Lisboa - Isabel dos Santos não está habituada a negociar. A empresária angolana habituou-se a impor o que quer. Isso foi-lhe permitido por atuar no mercado angolano, sob o beneplácito do seu pai, o presidente José Eduardo dos Santos. Quando quisesse fazer o mesmo fora de Angola o choque era inevitável. Foi o que aconteceu no BPI.
Fonte: Expresso
E assim foi. A Unicer continua até hoje a tentar construir a tal cervejeira. Isabel dos Santos tem 25% da Unitel, a operadora de telecomunicações mais rentável de Angola. Dois outros sócios angolanos têm mais 25% cada. E a PT tem os 25% restantes e um acordo de gestão. Acontece que um certo dia, a empresária angolana achou que era altura de comprar a posição da PT. A PT resistiu, mas depois aceitou negociar. Só que o preço proposto era baixo. A PT recusou a proposta. Isabel dos Santos, apoiada pelos outros sócios angolanos, arranjou maneira de dificultar a repatriação dos lucros por parte da PT para Portugal. E assim estão as coisas. Isabel dos Santos queria ser dona de uma cadeia de distribuição em Angola. Não tinha, contudo, os responsáveis técnicos com conhecimento para lançar o projeto. Sem problema. Aliou-se à Sonae Distribuição que enviou dois dos seus principais responsáveis do setor para implantar o projeto em Angola. Ao fim de poucos meses, ainda antes da cadeia de distribuição arrancar, Isabel dos Santos contratou-os para trabalhar para si e a Sonae decidiu abandonar definitivamente o mercado angolano.
São apenas quatro exemplos mas os suficientes para perceber que para Isabel dos Santos a palavra “negociar” significa “quero, posso e mando”. É assim que ela faz em Angola, é assim que ela está habituada a conseguir o que quer no seu país. E foi isso que ela tentou fazer no caso das negociações com o La Caixa por causa do BPI e do Banco de Fomento de Angola. Acontece que na Europa vigoram outras regras e outras leis e Isabel não estava a negociar com portugueses mas com espanhóis. E assim o La Caixa bateu com a porta quando Isabel quis colocar como condição para o negócio que, após controlar o Banco de Fomento, este fosse cotado na bolsa de Lisboa, a Euronext Lisbon. Ora nem o La Caixa tem poder para isso, nem faria sentido que o BCE, que obrigou o BPI a alienar os seus ativos angolanos porque ali não funcionam as regras de supervisão e regulação bancária que exige na Europa, viesse a aceitar, para resolver o problema do BPI, que o BFA viesse a operar no mercado português sob o comando de alguém que não cumpre essas regras no seu país.
Isabel dos Santos teve todas as oportunidades para conseguir um bom negócio no caso BPI: saía do banco português e ficava com o BFA, no fundo o seu grande objetivo. O primeiro-ministro português empenhou-se num acordo, o Presidente da República de Portugal guardou um mês e meio na gaveta o diploma que desblinda os estatutos das instituições de crédito e deixa de limitar os direitos de voto. Mas Isabel queria mais e foi arrastando o processo, moendo, avançando e recuando, até que tudo parecia resolvido. Mas não estava. Na semana passada, depois do acordo ser anunciado, voltou com a palavra atrás, fiada em que isso levaria o La Caixa a vergar-se à sua vontade, dada a ameaça de sanções que impedem sobre o BPI. Enganou-se. Agora corre o risco de perder em todos os tabuleiros: com o fim dos direitos de veto e a OPA, a sua posição no BPI passa a valer muito menos; o BPI, controlado pelo La Caixa, deixa de ter necessidade de vender o BFA, podendo continuar a manter a maioria do capital; viu o CEO que tinha indicado para o BIC Portugal ser chumbado pelo Banco de Portugal por falta de idoneidade; e o modo como Bruxelas e o BCE olham para ela é agora seguramente muito mais desconfiado e crítico, dificultando a sua afirmação em bancos europeus.
Como se sabe, contudo, os angolanos em geral, e Isabel dos Santos e a sua família em particular, não são de levar desaforo para casa. Haverá seguramente retaliações. E se bem que atualmente, devido ao mau momento que a economia angolana atravessa, já existam retaliações suficientes (empresas que não recebem pelos trabalhos que fizeram, pelos serviços que prestaram ou pelos produtos que forneceram; e trabalhadores a quem não é pago o salário e que são obrigados a regressar a Portugal), o certo é que convém estarmos preparados para a subida da tensão entre os dois países e para decisões duras por parte de Luanda. Uma delas pode ser a nacionalização do BFA. Aguardemos.
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