Por André Catueira*
Oito horas depois de ocupar a sua casa
nas Palmeiras, Dhlakama acordou cercado,
às 06h00 de sexta-feira, 09, e mais
tarde “invadido” por forças de elite da
polícia, que precisaram de 10 horas (até
cerca das 16h30) - entre empurrões,
pontapés, muitos nervos e alguma negociação
- para desarmar a sua guarda.
Mostrando a sua fibra, Dhlakama evitou
claramente um banho sangue na cidade
que é conhecida pela sua hostilidade à
Frelimo e às entidades governamentais
a soldo do mesmo partido. Na operação
da sexta-feira apareceram do lado da
polícia homens armados à civil, um denominador
comum com os dois ataques
anteriores à comitiva de Dhlakama em
Chibata (a 12 Setembro, 16km a oeste
de Chimoio, na EN6) e Zimpinga (25
Setembro, 41 km a leste de Chimoio
na EN6, entre Gondola e a Missão de
Amatongas).
Um percurso moroso
A operação de resgate de Dhlakama
esteve para acontecer quarta-feira, mas,
em Maputo, os mediadores não obtiveram
na segunda-feira as autorizações e
os bilhetes para partirem para o centro
do país. Acordou-se depois que deveria
haver também um representante governamental,
para o caso, o brigadeiro
Mucave, do Ministério do Interior
(MINT). Os mediadores acabaram por
sair para a Beira no voo da noite de
quarta-feira.
Às 08h47 minutos, a comitiva da Beira,
com os mediadores no diálogo entre
o Governo e a Renamo (e onde vinha
também a jurista Alice Mabota e o
jornalista Fernando Lima), junta-se
à equipa de jornalistas, que vinha de
Chimoio, no cruzamento de Inchope e
segue em direcção à vila da Gorongosa,
onde se chegou depois de uma hora de
viagem. Estava afastada a hipótese de a
“parte incerta” ser no distrito de Gondola,
onde o líder da Renamo foi visto
pela última vez. Da Beira veio uma “delegação
de peso” da Renamo: o SG Manuel
Bissopo, Ivone Soares, José Manteigas,
António Muchanga e Fernando
Mazanga, para além de vários militares
em traje civil.
Numa pausa na Gorongosa, Lourenço
do Rosário, que chefiava a equipa de
observadores, faz uma declaração curiosa:
“efectivamente que já estamos num
roteiro novo, que já se está a pôr em
prática aquilo que é a agenda: discutirse
a sério a desmilitarização da Renamo,
e depois toda a agenda de inclusão e boa
governação no país”, insistindo que era
prioridade “desarmar a Renamo”.
Na mesma ocasião, D. Dinis Sengulane,
no seu tradicional apelo à paz, defendia
que com o reaparecimento de Afonso
Dhlakama, era “uma oportunidade de
todos trabalharmos por esta causa (paz),
sem receio e nenhuma dúvida de que
não há outro ser humano que quererá
eliminar outro”.
Cerca das 10h30, as viaturas perfiladas
em caravana na vila – contabilizámos 26
carros alguns com matrículas do Estado
- e sem se saber ainda o destino concreto,
rumamos pela EN1 na direcção
norte da Gorongosa, avistando-se à
nossa direita a encosta da serra que acomoda
a base de Satunjira, para onde a
maioria pensava que fôssemos.
Desta vez a oeste
Pelas 11h00, 12 quilómetros depois, no
cruzamento da EN1 com Malinde, desviamos
à esquerda para uma picada de
areia creme e muita rocha e começámos
a descer em direcção à localidade de Sacudze,
onde em tempos funcionou um
temível centro de reeducação, de onde
em 1976 se evadiu André Matsangaíssa,
o primeiro líder da Renamo. No cruzamento
para Sacudze, virámos ainda
mais para sudoeste, em direcção a Cudzo,
numa picada para madeireiros tipo
“sobe e desce”, bordejada pela floresta
de miombo e com inúmeras concessões
florestais explorando a massa e a pagapanga.
As comunicações por telefone
eram péssimas. Nem a chamada “telefonia
do mato” ajudava. Claramente não
havia coordenadas de GPS para o local
onde estava o líder. O chefe da polícia,
tentando ser simpático, dizia que no dia
anterior “tinha pedido o mapa à Renamo”
para facilitar o trajecto.
Volvidas 4:15 minutos, depois de evitarmos
o rio Vunduzi, perdida a direcção
por duas vezes e depois de se aceitar a
“escolta” de motoqueiros com enormes
bandeiras da Renamo nas motos, já
numa picada do régulo Mucucua, a sul
de Cudzo, guiados também por pequenos
galhos de árvores indicando o troço
correcto, avistámos o primeiro cordão
de segurança de Afonso Dhlakama, que
vedou a passagem do carro da escolta
da polícia para o perímetro onde estava
o líder da Renamo, mas deixa passar o
resto da caravana.
Finalmente
Às 15h15, Afonso Dhlakama reaparece
numa mata fechada, na berma da estrada,
visivelmente pálido e cansado,
óculos escuros, ao lado de duas cadeiras
plásticas verdes sobrepostas, onde se
supõe tenha estado sentado à espera da
chegada da comitiva.
No local não havia nenhum sinal de
acampamento. Os homens da sua
guarda ao redor, com as trouxas que sobraram
do ataque do dia 25 de Setembro,
algumas esteiras enroladas, além de
panelas e copos, sugerindo terem sido
requisitadas durante a sua estadia na
mata.
Dhlakama saúda primeiro os mediadores,
depois o oficial sénior do MINT
que esteve em frente das operações do
seu reaparecimento, e de seguida aos
jornalistas, pelos seus respectivos nomes
um a um. Ao todo eram 19 jornalistas
(incluindo cameramen e fotógrafos)
de órgãos públicos e privados nacionais
e estrangeiros. Faz uma saudação
mais calorosa para o repórter da TVM
que, nas suas palavras, foi pressionado
inúmeras vezes para reportar negativamente
sobre a Renamo. “Meu amigo
ainda vais perder o emprego”, disse em
tom jocoso.
O ritual do reaparecimento de Dhlakama
é dirigido pelo professor Lourenço
do Rosário, mas é logo interrompido
por uma oração do bispo Sengulane,
perante a impaciência de muitos, pois o
pôr do sol está próximo e ninguém quer
ser apanhado à noite no meio da floresta.
Depois, a imprensa quer uma declaração
de Afonso Dhlakama, mas os
jornalistas são avisados que as perguntas
seriam reservadas para uma conferência
de imprensa à sua chegada na Beira.
Já morri
Numa breve declaração, dois minutos,
Dhlakama, que tinha escapado ileso em
duas emboscadas, surpreende os jornalistas
e afirma: “Não tenho medo de
morrer. Já morri, para mim já morri”.
Prosseguindo, Dhlakama disse que
tinha galgado montanhas e matas para
chegar a Mucucua, e justificou a razão
de ter reaparecido na Gorongosa, distante
de Zimpinga (Gondola), onde
havia sofrido uma sangrenta.
“Como sabem o que aconteceu foi
em Manica, tínhamos de percorrer
quilómetros e quilómetros nas montanhas
para chegar aqui. Queríamos que a
operação pudesse ocorrer em Manica,
mas vimos que havia obstáculos, havia
muito reforço (de militares) nas estradas
e tudo, decidi fazer um corta-mato
para chegar até aqui. Portanto, ainda
não é o momento de dizer o que é
que aconteceu, mas dizer o meu muito
obrigado, porque encontraram-me vivo,
vivo porque Deus existe”, declarou
Dhlakama, mandando recados para o
povo “contar comigo como sempre, não
iremos desistir por temer a morte”.
Dhlakama, que estava em alerta pela
movimentação em Manica de altos
quadros do Ministério da Defesa Nacional,
garantiu que ia continuar a trabalhar
e prometeu não se vingar, por
não “ter em Moçambique figuras de
quem me posso vingar”. Mais relaxado
e depois de tirar os óculos (precaução
devido a uma operação às cataratas),
Dhlakama repete várias vezes: “temos
tudo aqui, intelectuais, clérigos, jornalistas,
muitos, todos moçambicanos, não
há americano, isto é unidade nacional …
o que falta para nos entendermos?”. Do
Rosário quer saber se a missão dos mediadores
“termina aqui ou na Beira …”.
Dhlakama interrompe-o. “Vamos falar
amanhã na Beira. Falamos e depois vamos
a Maputo, para assinar o que tiver
de ser assinado”.
Dhlakama deixa o local de resgate perto
das 16horas, para um percurso de 41km
na picada e depois de vários discos de
embraiagem queimados devido aos declives
muito acentuados. Às 18h40 faz
uma pausa na vila da Gorongosa, desce
do carro e através de um megafone,
saúda a população que tinha invadido a
estrada para ver o seu segundo reaparecimento.
Tranquiliza-os: “não há guerra”.
O chefe da polícia “aprova” a moderação
do líder.
A população exaltava-o com cânticos,
clamando em coro “macorocoto”,
o que em chiduma, uma das línguas
na Gorongosa, significa “bênção”, não
muito distanciado do coro do seu reaparecimento
em Satunjira, a 4 de Setembro
de 2014, que dizia “teremos
saudades tuas”.
Às 22:15, Dhlakama chegava a sua casa
no bairro das Palmeiras, despediu-se
dos mediadores, que deviam manter
uma reunião de uma hora naquela noite
a que se seguiria a conferência de imprensa
com jornalistas. Porém, os dois
encontros passam para o dia seguinte.
Em Manica, enquanto se executava a
operação de reaparecimento de Afonso
Dhlakama, e mais tarde a invasão da sua
casa nas Palmeiras, estavam o ministro
da Defesa Nacional, Atanásio Ntumuke,
o Chefe de Estado Maior General,
Graça Chongo, o General Mussa
e os comandantes dos três ramos das
Forças Armadas. A delegação regressou
a Maputo, a partir de Chimoio, no domingo,
11.
Cerco e invasão
Sexta-feira, enquanto os jornalistas da
“operação resgate” e os colegas baseados
na Beira se preparavam para a confer-
ência de imprensa, somos alertados às
07h37 sobre o cerco à casa de Afonso
Dhlakama. Dezanove minutos depois
cheguei, com outros jornalistas, ao
quarteirão da casa, e todos os acessos
estavam bloqueados com homens da
Unidade de Intervenção Rápida (UIR),
e mais a fundo do Grupo Operativo
Especial (GOE), fortemente armados,
com blindados e dezenas de viaturas
HZ com metralhadoras montadas. A
vizinhança de Afonso Dhlakama foi
toda convidada a abandonar as casas,
atitude que indiciava um assalto que
resultaria em confrontos. Mulheres,
homens e crianças corriam para sair do
perímetro de acção.
Tentámos transpor o cordão de segurança
e, com as armas apontadas ao
peito, fomos avisados – sem palavras,
apenas os homens acenavam com arma
apontadas a nós - para recuar. Contornámos
uma rua e outra que dava
acesso directo ao portão de Dhlakama
e posicionámo-nos. O número de jornalistas
engrossou e a “brutalidade” da
Polícia também se elevou.
Três homens chamam nervosos o editor
do “Canal de Moçambique” que tentava
fazer fotos com o computador. O jornalista
atravessou a rua, foi ao seu encontro
e exibiu o crachá, mas foi avisado
para ficar distante.
Às 9h02 (horas controladas pelas fotos
digitais feitas durante a operação), uma
ordem é dada para accionar as armas
para disparo, as armas são carregadas,
os jornalistas são mais uma vez avisados
para sair do perímetro e afastar as viaturas
para longe.
Um grupo da GOE aproxima-se do
portão de acesso ao quintal de Dhlakama
– mantinha-se ainda no interior
com a sua guarda e staff – e com recurso
a pontapés derrubam o portão e invadem
o quintal e entram depois para interior
da casa. No rés do chão recolhem
roupas e documentos.
Nenhum guarda da Renamo estava fardado,
pois estavam a lavar os uniformes
sujos do percurso na floresta no dia
anterior. E como era habitual ter dois
guardas armados no portão, fora do
quintal, ninguém estava naquela posição
quando chegámos.
Alguns guardas são presos a tentar
transpor o muro da casa de Dhlakama
para fora, pela parte traseira. Quase
todos são agarrados. Uns são espancados
por coronhadas das armas policial
e depois conduzidos, correndo, para um
blindado que estava a escassos 15 metros
da entrada da residência. Fazia um
calor intenso na Beira. O blindado, com
os guardas da Renamo dentro, foi colocado
debaixo de sol ardente.
Um homem algemado saiu do quintal
agarrado por dois Polícias e igualmente
é conduzido para o blindado, sugerindo-se
ser o mercenário estrangeiro que a
guarda da Renamo capturou no ataque
do dia 25 de Setembro em Zimpinga,
e que devia ser apresentado na confer-
ência de imprensa como prova do atentado
contra Dhlakama.
Elementos da Renamo contaram aos
jornalistas que no confronto de 25 de
Setembro, “havia vários zimbabweanos
à civil que estavam na emboscada com
a polícia”.
Alguns fardos, com uniformes da guarda
da Renamo, são retirados do interior
e colocados numa viatura de patrulha da
Polícia. Alguns minutos depois a viatura
deixa o local com vários pertences retirados
do interior da casa.
Dentro do edifício Dhlakama pergunta
por telefone ao brigadeiro Mucave o
que se estava a passar, recebendo como
resposta que este iria pedir esclarecimentos
a Maputo. Depois pede a comparência
dos mediadores que se preparavam
para regressar a Maputo. No
entanto, a polícia, por intermédio de um
militar da Renamo, informa que vinha
para levar as armas da polícia capturadas
durante os combates de 25 de Setembro.
Dhlakama, num primeiro momento
pensa numa vantagem política. “Afinal,
não fomos atacados por bandidos, foi a
polícia que nos emboscou”. O líder da
Renamo pede o número de armas e o
seu tipo: uma AKM, um RPG7 e uma
metralhadora pesada com filete de balas.
Dhlakama acede e manda entregar
as armas. Só depois é que vem o pedido
para a entrega de todas as armas.
Chegada de observadores
Até quase às 10 horas, enquanto decorria
o espectáculo policial, que tinha
paralisado literalmente a vida naquele
quarteirão, nenhum mediador se fez
ao local, para além da Alice Mobota,
presidente da Liga dos Direitos Humanos
(LDH), que também foi coagida
e ameaçada pela Polícia junto dos jornalistas.
Às 11h14, Alice Mabota e o resto dos
mediadores entram na casa de Afonso
Dhlakama. Rosário fez vários telefonemas
a Maputo ao mais alto nível
para saber o que se estava a passar. O
Chefe de Estado estava incomunicado,
ocupado com a visita do presidente da
Tanzania. Ao que o SAVANA apurou,
num primeiro momento não foi possível
falar com José Pacheco, o ministro
da Agricultura, nem com o ministro do
Interior. Conseguiu-se dar conta da situação
a Benvinda Levy, agora no Gabinete
da Presidência. Mas o sentimento
é que não havia clareza nas mensagens
que vinham de Maputo. Parecia que a
polícia agia de motu próprio. Dentro da
casa nota-se a ausência de vários quadros
da Renamo que no dia anterior estavam
com ele nas matas.
Fora da casa o clima de tensão abranda.
Alguns agentes já sentados de cansados,
outros reuniam-se em grupo de
três conversando, outros ainda deitados
encostados às acácias, os jornalistas conseguem
ir uns metros mais para o interior
e ficam mais perto do portão de
Afonso Dhlakama, sendo possível controlar
qualquer movimento.
Nesta altura passa por perto o polícia
mais anti-jornalistas e deixa uma frase
curiosa: “esse gajo quis envergonhar o
chefe”, sugerindo que a recusa de Afonso
Dhlakama, terá banalizado a postura
do Presidente da República, e enraivado
a ala militar do Governo.
Algumas horas antes, um outro agente
também fez escapar uma declaração curiosa:
“você nunca caçou uma gazela no
mato para depois vir matar na cidade”,
fazendo entender que o plano já havia
sido engendrado, e que qualquer resposta
armada da Renamo, acabaria com
o bombardeamento da casa.
Num primeiro momento, Dhlakama
“explode” em frente aos mediadores.
“Vamos deixar explodir isto tudo e vamos
ver o que vai acontecer”, disse fora
de si. Mas, minutos depois acalma-se
e com opiniões adversas de vários dos
seus colaboradores, concorda em entregar
as armas dos seus guardas.
A equipa dos mediadores sai toda do
interior da casa, movimenta-se em
chamadas telefónicas. Nesta altura,
11h40 chega o arcebispo da Beira,
Claúdio Zunna, e minutos depois o
edil de Quelimane, Manuel de Araújo,
que se encontrava a participar no VIII
Sessão do Fórum de consulta sobre terras.
Dhlakama pede a presença da governadora
de Sofala, Helena Taipo, para
presenciar o acto de entrega das armas
da guarda da Renamo.
Às 13h01 chega ao local Helena Taipo
depois de autorizada por José Pacheco,
falando em nome do PR.
Afonso Dhlakama esteve desaparecido nas matas 13 dias - das
13h24 do dia 25 de Setembro em Zimpinga, Gondola – até ao
seu reaparecimento às 15h15 do dia 8 de Outubro em Mucucua,
no sudoeste do distrito da Gorongosa, não muito longe do rio
Púnguè, tendo rumado de imediato para sua casa na Beira, escoltado por
inevitáveis aplausos populares, pela guarda sobrevivente (ao massacre de
Zimpinga) e por duas viaturas da UIR (Unidade de Intervenção Rápida),
mas acabou por pagar um preço elevado pelo seu regresso à vida pública.
Reconstrução do SAVANA dos locais onde foram feitos os ataques na EN6 contra Afonso Dhlakama. Igualmente os dois locais
onde o líder da Renamo foi resgatado em 2015 e 2014 e os percursos feitos até aos locais de encontro com Dhlakama. Duas horas mais tarde, a imprensa
era solicitada a entrar na casa de
Dhlakama, mas nem todos conseguiram
o acesso, por ter sido limitado o
número pela polícia.
Entraram os jornalistas da STV, SAVANA,
Canal de Moçambique, O
País e os correspondentes da Lusa,
RTP e da DW. A TVM, que tinha
ficado de fora, conseguiu uma entrevista
já no fim das declarações de
Afonso Dhlakama. A Rádio Moçambique
(RM), as televisões Miramar e
TIM, os jornais Diário de Moçambique
e Notícias, e outros órgãos locais
tiveram o material (aúdio e fotos) por
cortesia dos colegas.
Desarmamento
Às 15:08 horas, Afonso Dhlakama,
que se mantinha no interior da casa
desde a sua chegada às 22horas do dia
anterior, faz a declaração de entrega
aos mediadores das armas da sua
guarda pessoal.
“Confirmamos a entrega de 16 armas
Ak-47, uma pistola Tokarev, muni-
ções, um punhal e três carregadores”,
disse, à imprensa, Manuel de Araújo,
o influente autarca do MDM, a terceira
maior força política, ao ler o
termo de entrega do armamento da
guarda do presidente da Renamo.
Segundo Araújo, o material foi entregue
pessoalmente por Afonso
Dhlakama aos mediadores do processo
de diálogo entre Governo e Renamo
e estes, por sua vez, deixaram-no
à responsabilidade dos representantes
da polícia, num acto testemunhado
pela governadora Helena Taipo.
Enquanto decorria o desarmamento
da Renamo na Beira, segundo apurou
o SAVANA, as Forças de Defesa e
Segurança colocavam-se em posição
combativa na base de Macoca (Sussundenga,
onde a Renamo celebrou o
destacamento feminino em Julho) e
Satunjira, onde Dhlakama havia reaparecido
pela primeira vez, onde se
supõe viriam os reforços do partido.
Declarações de Dhlakama
“Queria rebentar com tudo,
mas evitei um banho de
sangue”
Afonso Dhlakama fez uma declaração
de cedência e exigências, argumentando
que mandou entregar armas
da sua guarda para evitar um banho
de sangue junto da sua casa na Beira.
Dispensou a oferta de protecção policial
e exigiu libertação imediata dos
seus homens detidos, sublinhando
que com a entrega das armas iniciava
a integração da sua guarda na Polícia.
Afonso Dhlakama confirmou a entrega
de 16 armas aos mediadores do
processo de diálogo entre Governo e
Renamo, que por sua vez o deixaram
à responsabilidade da polícia, mas admitiu
que esteve perto de dar ordem
de retaliação.
Ao reconstituir o incidente, Afonso
Dhlakama contou: “a guarda me avisou
que senhor presidente estamos
cercados pela polícia. Vejo pela janela
carros, blindados e militares armados
a apontar a minha casa. Então mandei
perguntar os comandantes da Intervenção
Rápida o que eles querem?
Eles não esconderam, um deles diz
que vai dizer ao mais velho que estamos
atrás das nossas armas que perdemos
no dia 25 aquando do ataque,
que são três apenas”,
Ao mandar questionar a UIR o tipo
de armas, a sua guarda foi respondida
tratar-se de uma LMGG, uma bazuca
e uma AK47.
“Confirmo que no dia 25 capturámos
armas em Amatongas [Gondola].
Afinal foi o Ministério [do Interior]
que nos atacou. Ainda bem, pensava
que tinham sido bandidos. Fiquei
mesmo satisfeito”, ironizou Dhlakama,
acrescentando que ligou ao oficial
da polícia que conduziu a operação
do seu reaparecimento, e depois aos
mediadores.
“Eu disse que não, eu não quero banho
de sangue e nem quero problemas
e nem quero fazer que a gente
reaja, por causa de três armas”, precisou,
salientando que nesta altura os
acessos à casa estavam bloqueados e
as pessoas a serem empurradas.
“Então, empurrões, não empurrões, a
FIR a arrombar as portas, então um
dos meus militares à civil, com AK47,
salta para fora e queria disparar. Eu
gritei não faça isso, não faça isso, não
me arranje problemas, a guerra acabou
há muito tempo e eles agarraram
aquele rapaz por fora e arrancaram
uma das armas. Para dizer que devolvemos
as armas que capturámos
no dia 25 aquando do ataque e uma
nossa arma AK47, totalizando quatro
armas”, disse Dhlakama, adiantando
que enquanto se preparava para
convidar jornalistas para contar este
episódio, eis que chega uma nova exigência.
“Depois quando falam com os mediadores,
estes da polícia lá em baixo
dizem que tinham outro problema,
que tinham instruções de virem buscar
armas que estão aqui e que a partir
de hoje o presidente da Renamo
já não podia ser guarnecido pela sua
guarda pessoal, mas sim pela polícia
do Ministério do Interior. Nós (a Polícia)
é que vamos fazer isso” explicou.
Prosseguiu, “logo subiram nervos
e queria dar ordens para rebentar e
acabar com tudo isso. Depois, como
cristão, levantei-me e comecei a rir,
eles me viram, queria dar ordens mesmo
para ocuparem tudo isto. Porque
temos capacidade para tal, depois comecei
a ver, sou velho e tenho filhos
e netos porque é que vou estragar o
meu País, a obra que eu criei”.
Virando para os mediadores, Afonso
Dhlakama questionou que “afinal vieram
me buscar no mato para depois
virem me cercar aqui, que brincadeira
de mau gosto é esta?”.
Mais tarde se arrefeceu, e disse aos
mediadores, “são nervos”, admitindo
depois que o grupo se desdobrou
imenso, com chamadas aqui e acolá,
tendo se chegado a conclusão.
“Pronto, eu não quero entregar à Frelimo
as minhas armas, porque a polícia
é da Frelimo e a Frelimo é um
partido como o meu. Eu não posso
entregar as armas a uma polícia que
nos mata”, aclarou Dhlakama, tendo
nesta altura decidido entregar as armas
aos mediadores, que por sua vez e
juridicamente seriam os responsáveis
de as fazer chegar ao Governo para
guardar.
“Discutimos e tudo, eu disse chamem
a minha irmã governadora para testemunhar
o acto de entrega como
dirigente que representa o Estado,
o Governo”, disse Dhlakama sublinhando
que “não foi à força, porque
à força eu não havia de aceitar, é uma
negociação, porque desde manhã os
filhos, netos tudo estão com fome e
querem comer e eles querem dormir”.
“Portando, decidi, simbolicamente,
entregar as armas que estavam nas
mãos daquele grupo que veio comigo
ontem, são estas 16, inclusive uma pistola”
indicou Dhlakama, assegurando
que “não há guerra, não há confusão”,
adiantando ser sua boa vontade.
“Porque não me custava nada dizer
que eu não quero entregar as armas e estaríamos aqui a contar mortos, porque
iriam disparar e nós também e
estaríamos a contabilizar 40, 50 mortos
por uma coisa de nada. Desnecessária,
portanto eu disse que estão
aqui as armas, mas eu quero coisas
concretas”, declarou tendo dispensado
na ocasião a protecção da Polícia, que
disse solicitaria apenas para comícios.
“Na minha casa não quero polícia,
porque aconteceu no passado em
Nampula, onde a polícia cercava e
ficava a 50 metros da porta, e jornalistas
quando quisessem chegar eram revistados,
não posso fazer isso. Mais de
23 anos depois do acordo não posso
ser guarnecido na minha casa como
prisioneiro, não preciso”, insistindo
ser um cidadão livre.
Avisou, contudo “eu não quero considerar
polícia de inimigo da Renamo”,
sustentando que “porque não tenho
inimigo”, deplorando a invasão da sua
casa na Beira.
“Ninguém disparou, mas garanto que
invadiram a minha casa, eu estive aqui
em minha casa, no quarto, subiram os
da Intervenção Rápida, carregaram
fardamento e muita outra coisa ali e
carregaram os meus guardas. Portanto
não quero fazer aproveitamento polí-
tico, chamar população e destruir a
Beira, com paus e machados, nem os
desmobilizados queriam ir pegar armas
para acabar com tudo isso, queremos
demonstrar que somos lutadores
e queremos demonstrar que estamos
a manter a paz e a democracia e não
tememos nada”.
“Mesmo que levassem 1000 armas,
não seria solução para a democracia
em Moçambique. É preciso que (Filipe)
Nyusi e (Afonso) Dhlakama se
sentem e elaborem coisas concretas.
Se calhar podem pensar que estou
nervoso, não estou nada”, convidando
o comandante da Polícia e o mediador-chefe
a fazerem vasculha da casa
após a entrega das armas, acto que
não chegou a acontecer.
“Estas armas estão na Renamo desde
1992, com base no Acordo Geral
de Paz. Se a Frelimo tivesse aceitado
reintegrar os nossos homens para a
polícia não estaríamos nesta situação”,
salientou, considerando o incidente
como “o começo da reintegração, estamos
a insistir que pela semana haja
unidades da Renamo e a polícia a serem
treinados com vista a servirem de
escoltas”.
Vincou, contudo: “as armas não foram
arrancadas, não, não, estamos a entregar
para evitar o pior e também quero
que a polícia saia da minha casa,
saia e se eu precisar de polícia ou alfa
vou solicitar. Que se retirem da minha
casa para eu poder dormir bem,
desde manhã ainda não comi e nem
matabichei. Não mereço este tipo de
tratamento. Quero aceitar que a democracia
é o preço que eu Dhlakama
escolhi para libertar o meu povo, a
história dirá” concluiu Dhlakama.
Indignação
Alice Mabota, que foi a primeira a
chegar ao cerco da casa de Afonso
Dhlakama, considerou de “inaceitá-
vel” a invasão da Polícia, insistindo
que já lhe “cheirava qualquer coisa
não boa”.
“Mesmo para vir até aqui eu disse eu
tenho receio de ir buscar o filho de
dono para vir fazer sofrer. Qualquer
coisa parecia que estava adivinhar”,
disse Alice Mabota, vendo movimento
de armas pesadas sendo direcionadas
a casa de Afonso Dhlakama, logo
no princípio da manhã, adiantando
que “ser assaltado desta maneira, o
que custa às autoridades terem uma
negociação como deve ser? Provocam
a guerra, o que se pretende com isso,
quando uma pessoa diz que quer paz,
que mecanismos o chefe de estado
usa para impor, fazer com que o país
ande?”.
“É de lamentar e chocante” os contornos
de agressividade com que ocorreu
o incidente de sexta-feira, disse Dinis
Sengulane, em nome dos mediadores
das negociações entre Governo e
Renamo, mas manifestando também
a sua confiança numa aproximação
após a entrega das armas aos mediadores,
que, por sua vez, as encaminharam
para a polícia.
Sengulane manifestou-se surpreendido
com a acção da polícia, que considerou
que não fazia parte do processo
de “acompanhamento do regresso
a vida normal do líder da Renamo”,
sustentando que o seu resgate foi um
trabalho bem-sucedido.
No entanto, os mediadores do diálogo
entre o Governo moçambicano e
a Renamo expressaram sua convicção
de um encontro em breve entre o
Presidente da República e o líder da
oposição para ultrapassar a violência
política no país.
Já a governadora classificou igualmente
de “chocante” a actuação “brutal”
da Polícia, considerando que o
desarmamento da guarda do líder da
Renamo traduz-se “numa mensagem
de esperança” aos pedidos da população.
“Acreditamos nós que esta é uma
mensagem de resposta àquilo que
foi o pedido de toda a população de
Moçambique de que as armas deviam
ser retiradas dos homens que estavam
armados, neste caso, este sinal, que
começa na residência do líder da Renamo,
é um sinal de esperança”, afirmou
Taipo, à saída da residência do
líder da Renamo. Os mediadores, e
em especial o bispo Sengulane foram
apupados e vaiados pela população
que se concentrou junto à casa do lí-
der da Renamo. O SAVANA apurou
que na negociação que antecedeu o
resgate de Dhlakama de Mucucua foi
aventada a possibilidade de participarem
na operação embaixadores acreditados
em Maputo. Houve pressões
para que tal não acontecesse, mas as
nossas fontes insistem que o cenário
seria diferente se governos externos
estivessem representados na operação
de resgate.
Entretanto, Daviz Simango, o “mayor”
da Beira, considerou de “inadmissível”
a invasão da casa do líder da
Renamo, num Estado de direito,
comparando o cerco a casa de Afonso
Dhlakama a “prisão domiciliária”, e
acrescentou ser um perigo desarmar
homens à força em plana cidade.
“Isto é uma prisão domiciliária e não
é admissível num estado de direito,
não há nenhum mandado, que eu
saiba, do tribunal ou da procuradoria,
não encontramos isso, não há evidências
desses mandados”, afirmou Daviz
Simango, líder do MDM.
“Desarmar os homens da Renamo à
força não é solução, continuamos a
dizer que esse tipo de situações não
pode ser tratado à força, a solução tem
de ser através do diálogo”, declarou
Simango.
*Com Fernando Lima e Francisco
Carmona
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