Serviços secretos israelitas encontraram-se várias vezes com Ahmadinejad, que era um dos vértices do plano para mudar o regime. Antigo Presidente iraniano moderou-se nos últimos anos.
Tiago Caeiro
Texto
13 jul. 2026, 23:35
“Como disse o Imã [Khomeini], o regime que ocupa Jerusalém deve ser varrido do mapa”. Durante a sua presidência, o antigo Chefe de Estado iraniano Mahmoud Ahmadinejad usava frequentemente uma retórica hostil como esta, visando Israel, defendendo a destruição do Estado judaico. Para além disso, negava o Holocausto e dava ordens para impulsionar o programa nuclear do país, agitando sempre a necessidade da dissuasão nuclear perante os inimigos regionais.
No entanto, foi precisamente Ahmadinejad que a Mossad (os serviços secretos externos israelitas) escolheu para liderar o Irão no âmbito de um plano de mudança de regime, que estava a ser preparado há anos. Segundo uma investigação do New York Times — que cita autoridades norte-americanas e outras com conhecimento do tema —, agentes da Mossad encontraram-se com o antigo Presidente do Irão várias vezes, nomeadamente na Hungria, em 2024, à margem de uma conferência. Já antes, em 2023, terá havido um contacto entre as partes durante uma viagem que Ahmadinejad fez à Guatemala para participar numa outra conferência. O antigo Presidente do Irão esteve em Budapeste em fevereiro de 2026, poucos dias antes do início da guerra entre Irão e Israel e Estados Unidos — numa visita que terá servido de fachada para novo encontro com agentes da Mossad.
Nos últimos anos, Israel custeou o alojamento e as viagens de Mahmoud Ahmadinejad.
A campanha secreta preparada por Israel culminou com um ataque contra os guarda-costas de Ahmadinejad para libertar o antigo presidente iraniano da prisão domiciliária em que se encontrava, logo no primeiro dia do ataque conjunto dos EUA e Israel contra o Irão em fevereiro. O objetivo era colocar em prática o plano para derrubar o regime atual e voltar a colocar na presidência o antigo presidente. No entanto, a estratégia israelita falhou.
Agentes da Mossad resgataram Ahmadinejad no Irão mas o plano falhou
A 28 de fevereiro, logo no início da operação militar contra o Irão, um ataque aéreo israelita atingiu o complexo onde se encontrava Ahmadinejad, tendo como alvo o edifício que albergava os seus guarda-costas e o veículo blindado onde se fazia transportar. Após o ataque, contaram ao diário nova-iorquino quatro altos funcionários iranianos, um Peugeot recolheu Ahmadinejad e levou-o a alta velocidade para longe do local. O carro em causa era conduzido por agentes da Mossad que operavam em território iraniano e que transportaram o antigo presidente do Irão para uma localização segura.
No entanto, a estratégia israelita para mudar o regime iraniano começou a falhar logo nesse momento. Ahmadinejad não ficou satisfeito com a forma como decorrera a operação de resgate e acabou por deixar o local, desistindo do plano.
Neste momento, o paradeiro do antigo Chefe de Estado é ainda desconhecido. Apesar disso, quatro altos funcionários iranianos garantiram que Ahmadinejad está sob custódia dos serviços secretos da Guarda Revolucionária Islâmica, em prisão domiciliária, depois de o Irão ter tomado conhecimento de grande parte das interações que estabeleceu com Israel.
Ahmadinejad foi visto pela última vez, cercado por guardas, no funeral do ex-líder supremo Ali Khamenei, no início de julho.
No entanto, o plano de Israel para mudar o regime do Irão — que o primeiro-ministro Benjamin Netanyahu chegou a sugerir, afirmando que Telavive estava a criar “condições” para que o regime pudesse “colapsar internamente” — não passava apenas pelos ataques ao território iraniano e pelo regresso de Ahmadinejad ao poder. Segundo o New York Times, outro elemento do plano passava por armar e treinar forças de oposição curdas baseadas no norte do Iraque para que estas pudessem cruzar para o oeste do Irão, controlar parte do território e eventualmente avançar em direção à capital, Teerão.
Ahmadinejad moderou retórica anti-Israel e queria reformar regime
Ahmadinejad, um conservador da designada linha dura do regime, cumpriu dois mandatos na presidência do Irão, entre 2005 e 2013, durante os quais adotou uma retórica anti-Israel. Contudo, nos anos que se seguiram à sua saída da presidência, moderou as suas opiniões, concedendo entrevistas nas quais chegou a criticar a repressão levada a cabo pelas forças de segurança do país, e a acusar a classe política de corrupção. No seu escritório em Teerão, ele realizava reuniões todas as manhãs para ouvir as queixas dos habitantes da cidade, e viajava pelo país, encontrando-se com apoiantes nas zonas rurais — uma atuação que muitos viam como uma tentativa de reforçar a sua imagem junto da população e de se distanciar das autoridades governamentais.
Segundo uma fonte próxima do antigo Presidente do Irão, Ahmadinejad confidenciou a um pequeno grupo de assessores as suas ambições de se tornar no futuro líder do Irão com a ajuda de potências estrangeiras. Para essa intenção terá contribuído o facto de ter sido impedido de concorrer à presidência três vezes pelo sistema montado pelo regime, tendo concluído que não poderia voltar ao poder enquanto o regime atual subsistisse. O antigo Presidente do Irão temia que, em caso de guerra e mudança de regime, norte-americanos e israelitas escolhessem uma figura da oposição residente fora do Irão e que não conhecesse o país. E considerava que poderia assumir um papel de reformador, reconheceria Israel e normalizaria as relações com vários países árabes.
O comportamento de Ahmadinejad não passou, contudo, despercebido ao regime. As suspeitas dos serviços secretos da Guarda Revolucionária aumentaram, segundo dois membros daquela organização afeta ao regime, quando o antigo chefe de Estado começou a enviar cartas públicas ao Presidente dos EUA, Donald Trump, e, posteriormente, ao príncipe herdeiro da Arábia Saudita, Mohammed bin Salman, em 2017. Após o ataque israelita de fevereiro, que culminou na libertação momentânea de Ahmadinejad, os serviços secretos iranianos começaram a investigar e a reconstituir a ligação com Israel.
Nos relatórios sobre as viagens de Ahmadinejad ao exterior, elaborados pelos seus guarda-costas, esses membros da Guarda Revolucionária relataram que o antigo Presidente desaparecia em várias ocasiões, dizendo à equipa de segurança que se ia reunir com professores universitários.
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Sem interesses.
Muito interessante.
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