Por Maria Lúcia Dahl, do Rio de Janeiro
Estava em casa vendo “Curta na tela”,( já que as notícias dos jornais aumentam a minha labirintite com suas notícias enlouquecedoras), deitada na cama, sozinha, de camiseta e calcinha, quando olhei pela janela, vi que estava na hora de regar as plantas, e fui molhar o jardim, que não sei se por causa desse clima quente-frio ficaram maiores e mais lindas. Molhei-as todas, conversei com elas, e de repente, notei que a mangueira de borracha tinha entrado por debaixo do portão de madeira da minha casa e se rasgado toda, fazendo a água transbordar pelo corredor da vila parecendo que ia secar minha caixa d´agua.
Abri, correndo, o portão pra pegar imediatamente a mangueira de volta, e quando a puxei, com fôrça, o portão bateu e me deixou na avenida florida da vila só com uma camiseta no meu corpo. Esbofeteei o portão de todos os jeitos mas nada o fez abrir pra mim. Entrei em pânico, puxei várias vezes a camiseta pra baixo, tentando cobrir ao máximo as minhas pernas, ao léo, e sem saber o que fazer, fiquei andando de um lado pro outro pra ver se me acalmava. Mas acalmar como,práticamente na rua, de camiseta?
Então comecei a gritar por socorro pra alguém poder me tirar dali, mas ninguém apareceu. Ninguem me tirava daquela situação até que olhei pra fora do portão da vila, escondida o máximo que podia, entre as mãos e as plantas, e vi uma loja que se chama “Bolo sem vergonha” que tem uma pequena porta onde dá pra falar com as vendedoras, que graças a Deus, são todas mulheres e nada sem vergonha.
Elas abriram a porta, espantadas, e quando expliquei minha história me levaram pela mão pra uma salinha solitária , e enquanto a moça ligava pro chaveiro,(homem, é lógico), fiquei lendo Proust escrito nas paredes, a única coisa que poderia me alegrar um pouco naquele momento: Proust, que li inteiro desde os dezessete anos de idade e continuo amando do mesmo jeito, ou até com mais profundidade em busca do tempo perdido.
Então chegou o chaveiro (homem) e , alem de concordar com esta única saída, tive que cooperar com ele, sempre puxando a camiseta cada vez mais pra baixo, enquanto a água não saía debaixo do meu portão inundando a casa.
O chaveiro viu a minha situação humilhante, e resolveu se aproveitar dela dizendo “que iria tentar, mas que era muito difícil”, enquanto fingia experimentar vários aparelhos e a porta nada de abrir. Então, finalmente, quando não tinha mais como fingir uma situação impossível, resolveu passar um tipo de serrinha de ferro por debaixo dela, que, na mesma hora se abriu, o que poderia ter feito imediatamente em vez de me deixar exposta à quem entrasse ou saísse à qualquer momento de suas casas floridas, me considerando uma louca que fugiu do hospício, ou uma ladra tentando se esconder de uma operaçãoLava-Jato.
Então ele me olhou, disse que cobraria 70 reais pelo seu serviço, (o de virar a chave) o que lhe custou nada e a mim, 70 reais. Disse a ele que se ele fosse uma pessoa honesta e delicada e tivesse alguma consideração com o próximo, não cobraria nada por me ajudar. Ele me xingou dizendo que esse era o seu trabalho e que o preço era aquele.
Disse a ele que do jeito que eu estava não tinha dinheiro nenhum comigo e que, por favor, me deixasse pagar no dia seguinte enquanto entrasse em casa e me recuperasse daquela humilhação. Ele pensou um pouco, deixando-me em pânico e abriu, finalmente a porta no meio da água que se tornava uma cachoeira..
Entrei em casa completamente zonza, fechei a água da bomba que estava escancarada, corri pro meu quarto e vesti uma roupa bonita pra agradecer as moças do”Bolo Sem Vergonha”,que tomaram todas as providencias enquanto eu saía daquela situação através de Proust e sua “Recherche du temps perdue”, que era tudo o que eu precisava no momento, alem das” madeleines” que elas me deram pra comer depois..
Maria Lúcia Dahl , atriz, escritora e roteirista. Participou de mais de 50 filmes entre os quais – Macunaima, Menino de Engenho, Gente Fina é outra Coisa – 29 peças teatrais destacando-se- Se Correr o Bicho pega se ficar o bicho come – Trair e coçar é só começar- O Avarento. Na televisão trabalhou na Rede Globo em cerca de 29 novelas entre as quais – Dancing Days – Anos Dourados – Gabriela e recentemente em – Aquele Beijo. Como cronista escreveu durante 26 anos no Jornal do Brasil e algum tempo no Estado de São Paulo. Escreveu 5 livros sendo 2 de crônicas – O Quebra Cabeça e a Bailarina Agradece-, um romance, Alem da arrebentação, a biografia de Antonio Bivar e a sua autobiografia,- Quem não ouve o seu papai um dia balança e cai. Como redatora escreveu para o Chico Anisio Show.Como roteirista fez recentemente o filme – Vendo ou Alugo – vencedor de mais de 20 premios em festivais no Brasil.
Direto da Redação, editado pelo jornalista Rui Martins.
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