domingo, 16 de outubro de 2016

Acordo com o “aparheid” visava tirar Moçambique do sufoco”

Samora 30 anos/Joaquim Chissano:”

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O ex-Presidente moçambicano Joaquim Chissano considera que o seu antecessor Samora Machel viu-se obrigado a assinar o Acordo de Nkomati com o regime do "apartheid", porque era a única forma de tirar o povo do sufoco da guerra.
"Eu penso que [a assinatura do Acordo de Nkomati] não foi o mais doloroso [para Samora Machel], porque ele sabia ou sentia que era naquele momento a única forma de dar uma oportunidade para o povo moçambicano se sentir menos sufocado", disse Chissano à Lusa.
A assinatura do Acordo de Nkomati entre Samora Machel e Pieter Botha, na altura Presidente da África do Sul, em 1983, nas margens do rio que dá nome ao entendimento, obrigava Maputo a expulsar de Moçambique e a parar o apoio aos militantes do Congresso Nacional Africano (ANC), atual partido no poder na África do Sul e que na altura lutava contra o "apartheid", e impunha a Pretória que acabasse com o apoio à Resistência Nacional Moçambicana (Renamo), que estava em guerra com o Governo da Frente de Libertação de Moçambique (Frelimo).
Segundo Joaquim Chissano, apesar de o acordo com a África do Sul, cujo sistema de segregação racial vigente na altura era considerado crime contra a humanidade pelas Nações Unidas, ter sido mal recebido em alguns círculos internacionais, era também uma forma de Moçambique ganhar tempo face à devastadora guerra com a Renamo, patrocinada pelo regime do "apartheid", que também fazia incursões militares diretas em Moçambique.

"Dentro da Frelimo, se houve alguém que não compreendeu, eu não conheço. Fala-se aí que houve uma luta dentro da Frelimo, eu não conheço essa luta, nós todos apoiámos a estratégia do Presidente Samora Machel, nós todos sabíamos em que situação estávamos a lutar, a correlação de forças que existia", declarou Chissano, que era ministro dos Negócios Estrangeiros do Governo de Samora Machel, referindo-se à supremacia militar da África do Sul.
Contudo, no plano externo, prosseguiu o antigo chefe de Estado moçambicano, houve alguma incompreensão, foi uma surpresa, uma vez que as pessoas conheciam a firmeza de Samora Machel na luta contra o imperialismo, colonialismo e racismo.
"Conhecendo que o Presidente Samora Machel não hesitou em enviar tropas para o Zimbabué e que deram a vitória ao Zimbábue, as pessoas ficaram surpresas, conhecendo a amizade entre o Presidente Samora Machel e o presidente Oliver Tambo do ANC e a admiração que ele tinha pelo presidente Mandela", assinalou o antigo estadista.
De acordo com Chissano, o Acordo de Inkomati permitiu a Moçambique ganhar tempo e expor o regime da África do Sul a uma maior pressão diplomática para acabar com a segregação racial, imputando a Pretória o ónus da desestabilização em Moçambique e na África Austral.
"A África do Sul perdeu muito do apoio que vinha de fora, portanto, passou a África do Sul a ser vista como relutante, que não queria fazer mudanças, não queria a paz, foi uma estratégia muito boa, porque isso fez com que o próprio ´apartheid` tivesse que mudar", defende Joaquim Chissano.
Chissano considera que Pretória não cumpriu a sua parte do acordo, pois transferiu muito apoio militar para a Renamo, permitindo à guerrilha deste movimento capacidade de alastramento da guerra civil, que apenas terminou em 1992 com a assinatura do Acordo Geral de Paz (AGP) em Roma, oito anos após o Acordo de Nkomati.
"O 'apartheid' não cumpriu a sua palavra, porque depois do Acordo de Inkomáti, eles fizeram com que a guerra de desestabilização se estendesse a todo o país", declarou o antigo chefe de Estado moçambicano, que ascendeu à Presidência apo a morte de Samora Machel e permaneceu no cargo durante 18 anos até 2005.
O primeiro Presidente moçambicano morreu num desastre de aviação a 19 de outubro de 1986 em Mbuzinini, na África do Sul, quando viajava entre a Zâmbia e Maputo.
As autoridades moçambicanas mantêm até hoje a versão de que o avião foi derrubado intencionalmente pela África do Sul.
Lusa – 16.10.2016

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