Sr SV na partilha da culpa tendo em conta que houve promocao de nao debate interno no Partidao,sem criticos, criou-se "G40" etc. Agora eh Verdade que precisamos de debates intelectualmentes genuínos e non ideologicos para o bem da Perola. Nos últimos 10 anos o pais andou com apenas um visionário e ai de si se nao concordar.

Elisio Macamo se houve promoção de não debate, então é esse assunto que ele deve tratar. para todos os efeitos, enquanto ele for membro desse partido e falar fora dos canais desse partido ele faz parte do que critica. não é vítima. ele deve à sociedade um relato do que faz com que esse partido seja tomado de assalto por gente má. caso contrário é demagogia barata.

Julião João Cumbane «Nos ultimos 10 anos o pais andou com apenas um visionario e ai de si se nao concordar...» (sic). Estás a faltar à verdade, Rui Matável. Parece estares a confundir a contracrítica com a repressão à crítica, repressão que não verdade não houve. O Sérgio Vieira (SV) está, efectivamente, a praticar demagogia e hipocrisia na esfera pública moçambicana. Ele partilha com outros as culpas que só a estes atribui. O útil seria ele (SV) aparecer com sugestões para estancar os males, sem as misturar com a destilação de ódio por aqueles que o afastaram da elite a que ele julga pertencer, por ele os ter ostracizado no tempo de Samora Machel como dirigente da Frelimo do Estado moçambicano.

Rui Matavele Matavele Infelizmente, enquanto nao se criar um ambiente propicio para debate lucido e frio no Partidao o poder vai resvalando para os "Outros..." Com toda critica em cima do Sr SV acho que esta de parabens por tentar remar contra a mare do bajulismo, lambebotismo, eh um dos poucos que desafia o status quo frelimista agitando as aguas dentro e fora... A FRELIMO tem de acordar a qqr preco.

Mablinga Shikhani Thú nkaringana!!!Decididamente é como tenho dito: "quando partimos de pressupostos errados, chegamos sempre a conclusões erradas".

Bem escrito caro Elisio Macamo, não pelas razões do óbvio, mas pela estrutura e é argumentos devidamente colocados. Cuide-se meu caro dos insultos que, de ambos, lados virão.

Elisio Macamo os insultos fazem parte da loiça...

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