quarta-feira, 13 de abril de 2016

Não há nenhum golpe


Por Rui Martins, de Genebra:
Me lembro bem do golpe militar de 1964 e dos temores por ele provocados.
O Brasil vivia diante da expectativa de serem adotadas as reformas de base anunciadas pelo governo Jango Goulart. O mês de março mostrava que o Brasil poderia colocar em prática aquelas reformas necessárias para o país acabar com seus contraste, como escrevia o jornal Le Monde, de uma grande parcela da população miserável e, no oposto, uma dourada casta de privilegiados, que não se preocupava com desenvolvimento mas apenas em fruir da desigualdade social.
Estava num ônibus lotado, vindo da Maria Antonia, e ouvia nos transistores de alguns passageiros, os prenúncios da Revolução – era o 13 de Março. Cinco dias depois, veio a marcha reacionária em favor de dois temas, geralmente opostos – Deus e a Liberdade. Não passei nem por perto, embora vivesse próximo da Sé, no bairro da Liberdade, mas vi as fotos e, na República de universitários, onde vivia, sabíamos que o confronto seria inevitável.
Era um daquele raros momentos em que a História muda – daria o Brasil seu passo para a frente ou faria um salto para trás ? No meu quarto de estudante, empilhavam-se os jornais Brasil Urgente e no meu bolso a inscrição para uma série de conferências sobre marxismo, por Jakob Gorender, na sede do IAB, o Instituto dos Arquitetos do Brasil, localizado na rua pela qual eu sempre passava no caminho para o Sesc, onde trabalhava, a General Jardim, em São Paulo.
Mais alguns dias e houve o desfecho inesperado mas previsível – os militares assumiam o poder, Jango se retirava para o sul, as tropas estavam nas ruas no Rio e em Brasília. Em algumas horas, tinha se acabado a liberdade e ficaram adiadas as reformas de base. Fui para Santos, onde viviam meus pais, e junto com meus amigos Quinzinho e Eliseu falávamos até de madrugada. Eu preocupado com meu nome e endereço inscrito no curso do Gorender, mas provavelmente posto em lugar seguro com os nomes dos outros participanes, antes da chegada dos agentes da repressão.
De volta de Santos, ficávamos de noite sintonizando, num rádio velho em cima de um guarda-roupa, a Rádio Farroupilha liderando a Cadeia da Legalidade com o resistente Leonel Brizola. Havia muita emoção e ao mesmo tempo a frustração de não podermos fazer nada, ali na rua Taguá, esquina da São Joaquim.
Dois anos depois, já jornalista, secretariava, ao lado de Mario Martins, a mesa dos líderes representantes de esquerda, no Encontro com a Liberdade, no Teatro Paramount, no começo de janeiro. Esse desafio à lei da censura, baixada pelo ditador Castelo Branco, foi praticamente o último ato público de resistência à ditadura. Tínhamos imaginado, eu e Ivam de Barros Bella, na redação do Estadão, como forma de driblar o presidente pelego do Sindicato dos Jornalista de São Paulo, Adriano Campagnole. A ideia cresceu e se transformou em realidade com Narciso Kalili, Audálio Dantas, David de Moraes e nos levou à campanha pela Chapa Verde pela tomada da direção do Sindicato, fragorosamente derrotada.
Vamos ficar por aqui, senão a história é longa.
Mas esse exercício de memória é apenas para mostrar não haver hoje, no Brasil, o mesmo clima de tomada do poder por tropas militares, acabando com o exercício da liberdade, censurando jornais, fechando o parlamento, cassando governadores e políticos.
Tudo está funcionando : o Congresso nacional, a Justiça, a imprensa considerada culpada mesmo dando espaço aos porta-vozes do governo, as tropas não estão nas ruas, a vida continua sua rotina normal. Não se trata e não tem nada a ver com um golpe militar ou golpe de Estado. A palavra golpe é um mero slogan ou palavra de ordem.
Trava-se em Brasília uma acirrada luta pelo poder, ambos os lados utilizando os meios legais e constitucionais existentes. Os deputados foram eleitos pelo povo e uma boa parte dos ministros do STF foram indicados pelo governo. Paralelamente, a Justiça – que funciona legalmente e livremente – prossegue as investigações e inquéritos relacionados com a Lava Jato, no qual se revelam comprometimentos de empreiteiros distribuindo propinas a políticos e partidos. Pode-se argumentar que todos os partidos e políticos são corruptos, mas desta vez, a dose foi excessiva e passou da conta, a ponto de desequilibrar a maior empresa brasileira.
Houve também incompetência na gestão das finanças e economia do país e, ao mesmo tempo, falta de tato e de diplomacia na governança, num país onde é extremamente difícil se obter o apoio do Legislativo e o sistema político favorece a distribuição de cargos e ministérios. Houve vacilação da presidente, eleita sem programa mas com um discurso de centro-esquerda, para logo depois propor um governo neoliberal. Embora ainda contando com o apoio de muitos companheiros históricos de esquerda, incapazes ou comprometidos a ponto de não poderem denunciar o abismo existente entre o discurso e a prática, e utilizando a mobilização de uma parcela do povo ainda não desiludida, ninguém pode afirmar, sem cair no ridículo, ser esse um governo de esquerda ameaçado pela direita.
Quando houve o golpe de 1964, os militares quiseram impedir a consumação de reformas substanciais na estrutura política, econômica e social brasileira. Hoje, existe por acaso uma opção desse tipo ? Que grande reformas o impeachement vai impedir ?
Vivemos uma situação de mero populismo sem a prometida reforma política, sem reformas econômicas, beneficiado inicialmente por uma boa fase no comércio exterior que permitiu a aplicação de uma política social assistencialista e eleitoreira, mas sem reformas estruturais. Tanto que o Brasil a ser entregue ao vice-presidente está estruturalmente na mesma situação de 2003.
E tudo, absolutamente tudo, depende de um só homem, criado pela esquerda para facilitar a transição política e econômica, mas que acabou por ter vida própria e passou a se conduzir pelo simples faro e instinto políticos, ao ser privado de seus criadores no episódio do mensalão. Um instinto e faro agora contestados e duvidosos pela escolha da atual presidente como sucessora.
A ideia da distribuição de dinheiro aos menos favorecidos para ativar a economia não é patente do PT e de Lula. Era uma utopia de Thomas Morus, favorável a uma sociedade onde todos tivessem um salário. O marxismo imaginou uma outra relação entre o capital e o trabalho, na qual numa sociedade governada pelos próprios trabalhadores não haveria desigualdade social e nem desemprego com salário para todos. A prática não deu certo, mas ressurgiu a mesma ideia inicial, na Europa, com o mirabolante projeto de um rendimento básico para todos. Não na base de uma mísera bolsa família mas de um rendimento básico, igual a um salário mínimo.
Esse projeto utópico para uns, de vanguarda para outros, está em estudos na sociedade avançada finlandesa e será submetido a um plebiscito na Suíça. Isso se chama ousar na busca de uma sociedade mais justa que, com a chegada dos robots permitirá uma sensível redução dos horários de trabalho e não um desemprego em massa, como se prevê no capitalismo atual.
O PT enquanto esteve no poder pensou, criou, imaginou alguma coisa em termos de revolução social, diante do fracasso e do impasse no qual se encontra a esquerda clássica, cuja prova maior é o beco sem saída no qual está o governo francês ? Não, não pensou porque em lugar de fazer as reformas enquanto no poder, quis primeiro ficar no poder para depois fazer as reformas das quais, ao fim, acabou se esquecendo ou não tendo quadros capazes para isso.
Foi igualmente nula a contribuição do Brasil, nestes 13 anos ao desenvolvimento sustentável, quando poderia ter procedido a uma enorme revolução no setor das energias alternativas, dispondo como dispõe o Brasil de amplo acesso, não utilizado, à energia solar. Por que se deixar nosso sol ser dominado, no futuro, pelas multinacionais de sempre ?
Nada se fez em termos de proteção e defesa dos indígenas, já que a política desenvolvimentista só se preocupava com a monocultura da soja e o desmatamento da Amazônia. Se de um lado foram abertas as portas das universidades para os afrodescendentes, a população negra pobre continuou sendo tratada pelas polícias de todos os Estados como suspeita de todos os crimes, sendo ainda a tortura aplicada nas delegacias, como constatou a relatora especial da ONU depois de visita ao Brasil.
Com relação aos emigrantes, setor que conheço bastante, houve uma primeira iniciativa no final do governo de Lula, capaz de criar lideranças capazes de desenvolver uma política própria mas, logo a seguir, foi praticamente liquidada por um decreto inspirado pelo diplomata Sérgio Danese e assinado pela presidente Dilma, que jamais levou a sério as propostas de seus núcleos petistas do exterior e, por isso mesmo, foi terceiro lugar nos votos dos brasileiros do exterior.
É doloroso para um brasileiro no Exterior ver toda a imprensa internacional descrever como começou e se desenvolveu a atual crise política, judiciária, econômica e ética brasileira. Ler como os correspondentes da mídia internacional não se deixam enganar pelas mentiras, utilizadas na falta de fatos e argumentos. Não há nenhum golpe, não há nenhum complô da mídia nacional e internacional contra o governo brasileiro. O PT e a presidente Dilma estão colhendo o que plantaram nestes últimos anos.
Rui Martins, jornalista, escritor, ex-CBN e ex-Estadão, exilado durante a ditadura. Criador do primeiro movimento internacional dos emigrantes, Brasileirinhos Apátridas, que levou à recuperação da nacionalidade brasileira nata dos filhos dos emigrantes com a Emenda Constitucional 54/07. Escreveu Dinheiro Sujo da Corrupção, sobre as contas suíças de Maluf, e o primeiro livro sobre Roberto Carlos, A Rebelião Romântica da Jovem Guarda, em 1966. Vive na Suíça, correspondente do Expresso de Lisboa, Correio do Brasil, e rádios RFI e Deutsche Welle.
Editor do Direto da Redação.

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