quinta-feira, 24 de março de 2016

Karadzic condenado a 40 anos de prisão por genocídio e crimes de guerra


Antigo líder dos sérvios da Bósnia considerado culpado pelo massacre em Srebrenica, numa decisão histórica do Tribunal Penal Internacional para a ex-Jugoslávia.
A sentença chegou tarde para os milhares de sobreviventes das atrocidades cometidas pelas forças sérvias da Bósnia, numa das sangrentas guerras que acompanharam o desmembramento da Jugoslávia na década de 1990. Mas chegou: numa decisão histórica, a mais importante desde o fim da II Guerra Mundial, o tribunal que julga os crimes cometidos na ex-Jugoslávia condenou Radovan Karadzic a 40 anos de prisão por genocídio, crimes de guerra e crimes contra a humanidade, culpando-o por uma das maiores feridas abertas na Europa na segunda metade do século XX – o massacre na região de Srebrenica, onde mais de oito mil homens e rapazes muçulmanos bósnios foram executados em poucos dias.
"Radovan Karadzic, o tribunal condena-o a uma sentença única de 40 – quatro, zero – anos de prisão. Por favor, sente-se, sr. Karadzic." No final de uma longa leitura das acusações e das provas no Tribunal Penal Internacional para a ex-Jugoslávia, em Haia, o juiz sul-coreano O-Gon Kwok disse as palavras que milhares de pessoas esperavam ouvir desde que o antigo líder dos sérvios da Bósnia foi capturado, em 2008.
Esta quinta-feira, por volta das 14h30, Radovan Karadzic levantou-se do banco dos réus acusado de 11 crimes, incluindo genocídio, crimes contra a humanidade e crimes de guerra, e quando se sentou acabara de saber que tinha sido considerado culpado de dez: genocídio pelo massacre em Srebrenica, em 1995; perseguições; extermínio; duas acusações de assassinato; deportações; deslocações forçadas; disseminação de terror; ataques deliberados contra civis; e tomada de reféns.
A defesa já anunciou que vai recorrer da sentença, o que pode adiar por mais alguns anos o fim de um processo que foi aberto há duas décadas – desde a acusação, em 1995, passando pela captura, em 2008, e até à condenação, esta quinta-feira. Se nada se alterar, Radovan Karadzic será forçado a cumprir dois terços da pena, menos os cerca de sete anos que leva detido em Haia – no total, cerca de 20 anos a partir de agora.
A única condenação a que escapou foi uma segunda por genocídio, pleos massacres e deportações em oito localidades controladas pelas forças que liderava em conjunto com o seu general Ratko Mladic, também ele a aguardar em Haia a decisão do tribunal.

"Tarde demais"

Lá fora, pouco depois de ter ficado a conhecer o futuro de Karadzic, a mulher de uma das vítimas de Srebrenica, Bida Smajlovic, não podia deixar de olhar para o passado. "Isto chegou tarde demais. Nós recebemos um veredicto em 1995. Nenhuma sentença poderia compensar os horrores por que passámos, ou as lágrimas de uma única mãe, quanto mais as de milhares", disse Smajlovic à agência Reuters.
Uma outra bósnia, Kada Hotic, mãe de um dos milhares que foram executados em Srebrenica, mostrou-se indignada – quando a maioria esperava uma condenação a prisão perpétua, os 40 anos de cadeia que se transformam em 20 reais sabem-lhe a pouco: "Este tribunal não tem vergonha? Os muçulmanos bósnios e os croatas da Bósnia não têm direito a justiça? Ele levou 40 anos. Não chega", disse Hotic ao jornal britânico The Guardian.
Mas não faltaram declarações a salientar a importância histórica desta decisão – tanto para o passado como para o futuro, e sempre com os olhos no presente de uma Europa onde os movimentos nacionalistas voltam a ganhar força.
"A sua condenação é simbolicamente poderosa – antes de mais para as vítimas dos crimes cometidos durante as guerras na Bósnia-Herzegovina e em toda a ex-Jugoslávia, mas também para as vítimas em todas as partes do mundo. Por mais poderosas que sejam, por mais intocáveis que julguem ser, e independentemente do continente em que habitem, os que praticam crimes como estes devem saber que não vão escapar à justiça. Tendo testemunhado em primeira mão os efeitos dos crimes horríveis pelos quais Karadzic foi condenado, congratulo-me com a decisão do tribunal”, disse o alto comissário da ONU para os Direitos Humanos, o jordano Zeid Ra'ad Al Hussein.
Uma das centenas de pessoas que testemunharam contra Karadzic foi Djenana Sokolic, baleada por um atirador furtivo em Novembro de 1994, durante uma trégua no cerco de quase quatro anos a Sarajevo, que durou entre Abril de 1992 e Fevereiro de 1996. As forças de Radovan Karadzic e Ratko Mladic cercaram a cidade e mataram milhares de civis – um deles foi o filho de Sokolic, Nermin, de sete anos.
"Iria à Lua para conseguir justiça para o meu filho. Foi muito importante para mim ter ido a Haia. Iria outra vez amanhã se me pedissem", disse Djenana Sokolic à BBC.

Justiça sem reconciliação

Mas a condenação com maior carga simbólica é a de genocídio pelo massacre em Srebrenica, onde pelo menos 8372 homens e crianças, entre os 12 e os 77 anos, foram executados em menos de uma semana, em Julho de 1995 – no ano passado, 20 anos após o massacre, continuavam por encontrar os corpos de 1272 pessoas.
A palavra "genocídio" foi usada em Haia em 2004 para descrever o que aconteceu em Srebrenica, numa acusação do juiz Theodor Meron: "Ao procurarem eliminar uma parte dos muçulmanos da Bósnia, as forças sérvias da Bósnia cometeram genocídio. O intuito era a extinção dos 40 mil muçulmanos bósnios que viviam em Srebrenica. Despojaram todos os homens muçulmanos, militares e civis, velhos e novos, de todos os objectos pessoais e que lhes servissem de identificação e, deliberada e metodicamente, mataram-nos pela simples razão de terem aquela identidade."
Mas poucas palavras têm tanto peso como "genocídio", e o que aconteceu em Srebrenica é ainda hoje motivo de discussão na Sérvia, onde a versão oficial fala em "crime". Num sinal de que os propósitos da criação de um tribunal especial – de justiça mas também de reconciliação – ainda estão longe de ser cumpridos, a data escolhida pelos juízes de Haia para anunciarem a condenação de Radovan Karadzic foi vista como uma ofensa por muitos sérvios: nesta quinta-feira cumprem-se 17 anos desde o início dos bombardeamentos da NATO em Belgrado e noutras cidades, durante a guerra do Kosovo, que fizeram cerca de 500 mortos entre a população civil.

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