terça-feira, 1 de março de 2016

Partido Republicano chega desorientado à Super Terça-feira


Os sinais de divisão no interior do partido são cada vez mais evidentes devido ao sucesso de Donald Trump. No Partido Democrata, Hillary Clinton tenta voltar a ser a candidata inevitável.
A Super Terça-feira pode ser um caso de vida ou morte política para Marco Rubio e Ted Cruz AFP



Quem chegou agora à campanha para a escolha do candidato do Partido Republicano na corrida à Casa Branca pode pensar que se enganou no espectáculo e acordou no meio de um circo, rodeado de palhaços e acrobatas. Se o Donald diz que o Marco tem "o maior par de orelhas" que ele já viu, o Marco responde que o Donald devia processar "quem lhe fez aquilo à cara"; se o Ted diz que ouvir o Donald a falar é mesmo como "ir ao circo ver acrobatas e ursos a dançar", o Donald diz que o Ted é "um mentiroso perverso". E a má notícia é que a campanha a sério só vai começar agora, na tão aguardada Super Terça-feira.
Por mais divertido que seja imaginar uma campanha deste tipo em Portugal, onde um político pode sentir-se ofendido se não o tratarem por doutor ou professor, a verdade é que a campanha do Partido Republicano nas eleições deste ano já ultrapassou todos os limites – o que começou por ser um combate de boxe, violento mas com regras, evoluiu nos últimos dias para uma daquelas competições clandestinas que se vêem em filmes de série C, e de onde só um pode sair vivo.
É com esta sede de sangue que os principais candidatos do Partido Republicano partem para o dia mais importante da campanha até agora, depois das votações em quatro estados que apenas serviram para perceber quem fica no pelotão da frente – Donald Trump, Ted Cruz e Marco Rubio estão na luta, mas John Kasich e Ben Carson pouco mais podem fazer do que ir arrastando as suas candidaturas por mais alguns dias ou semanas.
Por comparação, do outro lado, a campanha no Partido Democrata quase parece a assinatura de um tratado de paz – o senador Bernie Sanders, o fenómeno de 74 anos que tem atraído uma multidão de jovens que até à Europa da década de 1990 poderiam identificar-se com a social-democracia nórdica, tem preferido sublinhar as suas propostas, deixando de lado os ataques pessoais a Hillary Clinton.
Em jogo, esta terça-feira, está a conquista de uma quantidade de delegados em vários estados, que no caso do Partido Republicano representam cerca de metade dos necessários para se obter a nomeação. Com Donald Trumpembalado por três vitórias consecutivas no New Hampshire, Carolina do Sul e Nevada, e com o vento das sondagens a empurrá-lo ainda mais para a frente, o Partido Republicano já não esconde a crise em que mergulhou por não ter conseguido chegar a esta fase da corrida sem um claro favorito da ala considerada mais tradicional – Jeb Bush já se foi, agora é a vez de Marco Rubio.
Alguns membros destacados do Partido Republicano não fazem por menos, e falam mesmo numa "escolha existencial" – o momento em que o Partido Republicano tal como o conhecemos pode simplesmente desaparecer do mapa.
"Torna-se cada vez mais difícil de dia para dia quando acontecem coisas como não se condenar o apoio de David Duke e do Ku Klux Klan. Espero que o partido não se autodestrua", disse ao jornal Washington Post o antigo senador do Partido Republicano Norm Coleman, do estado do Minnesota, um apoiante de Marco Rubio nestas eleições. Coleman referia-se ao apoio público a Donald Trump manifestado pelo antigo líder de um dos ramos do movimento racista norte-americano – um apoio que Trump começou por reprovar na passada sexta-feira, mas ao qual se tem referido em termos menos inequívocos desde então.
Mas por cada manifestação de repúdio pelo voto em Donald Trump surge um novo sinal de que o magnata está mesmo a caminho de conquistar os delegados suficientes para vencer as primárias do Partido Republicano. De forma surpreendente, o governador de Nova Jérsia, Chris Christie, decidiu apoiar Trump depois de ter desistido da corrida, e agora surge ao lado do magnata em cada comício, como se já tivesse sido escolhido para candidato a vice-presidente.
Se for preciso mais uma prova de que o fenómeno Trump não tem paralelo na história moderna das eleições nos EUA, aqui está ela: o apoio de Christie não prejudicou nas sondagens a aura de candidato anti-sistema do magnata, que apela a um eleitorado farto de políticos troca-tintas. Poucos dias antes das primárias no New Hampshire, há apenas três semanas, foram estas as palavras que Chris Christie dirigiu a Donald Trump: "Sobre o tipo que está em primeiro lugar nas sondagens. Vocês sabem que aquilo é tudo a fingir, não sabem? Não é a sério. É tudo para a televisão." Na sexta-feira passada, Christie não podia ter representado melhor o papel de um político troca-tintas supostamente tão desprezado por Trump e por grande parte dos seus apoiantes: "Estou absolutamente convencido de que Donald Trump é o melhor candidato a Presidente dos Estados Unidos."
Esta Super Terça-feira é muito importante para Donald Trump, mas pode ser um caso de vida ou de morte política para os senadores Ted Cruz e Marco Rubio. Olhando para as sondagens, ambos têm tarefas complicadas. Cruz precisa de vencer no estado que o elegeu senador, o Texas; terminar pelo menos em 2.º lugar na noite; e esperar que Trump não obtenha 55% ou mais dos delegados em jogo. Rubio não joga em casa esta terça-feira (a sua Florida só vai a votos no dia 15 de Março), mas precisa de sair de terça-feira como o principal rival de Trump e vencer em alguns estados – algo que ainda não conseguiu fazer desde o início das primárias.
Depois das votações no Iowa, no New Hampshire, na Carolina do Sul e no Nevada, as primárias entram agora na fase em que apenas ficar em 2.º não serve de cartão-de-visita a ninguém – é preciso começar a ganhar e a provar que é possível derrotar Donald Trump com votos e não com aquilo a que os americanos chamam o momentum, ou dinâmica de vitória.
Do lado do Partido Democrata, a candidatura de Hillary Clinton estará a pensar que as coisas começam a regressar à sua ordem natural, depois davitória esmagadora na Carolina do Sul. Esta terça-feira, muitos dos estados que vão a votos são também do Sul, onde Clinton está em vantagem nas sondagens em relação a Bernie Sanders, graças a um maior reconhecimento junto do eleitorado negro. Com o arranque da fase das primárias em que os candidatos dos dois partidos vão ter menos possibilidades de contactar potenciais eleitores porta a porta, é natural que os nomes mais reconhecidos em termos nacionais saiam beneficiados – e nesta corrida poucos nomes têm um reconhecimento público tão alargado como Hillary Clinton e Donald Trump.

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