segunda-feira, 11 de abril de 2016

SOBRE A TOPONÍMIA NAS TERRAS DO CHIVEVE E O SAQUE DA MADEIRA

Centelha por Viriato Caetano Dias (viriatocaetanodias@gmail.com )
“Quando a música muda, muda também a forma de dançar” - Mashudi Abiola
E u uma vez disse dramaticamente que o país perde tanto tempo com frivolidades em detrimento do desenvolvimento económico e social. Como se tivesse cometido algum delito, fui literalmente apedrejado com palavras duras e amargas vindas de quase toda a parte do país. Não me calo, nem eles (os meus fies detractores) conseguirão amordaçar-me o pensamento, pois seria uma verdadeira derrota da alma. Infelizmente, a força que puxa os políticos para a banalidade parece maior do que a força que leva os políticos para a grandeza.
TOPONÍMIA
A aprovação da nova toponímia da segunda maior cidade do país, pela Assembleia Municipal da Beira, deixa muito a desejar numa altura em que as águas do mar continuam invictas na destruição de vidas humanas, de residências e pedaços de história, sem que haja alguma acção contraditória da edilidade, liderada pelo engenheiro Daviz Simango. Por outras palavras, as águas do mar estão a engolir o Chiveve sob o olhar ocioso da edilidade. Esta situação mostra que a edilidade perdeu o leme nos objectivos da urbe e parece empenhar-se mais no populismo eleitoralista.
A toponímia é um processo que acarreta custos e implica, entre outras acções, a criação de habituais sinecuras (comissões de trabalho) e orçamento que em boa hora submeteria à cirurgia da ciência com vista a reparação, a construção e a preservação premente de algumas infra-estruturas danificadas pelas águas do mar, recolocando o Município da Beira na galeria de uma das mais lindas cidades do mundo. Quando as agendas partidárias míopes (puramente eleitoralistas) se sobrepõem aos interesses dos munícipes, o drama da pobreza aumenta e a edilidade não é capaz de andar para a frente.
Com a dinâmica das sociedades surgem novos bairros, novas avenidas, novas ruas, novos espaços geográficos, etc., que merecem a atribuição de nomes das sumidades que mais se destacaram e que ainda se destacam na prestação de relevantíssimos serviços à Nação. Como em qualquer parte do mundo, mesmo em atmosferas onde o dogma é um modo de vida, a atribuição de topónimos está longe de ser pacífico. É sempre difícil determinar de onde é que vem certos topónimos. Repito: a selecção e escolha dos topónimos é sempre uma tarefa ingrata e fantasiosa. Depende de afinidades e cumplicidades políticas, religiosas e artísticas. Depende, igualmente, do ângulo de análise e dos materiais, espirituais, etc., envolvidos, entre o classificador e o classificado. Em política como na vida, NÃO HÁ ALMOÇO GRÁTIS. Quando os topónimos não reflectem uma causa comum e não são verdadeiramente sufragados pela vontade popular, a sua durabilidade é efémera. Em democracia as leis, os decretos, as políticas, enfim, o poder, são temporários. Como diria o meu amigo Nkulu “O poder é como sabonete ou cânfora: não custa desfazer-se.” Ou seja: quando uma força política que até então militava na oposição chega ao poleiro do poder a primeira coisa que faz é deitar abaixo todas as leis e os investimentos das toponímias, dos topónimos, etc., do anterior governo.
Compreendo a edilidade, mas não concordo que esse processo seja oportuno para os beirenses. Não deve ser tratado já, porquanto a cidade da Beira está a cair de podre e necessita de rápida intervenção da edilidade. Há famílias que dormem nas suas residências, mas depois acordam flutuante em alto mar, à deriva, devido a invasão das águas do mar. Por outro lado, penso que seria uma falta de respeito, por exemplo, ter que se atribuir os topónimos de Joaquim Chissano, Nelson Mandela, Thazy ou David Mazembe, às estradas esburacadas, aos edifícios históricos em avançado estado de decadência, às praças que se confundem com florestas de animais selvagens, aos bairros com problemas de saneamento, etc. Cá por mim, seria mais fácil, primeiro, reabilitar essas infra-estruturas e, em segundo plano, “dar ao César o que é de César”. O meu amigo e Alberto Viegas (que Deus o tenha no eterno descanso) dizia que
FICAR ATRÁS NÃO É NEGAR A VIAGEM”. Pelo contrário, é saber esperar, pacientemente.
As lições de Maputo, por causa da asinha da edilidade comandada pelo Dr. David Simango, são importantes. Nesta cidade capital, a atribuição de topónimos foi uma autêntica trapalhada. Craveirinha foi um verdadeiro lucubrador, quiçá, o maior vulto de todos os vultos da poesia moçambicana, cujo nome atribuiu-se a uma ruela. Avelino Mondlane foi um grande músico, de estilo musical romântico, e, portanto, ficava bem que o seu nome fosse atribuído a uma escola de música e não uma rua. Avelino Mondlane não teve um historial de sindicância nas ruas, mas sim nos palcos.
A toponímia da Beira também inclui nomes estrangeiros. Eu não sei se na Itália, na Alemanha, na Rússia, na França, existem algum espaço geográfico com topónimo ou uma estátua de um herói moçambicano. Seria bom que nessas coisas de topónimos também houvesse reciprocidade entre os Estados, porque nós, moçambicanos, somos tão heróis quanto eles (ocidentais).
SAQUE DA MADEIRA
Quando visito algumas escolas do país sou possuído por um sentimento de revolta e de angústia. Compreendo que o ensino carece de vitaminas para crescer. A educação é um processo que leva anos e exige recursos. Os instrumentos de ensino-aprendizagem (livros, laboratórios, equipamentos, etc.), em países financeiramente exauridos como o nosso, nem sempre estão ao alcance daqueles que mais necessitam. O que é verdadeiramente inaceitável – sendo esta a causa da minha revolta – é a falta de carteiras nas escolas. As crianças recebem lições sentadas no chão e em condições humanas deploráveis. Reclama-se tanto da falta de qualidade de ensino, mas faz-se tão pouco para amortizar o sofrimento das nossas crianças que “sacrificam o corpo” para aprender a ler e a escrever.
As nossas florestas estão a ser delapidas pelo capitalismo selvagem, porquanto a madeira é contrabandeada e abastecida nos mercados internacionais. Enquanto o país dorme e os políticos consentem, camiões de grandes toneladas percorrem as estradas nacionais, na calada da noite, com quantidades incalculáveis de madeira contrabandeada. O percurso é feito de noite porque torna-se mais fácil corromper alguns fiscais envolvidos no crime organizado. A madeira roubada quando chegada aos portos é rapidamente colocada em contentores e enviados para diferentes destinos do mundo, sem o mínimo de controlo exigido, lesando o Estado em milhões de medicais. Os objectos de valor comercial, feitos com a nossa madeira, voltam ao país com a popular frase “Made in China….” a preços exorbitantes. Eu não sei se o problema central tem a ver com a porosidade das leis, a corrupção ou estamos perante uma situação de assalto ao nosso Estado por terroristas ambientais e comerciais? ZICOMO e o meu renovado abraço nhúngue a todos, especialmente as mulheres moçambicanas.
WAMPHULA FAX – 11.04.2016

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