quarta-feira, 16 de março de 2016

Refugiados moçambicanos no Malawi não querem regressar

O Malawi aceitou reabrir o campo de refugiados de Luwani, para acolher os moçambicanos em fuga da violência no seu país. Luwani foi o refúgio de muitos moçambicanos durante a guerra civil. A História repete-se?
Ao Malawi continuam a chegar numerosos refugiados moçambicanos das províncias fronteiriças. Procuram abrigo no pequeno campo de Kapise, a cinco quilómetros da fronteira, que não está preparado para receber os milhares de moçambicanos já registados.
Perante a situação cada vez mais difícil dos moçambicanos, o Governo do Malawi autorizou o Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados (ACNUR) a reabrir um campo maior. Trata-se do antigo campo de refugiados de Luwani, que já por uma vez serviu para abrigar moçambicanos em fuga: durante a guerra civil de 1977 a 1992, muitos procuraram aqui abrigo da violência gerada pelo conflito entre o Governo da Frente de Libertação de Moçambique (FRELIMO) e as forças rebeldes da Resistência Nacional Moçambicana (RENAMO), hoje o maior partido da oposição.
Soldados maltratam a população civil
A experiência repete-se agora pelos mesmos motivos, com uma agravante, disse à DW África Kelvin Shimoh do ACNUR no Malawi: "Os refugiados contam-nos que estão em fuga das tropas governamentais, que os maltratam. Segundo eles, os soldados vão às aldeias à procura de informação sobre os membros armados da RENAMO. Quando os civis dizem que não sabem nada, são espancados".
Segundo Shimoh, a situação agudizou-se nas últimas quatro semanas, com a chegada diária de uma média de 250 refugiados, um aumento quase para o dobro do número que chegava diariamente desde dezembro, quando começaram os conflitos. Segundo dados do ACNUR, neste momento estão no sul do Malawi11.500 moçambicanos, com tendência crescente. E não se vislumbra qualquer solução rápida: "Falámos com alguns refugiados que nos disseram que não é possível regressar agora”, só quando a situação se normalizar, explica Shimoh.
Falta de fundos para os refugiados
O ACNUR já lançou, por isso, um apelo aos seus membros para mais assistência financeira, uma vez que os fundos actuais chegam apenas para cobrir as necessidades básicas e imediatas dos refugiados, nomeadamente a alimentação e o abrigo. Para além destas medidas de emergência, outras vão ser necessárias, quando os refugiados forem transferidos para o campo reaberto de Luwani: "Vamos ter que construir clínicas, escolas, temos que providenciar um sistema de água potável, saneamento público. Vamos precisar de mais fundos para assegurar estes serviços”. Recentemente, o ACNUR apelou aos doadores para um aumento dos financiamentos em quase 14 milhões de euros, para assistir o crescente número de
Os refugiados em Kapise vão ser transferidos para o campo maior de Luwani.
refugiados moçambicanos.
O Malawi já hoje acolhe cerca de 25.000 refugiados de zonas de conflito, sobretudo da região dos Grandes Lagos e do Corno de África, em Dzaleka, num campo perto da capital de Lilongwe, também sobrelotado. Aqui, a falta de fundos já levou a um corte para metade das rações individuais.
Governo com coragem
Presentemente, o Malawi enfrenta as suas próprias dificuldades económicas. Mais uma razão pela qual o ACNUR agradece a atitude positiva de Lilongwe no caso dos refugiados moçambicanos: "Ao acederem ao nosso pedido de reabertura do campo, os governantes mostraram que são muito cooperativos”, afirma Shimoh, que ressalta as dificuldades políticas e económicas pelas quais o país está a passar: “O Governo mostrou-se corajoso ao cumprir as suas responsabilidades no âmbito da convenção internacional dos refugiados quando nos concedeu este espaço para os refugiados moçambicanos".
 
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Refugiados moçambicanos no Malawi não querem regressar

O conflito violento que opõe o Governo da FRELIMO às forças da RENAMO resulta da reivindicação do partido da oposição do controlo sobre seis províncias no Norte do país (Manica, Sofala, Tete, Zambézia, Nampula e Niassa), onde afirma ter ganho as eleições gerais de 2014.

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