Luanda - Integra do Discurso de de abertura da X reunião ordinária do Comité Permanente da Comissão Política da UNITA
Caro companheiro Secretário Geral do Partido Engº Vitorino Nhany
Prezados companheiros Membros do Comité Permanente,
Minhas senhoras e meus senhores:
Ao abrir esta magna Reunião ordinária do Comité Permanente da Comissão Política do nosso Partido, desejo saudar calorosamente todos os presentes, em particular os companheiros que vieram do interior do País e que não vemos há já mais de três meses.
Saúdo também, patrioticamente, todos os cidadãos angolanos que, não sendo da UNITA e estando aqui, estão genuinamente preocupados com a situação do país e estão interessados no desempenho da UNITA, porque sentem que a UNITA também é deles e que é a retaguarda segura para os sem voz.
Saúdo-vos desta tribuna para vos assegurar que a UNITA está solidária com as vossas preocupações, está a trabalhar para vós e está empenhada em encontrar soluções para os problemas que afligem o nosso país.
Estamos particularmente empenhados na luta contra a tirania, contra as violações dos direitos humanos, contra a falta de emprego, a falta de esgotos, contra o paludismo, a miséria, o crime, a corrupção e a má governação.
É contra estes inimigos de Angola e da dignidade humana que vamos continuar a mobilizar todas as forças vivas da nação, toda a inteligência nacional, toda a nossa criatividade e solidariedade para a MUDANÇA.
Esta Reunião de dirigentes da UNITA foi convocada para analisar o desempenho do Partido na materialização das estratégias já definidas para a mudança e para definir o horizonte temporal para a realização do XII Congresso do nosso Partido, antes do fim deste ano.
Neste contexto, vamos analisar, em primeiro lugar, a dramática evolução da situação política e económica do país que se agrava a passos largos todos os dias.
Vamos discutir medidas concretas e inteligentes para o país vencer as várias crises em que está mergulhado, a saber: a crise social, a crise de governação, a crise financeira, a crise de soberania e a crise eleitoral.
Vamos analisar as melhores vias de contrariar o apetite do regime do Presidente José Eduardo dos Santos de levar o país para um novo conflito violento a fim de inviabilizar a sua derrota eleitoral.
E vamos também avaliar as medidas que a UNITA deverá adoptar para unir todas as forças vivas da nação em torno das aspirações dos angolanos por uma mudança pacífica e estável.
Prezados compatriotas:
A crise social que o país vive é alimentada pelas políticas públicas que desvalorizam a vida humana e promovem falsos valores. Mais de cinco milhões de casos de paludismo foram relatados no ano passado, dos quais foram registados mais de 5.000 mortes. O coordenador do programa de combate à malária afirmou recentemente que o Executivo não afectou no seu orçamento do corrente ano, quaisquer verbas para o programa de combate à malária. A tuberculose também está a ceifar centenas de vidas todos os anos. O país continua a ter das mais altas taxas de mortalidade infantil do mundo. O Governo não promove adequadamente o ensino primário gratuito, não subvenciona os livros, não garante educação de qualidade para o povo. Aumentou o preço do petróleo iluminante só para agravar a vida dos mais desfavorecidos. Continua a priorizar a construção de fábricas de cerveja e a subvencionar o preço da cerveja para embebedar e mutilar a juventude e arruinar o futuro. Uma cerveja custa Kz. 50.00 ao passo que uma garrafa de água custa o dobro.
Por outro lado, a má governação tornou-se uma prática incorrigível do Executivo, que persiste em aprofundar as desigualdades, através de políticas discriminatórias e que, por isso, atentam contra a unidade nacional.
São políticas que foram concebidas para enriquecer ilicitamente uma minoria e empobrecer a maioria dos angolanos. Ao invés de os angolanos sentirem o alívio da pobreza, vêm todos os dias o aumento da corrupção que alimenta a riqueza ilícita.
A dita crise financeira é apenas uma das manifestações da crise de governação. É o resultado dos assaltos sistémicos ao Tesouro Nacional pela elite governante. Onde páram, por exemplo, os mais de 30 mil milhões de dólares que o país reservou nos últimos quatro anos, no Fundo do Diferencial do Preço do Petróleo?
Onde páram os mais de $70 mil milhões de dólares acumulados nos últimos quatro anos, a coberto da Reserva Estratégica Financeira Petrolífera para Infra-estruturas de Base, criada em 2010?
Diziam-nos repetidas vezes nos últimos anos que Angola estava sempre a subir, estava sempre a produzir, com muitos luxos e muitas vaidades. De repente, por causa da descida do preço de um só produto no ano passado, querem nos fazer crer que aqueles biliões acumulados e guardados desapareceram?
Estavam a mentir-nos antes quando diziam que estávamos a subir ou estão a mentir-nos agora?
Prezados companheiros:
A crise de soberania resulta do facto de o regime do Presidente José Eduardo dos Santos ter decidido não respeitar a vontade soberana do povo angolano. O regime sabe que o povo está cansado. Sabendo disso, o Regime resolveu agredir o povo, que é o soberano em Angola. Resolveu usurpar o poder do povo com violência desmedida. Resolveu mesmo matar, para intimidar e tentar, em desespero, obter o voto do medo.
O recente genocídio no monte Sumi, na Caála, não é uma simples retaliação pela morte lamentável de angolanos que servem na Polícia Nacional. É muito mais do que isso.
Felizmente, agora o representante das Nações Unidas juntou a sua voz aos que pedem uma investigação imparcial. Esperamos que mais cedo ou mais tarde, a real dimensão humanitária e jurídica do genocídio do Monte Sumi seja investigada e venha à superfície. Mas agora, cabe-nos fazer já a investigação política do genocídio.
Quem foram os verdadeiros alvos? Quem deu as ordens superiores ao Governador do Huambo, General Kundi Payama? Quem plantou no local dos crimes o material de propaganda da UNITA? Com que propósito? Quem disse que os métodos da seita são similares aos da UNITA? E com que propósito? Quem invadiu assassinou indiscriminadamente cidadãos pacíficos e aterrorizar o povo enquanto vandalizava os símbolos da UNITA?
Quem foi que ficou assustado com a escolha inequívoca do povo do Huambo pela UNITA, manifesta no dia 14 de Março aquando das comemorações do seu 49º aniversário?
Quem foi que ficou assustado com a escolha inequívoca do povo do Huambo pela UNITA, manifesta no dia 14 de Março aquando das comemorações do seu 49º aniversário?
Prezados companheiros:
A UNITA tem as credenciais de 50 anos de luta em prol de Angola e dos Angolanos. Luta pela independência, luta pela democracia, luta pela reconciliação nacional, luta pela paz, luta pela boa governação. A UNITA é, junto com o MPLA, a co-fundadora da República de Angola. Ela encarna o povo, representa o povo, existe para o povo. Hoje não há Angola sem UNITA, assim como não há UNITA sem Angola. Por isso, a UNITA é a sucessora natural e efectiva do MPLA na condução dos destinos de Angola.
Quando o regime do Presidente José Eduardo dos Santos decide agredir o soberano em Angola, fá-lo agredindo também a UNITA. Foi assim no passado e parece ser este o desígnio actual das forças anti – Angola.
A crise de soberania é também uma crise de legitimidade. Se o regime reclama legitimidade por ter chegado ao poder por via eleitoral, ele perde a legitimidade por ter subvertido o Estado democrático e o ter tranformado num Estado autoritário e corruptor que, para sobreviver, usurpa com violência o poder que lhe foi emprestado pelo soberano para agredir o próprio titular do poder. Ninguém pode pretender ser detentor de um poder legítimo quando se comporta como usurpador e violador de direitos do titular deste mesmo poder.
A proposta de lei do registo eleitoral concebida pelo Presidente José Eduardo dos Santos enquadra-se nessa agressão ao soberano em Angola. Sabendo que a vontade do soberano é votar a sua saída da Cidade Alta, o Presidente jogou a sua habitual cartada: violar abertamente a Constituição que jurou defender e atribuir a si próprio a competência de decidir quem vota e quem não vota. Ou seja, o Presidente da República decidiu inviabilizar à partida a sua saída do poder atravês de um acto inválido, mandando aprovar uma lei que viola a Constituição.
Ao fazer isso, o Presidente da República abre uma nova crise, a crise eleitoral, que também é reflexo da sua crise de governação. Assim, o Presidente que tinha o compromisso solene de conduzir o país à democracia plena e de garantir a estabilidade do Estado democrático, agravou a sua posição de principal agressor da soberania nacional, a génese do problema nacional, o principal factor de instabilidade política e social em Angola.
Angola consolida, assim, a sua condição de Estado de não direito, que deixou de se fundar na vontade do povo angolano e passou a basear-se na vontade de um só homem. Deixou de se fundar na dignidade da pessoa humana, e passou a basear-se no desprezo e na indiferença para com os angolanos.
Compatriotas:
A gravidade da situação do nosso país coloca sobre os nossos ombros grandes desafios. O povo espera que a UNITA indique o caminho a seguir. Na vida de uma Nação, chega um momento em que todos precisam de agir. Cada um no seu lugar, mas todos precisam de agir em sintonia. Este momento é agora.
Angola não quer mais a oligarquia que promove as desigualdades e periga a estabilidade. Mas também não quer nenhuma dinastia. Angola precisa de um novo regime. Angola precisa de um novo contrato social para a construção de uma verdadeira República. O país reclama por uma Democracia real, porque SÓ A DEMOCRACIA – a mais autêntica e participativa que conseguirmos construir – poderá libertar-nos do nosso passado, dos nossos temores, das nossas incertezas e indecisões. Só ela nos permitirá fruir os frutos da prosperidade, da reconciliação e do progresso num ambiente de liberdade, confiança e estabilidade.
É nosso desafio, enquanto estuário das forças patrióticas e democráticas do país, iniciarmos as démarches para criarmos este ambiente de confiança para uma mudança pacífica e estável. O povo espera que, ao dirigir as forças patrióticas para uma mudança estável, a UNITA ajude o país a encontrar as respostas certas para as seguintes questões:
Como lidar com um poder que permanentemente viola a Constituição quando a devia proteger?
Como tratar um mandatário que usurpa o poder do mandante e, não satisfeito com isso, agride o mandante?
Como contrariar a tendência do agressor levar o país inteiro a um novo conflito violento só para inviabilizar a eleição que ditará a sua demissão?
Serão as manifestações de protesto a solução?
Haverá formas mais eficazes de o titular do poder aplicar o princípio democrático para exercer a sua soberania?
Os povos, em todos os continentes, já não têm medo das ditaduras. Os angolanos precisam de se libertar do medo e da desconfiança, porque um só homem não pode amarrar uma Nação inteira.
Onde está a nossa dignidade? Onde está o nosso patriotismo? O momento não é para nos posicionarmos como políticos deste ou daquele partido, mas como patriotas e nacionalistas. Angola em primeiro lugar. O momento é para salvarmos o país e o futuro das próximas gerações.
Não vamos esconder mais. Vamos demonstrar que somos uma Nação digna que sabe combater a tirania e não tem medo de libertar.
Quero aqui desta tribuna, fazer um apelo à consciência nacional de todos os cidadãos desta Pátria para salvarmos o nosso país e garantirmos um futuro melhor para as nossas crianças.
Apelo às várias lideranças do país, políticas, cívicas e eclesiásticas. Apelo aos antigos combatentes, aos patriotas das forças de defesa e segurança, aos trabalhadores da Administração Pública, aos empresários; aos trabalhadores todos; apelo aos sindicalistas, aos estudantes; apelo aos patrões e empregados, ricos e pobres, políticos e não políticos, a todos: APELO que se libertem do medo. Vamos reivindicar os nossos direitos e exigir que os mandatários se comportem como tal, nos limites da Constituição e da lei.
Falo aparentemente para os meus companheiros da UNITA, mas dirijo esta mensagem a todo o povo de Angola, em particular aos adversários de ontem, a quem o tempo ensinou que, afinal, no contexto actual, já não somos adversários, porque o conflito mudou e seus actores também mudaram.
Agora estamos do mesmo lado do combate, lutando contra os verdadeiros inimigos do povo angolano, que são a falta de água, a falta de luz, o desemprego, a corrupção, a falta de solidariedade, a inexistência de um ensino de qualidade, a concentração de poderes e a má governação. Estes problemas são vividos por todos e afectam todos e deles só se safam os que agridem o soberano.
Com este pronunciamento declaro aberta a 10ª Reunião do Comité Permanente da Comissão Política da UNITA.
Muito obrigado.
Muito obrigado.
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