sexta-feira, 13 de fevereiro de 2026

Maria Paula Gutierrez Meneses - 1963-2026 Um Não Obituário. A Negação da Morte

 Mablinga Shikhani

2 d 
Maria Paula Gutierrez Meneses - 1963-2026
Um Não Obituário. A Negação da Morte
Quando soube por uma sms tão doída quanto pesada, nada de seca, mas de grito contido de uma amiga comum: “Faleceu a prof. Maria Paula Meneses”. Respirei fundo, a respiração se me embargou, contive um soluço. Ainda respondi: “Oh Jesus!!” Muitos conhecem aqueles suspiros de fé repentina, na esperança de que A omnipotência do Criador faça sentido e ela ressuscite.
“A morte é à vez” procurei um refúgio na filosofia para segurar a mensagem e pensar que fosse um mau sonho. Voltei a ler, a mensagem dizia a mesma coisa. “Com tantos idiotas por morrer” pensei, voltando a estranhar a mórbida pontaria do Criador.
Olhei para o meu filho ao lado, púbere, prenhe de vida com tudo à frente dele. Olhei para ele como um náufrago olha para um tronco ou qualquer coisa que flutue a meio de uma tormenta. Sim a morte essa silenciosa sombra é uma tormenta.
Dias depois a realidade não mudou e pensei na extensa linha de tempo desde que a conheço. Fevereiro de 1988. Último ano da Faculdade de Educação. Universidade Eduardo Mondlane. Curso de História e Geografia. A Professora apresenta-se como professora da disciplina de Pré História. Jovem, bonita, voluntariosa e recém chegada da União das Repúblicas Socialistas Soviéticas - URSS.
Uma “Mente Brilhante”
As aulas eram uma viagem real à pré-história. Muito mais do Julius Verne descreve na sua novela “Viagem ao Centro da Terra” (1864) que levavaos alunos a caminhar pelo Cenozóico, Mesozóico e pelos Paleolíticos (Inferior e Superior). Na licenciatura em História, Faculdade de Letras, Universidade Eduardo Mondlane (Classe de 1993) foi professora de História Universal Um. E a mesma pessoa mergulha os alunos na perspectiva de uma viagem ao mundo durante as aulas. Uma vez mais Julius Verne foi pequeno e, quase juro, que ouviu da Professora para o seu épico “Viagem ao Mundo em 80 Dias”.
“Paradoxalmente”
Formada em Leninegrado, mais tarde rebaptizada São Petersburgo era uma pessoa de invulgar inteligência, descomplexada, frontal, dedicada, refinada, humilde. A epítome da Escola Soviética. Decorre daí o paradoxal nela.
No fim do “mundo socialista” a URSS era vista como um “falhanço monumental”. Como referi conheci-a em 1988 no meu primeiro ano da Faculdade de Educação da UEM ela dava Pré-História e as aulas eram uma viagem pelo maravilhoso campo da ciência minado ainda pelos clichês ideológicos onde as minas ideológicas domésticas ainda faziam dano.
Mais tarde na licenciatura em história (Class of 93) as convicções eram científicas e moldadas para um revisionismo histórico, que defendo, sobre a perspectiva geral da história universal.
Mais tarde, nos anos 2000, quando ocasionalmente nos encontrássemos, conversávamos sobre diferentes perspectivas, debaixo do viés histórico obviamente, focados na história das lutas de libertação, nos estados pós independência, e no mundo pós Guerra Fria.
A facilidade com que reestruturava as perspectivas, questionando as narrativas ideológicas, era interessante. Nunca com o pendor negacionista, Síndorme de Pedro, mas com o objectivo o desafio de as tormar mais reais e pragmáticas, isto é “histórias de facto” sem as reciclar, reaproveitar mas interpretar.
Paradoxalmente, porque espalhou-se, mesmo durante a época Samoriana, uma negação a tudo que viesse da URSS ou do Bloco Socialista: do calçado, roupa, pensamento e ciência.
A ciência, era percebida como doutrinação, até a matemática, física, química, que tudo era Marxismo-Leninismo, “Nikarashova ni sovietismus” como lhes chamo. A Dr.ª Paula, e um grande amigo e colega recentemente falecido, o Dr. Vitorino Ferreira Sambo, formado em História no mesmo país, saíam dos clichés históricos das datas, personagens e países para o desafiante patamar de explicar processos diversos e os enquandrar no percurso histórico da humanidade. Deles julgo que aprendi e insisto nessa via: perceber os processos. É apaixonante e aprende-se sempre de coisas já definidas e estabelecidas.
Negação ou Incompatibilidade?
Doutorada em Antropologia pela Rudgers University, New Jersey, Estados Unidos passou a trabalhar a partir de 2003 na Universidade de Coimbra, Portugal mas nunca saíu de Moçambique, era um dos seus principais temas e mantinha contacto com inúmeras pessoas - professores, alunos, parentes, jornalistas e familiares obviamente.
O seu carácter pessoal e profissional configura-se incompatível com o ambiente académico-intelectual local. Rígido, fálico (pelo canudo perceba-se) e subserviente (curvado ao que considera e esgrime como “ordens superiores” para justificar incapacidades veniais de pensar e discutir soluções permanecendo nas infindáveis doxas babélicas) e com medo de avançar pelos trilhos do conhecimento e levar o país a perceber as suas pregas, a conhecer e enfrentar os seus medos.
A Maria Paula não era assim. Com aquele sorriso meio sarcástico, a esfregar as mãos, para a seguir dizer sem sentenciar: “tens que perceber uma coisa…” e desfiava o que sobre o assunto pensava. No que ao pensamento diz respeito era uma outside box. O medo de muitos canudos conveniente e sociologicamente acomodados à espera da sua vez na escala/cadeia alimentar local: a “eugenia do canudo” uma romaria de falsidades.
Acima da mulher, mãe, amiga, professora foi, a Maria Paula Meneses, um grande ser.
Revisionismo ou Reinterpretacionismo?
Nas nossas tertúlias ocasionais conversávamos sobre muitas coisas, eu na eterna paixão pelo conflito - processo - e ela por muitas coisas, divergíamos nestes dois aspectos. Devo ter umas linhas sobre a nossa doce quezília:
“O livro de Rafael Shikhani, intitulado “Partido, Poder, Estado: Uma Interpretação das Origens da Guerra Civil” contribui para a interpretação das origens de um dos últimos episódios de violência armada que marcam a paisagem politica moçambicana. As guerras atravessam-se na história de Moçambique. E talvez daí a dificuldade em nomeá-las. Neste livro, a guerra Civil / Guerra de Desestabilização / Guerra dos 16 anos, é-nos apresentada por parte de um ciclo mais amplo de violências que estruturam as relações globais.
Esta obra, que resulta de uma tese de licenciatura defendida em 2006, procura teorizar as conflitualidades políticas que marcaram este conflito, e que continuam silenciadas por interpretações de cariz eurocêntrico. Especificamente no que concerne à guerra civil, que se estendeu até 1992, a maioria dos trabalhos académicos dedicados a este conflito centra a sua análise numa escala nacional, que é, muitas vezes, uma abreviação do estado-nação moderno.
Uma compreensão mais aprofundada das raízes destes conflitos requer, por um lado, uma crítica do projecto do moderno estado-nação, um legado colonial. Por outro lado, exige um escrutínio mais amplo sobre as interligações socio-políticas e económicas a várias escalas, elementos que, por vezes, escapam às leituras dos conflitos políticos africanos contemporâneos.
Num contexto em que os ventos de violência armadas continuam a açoitar as sociedades contemporâneas, da Ucrânia à Índia e da Colômbia à Somália, uma questão emerge: porque é tão difícil aprofundar a paz, como um programa de afirmação da nossa humanidade? O crescente número de episódios activos de violência armada prova quã difícil é dar início a um processo negocial e mais difícil ainda é compreender as raízes destes conflitos, marcados por contextos únicos que urge conhecer.”
Brilhou no Norte, entre outras coisas, a falar das “Epistemologias do Sul” de onde nunca saíu nem se desligou. Uma “voz autorizada do Sul”, provavelmente a mais autorizada em muitos anos. Foi, impreterivelmente, brilhante, intelectualmente honesta (foi talvez por isso engedrada uma cabala tão torpe e quanto suja para a derrubar) uma pessoa de quem ter aprendido, convivido, ser amigo e camarada foi literalmente “Une Belle Histoire”.
Os Professores não morrem, amigos.
Até breve Professores!
Celia Meneses
“Une belle histoire” indeed!
Sofia Meneses Dias Cassimo
Te abraço meu irmão e Obrigada 🫂
Helio Thyago Krpan
Uma perda e tanto.
Va em Paz Prof.
Helton Mabjaia
Descansa em paz Professora.
Luiz Nandja
Descanse em paz Sra Professora.
Ivone Caldas
Que descanse em paz
António Rodrigues
Que a sua alma descanse em Paz.
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