quinta-feira, 7 de abril de 2016

Wisconsin tentou construir muro contra Donald Trump e deu corda a Bernie Sanders

Magnata terminou muito atrás de Ted Cruz e ficou mais longe de escapar a uma convenção aberta. No lado do Partido Democrata, Sanders venceu Clinton mas continua com um caminho muito difícil.
Ted Cruz é a alternativa mais credível a Donald Trump no Partido Republicano SCOTT OLSON/AFP
O crescente movimento anti-Trump no interior do Partido Republicano esperava construir um grande e maravilhoso muro no Wisconsin para travar a marcha do magnata em direcção à vitória final nas primárias, e os fervorosos apoiantes do fenómeno socialista do Partido Democrata, Bernie Sanders, queriam hastear no mesmo estado a bandeira para uma reviravolta histórica. No final do dia, ambos os campos tinham razões para se sentirem realizados, mas a vitória do senador Ted Cruz no Partido Republicano é mais comparável a um poça de lama que abrandou a marcha de Donald Trump, e a derrota de Hillary Clinton no Partido Democrata ainda não é suficiente para lhe retirar as insígnias de favorita.
Depois de vários dias de descanso, os dois maiores partidos dos EUA regressaram esta semana à corrida para a escolha dos seus futuros representantes nas eleições presidenciais, marcadas para Novembro.
A caravana arrancou no Iowa, a 1 de Fevereiro, e só vai chegar ao destino final a 7 de Junho, na Califórnia, mas na terça-feira parou no Wisconsin – um estado progressista que ainda faz parte da chamada cintura industrial norte-americana, que tem uma população branca a rondar os 88% e onde o candidato do Partido Democrata não perde nas eleições gerais desde 1988. Em suma, um figo para Bernie Sanders, um candidato que promete uma revolução política em nome do socialismo democrático, que culpa os acordos de comércio livre pela perda de grande parte dos postos de trabalho na cintura industrial dos EUA e cuja mensagem tem sido recebida com entusiasmo por uma grande parte do eleitorado branco e mais jovem.
Sanders venceu as primárias do Partido Democrata no Wisconsin com 56,6%, contra os 43,1% de Hillary Clinton, mas o resultado tem duas leituras distintas, que só à primeira vista parecem ser contraditórias.

Momentum v. delegados

Se alguém entrasse numa máquina do tempo para viajar de volta até ao dia 30 de Abril de 2015, na altura em que Bernie Sanders estava a anunciar a sua candidatura, e lhe dissesse ao ouvido que ele iria ganhar as primárias no Wisconsin daí a um ano – e se acrescentasse que, por esta altura, teria 16 vitórias contra Clinton, as últimas seis de forma consecutiva –, o senador do Vermont provavelmente responderia "Get outta here" no seu sotaque de Brooklyn, onde nasceu e viveu até aos primeiros anos da idade adulta.
Mas a verdade é que a sua mensagem contra o capitalismo selvagem e a favor de uma melhor distribuição da riqueza (a imagem que transmite aos seus apoiantes é a de países como a Dinamarca e a Suécia) não só o manteve na corrida por muito mais tempo do que se esperava, como lhe tem permitido fazer passar a mensagem de que ainda é possível apanhar e ultrapassar Hillary Clinton na batalha pela chave da nomeação – o número de delegados que resulta de cada vitória numa votação.
O problema desta mensagem é que nas primárias do Partido Democrata não há nenhum estado que entregue todos os seus delegados ao vencedor dessa votação em particular – os delegados são distribuídos de forma proporcional, pelo que o perdedor consegue, ainda assim, ganhar alguma coisa. Por exemplo, no Wisconsin, Sanders teve 56,6% e meteu ao bolso 47 delegados; Clinton ficou-se pelos 43,1% e levou para casa 36 delegados.
No total, até agora – e descontando os pequenos acertos que ainda vão ser feitos no complicado processo de contagem –, Hillary Clinton tem 1279 delegados que estão obrigados a votar nela na convenção do Partido Democrata e Bernie Sanders tem 1027. Se juntarmos a estes totais os apoios já declarados dos superdelegados (mais de 700 pessoas ligadas às estruturas do partido que têm liberdade de voto na convenção), Clinton sobe para 1740 e Sanders para 1058. Para garantir a nomeação sem problemas, um dos candidatos tem de obter 2383 delegados até ao fim das primárias.
O resultado destas contas é simples – Bernie Sanders sai do Wisconsin com muita saúde para manter Hillary Clinton de pé atrás, possivelmente até à fase final da corrida, mas para dar a volta à situação teria de praticamente varrer do mapa a antiga secretária de Estado nas votações que restam, uma hipótese só um pouco mais real do que a construção de uma máquina do tempo.
Para que alguém se veja obrigado a engolir o parágrafo anterior dentro de dois meses, será preciso que Bernie Sanders comece por vencer de forma clara em Nova Iorque a 19 de Abril, que é o seu estado natal, mas que é também o estado que elegeu Hillary Clinton como senadora por duas vezes.Segundo as sondagens mais recentes, Clinton tem uma vantagem média de 11 pontos sobre Sanders.
O senador do Vermont sabe que tem uma tarefa complicada pela frente, e por isso mesmo os seus discursos de vitória giram sempre à volta da palavra "momentum" (ímpeto) – a ideia de que a sua campanha está com a corda toda e que agora ninguém o vai parar.
"Não digam à secretária [de Estado] Clinton, porque ela está a ficar um pouco nervosa. Mas eu acredito que temos uma excelente hipótese de ganhar em Nova Iorque e de conquistar muitos delegados", disse Bernie Sanders no seu discurso de vitória. A sua adversária, que nunca chegou a fazer uma campanha que se visse no Wisconsin, não falou depois da derrota e cumprimentou Sanders através do Twitter.

Confusão republicana

Apesar do "momentum" de Sanders no Partido Democrata, a emoção está quase toda no lado do Partido Republicano, onde se trava uma batalha nos bastidores para impedir a marcha de Donald Trump para a nomeação. Mais uma vez, também neste caso a realidade pode ser interpretada como uma contradição – sim, é verdade que Trump lidera a contagem dos delegados; mas sim, também é verdade que há uma enorme pressão no interior do Partido Republicano para que ele não seja o seu candidato à Casa Branca. E nunca esse movimento anti-Trump tinha sido tão forte como no Wisconsin, o que deu um novo alento aos eleitores e aos líderes políticos que se identificam mais com um tipo de conservadorismo tradicional, sem muros na fronteira com o México, sem portas fechadas a todos os muçulmanos e sem declarações polémicas sobre mulheres, que constituem a maior fatia do eleitorado geral nos EUA.
O problema destes republicanos mais tradicionais é que a estratégia com maior probabilidade de sucesso para travar Donald Trump é apoiar Ted Cruz, um senador que poderia responder "Get outta here" no seu forçado sotaque do Texas se alguém entrasse numa máquina do tempo e fosse a 2015 dizer-lhe que seria ele o salvador do chamado "establishment". Até se ter percebido que Donald Trump era o favorito nas primárias e que Ted Cruz era o único que lhe podia fazer frente, o senador do Texas era visto pelos republicanos mais tradicionais apenas como um dos ultraconservadores do Tea Party, alguém que nunca apoiariam numa corrida à Casa Branca – uma prova de que ser obrigado a engolir parágrafos anteriores não é tão raro como isso.
Ted Cruz eclipsou Donald Trump no Wisconsin, com 36 delegados contra apenas seis. No total, o senador do Texas continua atrás do magnata do imobiliário (743 contra 517), e o governador do Ohio, John Kasich, só continua na corrida para ajudar a tornar realidade algo que muitos julgavam não ser possível nas próximas décadas – uma convenção aberta no Partido Republicano.
O movimento anti-Trump que existe na liderança do Partido Republicano e entre muitas figuras destacadas do partido, como Mitt Romney, só tem um caminho para travar o magnata: esperar que ele não conquiste os 1237 delegados necessários durante as primárias e que depois, durante a convenção, em Julho, uma difícil mas possível união entre os delegados que não querem nomear o magnata se juntem à volta de um outro candidato – e o mais provável é que esse candidato seja Ted Cruz, se conseguir manter-se perto de Donald Trump até ao final das primárias.

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