segunda-feira, 11 de abril de 2016

Renamo está cada vez mais isolada em Moçambique


Roger Godwin |
10 de Abril, 2016
Joaquim Chissano, antigo presidente de Moçambique, acaba de integrar a extensa lista de personalidades nacionais que defendem o uso da força militar para acabar de vez com o perigo que a Renamo faz questão de representar para a paz e segurança no país.

A posição de Joaquim Chissano foi expressa numa entrevista ao semanário moçambicano “Savana”, onde o antigo presidente voltou a apresentar o exemplo de como Angola solucionou o problema que a UNITA vinha causando, ao insistir na via da resistência armada como forma de tentar impôr as suas extremadas posições políticas.
Para Joaquim Chissano, a Renamo não está a actuar com seriedade política quando diz que só aceita negociar com o Governo se a União Europeia fôr entendida como força de mediação.
“A União Europeia é um grupo de Estados com interesses diferentes, que não se interligam e que lutam entre si para impôr a sua vontade”, sublinhou o antigo presidente de Moçambique que não aceita o facto de que Afonso Dlakhama, líder da Renamo, seja tratado como se tivesse um estatuto especial no país. Nos últimos dias, a sociedade moçambicana tem intensificado o debate em torno do que deve ser a posição da sociedade face à intransigência da Renamo em não aceitar dialogar directamente com o Governo.
Esse debate tem reforçado a ideia que já se tinha e que aponta para o facto da Renamo estar cada vez mais isolada na posição de intransigência política face ao Governo, o que tem servido de argumento para manter o uso das armas como modo de salvaguardar a sua sobrevivência no contexto do país.
Desde o início do ano que o líder da Renamo tem insistido na ideia de que está ser vítima de uma perseguição militar que visa a sua eliminação física como forma de neutralizar a acção da Renamo, organização que dirige e que ainda consegue ser, apesar de tudo, a segunda força política do país.
Para tentar tornear essa intransigência, o Governo moçambicano tem elaborado uma série de propostas de diálogo, todas elas contendo como ponto indiscutível a necessidade de ser mantido sem a intermediação de forças ou personalidades estrangeiras. Alegando uma desconfiança crónica sobre as reais intenções das autoridades moçambicanas, a Renamo tem recusado essa forma de diálogo, “sugerindo” que ele apenas possa ser feito se tiver a mediação da União Europeia ou, em alternativa, da Igreja Católica. 
Curiosamente, a Igreja Católica tem sido tímida em aceitar a “sugestão” da Renamo, deixando entender que uma proposta de mediação deveria ser apresentada directamente pelo Governo moçambicano.
A União Europeia, por seu lado, tem manifestado uma suspeita disponibilidade para mediar um eventual acordo de entendimento, o que faz com que as forças e personalidades ligadas ao Governo, como Joaquim Chissano, desconfiem de toda essa “boa vontade”.
A provar que a situação está complicada e que a Reanamo representa um perigo real para a estabilidade do país, estão os recentes incidentes militares ocorridos na região centro de Moçambique e que, desde o início do ano, já causaram várias dezenas de vítimas mortais. O último acordo de paz para Moçambique foi assinado em Roma, depois de um processo negocial intenso que durou entre 1990 e 1992, numa altura em que o país se encontrava num cenário de intensos e violentos combates entre a Renamo e a Frelimo.
Nessa altura, a Igreja Católica desempenhou um papel de fundamental importância na aproximação entre os dois maiores partidos moçambicanos, conseguindo um acordo de paz que nunca foi efectivamente aceite pela Renamo, uma vez que sempre teve uma enorme relutância pelo facto de não ter conseguido conquistar qualquer pleito eleitoral.
Mesmo agora, a Renamo insiste em não aceitar o resultado das eleições gerais realizadas em 2014, ameaçando poder governar pela força das armas as seis províncicas onde diz ter tido uma maioria de votos, uma reivindicação que não é reconhecida pela comissão encarregue de gerir todo o processo eleitoral.
Tem sido esta insistência e respectivas ameaças que fazem com que o Governo moçambicano não acredite na ideia de que a Renamo está, de algum modo, comprometida em encontrar uma solução de paz.Por isso, nos últimos dias, tem-se assistido a uma multiplicidade de tomadas de posição públicas, como a que agora foi feita por Joaquim Chissano, onde é pedido ao Governo que não faça qualquer tipo de concessão negocial face às exigências da Renamo.
Esta situação está também a ser caracterizada por alguns observadores como uma eventual preparação da opinião pública, por parte do Governo, para uma grande ofensiva militar para desarmar a Renamo e, em último caso, para prender e neutralizar o seu líder, Afonso Dlakhama, um homem completamente desajustado dos tempos de hoje, onde o soar das armas não mais é entendido como uma forma possível de chegar ao poder, sobretudo quando do outro lado está um Governo sucessivamente vitorioso de eleições consideradas como respeitadoras do que são as normas democráticas internacionalmente estabelecidas como válidas.
De uma forma ou de outra, parece ser inequívoco que a Renano está cada vez mais isolada numa luta que já não faz qualquer tipo de sentido e na qual o único perdedor é o povo moçambicano.

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