sexta-feira, 13 de fevereiro de 2026

A fotografia e o argumento

 Elisio Macamo

5 d 
A fotografia e o argumento
Desde ontem à noite que circulam nas redes sociais fotografias do jornalista José Belmiro com vestes da Frelimo. Ficam-lhe mal, mas gostos não se discutem. Para muitos simpatizantes do ex-candidato presidencial derrotado, Venâncio Mondlane, essas imagens tornaram-se a prova definitiva de que a entrevista concedida à MBC TV foi parcial. O que acho curioso é que poucos discutem as perguntas feitas, as respostas dadas ou a própria qualidade do debate. A fotografia substitui o argumento e a suspeita ideológica dispensa a análise. Basta uma camisa vermelha para se condenar um jornalista sem julgamento.
O problema é que a democracia não se mede por fotografias, mas sim por critérios. E foi com critérios que passei uma boa parte do dia de hoje a olhar para esta entrevista (felizmente, hoje é fácil transcrever o que está no Youtube). Foquei-me na coerência conceitual, qualidade argumentativa, presença de falácias, ética da responsabilidade e contribuição para um debate público produtivo do lado do político. Do lado do jornalista, os critérios foram igualmente claros, a saber, neutralidade procedimental, rigor factual, equilíbrio temático e gestão profissional da entrevista.
Estes critérios são relevantes porque ajudam a distinguir debate político sério de simples retórica. Avaliar a coerência conceitual permite perceber se o entrevistado tem uma visão consistente de Estado ou apenas reage de forma improvisada. A qualidade argumentativa mostra se as respostas se baseiam em razões e evidências ou em afirmações vagas. A identificação de falácias protege o público contra manipulações discursivas, enquanto a ética da responsabilidade permite aferir se o político reconhece as consequências reais das suas palavras e acções. Por fim, medir a contribuição para o debate público ajuda a saber se a intervenção esclarece os cidadãos ou apenas mobiliza apoiantes.
Do lado do jornalista, os critérios também são essenciais. A neutralidade procedimental garante que as perguntas visam o interesse público e não um partido. O rigor factual impede que informações incorrectas passem sem contestação. O equilíbrio temático assegura que todos os assuntos relevantes são abordados, e a gestão profissional da entrevista – incluindo interrupções para pedir precisão – evita fugas ao tema. Em conjunto, estes critérios permitem avaliar a entrevista como um exercício de prestação de contas, e não como um combate entre simpatias partidárias.
Aplicando essa grelha, o resultado é menos favorável ao político do que à narrativa construída pelos seus seguidores. O José Belmiro fez o que se espera de quem entrevista um líder político. Formulou perguntas directas, pediu clarificações, exigiu dados, recentrou o debate quando as respostas se desviavam e interrompeu sempre que foi necessário evitar generalidades. Interrupções não são sinónimo de parcialidade. Muitas vezes são condição do jornalismo sério. Não houve insultos, não houve nenhum desrespeito, nem houve perguntas tendenciosas. Houve, isso sim, exigência. E exigir explicações a quem quer governar não é tomar partido. É cumprir uma função pública.
Já do lado do entrevistado, o quadro é mais complexo. Venâncio Mondlane apresentou-se com dinamismo, energia e capacidade de comunicação. Trouxe temas relevantes, mostrou preparação e confirmou que a oposição pode e deve ir além da crítica. Esse mérito é real e não há como nâo o reconhecer. Contudo, quando se passa do entusiasmo à substância, emergem limitações claras. A primeira diz respeito à coerência conceitual. Em vários momentos, Mondlane oscilou entre um discurso técnico – quando falava de barragens, infraestruturas e planeamento – e um discurso conspiratório, quando desqualificava elogios da ONU ou do Banco Mundial como “partilha de favores”. As duas coisas não cabem na mesma frase. Ou há instituições internacionais credíveis com quem se dialoga tecnicamente, ou há um sistema global corrompido que tudo manipula. Misturar ambos os registos fragiliza qualquer proposta séria.
A segunda limitação foi a qualidade argumentativa. No tema central do plano pós-cheias, orçado em cerca de mil milhões de dólares, o jornalista fez a pergunta essencial que foi de saber com que base chegaram a esse valor. A resposta nunca apareceu. Repetiu-se várias vezes que “os dados existem”, que “há um plano detalhado”, que “estamos abertos a discutir”. Mas memória de cálculo, metodologia, fontes concretas, nada disso foi apresentado. Sem provas, as ideias ficam suspensas no ar.
Foi também neste ponto que se multiplicaram as falácias. Quando confrontado com os elogios de organismos internacionais ao governo, Mondlane respondeu com uma clássica falácia ad hominem desqualificando as instituições em vez de rebater os factos. Ao comentar o Ministro dos Transportes, recorreu à ironia pessoal chamando as suas posições de “matlombadas” – outro ataque à pessoa e não ao argumento. Em vários momentos construiu falsos dilemas, como se a única alternativa fosse aceitar integralmente a sua proposta ou ser cúmplice da inacção governamental. Estas estratégias retóricas mobilizam aplausos, mas não produzem esclarecimento que era o que a entrevista devia fazer.
A avaliação do primeiro ano do governo foi para mim o momento mais frágil. Em vez de apresentar uma visão alternativa de Estado, para servir de matriz à avaliação, ele limitou-se a uma lista de falhas e escândalos. Faltou o essencial, como por exemplo, dizer que modelo de governação defende, que prioridades teria e que escolhas difíceis faria. Mesmo os números que citou sobre corrupção foram usados de forma enganadora. O aumento de processos investigados pode significar maior eficácia institucional – não necessariamente mais corrupção. E nada foi dito sobre o contexto excepcional em que esse ano decorreu, a saber, crise pós-eleitoral, manifestações violentas por ele incentivadas, tensão social e, depois, cheias devastadoras.
Um ponto particularmente importante para avaliar a seriedade dum político diz respeito à ética da responsabilidade. Questionado sobre as manifestações que resultaram em mortes, destruição e medo, ele afirmou, sem hesitar, que “voltaria a fazer exactamente a mesma coisa”. Nenhuma palavra de pesar pelas vítimas, nenhum pedido de desculpas às famílias e nenhum reconhecimento de que apelos políticos podem produzir consequências imprevisíveis. Liderar não é apenas convocar. É também assumir os efeitos do que se convoca. A recusa em reconhecer qualquer parcela de responsabilidade enfraquece, a meu ver, profundamente a sua pretensão de estadista. Os simpatizantes inteligentes que ele tem deviam insistir neste ponto com ele. Poder sem responsabilidade é o que tem feito mal ao nosso país e é sempre desanimador ver quem pode ser uma alternativa a cair no mesmo erro.
A mesma relação ambígua com as instituições apareceu na discussão sobre o Conselho de Estado. Em vez de aceitar a sua natureza consultiva e as suas regras próprias, ele defendeu que o órgão deveria funcionar segundo a sua própria interpretação. É um padrão que se repete desde a tomada de posse simbólica, cobrança do chamado “imposto do povo”, concurso para mudança da bandeira, “iniciativas legislativas” fora do Parlamento, etc.. Gestos politicamente criativos, sem dúvida, mas que revelam uma tendência a colocar a vontade pessoal acima da liturgia republicana. Até a forma como apresentou o plano pós-cheias foi revelador. Dirigiu-se ao gabinete da Primeira-Ministra com imprensa convocada, transformando um momento institucional num acto mediático. A intenção pode ter sido constructiva, mas o método foi essencialmente performativo.
No meio de tudo isto, houve também momentos positivos como, por exemplo, a defesa de maior participação cidadã, a ideia de que a oposição deve apresentar soluções e o esforço de trazer novos temas para a agenda pública. Esses são contributos valiosos e devem ser reconhecidos. Mas boa política não se faz apenas com boas intenções. Faz-se também com algum rigor, muita humildade e, acima de tudo, responsabilidade.
Por mim, a entrevista não provou a parcialidade do jornalista. Pelo contrário, ela mostrou um profissional a fazer o seu trabalho num ambiente difícil. O que ela revelou, sobretudo, foram os limites dum político talentoso que ainda oscila entre o líder de campanha e o potencial homem de Estado. Houve, por exemplo, um instante particularmente revelador quando, logo após o intervalo, e incomodado com a insistência das perguntas, VM advertiu o jornalista para não tentar brilhar à sua custa e insinuou que Belmiro queria “ganhar pontos do outro lado”.
Este momento foi talvez o mais esclarecedor de toda a entrevista. Ao invés de responder ao contraditório com argumentos, ele tentou, à semelhança do que os seus seguidores também fazem, deslocar o debate para o terreno pessoal, sugerindo motivações ocultas no entrevistador. Foi uma estratégia de deslegitimação preventiva, típica de quem sente dificuldade em lidar com o escrutínio. Mais do que firmeza, a advertência revelou a fragilidade dele como político. Um líder democrático deve enfrentar perguntas difíceis com serenidade, não com ameaças veladas de abandono do estúdio. Ao transformar o jornalista em suposto adversário, VM acabou por reforçar a impressão de que ainda vê a comunicação política como um comício a dois, e não como um exercício de prestação de contas perante o público.
Não espanta que pareça mais confortável discutir fotografias do que argumentos. Mas seria tão bom se nos preocupássemos menos com camisetes partidárias e mais com conversa séria. A democracia cresce quando as perguntas são difíceis e quando as respostas conseguem estar à altura delas.
Gitandra Valoyi
Muito obrigado, Professor Elísio, por esta leitura.
Maria Júlia Monteiro Jaleco
Gosto muito de ter notícias da minha África... (nasci e vivi em Angola) agora estou velha e já não poderei lá voltar...
Silas Fiorotti
Não é possível ter discussão efetiva de argumentos sem oferecer liberdade e segurança para a oposição atuar em Moçambique.
Capito Semente
Ainda estou confuso. Afinal era entrevista ou debate?
Na minha opinião, tivemos um debate sem moderador na primeira parte e na segunda uma entrevista.
Hélio Mudjecky
O espanto é por que o professor sempre acha que deve reagir a qualquer acção do Venâncio Mondlane e sempre, não concordando com alguma coisa que fez.
Brazao Catopola
Bom, muito interessante a perspectiva. É uma análise de um ponto de vista. No entanto, aquilo não me pareceu um debate mas sim uma entrevista, o que muda tudo ou pelo menos, questiona a perspectiva que avalia as intervenções de ontem. O jornalista tal como o candidato estiveram bem e a capacidade expositiva do entrevistado foi também muito boa. ,(1)Comecemos pelos números, talvez eu tenha visto outra entrevista, mas os números estão ali e o argumento que os traz está ali também. Podemos negar o argumento ou considerar insuficiente para chegar ao número, mas é falso dizer que não está suficiente. Aliás, até porque qualquer que seja o projeto está exposto a esse ir e vir para ajustes. Já agora é real que sobre as questões da gestão das águas há vários estudos. Já em 2003 num estudo do ARPAC sobre sistemas de alerta tradicionais de cheias no baixo Limpopo, avançamos sobre questões de gestão das bacias hidrográficas nestes sentido de construção de infraestruturas intermédias. Não é verdade, que não há resposta sobre como se chegou aos números. Ademais, não há política capaz de conhecer detalhes técnicos de todas as áreas. (3) Sempre falamos da memória institucional, se o ponto é calcular em função das cheias de 2026, então está tudo errado. No entanto, se a questão é melhorar em função da realidade, então dados passados são importantes e servem para elemento de analise. Não obstante a isso, é interessante verificar que estão assumir que a tal proposta é um plano acabado e imaculado. Como qualquer projecto, há uma proposta é a mesma pode ser retificada ou ajustada. Daí a minha valorizado no queremos discutir com o governo. É completamente estranho, vermos pessoas a dizer que um projecto é por si e logo a primeira a definição do que se quer. (4) Por se tratar de uma entrevista, não há obrigação do entrevistado responder aquilo que não lhe é perguntado. Quando o Professor crítica a ausência de uma visão do Estado está exigir isso. Pediu-se avaliação de um ano de governação e o entrevistado avaliou aquilo que lhe é pedido, até porque ao reconhecer ausências de realizações na governação, implica, necessariamente, dar uma alternativa, embora redundante. O Professor se esquece que o espaço do político é de promoção para aquisição do poder. (5) Numa entrevista com tempo limitada, ninguém, rigorosamente ninguém pode dar a conhecer tudo sobre um plano. Exigir que fosse detalhado o tal plano de 150 páginas é no mínimo desqualificar qualquer intenção de dar novas propostas. Digo no mínimo. Seria o mesmo que numa entrevista se pedisse para falar de tudo sobre a sociologia e alguém dissesse que faria em uma hora e meia. Um jornalista preparado iria atrás do tal plano e discutiria pontos do plano. É obvio que não há espaço para tal nessa entrevista. Deitar tudo abaixo porque não vimos os planos é anormal. (6)É interessante ver como de forma cíclica se desvia o debate sobre a ligação ferroviária. Todos nós lemos o manifesto da FRELIMO e do VM. Sobre a ligação e modelo todos falam, mas a abordagem do ex candidato se diferencia e muito do modelo apresentado pela FRELIMO. Outrossim, o ministro negou de forma convicta que não era possível o que se pretendia. Quando aparecem hoje a defender o indefensável é no mínimo estranho. Não está aqui a ser debatida a ideia da ligação, pois essa é bem antiga. Está em debate a rejeição do ministro da ideia ligação feita em 2024. (7) Porque se desvaloriza as questões sobre o que se submeteu a procuradoria sobre os mortos, raptos, saques que essa organização submeteu e tenta-se reduzir tudo a responsabilização de quem pediu que se manifesta. Não será no fundo uma acomodação com o sistema de poder permissivo às condições que levaram a aqueles chamamentos? A responsabilidade não pode ser unidirecional, cabe a nós da academia também sermos responsáveis e distancirmo-nos ou aproximar de abordagem objectivas e não no modelo que convém a fotografia. (😎 Não vejo desviou às normas quando se pede para que em função da norma seja aberta novas formas de pensar. Afinal o conselho de estado deverá ser e ter a mesma dinâmica até 2117? Sugeriu-se que funcionasse de outra forma e essa sugestão foi formalmente feita e sem atropelos a lei. Qual é o erro em submeter uma proposta? Uma fez, há uns anos vi o Professor a elogiar Yacub Simbide pela ideia de governo sobra como busca de alternativas, hoje essas ideias alternativas não servem por que? (9) Sobre os organismos internacionais. Eu sou muito céptico em relação a essas. Estás são instituições de poder no fim de tudo. Estas buscam opções que as satisfazem e vezes sem conta, vemos apoiarem, até com silêncios, tudo que é anormal. Casos não faltam desde Moçambique, África austral, África e o mundo. É caricato que hoje recorremos a eles como imaculados para defender um posicionamento que sabemos ser verdadeiros. Já vimos essas organizações defenderem assassinos, já as vimos defender roubos, já as vimos reconhecer traficantes etc etc. Bom domingo
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Felisberto Joao
*Candidato derrotado*? Sinceramente, haja coragem!
Baba Matezo 
O dinheiro 💶💰 é o maior e único motivo que faz os moçambicanos, acordarem para irem as ruas..podem falar e escrever páginas de pensamento ou opiniões...só peço uma coisa para vocês sábios... resolvam o dilema então.... estou envelhecer lendo e ouvindo zumbido..
Chacate Samuel
Realmente o entrevistado demonstrou que o ser humano tem dias bons e maus, nesta entrevista houve momentos que até ficou sem respostas o que lhe provocou bastante nervosismo. Talvez tivesse ficado calmo e encontrasse respostas mais assertivas, mas me pareceu que não trazia dados que as questões exigiam. JB foi bastante profissional e atento, o que não permitia qualquer resposta de manipulação porque logo a seguir solicitava se esclarecimento.

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