segunda-feira, 14 de março de 2016

A mulher é capaz!

Há sensivelmente 25 anos, um facto entrou para história política do país: a nomeação de um indivíduo do sexo feminino para administrar um distrito de Moçambique, Chinde. É uma mulher e tanto.
Corajosa ao extremo, atirou-se ao rio, sob risco de ser retalhada por crocodilos quando, certo dia, navegando em pleno Zambeze, a embarcação começou a afundar. Sua firmeza e determinação anulam o preconceito à volta da figura da mulher. “Mostrei a toda gente que sou capaz”, até porque, “quando a mulher quer, ela pode”. É zambeziana de gema.
Foi no ano de 1991, numa altura em que o distrito de Chinde navegava em dificuldades, que Matilde Lampião, aos 40 anos de idade, foi nomeada administradora. Com a faca e o queijo na mão, arregaçou as mangas e “soltei várias iniciativas para tirar aquele lugar do marasmo ”. Só para citar alguns exemplos, as suas intervenções passaram por “mobilizar a população para a produção de tijolos feitos de barro, para construção de moradias usando a própria terra” e, com base no mesmo material, produzir panelas para o comércio, de forma que os habitantes auferissem uma renda para as despesas do dia-a-dia.
Das acções por ela lideradas destaca-se, ainda, um programa de plantio de casuarinas, em coordenação com o sector da Agricultura, para travar a erosão ao longo do Rio Zambeze, cujo lema era Pela vida na terra, Planta uma árvore. São intervenções de grande valia para o homem e para o ambiente, encabeçadas por uma mulher, o que confirma quão este género tem pulso para exercer qualquer função na sociedade. Daí o apelo: “sempre pedi que se nomeasse mais mulheres em posições de liderança”. A competência de Matilde Lampião leva a que o sexo oposto a respeite: “Os homens sempre me respeitaram”. E como não? A dado momento da sua administração em Chinde, percorria 100 quilómetros de motorizada e, acredite-se, atravessava quatro rios, a caminho da mobilização, do trabalho. “Nunca fraquejei nos meus actos, tanto como dirigente, e também como mulher e mãe,”. Sim, Matilde Lampião é casada e mãe de quatros filhos “todos formados”, diz, orgulhosa.
NÃO SE GOVERNA
COM MARIA RELVA
Esposa de um membro também militante do partido Frelimo, afirma que seu próprio marido, em algum momento, “duvidou, um pouco, que eu fosse dar conta do recado. Mas eu disse ‘sim’, vou mostrar a toda a gente que sou capaz. Quando a mulher quer, ela pode. E digo mais: este é o género ideal para assumir cargos, pela paciência, competência e outras virtudes, daí que agradeço ao nosso Governo por continuar a apostar nele”.
Questionada sobre outras dicas para governar com sucesso, Matilde Lampião dispara: “tem que ter dom, jeito, saber lidar com a população. A simpatia e a humildade são aqui chamados, bem como saber ouvir, saber mobilizar. É preciso sentar-se à esteira e colocar-se ao mesmo nível das outras pessoas. Vejam que até o analfabeto pode liderar, até porque não se governa com Maria Relva(gramática de língua portuguesa) ”considera Matilde Lampião.
ATIREI-ME AO RIO
CHEIO DE CROCODILOS
Matilde Lampião é uma mulher temerária. Para validar esta afirmação, atente-se no facto por ela narrado, ocorrido numa das comemorações da elevação de Chinde à categoria de distrito, dia 13 de Setembro. “Lembro-me muito bem dessa ocorrência. Estávamos em pleno rio Zambeze, quando a canoa começou a afundar. Nesse momento, o tripulante virou para mim e disse: ‘senhora administradora, nós vamos morrer, a embarcação está a admitir água’.
 Em situação de perigo, restaram duas alternativas à então administradora Matilde Lampião: Uma, foi exclamar Meu Deus!, a outra, contra todas as expectativas, foi atirar-se ao Zambeze, pois “preferi entregar-me aos crocodilos, a ter que afundar com a embarcação. Os crocodilos iam deixar alguns pedaços”. Para sua integridade física e consequente alívio, nenhum pedaço do seu corpo foi arrancado. Ao chegar à margem, “empoleirei-me numa árvore onde permaneci por três dias sem ter sequer água para beber e a chover torrencialmente”. Tudo agravado pelo facto de não poder descer do seu refúgio, já que os crocodilos estavam lá, na parte térrea, à espera de um mínimo deslize de sua parte. Mas, mais tarde, “tive socorro de um barco de fibra que me levou até Marromeu”.
Gosto de ler
cantar e dançar 
Espontaneidade, gargalhada fácil, gestos firmes, olhar esperto. Esta é Matilde Lampião a olho nu. Adepta do 1º de Maio de Quelimane e do Benfica de Portugal, porém “não assisto aos jogos porque não gosto de ver jogadores lesionados, atirados ao chão”, divide o seu tempo entre ir à igreja e “reunir-me com os meus filhos para lhes falar da vida. Também encontro-me com os camaradas do meu partido para cavaqueiras”.
Entretanto, o que faz desta mulher uma marca registada é o facto de gostar de cantar e dançar. “Sou uma mulher muito alegre!”. De qualquer modo, um livro à cabeceira também faz bem à alma. “Gosto de ler. Leio livros da igreja e também sobre política”. E para manter a forma,“faço ginástica num grupo por mim criado em Quelimane, onde resido actualmente”.
Percurso profissional
Matilde Lampião é membro do Partido Frelimo e da Organização da Mulher Moçambicana (OMM). Foi eleita deputada da Assembleia Popular (AP) e deputada da Assembleia da República (AR), durante dois mandatos, o quinto e o sexto. Como deputada, fez parte do grupo parlamentar da SADC e como membro da Comissão Permanente do HIV, ao nível da SADC. Participou em três observações eleitorais, na Tanzânia, Lesotho e Malawi, e fez parte de diversas comissões com fins filantrópicos. Actualmente, é membro do Conselho de Honra da OMM.
Fotos de Jerónimo Muianga

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