sexta-feira, 27 de junho de 2014

Na Véspera de uma oportunidade

Na Véspera de uma oportunidade

February 13, 2014 at 3:24pm
 
Ultimamente, no Centro de Conferências «Joaquim Chissano», as rondas de diálogo têm tido resultados satisfatórios entre o Governo e a Renamo. Enquanto se negociava a paz, Muchanga, em nome da Renamo, proferia ameaças contra o Estado, prometendo uma insurreição generalizada. Quando a Renamo assim fala é porque está apertada e o faz como grito de socorro. As declarações feitas falam por si. Negociar a paz não é fácil, nem para o Governo, nem para a Renamo, nem para as vítimas directas da guerra que observam este momento com uma grande esperança mesclada de apreensão. Não é certamente fácil para as famílias das vítimas da violência e do terror da guerra, cuja dor nunca será mitigada, nem para os muitos militares que defenderam o povo sozinhos e até sacrificaram as suas vidas pelas do povo. A experiência de um mês nas zona de conflito provou-me ser a Renamo, e sempre ela, quem inicia com as hostilidades. Um militar, lá nas montanhas, disse-me a mim e ao meu companheiro de viagem, que é normal para a Renamo atacar as forças armadas com objectivo de conseguir munições para a caça o que implica haver baixas do lado do exército. E as forças convencionais nada fazem do que reagir contra o agressor pois, como disse Américo Matavele, nenhuma arma cuspe rebuçados. Nalgumas regiões por onde andei foi a Renamo quem demarcou limites como se de uma autoridade suprema se tratasse. Na Casa Banana as forças armadas não podem aproximar-se do limite mas, sempre que a Renamo o deseje, ultrapassa o marco que ela própria colocou atacando as forças alí estacionadas. Lembrei-me de um soldado que conversou comigo nas cercanias da Casa Banana, dizendo-me que o único desejo que tinha era que a guerra acabasse antes que eles – os soldados – acabassem. Quando passei pela segunda vez no mesmo local, para saudá-lo e dizê-lo que já havia sinais de paz, os amigos de armas disseram-me que tinha sido morto no último ataque da Renamo. Para ele, estes dias e estes sinais chegaram demasiado tarde! Hoje, na véspera de uma oportunidade recordo-me dele com um amor eterno.


Aqui vos digo, senhoras e senhores, que não serve de nada recusar reconhecer ao exército o seu direito à auto-defesa, tal como o seu direito a defender a soberania. Admiro, como pessoas vivendo em países civilizados acham normal que tenhamos um partido armado; um partido que chantagea o próprio Governo para forçá-lo a comprar a estabilidade. Vou cometer a indiscrição de vos contar que um dos meus ajudantes de campo me contactou a altas horas da noite, depois de eu ter regressado de Maringue, e me perguntou , num tom algo preocupado: «senhor historiador, qual seria a sua atitude se os guerrilheiros da Renamo lhe endereçassem um convite?». Respondi-lhe calmamente: «aceitá-lo-ia imediatamente. Fiz um compromisso pessoal de que irei até ao fim de Gorongosa. Irei a Satungira, porque quero apresentar todos os factos com conhecimento de causa». E aí, o meu ajudante disse-me: «aí fora estão eles». Naquele momento, todos baixaram os rostos, menos eu. Ninguém conceberia nunca que um simples Historiador e não Jornalista, que carrega o fardo menos pesado e menos responsabilidade no que diz respeito à questão da guerra e da paz e até das notícias, fosse declarar estar pronto a encontrar-se com aqueles homens enquanto ainda nos encontrávamos em guerra. Sai e saudei-os despreocupadamente: «Sou Historiador, trabalho para a Universidade Pedagógica de Moçambique. Vim a Gorongosa, a antiga capital da guerrilha. Sei que vocês não desejam a guerra, mas os frutos da paz. Vim de Macodza, uma terra angustiada e sofredora cujo povo, desde há mais de 9 meses, não conheceu um único mês, uma única semana, um único dia, uma única hora, em que mães não tenham chorado pelos seus filhos e pelos filhos de seus vizinhos. Neste ponto, gostaria de ir à questão principal que me levou a vir a esta terra rica em tudo: como poderemos conseguir uma paz duradoura baseada na honestidades das intenções? E fiz outras perguntas interessantes!


Aqueles homens mostram-se agastados com a sua condição de vida e esperam, tal como o meu amigo morto, que a guerra termine: «nós também morremos» disse-me um deles para o outro concluir que «os números das nossas baixas não são revelados a mando dos nossos comandantes». Aqueles homens confiam no Governo que reconhecem e esperam dele uma resposta capaz de devolver-lhes a dignidade. Enquanto conversavamos, apareceu-me uma miúda que disse ter sido violada por um homem de armas e viu o seu noivado terminado, porque o outro não quis compreender a violência a que a companheira fora vítima. No meio deles perdi lágrimas, não de tristeza pelas histórias contadas mas, por ver-me incapaz de pôr fim às hostilidades para que os filhos deles e os filhos dos seus filhos não voltem a sentir o doloroso custo da guerra: a violência e o terror. Chorei por ver-me incapaz de proteger quem quer que fosse e aliviar a alma e as dolorosas memórias que os atormentam. Apenas rezei na esperança de uma paz futura próxima, convicto de que nós, moçambicanos de todas as cores políticas, estamos destinados a viver juntos no mesmo solo, na mesma terra. Em Canda, vi soldados que regressaram das batalhas, manchados de sangue. E conversei com alguns deles, com aqueles que viram os seus melhores amigos serem mortos à sua frente, pelas mãos da Renamo. Até trocamos contactos. Também vi os guerrilheiros da Renamo que assistiram aos funerais de seus familiares e não conseguiam olhar os presentes nos seus olhos. Fui de Maringue, uma terra onde os pais enterram os filhos, onde a comida apodrece no celeiro enquanto o dono passa fome no mato. E de lá tive que carregar na memória um aviso feito por um guerrilheiro: «não queremos cercar a Frelimo nem queremos ser cercados por mísseis destrutivos prontos a serem lançados, nem pelos projécteis do rancor e do ódio quando a guerra acabar».


O que me impressionou em ambos os beligerantes e sobreviventes da catastrofe é que não possuem desejo de vingança. Apenas obedecem ordens. Não guardam ódio uns contra outros porque acreditam que todos são pessoas – pessoas que querem construir um lar, plantar uma árvore, amar e viver ao lado daqueles que lhes tiraram a vida de amigos, como seres humanos. Os soldados dão uma oportunidade à paz e dizem repetidamente: esperamos para que chegue o dia em que todos nós digamos adeus às armas. É verdade! Eles desejam abrir um novo capítulo no triste livro de suas vidas em comum com aqueles que retiraram a vida de seus melhores amigos. Os guerrilheiros da Renamo desejam um capítulo de reconhecimento mútuo, de boa vizinhança, de respeito mútuo, de compreensão. Por aquilo que vi nos integrantes do exército, a sua força interior e os seus elevados valores morais têm sido os correctos durante todo o tempo em que ficam ali. Não é por acaso que as pessoas, sempre que têm oportunidade, fogem da Renamo ao encontro deles. São valores retirados do livro dos livros. Num deles, lê-se: «há um tempo para tudo o que acontece sob o firmamento: uma hora para nascer e uma hora para morrer... uma hora para matar e uma hora para sarar as feridas, uma hora para odiar e uma hora para amar, uma hora para a guerra e uma hora para a paz. Com os estrondos das armas na minha memória, penso que chegou a hora da paz. Para aqueles lares já destruídos, acredito, espero e rezo para que os desenvolvimentos do que acontece na Joaquim Chissano tragam uma mensagem de redenção para todos nós e que a paz chegue aos seus lares. Temos que enfrentar a realidade com coragem porque a questão que nos arrastou de escaramuças em escaramuças, de vítimas para mais vítimas, até ambos chegarmos hoje à beira de um horrível precipício e um desastre aterrador é esta Renamo Armada. E, se o Estado Moçambicano quiser que esta situação continue por mais tempo assim será, a menos que, juntos, agarremos esta oportunidade e desarmar a Renamo já, para uma paz duradoura baseada na honestidade das intenções. Na tradição chewa, é costume pedir licença com a palavra Zikomo. Com a vossa permissão, homens de paz, concluirei com as palavras retiradas da tradição dos meus antepassados e recitada diariamente quando se está prestes a fazer um pedido e o meu pedido é a paz: Zikomo.

É possível criar um fundo para integração dos antigos combatentes da Renamo"


Em Entrevista ao Jornal o Pais, Mario Raffaelli, um dos principais negociadores o AGP disse o seguinte: "...Como disse antes, é necessário reconhecer o papel da Renamo e de Dhlakama, particularmente. A questão principal é a transparência, eficácia das eleições e a forma como são contemplados os vários sectores da sociedade moçambicana. Trata-se de um problema geral e não de um questão monetária. A... questão é a integração na vida civil dos combatentes da Renamo. Penso que a questão não é divisão do exército em 50%, mas, sim, deve tomar-se em conta que há pessoas que passam necessidades dia-a-dia no país. Deve identificar-se soluções para ajudar essas camadas. É possível criar um fundo para integração dos antigos combatentes da Renamo"

Aqui eu destaco o que sempre tenho vindo a dizer e a debater: Inserção, Integraçao, justiça, neutralidade e estado republicano. o problema em minha otica continua não nos resultados, a guerra. Mas nas causas e isso é o que nos negamos a ver. Egidio Vaz, Livre Pensador, Olivio Mutaquiha, Énio Viegas Filipe Chingotuane, Nrd Macata, Mablinga Shikhani, Jalal Hussein, Gito Katawala, Lissungu Mazula, Josina Malique, Eusébio A. P. Gwembe, Jose Alexandre Faia, Ericino de Salema, Joao Cabrita
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  • Nrd Macata Acho complicado esse posicionamento, mas não li ainda a entrevista toda, pelo extrato que nos traz Brazao,
    (1) Acreditando que a constituição defende o "bem estar social", parece que estamos de alguma forma a justificar que em defesa da constituição se viole a constituição, acredito que isso só é possível caso reconheçamos que somos uma sociedade cujo projeto politico-social falhou copiosamente, não acredito que seja esse o caso de Moçambique.
    (2) Existe uma certa tendencia de olharmos para as reivindicações da Renamo (leia-se dos seus militares e correlegionários e que são por isso demandas muito particulares), não enquanto reivindicações somente da Renamo , mas como reivindicações de todo "povo moçambicano", evidentemente a Renamo politicamente usa de tudo para legitimar a sua ação. Brazão quando dizes que o problema esta nas causas, vais pelo mesmo discurso cuja validade é só politica, vamos imaginar um cenário em que Guebuza senta com Dlhakama, lá mesmo em parte incerta, e acata as demandas todas da Renamo, quantos dos problemas dos moçambicanos que não são da Renamo, estariam resolvidos?
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  • Livre Pensador Rafaelli apenas nos recorda o que ficou por fazer. Ele nao deseja ir mais ao fundo da questao para se perceber por que razoes ninguem mais desejou ir para vida militar. Tambem nao menciona o facto de antes do AGP unidades de elite das FPLM terem sido transferidas para a PRM para estabelecer uma forca-tampao como a FIR, que depois se tornou esfemisticamente PIR. E muito menos fala do SNASP/SISE que e um dos dossiers que ele nao conseguiu fechar em Roma, supostamente, porque Chissano e Dhlakama concordaram discutir o assunto depois.See Translation
  • Olivio Mutaquiha Nrd Macata eu acho que o que Brazao Catopola se está a referir é a questão de transparência e estado republicano . Não precisa fazer muito esforço para saber que os AGP foram geridos de forma não transparente e da parte de um dos beligerantes que sempre dominou a máquina governativa houve ostracismo constante, isso é bem documentado. Eu acho que você levanta um falso dilema quando refere que "estamos de alguma forma a justificar que em defesa da constituição se viole a constituição, (...)". Julgo que é um falso dilema porque precisamos entender as reivendicações da RENAMO dentro do contexto histórico no qual construímos o governo moçambicano pós guerra civil. Essa nossa constituição não é um documento á parte, e por ser o mais importante documento da nação é necessário que na sua origem você não tenha desacordos... é essa transição que a RENAMO (espertamente) tenta trazer a discussão, e não totalmente sem mérito... O que acho é que a FRELIMO e a RENAMO precisam se sentar de novo, expurgar os males todos e fazer um acordo como referido que seja TRANSPARENTE de forma que possamos avançar.See Translation
  • Eusébio A. P. Gwembe Virei mais tarde, Brazao Catopola, para dizer que um problema não deve ser resolvido começando pelas consequências, como me tem parecido, às vezes.
  • Joao Cabrita Concordo consigo, Eusébio A. P. Gwembe, que não se resolvem problemas começando pelas consequências. É elementar. Temos de ir às raízes dos problemas. A Frelimo, quer como Frente, quer como Partido dirigente, nunca revelou essa capacidade. O que é compreensível: ela é parte fundamental, a causa princpal deste e de vários outros problemas. (Nrd Macata, a entrevista pode ser lida na íntegra em http://opais.sapo.mz/.../29960-deve-reconhecer-se-a... )
  • Eusébio A. P. Gwembe Joao Cabrita, a Frelimo sempre teve capacidade, apenas teve muitos empecilhos ao longo do percurso, porque enquanto ela construia, havia os que moral e materialmente destruiam.
  • Eusébio A. P. Gwembe Em relação a essa matéria, pergunto eu o que é que Afonso Marceta Dhlakama fez com o dinheiro que recebeu para desmobilizar os seus homens?
  • Livre Pensador Parece que esta a focalizar-se nas consequencias. Afinal, o dinheiro por mais que chegasse, acabava. Como acabou. E a prova disso sao os desmobilizados que se manifestam periodicamente nas ruas de Maputo exigindo o pagamento de subsidios. Sao da RENAMOtambem? Bem...o que esta em causa aqui e toda uma reconstrucao do tecido social desagregado primeiro, por uma ditadura marxista-leninista. E depois por uma guerra fraticida. Para exemplificar, em 1975 apenas 1/5 da populacao era urbana. Hoje, ja superou os 50%. E muitos deles para ca vieram por causa da guerra. Quando ela terminou, outros mais se lhes juntaram. E aqui temos entao um duplo problema a resolver. Eu nunca vi por parte de governo, doadores ou mesmo cientistas sociais, com excepcao do Arquitecto Jose Forjaz, alguma declaracao defendendo o replaneamento fisico de Mocambique. A descompressao das urbes. O incentivo fiscal a (re)colonizacao interna pelos nacionais. Curiosamente, estas 3 coisas sao feitas por estrangeiros em Mocambique. Da que pensar. Mas tambem da para perceber que dinheiro nenhum do mundo seria suficiente para curar as feridas do passado. Mas sim exemplos. Comecando pelos lideres.See Translation
  • Joao Cabrita Eusébio A. P. Gwembe, você está a ver o problema de uma forma diferente. Aqui, a questão fundamental é o poder. A Frelimo não quer abdicar do poder e ao longo de toda a sua história são vários exemplos que demonstram que as crises por ela geradas, no seu próprio seio e a nível nacional, têm a ver com o poder.

    A Frelimo, como Frente e Partido dirigente, tentou explicar sempre a sua obsessão pelo poder com recurso a factores externos. Houve uma «linha reaccionária» ao serviço do imperialismo e que teria sido derrotada antes da independência. E na transição para a independência, a Frelimo «virou o cano das suas armas para os inimigos internos», supostamente ao serviço de forças imperialistas.

    De fora, ficou a política de exclusão (que nasceu no preciso momento da fundação da Frelimo, sendo o afastamento de Adelino Gwambe prova disso), reforçada por um regime de férrea ditadura instaurado à nascença da Nação.

    Confrontada com uma inevitável crise de proporções nacionais, em 1992 esse regime é forçado a rever a situação, mas sempre com o objectivo de assegurar o poder. Daí, a «evolução na continuidade» que passou a advogar; uma continuidade que desde então tem sido mantida à base da fraude eleitoral e que é a raiz e essência da actual crise.

    Portanto, Eusébio Gwembe, se há empecilhos, esses foram criados, como demonstrei, pela própria Frelimo, como Frente e como Partido dirigente.
  • Jose Alexandre Faia Confrontada com uma inevitável crise de proporções nacionais, em 1992 esse regime é forçado a rever a situação, mas sempre com o objectivo de assegurar o poder. Daí, a «evolução na continuidade» que passou a advogar; uma continuidade que desde então tem sido mantida à base da fraude eleitoral e que é a raiz e essência da actual crise.See Translation
  • Eusébio A. P. Gwembe Quererá dizer que a Frelimo deve abdicar-se do poder, oh, Joao Cabrita? A actual crise é também económica, porque enquanto houve dinheiro, Dhlakama nunca se manifestou tão hostil. Quando se deu conta de que já estava a secar e que o outro não compactuava, como Chissano, com a compra da estabilidade, começou com as ameaças que resultaram na retirada de duas licenças que detinha, sob justificativo de fuga ao fisco. Mas tudo, continuo a pensar que começou lá em 92 quando permitiram que fosse ele (Dhlakama) a desmobilizar os próprios homens, enquanto outros tantos dormiam ai no Hotel Cardoso, felizes da vida urbana.
  • Cedrickslov Nkhoma