segunda-feira, 25 de abril de 2016

Ecos do Comité Central da Frelimo

Confrontação decisiva adiada para Congresso -Nyusi com mais espaço
Por Francisco Carmona e Armando Nhantumbo

Uma das grandes questões suscitadas pela reunião do Comité Central era o espaço a disputar por Nyusi, aventando-se mesmo a possibilidade de mudanças na CP e o próprio secretário-geral a ser removido. Nada foi mexido em termos de estruturas e, apesar de muitos delegados conceberem que Nyusi “ganhou mais espaço”, a opinião não é consensual. Há o sentimento de que o novo presidente tem de trabalhar arduamente para se impor, impor também as suas pedras no xadrez partidário se quiser colher resultados a seu Espaço de Nyusi A crise política e económica estiveram no centro dos debates na reinuão dos camaradas favor no Congresso do próximo ano. A título de exemplo, é dada a nova direcção da OJM, vista como hostil a Nyusi apesar da coreografia imbecil patenteada na reunião, tentando demonstrar vassalagem total ao novo presidente.

Apesar de uma grande nebulosa quanto às capacidades e/ou habilidades de manejar o martelo no comando da V Sessão do Comité Central do partido dominante, a primeira verdadeiramente na qualidade de Presidente, há um sentimento entre os membros que Filipe Nyusi se saiu bem e está cada vez mais a impor-se no partido governamental, embora o teste final vá acontecer no Congresso da organização, marcado para o final de Setembro do próximo ano, na Matola. Temas como corrupção, explicações sobre Ematum/Proindicus, paz e a linha a ser seguida no relacionamento com Afonso Dhlakama e a Renamo dominaram a reunião de quatro dias do órgão mais importante da Frelimo no intervalo entre os congressos. O SAVANA tenta aqui escalpelizar alguns desses pontos. Depois da eleição de Filipe Nyusi como presidente do partido, numa reunião difícil onde Guebuza resistiu mas foi obrigado a renunciar, pairaram dúvidas se o actual chefe de Estado conseguiria estar ao leme do navio Frelimo. A reunião começou com os habituais desfiles enfadonhos das chamadas organizações de massas, dos seguidistas da OJM(Organização da Juventude Moçambicana) à ultra-conservadora Associação dos Antigos Combatentes de Liberta- ção Nacional (ACLLN) a lançar duras críticas à Renamo, apelidando o partido de Afonso Dhlakama de “movimento assassino e vandalizador” e pedindo mais “espaço de manobra” nos órgãos decisórios da Frelimo No seu discurso de abertura, Filipe Nyusi destacou a necessidade de reforço da disciplina partidária, o resgate dos princípios que nortearam os princípios da criação da Frelimo e pediu que os “camaradas” exprimissem os seus pontos de vista, durante os debates, de forma franca e aberta. Segundo um dos participantes, “foi o debate franco e aberto que grangeou as maiores simpatias” no encontro à porta fechada, levando o “histórico” Jorge Rebelo a comparar a reunião com outros do mesmo órgão na década de 60 em plena luta armada de libertação. Afonso Dhlakama Contrariando a linha dos mais conservadores, a chamada ala dos generais, que defendem uma desintegração da Renamo, o Presidente voltou a defender o diálogo, argumentando que não quer a morte de Afonso Dhlakama e que o líder do maior partido da oposição deve ser visto como “um adversário político, não como um Ecos do Comité Central da Frelimo inimigo a abater”. Na linha dos generais na reserva, os quadros de base, sobretudo das províncias, foram os mais argumentativos a diabolizar Dhlakama, chegando-se a pedir a ilegalização da Renamo. Porém, na “linha” do Presidente Filipe Nyusi, predominam quadros mais jovens, que constituem uma forte sensibilidade interna do partido e que defendem uma abordagem mais controlada da pressão militar para desarmar a Renamo. Aqui a linguagem é “o reforço das instituições do Estado de Direito”, um eufemismo para dizer que “se deve usar a polícia, o exército e os tribunais” contra as alterações à ordem pública, reconhecendo- -se, no entanto, que a Renamo/ Dhlakama é uma questão eminentemente política e também de reconciliação nacional. Ao que o SAVANA apurou, os velhos generais e os “seguidistas”, alas mais conotadas com o antigo Presidente Armando Guebuza, mantiveram-se contidas, não significando, segundo fontes que participaram na reunião, que saíram derrotados ou que não esperam a sua oportunidade para voltar a contra-atacar. Sobre o dossier paz, que foi uma das principais agendas do recém terminado Comité Central, os “camaradas” não trouxeram grandes novidades a público. Repetiram o que têm feito há quatro anos: lamentar os ataques da Renamo e reiterar abertura ao diálogo. “Temos assistido com preocupa- ção à prevalência das reivindica- ções da Renamo, tentando criar na opinião pública a percepção de que todo o ambiente negativo prevalecente é devido à Frelimo, pretexto para tomar o poder através do uso de armas. Apesar disso, nós continuaremos, incansavelmente, a manter o espírito de diálogo que sempre nos caracterizou, alargando-o a outras forças vivas da sociedade moçambicana, nomeadamente Partidos Políticos, entidades religiosas, organizações femininas e juvenis, artistas, entre outros grupos sociais”, disse o líder da Frelimo, enfatizando que o debate em torno do informe sobre a situação política e militar no País foi caracterizado por franqueza, abertura e frontalidade face aos problemas com que nos debatemos. Perante a exigência da Renamo de governar as províncias do Centro e Norte de Moçambique, Nyusi respondeu, embora que de forma abstracta, que a Frelimo continuará a liderar os processos de descentralização e desconcentração político-administrativa, uma forma indirecta de reconhecer como errados os pronunciamentos anteriores de membros da CP e os sucessivos “chumbos” na matéria levados a cabo pela bancada parlamentar liderada pela “herança guebuzista”, Margarida Talapa. Segundo os depoimentos de vá- rios participantes, Nyusi não se libertou totalmente do “espartilho” imposto estatutariamente pela CP (Comissão Política), mas ganhou mais espaço ao se reconhecer que a paz e a questão Renamo é um assunto de Estado e não do Partido Frelimo e que deve haver mais poder de iniciativa do Presidente da República/Chefe de Estado para liderar processos conducentes ao diálogo com Dhlakama e a Renamo. Nyusi, que “não abriu totalmente o jogo” nesta questão, segundo um participante, tem realizado encontros com várias sensibilidades nacionais para estabelecer um “road map” (estratégia mapeada) para a paz. Sobre a reconciliação e os erros cometidos pela Frelimo, Tomaz Salomão, um antigo ministro de Plano e Finanças no Governo de Joaquim Chissano, disse: “infelizmente, apenas nós que estamos nesta sala é que comemos. Se continuarmos a comer sozinhos, isso não vai criar harmonia na sociedade e podemos perder as próximas eleições”. Salomão deixou na sala um ambiente sombrio ao vaticinar que 2016, do ponto de vista económico, será provavelmente um dos piores anos para todos os mo- çambicanos. Mudança de atitude A corrupção foi também um tema que foi alvo de acalorados debates, um fenómeno que está a dividir o partido governamental. É daqueles diagnósticos que tem o pendor de revelar que a promiscuidade, que sempre foi característica de alguns governantes da Frelimo, não é apenas uma constatação de “apóstolos da desgraça”. Decorria o debate sobre a corrup- ção e situação económica do país, quando os “camaradas” reconheceram que é tempo de eles próprios, e não os “inimigos”, ousarem a mudar de atitude pelo bem do país. Um gestor público, conhecido pela sua verve oratória, pediu clareza nas questões entre fundos do partido e fundos das empresas, pois as empresas estatais são alvo de enormes pressões para contribuírem financeiramente para o partido “e quando dizemos que não, somos muito mal entendidos”. É de conhecimento oficioso, que o partido Frelimo se “alimenta”  de fundos nas empresas públicas, colocando na sua direcção quadros obedientes e de confiança, para possibilitarem “contabilidades criativas” e “generosas contribui- ções” partidárias. Num documento intitulado “Situação Económica do País”, apresentado na sexta-feira, 15 de Abril, naquele que foi o penúltimo dia do conclave da Matola, os “camaradas” reconhecem que para inverter a actual e difícil situação econó- mica do país é necessário que haja mudança de atitude. Numa altura em que Moçambique atravessa o pior momento dos últimos 10 anos, com dívidas que sugerem gestão criminosa do erá- rio público por dirigentes públicos provenientes da Frelimo, o partido que governa o país há longos 41 anos reconhece, ainda que timidamente, que a atitude humana está no cerne da crise económica que Moçambique está hoje mergulhada. “Para inverter a actual e difícil situação económica, precisamos de ousar a mudar de atitude”, referem através de uma nota apresentada à porta fechada a que o SAVANA teve acesso. Ainda assim, a gestão diária das contas públicas moçambicanas continua a contrariar que Moçambique está em crise económico-financeira. O combate ao despesismo que o presidente Filipe Nyusi prometeu, volvido mais um ano do seu reinado, não passa de mais uma simples declaração de intenções. No documento que mencionamos, a Frelimo admite que “precisamos de austeridade e fazer mais com os mesmos recursos, tendo em conta que a actual conjuntura não é favorável à mobilização fácil de recursos externos”. Dizem mesmo os “camaradas” que é preciso “reaprender a valorizar os recursos existentes e maximizar os benefícios de cada Metical a investir”.

Ematum/Proindicus traumatiza delegados
Para a Frelimo, urge também orientar os investimentos para aumentar directamente a capacidade produtiva, principalmente, no sector de agricultura e outros eleitos como áreas de concentração e catalisadores, nomeadamente, os sectores de energia, infra-estruturas e turismo. “Foi bom que se fez por escrito. Assim no futuro já se pode pegar nestes escritos e exigir- -se o cumprimento destas promessas. É diferente só de falar”, comentou ao SAVANA, em plena escola da Frelimo, onde decorria o evento, um membro sénior da Frelimo, que não quis ser nomeado. Com o assunto Ematum/Proindicus sempre subdjacente nos debates e reflexões sobre a situação económica e dívida pública, Nyusi viu-se forçado a chamar Isaltina Lucas, a nóvel vice-ministra de Economia e Finanças, para explicar a situação, complementarizada depois pelo Primeiro-Ministro, Agostinho do Rosário. Para um dos participantes, a esmagadora maioria não sabia dos detalhes do endividamento e “ficou muito chocada com as explicações”. Segundo os relatos, Armando Guebuza, sobre quem recaem as suspeições sobre o excessivo endividamento em torno do projecto securitário Ematum/ Proindicus, “entrou mudo e saiu calado” da reunião. Na hora de encerramento da sessão, o presidente do partido começou por agradecer o que chamou de espírito crítico durante os quatro dias de debates. “O êxito desta sessão deve-se à participação activa, franca e aberta dos membros do Comité Central e dos convidados nos debates dos pontos da agenda. Por essa razão, saudamos a todos os camaradas pela franqueza, seriedade, espírito crítico e criatividade demonstrados na análise da actuação do nosso Partido”, anotou Filipe Nyusi. Sobre a corrupção, Nyusi defendeu a necessidade da responsabilização dos quadros e militantes da Frelimo metidos no que, cautelosamente, chamou de comportamentos desviantes, mas também garantiu que os órgãos do Partido, aos diversos níveis, devem tomar medidas cada vez mais firmes para desencorajar a prática de actos de corrupção.   “Foi com grande preocupação que constatamos actos de corrupção na nossa sociedade, e por vezes envolvendo nossos camaradas. O Comité Central instrui à Comissão Política para submeter à próxima sessão Ordinária a Proposta de Directiva Anti-Corrupcão que regula a conduta dos membros do Partido a todos os níveis”, referiu. Para além de convocar o Congresso para Setembro do próximo ano na Matola, a V Sessão do Comité Central da Frelimo recomendou ainda o seu Governo a dar explicações aos moçambicanos sobre as dívidas decorrentes das operações EMATUM e PROINDICUS, contrariando assim a sua bancada que, em sede do parlamento, chumbou a solicitação da Renamo sobre a ida do executivo à Assembleia da República. A Bancada da Frelimo foi alvo de severas críticas por causa desta atitude, comportamento que, segundo alguns membros do Comité Central, teve um custo político muito elevado. Também acabaram por ser zurzidos os incontornáveis “G-40”, um grupo de comentadores e escribas a soldo da Frelimo/era Guebuza. Apesar desta recomendação, 48 horas depois, na reunião da Comissão Permanente da Assembleia da República(AR) realizada esta segunda-feira, Margarida Talapa manteve-se inflexível no pedido da Renamo para que o Governo dê explicações sobre os endividamentos encapotados e aparentemente inconstitucionais. Também na frente diálogo/ Renamo, duas sedes do partido da oposição foram incendiadas em Chimoio e o segundo vice-presidente da Assembleia Provincial de Inhambane, membro da Renamo, foi alvejado com quatro tiros, alegadamente por um “esquadrão da morte”.

Roubam e não fazem nada 
Por João Carlos Barradas*
Quando se aproximar a condenação por maioria de dois terços no Senado de Dilma Rousseff caberá à Presidente optar entre a renúncia ou beber o cálice até ao fim. A data-limite para o julgamento (180 dias a contar da provável aceitação da denúncia pelo Senado em Maio) ronda as eleições municipais de Outubro, e a votação dos deputados pela abertura do processo deu sinal de que o PT enfrenta perda acentuada de apoios. Sete partidos da coligação governamental, a começar pelo PMDB, passaram à oposição e, tirando dez votos comunistas e 60 do PT, a Presidente só obteve mais 43 apoiantes entre os deputados das restantes 23 forma- ções. Por estado, só uma maioria de deputados do Amapá, Ceará e Bahia votou contra a destituição.    Dilma nem sequer conseguiu apoio maioritário entre deputados dos demais 12 estados em que venceu na segunda volta das presidenciais de 2014. A maioria dos candidatos às votações de Outubro, preliminar da negociação de coligações para as presidenciais de 2018, quis dissociar-se de um Governo esgotado. Lula, por sua vez, é dos políticos mais expostos aos imponderáveis das investigações e processos judiciais e por escasso prejuízo que isso possa trazer entre militantes e votantes do PT, sobram, contudo, dificuldades acrescidas nas negociações com outros partidos. Outro risco da corrosão de Lula e do PT passa pelo confronto com a imagem impoluta de Marina Silva que já deu provas em eleições presidenciais de ser capaz de congregar o voto evangélico e o protesto ambientalista. Dilma terá, assim, de aceitar o martírio, clamando contra golpistas e traidores, para galvanizar o PT obrigado a uma oposição irredutível a qualquer iniciativa do governo de Michel Temer.     O presidencialismo de coligação desfez-se ante a fragmentação partidária, indefinição ideológica e viciação do sistema político por altos níveis de corrupção que se alargou a novos círculos com a chegada do PT à esfera do poder no final de 2002, ano em que conseguiu o maior número de sempre de mandatos na Câmara (91 entre 513 deputados). A degradação das expectativas económicas torna difícil a Temer abrir caminho a uma estabilização institucional e à recuperação económica à imagem de Itamar Franco (com o contributo de Fernando Henrique Cardoso e o Plano Real), após a renúncia de Collor de Mello no final de 1992.  A degradação da ordem institucional, incluindo a politização das instâncias judiciais, tem potenciado a mobilização de apoiantes e opositores do PT, mas, essencialmente, entre as camadas mais instruídas e de maiores rendimentos da população.  As sondagens detectam uma crescente desilusão e temor entre as classes de menores rendimentos e escolaridade (representando mais de 50% do eleitorado), que vêm perdendo poder de compra, sentem o aumento do desemprego (superior a 8%) e temem cortes nas políticas redistributivas.  Aqui ecoa mais forte a ideia de que a polí- tica é o roubo.   Nem sequer sobra complacência para a vetusta tradição que teve no governador paulista Ademar de Barros um dos seus expoentes.  Dos anos 1930 até à ditadura militar pôr termo à sua carreira política em 1966, Ademar vicejou de escândalo em escândalo sob o lema: “Eu roubo, mas eu faço!” Agora, os escândalos proliferam, mas é o que se vê.

O plano «B»
Mantchiyani Samora Machel*
A actual situação no nosso país deixa muito a desejar. Mesmo com todo o optimismo que se tenta passar, a tempestade não está a dar sinais de melhoria. Será que o nosso destino é a desgraça? Para muitos como eu, apreciadores da história das conquistas de Mo- çambique, temos a percepção de que estamos sem nenhuma estratégia para um futuro comum. A história de sistemas políticos com partidos dominantes pode ser similar à nossa: alienação do eleitorado, corrupção, nepotismo , etc. Isso aconteceu no Japão (LDP), Itália (CDP), México (PRI) e Taiwan (KMT). Alguns exemplos de fora de África, onde partidos dominantes mais tarde perderam as eleições ou o controlo total do poder. Nesses casos, os recursos públicos tornam-se fontes de clientelismo para ganhar eleições antes mesmo do dia da sua realização. A oposição, muitas das vezes, não vence as eleições porque tem uma desvantagem de recursos e de integração ou porque não tem o controlo do aparelho institucional. No fim, a popularidade do partido dominante cai porque ele se torna arrogante, desconectado do seu eleitorado (com o povo no geral) e eventualmente perde o poder a favor da oposição. Em África, perder o poder a favor da oposição em muitos casos significa fraude eleitoral, confrontação armada, constituição de um governo de unidade ou golpe de estado. Não pretendo com este texto confrontar de forma alguma o poder, mas sim modestamente contribuir para o possível início de uma discussão aberta de uma visão de estratégia a longo termo. A pergunta mais pertinente para o caso de Moçambique pode ser sem dúvida a seguinte: se tivermos eleições amanhã e a oposição vencer, estaremos preparados para ceder o poder? Ou então as implicações de uma situação dessas já foram analisadas? Por exemplo, sabemos que numa democracia deve existir a separação entre os poderes executivo, judicial e legislativo (parlamento). Essa separa- ção mantém a interdependência e o controlo mútuo entre os três órgãos, minimizando dessa forma a possibilidade de abuso do poder. No nosso país tem-se vindo a afirmar de forma regular que existe uma grande concentração do poder no executivo, em detrimento dos outros dois órgãos de soberania. Podemos testemunhar as consequências dessa concentração do poder, por exemplo, no caso EMATUM ou o da até então desconhecida PROINDICUS, onde foram efectuados investimentos estratégicos de grande envergadura sem a aprovação do parlamento e sem a intervenção do poder judicial para verificar e validar a transparência dos processos e a utilização desses recursos de acordo com a lei vigente. Imaginemos uma situação onde a oposição tem a maioria no parlamento. Como poderemos rejeitar políticas “irracionais” neste orgão? Não haveríamos de nos tornar “revolucionários”? A questão é o que é que estamos a fazer para não acontecerem mais casos como a Ematum, quando não estivermos no poder? Parece que se está a governar como se fóssemos permanecer no poder para sempre, sem termos nenhuma garantia no caso de a oposição vencer. Mantendo esta forma de estar, o problema de concentração de poder, em Mo- çambique, manter-se-á infinitamente, não importa quem vença as eleições. Não vamos saber e nem teríamos como controlar os novos actores. O pior é que quem estabeleceu essas regras fomos nós e não nos poderemos queixar se os outros também as aplicarem. Seguindo Robin Hood, “ladrão que rouba ao ladrão é amigo do povo”. O problema é que não conhecemos o novo ladrão; ele está com os bolsos vazios e naturalmente quem vai continuar a sofrer com tudo isso é o povo. Um bom jogador sabe sair quando ainda está em forma, para manter o seu legado. Da mesma forma que um bom apostador retira os seus lucros antes que perca tudo. O truque é mudar as regras do jogo enquanto ainda se está por cima. Nos últimos anos verifica-se que as pessoas são mais fiéis ao dinheiro do que à sua camisola partidária. No caso dos partidos dominantes em África, e não só, quando o poder cai, segue-se uma reorganização das instituições públicas incluindo das empresas estatais e os antigos chefes são ca- çados um por um. Quem poderá garantir a segurança deles? o polí- cia que recebe um salário mínimo, membro de uma corporação infestada de corruptos? O judiciário que está sob controlo do executivo? O parlamento que está sob controlo do inimigo? Ou o seu dinheiro a que a oposição já tem acesso? Em termos de direitos de terra, recursos, participações e outros investimentos obtidos de uma forma pouco transparente, quem pode garantir o direito de propriedade dos velhos actores nesta estância? A messagem que estou a passar é a seguinte: temos de melhorar os sistemas de governação, especialmente reforçando a independência dos poderes judicial e legislativo. Para o nosso bem, pois seria a cartada mestre para manter o equilíbrio do poder, num dia de chuva. E já estamos atrasados para esse processo de transição. Isto significa ter regras claras, construir instituições independentes que hoje até poderiam funcionar não a nosso favor mas que, a médio e longo prazos, nos seriam favoráveis pois as regras seriam as mesmas. Uma das mais velhas estratégias de guerra e talvez a mais citadada é: “The best attact is a good defence´´ (o melhor ataque é uma boa defesa). Deve-se estudar uma estratégia virada para o futuro. Temos de ter algumas armas que não sejam apenas armas para manter ou conquistar o poder, a qualquer custo, no futuro. Só uma restauração dos ramos de governação nos pode garantir isso. Digo nós porque sou da Frelimo e muitos jovens como eu estão preocupados com o futuro do partido e do país. Eles são “Frelimistas” de coração mas não se identificam com muitas políticas e práticas correntes, estando marginalizados do processo de tomada de decisões, e a sua frustração se manifesta nos meios sociais. Às vezes é difícil defender a camisola quando a cabeça fala mais alto que o coração. Especialmente quando temos uma situação em que não ficamos claros sobre que interesses defendem os chamados representantes do povo. Será que efetivamente os interesses comuns? por isso sonhamos um dia poder votar os nossos representantes directamente, e que eles assumam a responsabilidade de defender o compromisso com o povo. Assim, esta aposta é uma arma para nos defendermos no futuro. A África do Sul, com todo o seu rigor legal, tem vindo a sofrer abusos por parte do poder executivo. E qual está a ser a sua salvação? um Parlamento e um poder Judicial interventivos. Qual vai ser a nossa? Armas ou o salve- -se quem poder? Ou talvez : (i) ter outra nacionalidade (ii) acumular um monte de dinheiro (iii) abrir contas no estrangeiro (iv) comprar um jacto ou uma passagem para quando tudo for abaixo e deixar os pobres coitados com o país em chamas. Espero que não ...e para os que têm esses planos é importante recordar que não é possível levar toda a beleza, todo o calor humano num avião para uma ilha offshore. 
*Bacharel em Relações Internacionais, Mestrado em Estudos de Desenvolvimento, Mestrado em Gestão.

O que um homem é.
Homenagem a Manuel Vieira Pinto.
Por Mia Couto*
N asci e continuo a nascer da poesia. Foi nos versos que encontrei as minhas grandes lições. Essas lições não foram  dadas  por pessoas. Vieram na forma de pessoas. Foram pessoas, foram vidas. Em momentos de desespero e descrença, essas vidas ergueram-se como uma luz no meio das trevas e devolveram-me não tanto o caminho mas o gosto e a certeza de buscar uma saída.  A minha infância foi cercada de livros: subiam pelas paredes, atapetavam as janelas, atrapalhavam as portas. O meu pai defendia-se perante o protesto da minha mãe: os livros, dizia ele, são outras janelas, são outras portas. E tinha razão. Um dos poetas que veio em socorro dos frágeis argumentos do meu pai foi o espanhol Gabriel Celaia. E ele escreveu algo que cito de cor: quando tudo parece desabar, quando todos se entregarem à traição, basta que haja um homem, um único homem que tenha permanecido limpo e digno, basta esse homem para nos devolver a esperança em toda a humanidade.  Recordo esses versos pensando em Manuel Vieira Pinto. O nome desse homem, desde que sou menino, ecoou em minha casa como algo que foi bem mais do que um simples nome. Era uma bandeira. Uma bandeira de humanismo num tempo carregado de ódios. O meu pai sempre foi ateu. E assim nos educou: sem crença religiosa. Mas com uma profunda religiosidade, um inabalável desejo de entrega e de partilha. Vi-o chorar quando morreu o bispo da Beira, D. Soares de Resende. Por sua mão fomos visitar a campa rasa e ali, com voz comovida, ele nos falou da grandeza e da humildade. E lembro o respeito com que o nome de Vieira Pinto era erguido como se fosse um livro, um poema, uma casa no meio da tempestade. Nesse tempo de guerra e de opressão, a palavra do bispo de Nampula atravessava as paredes do medo, iludia a vigilância da polícia e alimentava a nossa esperança na justiça e na mudança.  Quando foi expulso de Moçambique pelas autoridades portuguesas, havia nas ruas e no aeroporto portugueses que o insultavam e o ameaçavam e mesmo o agrediram. Houve quem simulasse uma for- ça com um boneco dependurado. Esses que tudo isso fizeram eram certamente, em grande número, católicos. Muito possivelmente, ajoelharam-se, no dia seguinte, e pediram absolvição pelos pecados. Ou talvez, na sua estreiteza de espírito, nem pensassem que havia pecado. Em minha casa, que era de gente ateia, (com excepção da minha mãe), houve uma consterna- ção como se houvessem arrancado uma parte de nós, uma parte de Moçambique. Uma parte da nossa própria família. Pouco importava se a nossa família não frequentasse a igreja. Talvez a nossa religião fosse a mesma de todos os homens que assumem o desafio de serem generosos. Pouco importava que o meu pai e o Bispo Vieira Pinto não fossem oficialmente moçambicanos. Ambos eram mais Moçambique que muitos dos que se reclamam da moçambicanidade. Não interessa que crenças formais os distinguiam. Um mesmo sentido de humanidade os irmanava.  *texto lido no lançamento do livro “Manuel Vieira Pinto, O visioná- rio de Nampula”, da autoria do pe. José Luzia, ocorrido em Maputo a 19.04.16.

O blogue “Diário de um sociólogo” [portal com referência acima], que tenho o prazer de produzir, fez dez anos de vida ininterrupta no dia 18 deste mês, tendo nascido às 13:26 de 18 de Abril de 2006. É o mais visitado blogue moçambicano e uma referência nacional e internacional. Dele têm ideias e textos para livros, para a minha crónica semanal no “Savana” e para as minhas páginas no Facebook, no Twitter, na Academia. edu e noGoogle+. O Diário de um sociólogo é (1) diariamente actualizado, (2) não se esconde no anonimato, (3) não pratica o panfletarismo e (4) não vive da mediocridade parasitária do copia/cola/mexerica. Face à hegemonia de redes sociais como Facebook e Twitter, é certamente o único blogue mo- çambicano que se mantém vivo com base nas quatro características apontadas.

2 comentários:

Abbot Lasson disse...

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