domingo, 2 de outubro de 2016

Apostamos na formação do nosso próximo corpo docente

– Francisco Noa, reitor da UniLúrio, quer mais mestrados até 2020
A Universidade Lúrio (UniLúrio) caminha para o seu décimo aniversário, pretexto para uma conversa com o reitor Francisco Noa. Nas linhas que se seguem, este académico fala dos principais desafios da instituição que dirige, sublinhando que o mais importante é a adopção de uma mentalidade lutadora no esboço de novos cursos e na criação de um corpo docente nacional.
A Universidade Lúrio caminha para o seu décimo aniversário. Que programas concretos foram desenhados visando a consolidação do seu crescimento?
No plano estratégico que desenhámos para o período 2016/2020 definimos dois grandes objectivos. Um deles é o fortalecimento institucional, o outro é crescimento com qualidade. Para concretizarmos isto definimos seis pilares. Um pilar tem a ver com a área científico-pedagógica; o segundo tem a ver com cooperação/internacionalização; o terceiro com avaliação de qualidade; o quarto relaciona-se ao fortalecimento institucional; o quinto com infra-estrutura/património; e o sexto articula-se com aquilo que nós chamamos áreas transversais.
No essencial, isto quer dizer que o que nós pretendemos nos próximos cinco anos é consolidar aquilo que a UniLúrio realizou de melhor nestes seis pilares que lhe apresentei no sentido de que é uma universidade que já tem infra-estruturas quer aqui em Nampula, onde temos duas faculdades, quer em Pemba, onde temos mais duas faculdades.
Aqui em Nampula, além da Reitoria, temos a Faculdade de Ciências da Saúde e Faculdade de Arquitectura. Em Pemba temos a Faculdade de Ciências Naturais e a Faculdade de Engenharia. Em Lichinga temos a Faculdade de Ciências Agrárias.
Temos esta infra-estrutura que é um aspecto positivo para uma universidade tão jovem. Temos equipas muito jovens, dinâmicas, comprometidas com ideais e objectivos da UniLúrio…
Sendo uma universidade jovem, como muito bem referiu, como é que ela se apresenta em termos de recursos humanos?
Em termos de recursos humanos, temos, como disse, equipas muito jovens, quer na área pedagógica, quer na área técnico-administrativa. Neste processo de consolidação institucional, estamos a investir muito, em primeiro lugar, na mentalidade. Queremos que os nossos quadros sejam os que estão ligados à missão, apoiam a missão e estejam seriamente comprometidos com a instituição no sentido de terem uma mentalidade que implica responsabilidade, dedicação, trabalho e muita honestidade intelectual e técnica.
Um dos grandes desafios que temos, de facto, na instituição é exactamente consolidar este aspecto da atitude. Por outro lado, estamos a investir na formação. Neste momento estamos a terminar o nosso plano de formação de toda instituição. Temos vários quadros nossos a formarem-se em instituições aqui em Moçambique e fora do país, quer a fazer mestrado, quer a fazer o doutoramento.
Significa que …
Neste aspecto da consolidação institucional, queremos que o nosso quadro técnico funcione com os mais elevados princípios e competências. Apostamos, sobretudo, em três elementos fundamentais nesta área técnico-administrativa, porque ela é fulcral enquanto área de apoio, que é um aspecto de rigor na execução, que é o aspecto da celeridade e a questão da transparência.
O que estamos a querer garantir é que os nossos procedimentos administrativos e financeiros sejam os mais estáveis, transparentes possíveis e mais eficazes.
Por que essa questão?
Porque nós nos apercebemos, em todo o trabalho de auscultação que fizemos na universidade, que todas as reflexões que queríamos desenvolver, quer na área científica, quer na área pedagógica, chocavam sempre com questões que tinham a ver com a área administrativa e financeira. Estamos a fazer um trabalho tremendo a este nível. Obviamente que, do ponto de vista administrativo, temos uma série de instrumentos, vamos adoptar agora um manual de procedimentos administrativo-financeiros para que esta área seja efectivamente o suporte de toda a actividade da UniLúrio, porque não é possível avançarmos para uma perspectiva de desenvolvimento na área científica ou na área pedagógica se tivermos a estrutura de suporte muito fragilizada. Então estamos a construir isto com um trabalho, digamos, de consciencialização, mas também com trabalhos de formação, entretanto não deixamos de nos virarmos para a área científico-pedagógica. Evidentemente que há uma questão que gostava de colocar, que é de viabilidade financeira que depende de muitos factores. Todos nós estamos empenhados nesta crise que não é apenas de Moçambique… 
A Universidade Lúrio está a sentir o impacto da crise financeira?
Afecta-nos brutalmente. Somos uma universidade do Estado, somos uma universidade pública. Mais de 97 por cento do nosso orçamento vêm do Estado, o que significa que a crise que atravessa o país afecta-nos directamente. Mas nós decidimos que a crise não nos deve imobilizar, por isso estamos a fazer da crise uma plataforma de relançamento da instituição. Assumimos que temos de ser nós a resolver o problema, não podemos depender do Estado. Todas as faculdades, todas as unidades estão instruídas no sentido de encontrarem soluções internas que permitam ultrapassar esta dependência tremenda em relação ao Orçamento do Estado. São muitas actividades, muitas acções que estão definidas para conseguirmos, de facto, sair deste cerco. Para sermos, efectivamente, uma universidade com autonomia, porque não adianta nós falarmos só de autonomia e estarmos completamente dependentes do Estado.
De que forma pretendem efectivamente minimizar a dependência?
Com base em parcerias, com base em iniciativas internas, estamos a criar condições para sermos uma universidade sustentável. Posso dizer que neste momento aquilo que mais nos mobiliza é a sustentabilidade da universidade.
Refiro-me à sustentabilidade financeira, administrativa, que nos vai permitir depois a sustentabilidade em termos de produção científica em termos de formação e de extensão …
A extensão universitária deve ser acompanhada de um programa concreto de formação em recursos humanos. Não sentem défice de docentes?
A extensão universitária é uma coisa. Está a falar daquele pilar a que  me referi que é o pilar pedagógico-científico. Nós temos, de facto, um défice de docentes. A UniLúrio é uma universidade nova, e para ela existir, funcionar, teve de depender muito (e continua a depender) de docentes estrangeiros. Temos uma dívida enorme em relação aos docentes estrangeiros. São eles que não só têm suportado grande parte do ônus de funcionamento da instituição como alguns deles têm sido factor  de qualidade dentro da instituição. Têm sido uma referência que nós não queremos, obviamente, perder. Mas é muito importante que a UniLúrio passe para uma situação em que a maior parte do seu corpo docente seja substancialmente nacional. 
Haverá algum plano nesse sentido?
As faculdades têm um plano de formação. Temos muita gente a formar-se fora, nomeadamente em Portugal, Japão, China, Brasil, Malásia e Espanha. O que vamos fazer com o plano de formação é garantir que tenha melhor enquadramento e uma maior capacidade de gestão da nossa parte, porque o que pode acontecer é que, de repente, em certas áreas vamos ter excedente de pessoas formadas e depois teremos dificuldades em incorporar. A nossa meta é ter o nosso corpo docente. Temos muitos jovens a fazerem mestrado, mas precisamos de muitos mais para doutoramento. Até 2020 teremos de ter mais de um terço do nosso corpo docente com mestrado e doutoramento.
Qual é o ponto de situação agora?
Os números que eu tenho do início do ano apontavam para cerca de dez doutorados em toda a universidade. Estamos ainda muito longe.  O número de mestres ainda é insuficiente para aquilo que são as exigências da nossa universidade…
 Conseguimos reunir condições
mínimas na formação de médicos
Não é fácil formar médicos. Muitas universidades evitam ministrar cursos de Medicina. A UniLúrio está tecnicamente preparada para formar médicos de qualidade?
Um dos aspectos diferenciadores da UniLúrio  e que todos os 14 cursos que têm  ao nível da licenciatura são técnicos. Todas as faculdades que temos são faculdades técnicas. Isso é óptimo porque resolve problemas imediatos.
Esses cursos têm de ser alimentados, com infra-estrutura, com equipamentos, com laboratórios, e não basta comprar apenas uma vez. É preciso permanentemente renovar esse equipamento.
Com todos esses constrangimentos, com todas essas limitações financeiras, é um grande exercício que nós temos de fazer para conseguirmos manter níveis mínimos de qualidade na formação dos nossos quadros não só de saúde.
Conseguimos reunir condições mínimas. Eu penso que o desafio maior neste momento é termos recursos humanos nossos, conseguirmos ter médicos com o nível de alguns médicos estrangeiros que nós temos aqui  e nos apoiam. Obviamente que a componente técnica é crucial para uma universidade como esta... 
O que podemos esperar da UniLúrio no futuro?
Já percebemos que começa a ser muito difícil mantermo-nos só virados para estes cursos técnicos. Queremos, por isso, diversificar a oferta dos nossos cursos.
A partir do próximo ano, vamos começar a oferecer cursos aqui na UniLúrio que são técnicos mas que não criam grandes investimentos do ponto de vista de equipamentos. Por exemplo estamos a pensar  abrir uma “business school” aqui mesmo na cidade de Nampula. Estamos a falar de cursos como contabilidade, economia e gestão.
Vamos abrir uma Faculdade de Ciências Sociais e Humanas na Ilha de Moçambique onde vamos iniciar com dois cursos, nomeadamente Turismo/Hotelaria e Desenvolvimento Local/Relações Internacionais.
Numa primeira fase, como se trata da ilha, vamos fazer alguns investimentos, mas depois estes cursos irão funcionar de forma quase autónoma sem grande dependência dos laboratórios. Por outro lado, precisamos de elevar o número de ingressos. O número de novos ingressos que temos anualmente é muito reduzido… 
Qual é a razão por detrás do número reduzido de ingressos?
Tem a ver com os cursos que nós oferecemos. Quando aceitamos determinado número de estudantes temos em conta os equipamentos de que dispomos. O que significa que o estudante não pode estar num laboratório a sobrar. Estamos a pensar abrir cursos de gestão da área ambiental no sentido de termos mais estudantes, porque se a UniLúrio tem a função de reduzir as assimetrias, tem de incrementar o número de estudantes e de graduados. A nossa ideia é aumentar gradualmente, porque queremos crescer com qualidade. Acreditamos que com essa abertura, com essa diferenciação, vamos aumentar o número de estudantes.
Temos um dos rácios mais baixos em Moçambique. O nosso rácio é um professor por oito estudantes. Isso nem na Noruega, nem na Dinamarca. E a UniLúrio existe há nove anos.
Quando surgiu tinha 140 estudantes, hoje tem cerca de 2600 estudantes. Apesar de termos crescido vinte vezes estamos muito aquém daquilo que devia ter sido o crescimento. Então este crescimento não é desregrado, vai ser um crescimento muito bem medido, muito bem controlado. Um dos nossos grandes objectivos é fazermos da UniLúrio um centro de excelência não só em Moçambique mas também na região.
Universidades têm uma palavra
a dizer no processo de descentralização
Estão a expandir-se para Cabo Delgado e Niassa. Isso acarreta exigências em termos de recursos humanos. Insisto: estão a acompanhar este movimento com a devida formação de docentes?
A UniLúrio e a UniZambeze surgiram com um objectivo muito concreto. São universidades tendo como foco a redução das assimetrias que existem no país. E essas assimetrias são reais.
Essas universidades acabaram por ocupar zonas. A UniZambeze ocupa quatro províncias do Centro e a UniLúrio as três províncias do Norte.
De facto, isto é extremamente desafiador do ponto de vista de gestão …
Outro problema, real, associa-se ao facto de o Centro do país continuar a ser Maputo. Portanto, tudo acontece em função de Maputo. Nós somos uma universidade central e há uma série de coisas que não podemos realizar se não tivermos de ir a Maputo. Acho que a descentralização é um dos grandes desafios que nós temos no país. E eu não tenho dúvidas que essas universidades poderão ter um papel crucial para essa descentralização acontecer, porque o facto de nós termos de funcionar, em tempo real, e, sobretudo, segundo padrões internacionais, isso obriga a uma grande exigência. Por outro lado, os quadros que nós formamos vão ser um factor diferenciador.
Portanto, não tenho dúvidas que a estratégia do Governo em apostar nessa expansão das instituições de ensino superior, embora em algum momento tenha havido alguma desorientação, penso ter sido uma estratégia válida e por isso necessária.
O que nós temos de fazer, em vez de estarmos a lamentar, é arregaçarmos as mangas e sermos um factor de transformação. Eu acredito que um dos factores de transformação que as universidades vão habilitar é a transformação das mentalidades. Essa assimetria a que eu me referi não é apenas uma assimetria em termos patrimoniais, infra-estruturas, é, sobretudo, em termos de mentalidades.
Bento Venâncio
bento.venancio@snoticicas.co.mz
Fotos de Inácio Pereira

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