terça-feira, 23 de agosto de 2016

Desapareceram dezanove camiões com madeira ilegal

Estavam retidos na Reserva do Gilé

José Dias, administrador da Reserva do Gilé, diz que não sabe para onde foram os camiões.

Desapareceram da Reserva do Gilé vários camiões apreendidos em diferentes postos de fiscalização da zona tampão da Reserva do Gilé, carregados de madeira ilegal que havia sido apreendida em Fevereiro deste ano.

Ninguém sabe para onde foi a madeira e os camiões. A madeira havia sido apreendida nos postos de fiscalização nos distritos de Pebane, Mocubela e Gilé. A maior parte da madeira apreendida era pau-ferro, uma espécie cujo abate é proibido desde Janeiro deste ano. O administrador da Reserva do Gilé, José Dias, diz que desconhece o destino dado à madeira.

Fontes do CANALMOZ na Zambézia dizem que um navio carregado de madeira deixou o porto de Quelimane na passada sexta-feira, com destino à China. Dentro do porto, houve tentativas de impedir a saída da madeira ilegal, mas tais tentativas fracassaram, alegadamente porque a madeira é de gente poderosa. Diz-se que são deputados da Assembleia da República, com ligações ao poder.

O saque da madeira já é um problema antigo na Zambézia. Na última visita que fizemos àquela província, falamos com alguns operadores florestais para saber o que pensam sobre a exploração ilegal daquele recurso.


Existem na Zambézia 170 operadores legais. São dados fornecidos pelo chefe dos serviços florestais, Eugénio Manhiça. Alguns exploradores ouvidos pela nossa reportagem disseram que o Governo faz pouco para travar a exploração ilegal. Abdul Hamide disse, na altura, que “não é qualquer pessoa que pode roubar e tirar a madeira”. Rui da Silva, operador e presidente da associação dos exploradores locais indicou que há “falta de vontade por parte do Governo” para estancar a exploração ilegal. Segundo Rui da Silva, estão bem identificados os locais por onde passa a madeira ilegal abatida, quer na reserva, quer fora dela.

China, o destino de sempre

Como fizemos referência, as nossas fontes dizem que, na semana passada, um navio carregado de madeira deixou o porto de Quelimane com destino à China. Nas próximas edições vamos trazer mais detalhes sobre o assunto, incluindo as características do navio e a sua matrícula.

Um artigo do “Africa Monitor”, datado de 23 de Fevereiro do corrente ano, indica que madeira moçambicana avaliada em 3000 milhões de dólares entrou em território chinês fora do circuito normal, Segundo a publicação, Moçambique exporta oficialmente 100 milhões de dólares de madeira para a China. Entretanto, o “Africa Monitor”, citando estatísticas chinesas, indica que houve exportação “de quatro vezes mais” ou seja, “400 milhões de dólares da matéria-prima”. O “Africa Monitor” escrevia que a saída da madeira deve-se essencialmente à falta de eficiência na fiscalização por parte das autoridades moçambicanas.

Relatórios internacionais provaram o envolvimento de indivíduos do poder no negócio ilegal de madeira.

José Pacheco, ministro da Agricultura, foi um dos nomes apontados.

A nossa reportagem ouviu vários intervenientes no negócio da madeira: Governo, exploradores licenciados e organizações não-governamentais.

Todos afirmam que o principal mercado da madeira, principalmente do pau-ferro (legal e ilegal), é a China. “A entrada de madeira moçambicana na China não tem parado de crescer desde 2009, quando era inferior a 90 milhões de dólares, até 2014, quando superou os 400 milhões de dólares”, escreve a publicação, e acrescenta que, de 2013 para 2014, “o seu valor quase duplicou”. A publicação que temos vindo a citar fala de um crescimento exponencial do investimento chinês no sector florestal africano. “De oito projetos em 2007, para 84, num total de 25 países, em Julho do ano passado, quase todos de pequenas e médias empresas. E Moçambique é um dos países onde o fenómeno é mais visível”, lê-se no jornal.

A maior parte ou quase toda a madeira da Zambézia vai para a China através do porto de Nacala.

Durante a nossa passagem pelos distritos de Pebane, Mocubela e Gilé, vimos camiões com madeira apreendidos em alguns postos de fiscalização, cujo destino é a China.

A falta de coordenação que denuncia o envolvimento de gente do poder

Há várias explicações possíveis para a saída de madeira do país, entre as quais o envolvimento dos fiscais e a protecção dos ilegais por parte de gente do poder.

Na entrevista que fizemos ao administrador da Reserva do Gilé, José Dias, ficámos a saber que há falta de coordenação entre as diversas entidades que devem proteger a madeira dos ilegais. Segundo o administrador, no ano passado, uma equipa conjunta dos fiscais da reserva e da Força de Protecção dos Recursos Naturais apreendeu camiões com madeira ilegal, guarneceu os camiões, mas depois apareceram indivíduos ligados aos serviços florestais da Zambézia com uma ordem de soltura, sem explicações claras.

Segundo o administrador da Reserva do Gilé, este tipo de práticas é frequente. (André Mulungo)

CANALMOZ – 23.08.2016

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