MOÇAMBIQUE
Geraldina Mwitu combateu ao lado de homens durante a luta armada no seu país. Recebeu, tal como eles, treino político e militar e viveu nas bases da FRELIMO, a Frente de Libertação de Moçambique.
Era ainda muito jovem quando começou a dar aulas nas bases da FRELIMO. Depois de deixar a sua terra-natal, Mueda, na província de Cabo Delgado, norte de Moçambique, Geraldina Mwitu ensinou português a crianças órfãs e crianças cujos pais estavam na frente de combate.
O Massacre de Mueda, que ocorreu a 16 de junho de 1960, é considerado um dos últimos episódios que marcaram a resistência pacífica dos moçambicanos ao colonialismo. Foi o massacre que levou muitos daquela região a juntar-se à luta de libertação.
O Massacre de Mueda, que ocorreu a 16 de junho de 1960, é considerado um dos últimos episódios que marcaram a resistência pacífica dos moçambicanos ao colonialismo. Foi o massacre que levou muitos daquela região a juntar-se à luta de libertação.
DW África: Era em Mueda que se encontrava na altura do massacre?
Geraldina Mwitu (GM): Quando se deu o tal massacre, eu só vi as pessoas mais velhas a andar de um lado patra o outro a dizer que os colonialistas lá em Mueda mataram os moçambicanos que foram pedir a independência. Mas em vez de serem concedidos a tal independência, os colonialistas responderam com armas. E três pessoas foram presas. Isto foi o culminar das grandes atividades que o povo maconde vinha desenvolvendo. Porque primeiro começou a política para aquele povo que foi [informado de que] os tanzanianos já eram independentes.
DW África: Que efeitos se fizeram sentir na região depois do massacre?
GM: Muita população abandonou o distrito para se ir refugiar na Tanzânia. Porque ganhou medo com aquela situação. Ficou a entender que o colono, em vez de só colonizar, estava a massacrar-nos e a matar-nos. Mas algumas pessoas resistiram. Continuaram a viver na província e a mobilizar o povo de que não podia parar com o massacre, que tinha de combater politicamente, tinha de lutar até que eles conseguissem ter a sua independência.
DW África: Quando começou a ter uma postura ativa pela causa da independência?
GM: A partir de 1964. Nesse ano foi morto o padre Daniel. Nós lá na missão de Nangulolo vivíamos com as irmãs da Consolata e os padres monfortinos. Depois da morte do padre, a nossa missão encheu-se da tropa portuguesa. A partir dali sentimos que a guerra estava eminente. Numa das vezes que a tropa se deslocou para o posto administrativo de Muidumbe entrou na emboscada dos guerrilheiros da FRELIMO. A partir dali, já estávamos a viver a luta de libertação nacional.
DW África: Antes de se juntar aos combates dentro de Moçambique, esteve na Tanzânia e envolveu-se na área da formação. Como passou de professora a combatente?
GM: Eu saí de Moçambique com a minha quarta classe, fui para a Tanzânia diretamente para o centro de refugiados de Rutamba. Daí fui destacada para ir ensinar as outras crianças que não sabiam ler nem escrever no ensino em português. Depois fui indicada para ir a Dar-es-Salaam aumentar os meus conhecimentos. Porque em Dar-es-Salaam já haviam começado a lecionar a partir da quinta classe. Mas infelizmente não terminei.
Nos princípios de fevereiro, chegada a Dar-es-Salaam, não levei muito tempo, ocorre a morte de Eduardo Mondlane, nosso Presidente. Dispersámos. Uns foram para Nachingwea, para o centro de preparação político-militar, alguns, que não tinham idade, como no meu caso, foram encaminhados para o centro estudantil de Tunduru, onde havia crianças órfãs, crianças cujos pais estavam na frente da luta de libertação nacional. E, estando em Tunduru, mais algumas camaradas, fomos indicadas para ensinar aquelas crianças. Aí ensinei durante dois ou três anos. Fui indicada, então, para poder passar para o centro de formação político-militar, Nachingwea.
DW África: Havia diferenças entre os treinos dirigidos às mulheres e aqueles que eram dirigidos aos homens?
GM: Nenhuma diferença. Era tal e qual. Havia pelotões das meninas e pelotões dos homens. Mas quem dirigia os treinos eram os homens acompanhados das mulheres que eram instrutoras.
DW África: Até que ponto o papel das mulheres foi determinante na luta de libertação?
GM: O primeiro grupo de 25 meninas foi muito determinante: “nós, sendo moçambicanas, queremos ir lutar lado a lado [com os] homens.” E assim aconteceu. Essas 25 meninas treinaram, depois foram lançadas para o interior de Cabo Delgado. Elas, para além de fazer o carregamento do material, lutaram [ao lado] dos homens para poderem combater o inimigo comum. Para além do combate, a mulher mobilizava a população. A mulher estava à frente do ensino, a mulher estava na saúde, a mulher estava ao cuidado das crianças órfãs, ao cuidado das crianças [cujos] pais estavam na frente da luta de libertação nacional.
DW África: Chegou a sofrer discriminação por parte de colegas homens por ser mulher combatente?
GM: Não. Porque nós considerávamos que [estávamos todos ali] para um fim comum. Não podia haver discriminação. Como mulher desempenhei o papel que me cabia na altura, desempenhei o papel que era necessário: dar a minha contribuição para que Moçambique fosse independente.
DW África: Há algum episódio da época da luta pela independência que a tenha marcado especialmente?
GM: Isto nunca me vai sair da cabeça. A viagem que eu fiz com os meus colegas para Moçambique depois dos treinos. Entrámos em Moçambique, ficámos nas bases e o nosso chefe disse: “uma semana com as vossas famílias". E eu fui encontrar-me com a minha irmã. E ela disse: “quando for à Tanzânia, há-de dizer à mamã que eu estou bem, a mana mais velha também está bem e que eu já tenho três crianças e estou à espera de bebé”. Dormimos. De manhã, eu saí, despedi-me dela.
Cheguei à Tanzânia, no centro de preparação político-militar, a minha intenção era só de ver mamã, mamã, mamã. Uma semana depois, à tardinha, eu estava sentada com as minhas colegas. “Na rádio estão a falar do teu nome, não sei se é teu irmão, não sei quem morreu lá em Rutamba.” Rutamba era o centro de refugiados onde estava a minha mãe. Eu saí do centro, quando eu cheguei lá em Rutamba, encontrei meu pai, encontrei meu irmão, então é que eu soube que a mamã faleceu. Aquela informação que eu trazia de Moçambique não pude dar à minha mãe.
DW África: 40 anos depois de proclamada a independência de Moçambique, acha que valeu a pena lutar por ela?
GM: Valeu. E valeu muito. Porque ganhámos a nossa independência, já estamos a conduzir o destino do nosso país. Libertámos a terra, libertámos o homem, mas a luta continua. Temos que lutar pela nossa economia, temos que lutar agora contra a pobreza. À medida que os anos passam, aparecem outros desafios e nós, com esta idade, já não vamos a tempo, mas temos que inculcar à nova geração que a luta deve continuar para o bem do país.
DW África: Durante a luta de libertação nacional, lutou ao lado de homens, assumiu um papel idêntico ao dos homens. Como vê hoje o papel da mulher em Moçambique?
GM: A luta da mulher continua. Noutras vertentes. Nós, durante a luta de libertação nacional, estávamos a lutar pela emancipação da mulher, que até agora continua. Quando chegámos cá, encontrámos outra situação que é a violência contra a mulher. A luta continua. Vai continuar. Sempre que houver outros desafios que obriguem a mulher a lutar pelo seu bem.
DW África: Quais são, na sua opinião, os maiores desafios para a mulher moçambicana?
GM: Ela tem que continuar a lutar. Quem sabe se um dia podemos ter uma Presidente. A luta não pára, ela tem de continuar para [obtermos] essa igualdade. Porque não foi o homem só que libertou este país. Iniciou-se a luta e ela deve continuar para os novos desafios.
Vicente Berenguer Llopis, “o padre branco de coração negro”
Mudou-se para Moçambique em 1967. Ia pregar o Evangelho, mas a sua missão acabou por ir mais longe: o missionário espanhol apostou na educação como forma de combater a pobreza e denunciou o Massacre de Wiriyamu.
Quando chegou a Moçambique, Vicente Berenguer instalou-se na província central de Tete, mais tarde mudou-se para a capital, Maputo, e hoje vive na vila de Ressano Garcia, na fronteira com a África do Sul.
Em Moatize, Tete, apercebeu-se de que a maioria dos moçambicanos com quem tinha contacto tinha concluído apenas a quarta classe e que grande parte era analfabeta. Começava assim o seu envolvimento na educação: na vila carbonífera mandou construir o primeiro liceu.
Nos anos 1970, Berenguer enfrentou as políticas colonialistas portuguesas que excluíam a população negra não assimilada, foi interrogado diversas vezes pela PIDE, a polícia política portuguesa, e convidado a deixar Moçambique. O povo, esse, confiava nele, diz o padre espanhol.
DW África: Alguns moçambicanos vêem-no como o “padre branco de coração negro”. Como interpreta esta alcunha?
PV: Eu estava na missão de Changara, a FRELIMO [Frente de Libertação de Moçambique] descia já das zonas do norte de Mucumbura para a zona de Changara e começou a ter contactos tanto com a missão como com a população, era um sistema que utilizavam. Então, um dia numa aldeia, Cancuni, havia um grupo de homens que eu conhecia a falar e quando eu cheguei, eles fecharam a boca todos. O velho Zoni utilizou esta frase: “mas por que fechámos a boca se o padre Vicente é branco, mas o coração dele é preto como o nosso?” Queria dizer: „ele está a sentir como moçambicano”.
DW África: Como alguém de fora, como espanhol, a quem a independência de Moçambique não dizia diretamente respeito, como começou a interessar-se por essa causa?
PV: Eu acho que [perante] qualquer injustiça, seja dada onde for, ainda que não seja no nosso país, somos obrigados a defender os direitos das pessoas. Via-se claramente que este povo tinha o direito à independência. Portanto, ainda que eu fosse espanhol, estava a trabalhar aqui e tinha de me inteirar dos direitos deste povo.
DW África: E chegou a levantar a voz de forma direta em prol dessa causa. Quando começou essa sua postura ativa?
PV: Não podemos dizer que houve um momento determinado em que levantámos a voz. Talvez tenha sido o dia-a-dia do nosso trabalho em que alguém podia reparar que nós realmente estávamos a favor da independência. Houve certos momentos em que tivemos de nos pronunciar. Houve uma reunião famosa entre os padres brancos e, sim, declarámos abertamente que este povo tinha o direito à independência. “Vamos ser expulsos, mas por enquanto podemos trabalhar aqui dentro, ainda consciencializando muitas coisas.” Então, os padres brancos optaram por fazer uma declaração. Quando colocaram um avião no aeroporto da Beira, penso que 44 foram expulsos. Nós continuámos a trabalhar aqui fazendo tomar consciência da realidade deles, do orgulho da própria cultura, do ser moçambicano, do ser africano e daqueles direitos que tinham a ser um povo independente e a levar-lhes a renda da nação deles.
DW África: O que é que distinguia o seu dia-a-dia durante a época da luta de libertação de uma época em que não houvesse luta armada?
PV: Era uma vida mais tensa. Porque não podemos esquecer que nós estávamos rodeados por um exército português, estávamos rodeados por uma PIDE, estávamos rodeados por muitos portugueses que se sentiam feridos quando se falava dos direitos deste povo. Então, era uma tensão constante.
Eu fui interrogado pela PIDE x vezes. Eles encontravam, por exemplo, medicamentos de origem espanhola em bases que eles atacavam ou em aldeias. E perguntavam-me se eu conhecia. Sim, eu conhecia, “fui eu que entreguei.” “Então, o senhor entregou à FRELIMO.” “Não, eu entreguei à população. Nunca vi escrito na cabeça de ninguém: FRELIMO. Eu entrego à população, mesmo mantas e tudo isso.”
Uma vez eu fui mais para o interior e a tropa portuguesa estava a recolher as pessoas para irem para os aldeamentos e eu fui apanhado pela tropa portuguesa. Então, queriam que eu voltasse e eu disse: “Preso eu vou. Agora se não vou preso, eu continuo o trabalho por aqui.” Havia aquela concordata, era muito difícil eles prenderem-te sem uma causa muito, muito clara. Então, as vezes em que fui interrogado pela PIDE, em Tete, foi simplesmente à base de suspeitas.
DW África: Que consequências tinham esses interrogatórios?
PV: [Os interrogatórios mostravam que] realmente estávamos a ser vigiados. Mesmo dentro de grupos de moçambicanos havia pessoas que podiam participar à PIDE partes da tua vida e do teu trabalho.
DW África: No dia 16 de dezembro de 1972, as tropas portuguesas atacaram três aldeias na província de Tete: as povoações de Chawola, Juwau e Wiriyamu. Os sobreviventes do massacre, que ficou conhecido como Massacre de Wiriyamu, relataram os acontecimentos a missionários espanhóis. Um deles foi o senhor…
PV: Eu ia de machibombo de Changara até Tete. E quando passámos por essas aldeias, estavam todas em chamas e toda a gente estava a correr para a estrada. Parámos aí, a gente berrava e dizia que estavam a ser mortos, chacinados, bombardeados e foram subindo para o machibombo até não caberem mais e fomos até Tete. Outros foram a pé e como puderam fugir. Tete não fica tão longe de Wiriyamu. Portanto, eu fui, diríamos, testemunha, porque vi as chamas e ouvi aquelas pessoas.
DW África: Denunciou o Massacre de Wiriyamu a nível internacional. Como fez a denúncia?
PV: Quando Marcelo Caetano visitou a Inglaterra, Hasting publicou este relatório que fizemos, cada um colaborou no que podia, uns com nomes, outros com ideias. Bom, negaram que isso fosse real e negaram mesmo a existência de Wiriyamu. E através da Justiça e Paz fomos à Alemanha, Holanda, Bélgica e Inglaterra. Então, aí denunciámos através da televisão, através de palestras, através de tudo. Pedimos que viesse aqui uma comissão ver que Wiriyamu existia e que os massacres tinham sido realizados e que as centenas de pessoas ainda estavam lá. Na Holanda, o cardeal Alfrink imediatamente telefonou para Roma e a igreja mexeu-se muito neste sentido e os políticos também.
DW África: Há historiadores que consideram que este massacre mudou o rumo da guerra colonial. Concorda?
PV: Bom, eu pessoalmente acho que não. Eu acho que isto estava a cair já, mesmo a tropa estava desanimada, podia haver dirigentes do exército fortes, mas o que eu via com os soldados portugueses, eles estavam desanimados, diziam que isto não era para eles, era a ganância económica de alguém, não era para eles nem para Portugal. Eu acho que isto estava a decair já. Antes já tinha havido importantes massacres, em Mucumbura, Inhaminga. Só que este de Wiriyamu passou para fora. E aproveitou-se também a ida de Marcelo Caetano ao exterior e [teve mais projeção], mas eu acho que já se estavam a preparar. Só que, enquanto Mucumbura estava a 300km de Tete, Wiriyamu estava às portas de Tete. E a cidade de Tete corria perigo. E o mundo ficou escandalizado quando [os relatórios] foram publicados.
DW África: Acha que ainda existem feridas na população moçambicana relacionadas com a guerra de libertação?
PV: Não, eu acho que a FRELIMO sempre soube explicar muito, muito bem que a guerra não era contra os portugueses, era contra o exército português, o Governo português. Portanto, eu acho que não houve feridas, diríamos assim. Se há alguma ferida, pode ser daqueles mais extremistas, no sentido de racistas, ao ver que aqui há brancos moçambicanos com todos os direitos, de quatro, cinco, seis gerações, podem sentir-se um bocado feridos, mas da luta de libertação, eu acho que não.
DW África: Houve algum episódio da guerra de libertação que o tenha marcado especialmente?
PV: Um [episódio] caricato muito bonito foi que eu uma vez recebi uma encomenda de Espanha, umas canas de bambu pequenas, porque na aldeia onde vivia o meu irmão fazem muita mobília de bambu importado. E ele queria vir aqui ver se havia. E eu falei que aqui, onde eu estava, não havia bambu. E eles pensavam que eu não sabia o que era bambu. E enviaram-me numa caixinha uns pedacinhos de bambu. E aí chamou-me a PIDE em Changara, nos correios, para eu dizer o que era isso. “Isto é bambu.” “Parte para saber se é bambu ou não. Vamos partir isto para saber o que tem dentro.” “Podem partir, mas isso é bambu”. Então, é caricato desconfiar de umas canas pequenitas. Não sei se havia algum segredo, mas era bambu tapado. É uma coisa caricata.
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- Autoria Marta Barroso
- Palavras-chave 40 anos; Revolução dos Cravos; Moçambique; independência; Vicente Berenguer Llopis
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