sábado, 1 de setembro de 2018

OS ESQUEMAS CORRUPTOS CONTINUAM NA SONANGOL




O governo atolou-se no lamaçal do combate à corrupção e não consegue avançar. Zenú e Jean-Claude Bastos de Morais averbam vitórias nos tribunais londrinos contra o Estado angolano e as acusações de corrupção. Isabel dos Santos furta-se a ser notificada para uma inquirição judicial, refugiando-se por “motivos de doença” em Portugal. Portanto, a retórica de João Lourenço, ao embater no terreno, enfrenta sérias dificuldades de concretização.
Enquanto isto se passa, os esquemas de corrupção, em maior ou menor escala, continuam a vingar sem controlo.
Um exemplo? O que continua a acontecer na Sonangol ao nível das estruturas intermédias de chefia. São inúmeros os casos de funcionários que fazem negócio consigo mesmos e abundam os conflitos de interesses que deitam por terra qualquer pretensão de iniciativa anticorrupção.
Vejamos alguns casos:
Fernandes Fontoura Martins Gaspar é director de Transportes Rodoviários na Sonangol Distribuidora. No âmbito das suas funções, gere os contratos de transporte da companhia. Em simultâneo, Fernandes Gaspar é sócio da Rodoatlantic, Lda., uma empresa que se dedica ao transporte de combustíveis. Ora, com toda a naturalidade, Fernandes Gaspar, usando o chapéu de director dos Transportes Rodoviários da Sonangol Distribuidora, firmou um contrato para transporte de combustíveis com Fernandes Gaspar, desta vez usando o chapéu de sócio da Rodoatlantic. Ou seja, o director dos Transportes da Sonangol contrata consigo mesmo a operação dos transportes da Sonangol… Melhor é impossível.
Obviamente que todos os contratos que Fernandes Gaspar realizou consigo mesmo estão sob suspeita, e devem ser passados em revista de forma detalhada, nomeadamente para verificar se os seus preços estão ou não inflacionados, e se os serviços foram efectivamente prestados. São estas as duas técnicas mais comuns de enriquecimento ilícito nestas situações: sobrefacturação, i.e., preços mais elevados do que os reais, e facturação de serviços não prestados.
Outro caso gritante é o de Eugénio de Jesus Wilson de Carvalho, mais uma figura de topo: é o coordenador da Assessoria Jurídica da Sonangol Logística. Uma das suas funções é a participação nos processos de contratação da empresa, o que faz com que esteja naturalmente investido de uma considerável influência.
Ora, Eugénio Carvalho é também dono de uma empresa chamada Civitas, Prestação de Serviços, Lda, em sociedade com o seu filho Eugénio. Essa empresa está encarregada da prestação de serviços de limpeza de escritórios, pátios e manutenção dos jardins em Malanje. Neste caso, o representante da empresa contratada pela Sonangol é Benjamim de Carvalho: Eugénio de Carvalho teve pelo menos a preocupação de não aparecer directamente nos dois lados. Mas, no fim da linha, lá está ele.
Daqui resulta que na Sonangol há claramente um esquema nos transportes rodoviários, e um esquema nas limpezas e nos jardins.
Basta uma análise aos inúmeros serviços contratados pela Sonangol para se constatar que os negócios de altos funcionários consigo próprios, e consequentes conflitos de interesse, são a regra de gestão em vigor na empresa. Descortinámos este tipo de situações em áreas como a prestação de serviços de estafeta, a cedência temporária de trabalhadores, o transporte de pessoal, o fornecimento de materiais, os serviços de atendimento, os serviços de hospedagem, de vigilância e de segurança.
Há vários quadros superiores do grupo Sonangol envolvidos nestas actividades. Rosa Maria Delgado Martins, chefe do Departamento de Documentação e Informação da SEP/DAI, surge associada à empresa UP Solutions, que tem um contrato de prestação de serviços de estafeta. Abileno Luzizila Ernesto Bamba, assistente de contabilidade na Sonangol Distribuidora, é sócio da Comassica, Lda., que realiza a cedência temporária de trabalhadores. Marcelo Pereira Ginga, superintendente do Parque do Kwanza Norte, ligado à Sonangol Logística, é sócio da Sociedade Marvic, que tem um contrato de transporte de pessoal de Malanje e do Kwanza Norte.
A enumeração de casos poderia continuar. Mas esse não é o ponto essencial. O ponto essencial é perceber que na Sonangol, como em muitas outras grandes instituições do Estado, foi criada e fomentada uma cultura de corrupção e pilhagem. Essa prática começou no topo e, pelo efeito de exemplo, foi-se estendendo a todos os degraus da hierarquia, dando origem a uma rede de clientelismo corrupto muito difícil de combater, a não ser que do topo comece a vir um exemplo de boas práticas e de honestidade.
Por outro lado, a liderança de João Lourenço acaba por protagonizar um problema sério: é que os discursos e as entrevistas em que o presidente designa a corrupção como o grande mal a combater em Angola não têm desincentivado a criação de novos esquemas ou a manutenção de antigos. Maka Angola expôs recentemente vários mecanismos corruptos que assolam o sector da saúde.
Os mecanismos que persistem na Sonangol são de natureza diferente: foi criada uma estrutura paralela agregada ao Estado, que se alimenta de falcatruas aplicadas ao Estado e aos dinheiros públicos. Essa estrutura paralela corrupta perdura, e nalguns casos está a desenvolver-se ou a ganhar novos protagonistas.
Na realidade, perdeu-se um ano com muitos discursos e pouca acção.

10 comentários
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Tamara Monteiro
Devagar devagarinho, se apanha o macaco e é assim que a corrupção vai diminuir em Angola. Mesmo os ventos não estarem a bater sempre a favor de JLo, os corruptos que não cantem vitória antes do apito final e quem dará o apito final será o Senhor Presidente, João Lourenço.
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Luis Coutinho
Se começam mexer em tudo isso, entao comecem no MAPESS/INSS que tem muito dinheiro vindo dos descontos dos trabalhadores e empresas. Isto é, o MAPESS alimenta-se de receitas próprias sem se sujeitar ao crivo/controle do orçamento de Estado. No INSS sao conhecidos desde há décadas os esquemas elaborados com o comando da estrutura (ministro Pitra, director do INSS Moreira, etc). As empresas Angola Prev, DGM, Macroaudit sao todas de fachada para "prestar serviços" dentro do MAPESS (a Macroaudit só tem como clilente o INSS) e cobrar dezenas de milhoes de USD por trabalhos que custariam apenas uns milhares se fossem feitos por empresas sérias em regime de concorrencia transparente. Os esquemas sao conhecidos pelos funcionarios do ministerio que se indignam com os mesmos, mas nao podem fazer nada. O "polvo" tem cabeça na dupla de brasileiros Minoru/Gerson associados com o Pitra e conta com um circulo alargado de beneficiarios (como o M. Moreira) ...
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Jose Jorge Fernando
Pelo andar da carruagem (rumo que o país está a levar), estes teimosos estão com os dias contados.
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Paulo Caetano
A vitória de hoje pode se transformar lágrimas de derrota amanhã, afinal as coisas mudaram e quem não se adaptar a essa realidade passará uma temporada na cadeia.
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Apolinário Branco Branco
Eu piamente fico de todo pasmado que o orgao de fiscalização do estado anda a fazer ups me esqueci que os mesmo tomam cafe juntos . É Tribunal de Contas como órgão superior de fiscalização e controlo das despesas da gestão das finanças públicas pelos organismos do Estado, Institutos e Empresas Públicas, cujo principal traço característico do seu regime legal é a garantia da sua independência, autogoverno, mobilidade, neste actual contexto político e económico que o país vive, torna-se fundamental e pertinente a sua actuação na fiscalização e controlo das contas públicas contudo mostra -se impotente para actuar ou seja nao exerce plenamente o seu dever eis a razao aqui podemos agravar a situação o corte dos subsideos dos conbustiveis que veio ainda agravar a vida que ja é carissima do pacato cidadão ..
Giacomo Casanova
Desta vez pouparam os graúdos... O Makaangola se for mais a fundo concluirá que são os mais graúdos (ex e actuais Administradores da Sonangol) os donos das empresas provedoras de bens e serviços como Sadasa, Novagest, AIC, POS, Interoil Angola, Petrotek, Petroáfrica, ADC, Exemar, PGS, Newtech, Odkas, Newrest, Estrela Lda, Geotec, etc., com facturações anuais de centenas de milhões de dólares.
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Faustino Lopes
Mais rigor, disciplina e punição para todos esses infractores que só prejudicam o erário público.
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Rogério Tutuvala
O país continua encalhado!!
Ricardo Luís Domingos D Dominios
Só sabem copiar dos brancos aquilo que negativo como as novas técnicas de assacinar os opositores , andam atrás dos cidadãos pacatos , até a contra inteligência pactua com estes bandidos. Se o PR fosse exemplar,devia decretar que todo o funcionário público não seja permitido a criar empresa nem se quer associar a qualquer sociedade comercial. E teriam luz verde para abandonar a função publica aquele funcionário interessado em ter sua cantina.
Enquanto o PR for também empresário coitado só vai passar fazendo discursos enganatorios.
O sr. PR pode já começar por estes se queres ser 2% honesto . esta é a politica económica do MPLA dos bandidos viciados e vindos dos congos que em 43 anos fizeram o angolano o mais pobre da região num país com mais recursos naturais .
GostoResponder14 h
Rosa Domingos
Denunciar tds estes corruptos e ensistir na possivel prisao dos graudos que antecederam ( pais e filhos LDS ) ja é o primeiro passo e aí estaremos a contribuir e ajudar o JLO prq ele tbm precisa da nossa ajuda. Vamos dar força ao HOMEM.

Kremlin diz que morte de líder separatista vai minar processo de paz com Ucrânia


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A morte de Alexander Zakharchenko, líder dos separatistas pró-russos da região de Donetsk, na Ucrânia, está a ser vista como uma "provocação" pelo Kremlin.
ALEXANDER ERMOCHENKO/EPA
Autor
  • Agência Lusa
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A morte do líder dos separatistas pró-russos da região de Donetsk, no leste da Ucrânia, Alexander Zakharchenko, constitui uma “provocação” que mina o processo de paz, afirmou este sábado o porta-voz do Kremlin, Dmitri Peskov.
Alexander Zakharchenko foi morto na sexta-feira numa explosão num café no centro da capital regional, tendo a agência dos rebeldes DAN referido que “o dirigente da República Popular de Donetsk morreu num ataque terrorista” e que as “circunstâncias estão a ser averiguadas”.
“É, sem dúvida, uma provocação”, afirmou o porta-voz do Kremlin, citado pelas agências de notícias russas. “A morte de Zakharchenko vai certamente agravar as tensões na região” e minar o processo de paz lançado com os acordos de Minsk, patrocinados pela Alemanha e França, acrescentou.
Antigo mecânico e depois empresário, Zakharchenko foi um dos comandantes dos separatistas desde o início do conflito com o exército ucraniano, em abril de 2014. Em novembro, meses depois de os territórios rebeldes do leste da Ucrânia proclamarem a independência, Zakharchenko foi eleito presidente da “República Popular de Donetsk” com 81% dos votos.
Vários comandantes separatistas têm sido mortos nos últimos anos, em atos que os separatistas atribuem aos serviços especiais ucranianos.

Nacala: O homem que faz tremer a Frelimo - Raul Novinte

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Tribunal Superior Eleitoral rejeita formalmente candidatura de Lula da Silva

Tribunal Superior Eleitoral rejeita formalmente candidatura de Lula da Silva
O Tribunal Superior Eleitoral do Brasil rejeitou o pedido de candidatura presidencial de Luiz Inácio Lula da Silva, formalmente impedido de participar nas próximas eleições, em Outubro.
A proibição foi feita durante uma sessão que durou mais dez horas, com juízes do Tribunal Superior Eleitoral do Brasil.
Segundo tribunal, o ex-presidente foi declarado inelegível devido à lei que proíbe qualquer pessoa condenada em duas instâncias da Justiça a disputar cargos públicos, conhecida no Brasil pelo nome de “Lei da Ficha Limpa”.
Apesar de o tribunal ter rejeitado a candidatura de Lula, o Partido dos Trabalhadores divulgou uma nota informando que usará todos os meios para mantê-lo na corrida.
Apesar da condenação, Lula da Silva lidera as sondagens de opinião, com 39% do apoio dos eleitores. O antigo presidente do Brasil afirma que foi vítima de uma conspiração para bloquear o seu regresso ao poder.

Lula da Silva: preso político ou político preso? /premium

01 Setembro 2018
A desmistificação de Lula da Silva e do "lulopetismo": porque é que o ex-Presidente brasileiro não é Nelson Mandela e defendê-lo é um risco para a democracia. Ensaio de José Augusto Filho.
O verdadeiro estatuto político do ex-presidente Lula da Silva tem atraído a atenção de muitos no Brasil e no estrangeiro, a dividir opiniões e a aflorar sentimentos entre adeptos e adversários. À medida que a disputa eleitoral avança para seus momentos decisivos, um encadeamento de fatos produz a narrativa necessária à estratégia do líder do Partido dos Trabalhadores (PT), que literalmente capturou o debate político, mesmo preso numa sala da Polícia Federal em Curitiba, Paraná. A deliberação liminar do Comitê de Direitos Humanos da ONU em favor de Lula da Silva foi o mais recente episódio envolvendo o petista e suas pretensões políticas, prontamente capitalizado por seus simpatizantes, inclusive cá em Portugal.
Com o título “nota informativa”, o Alto Comissariado para os Direitos Humanos publicou em sua página a recomendação de um de seus comitês ao Estado brasileiro para que este “tome todas as medidas necessárias para permitir que o autor desfrute e exercite seus direitos políticos da prisão como candidato nas eleições presidenciais de 2018, incluindo acesso apropriado à imprensa e a membros de seu partido político”. A deliberação foi uma resposta às alegações dos defensores do ex-presidente, que, dentre as dezenas de recursos impetrados (uma verdadeira chicana jurídica), recorreram aos Direitos Humanos da ONU. Como não poderia deixar de ser, as reações à decisão liminar do organismo internacional foram as mais diversas.
Em síntese, os petistas e seus juristas militantes passaram a defender a tese de que Lula da Silva teria ganho direito a ser candidato à Presidência. Jair Bolsonaro, que de acordo com as últimas sondagens se consolida como provável candidato a disputar a segunda volta, reagiu de pronto. “Se eu for eleito o Brasil sai da ONU”, disparou. Por sua vez, solenemente, os poderes brasileiros ignoraram o pedido, em linha com a prática dos governos do PT. Em Portugal, a manifestação mais significativa em favor de Lula da Silva veio da lavra do ex-primeiro Ministro José Sócrates. Com passagem recente pela cadeia por suspeita de corrupção, Sócrates expressou num artigo a usual solidariedade de classe ao político brasileiro preso, típico exemplo de corporativismo a unir indivíduos por suas vicissitudes.
José Sócrates expressou num artigo solidariedade com Lula da Silva
Sem entrar no mérito sobre a legalidade da decisão do Comitê de Direitos Humanos – este deve ficar a cargo dos operadores do Direito -, o aspeto moral e político que envolve o imbróglio criado por Lula da Silva merece de nossa parte uma reflexão. De partida, é preciso desmitificar a imagem do ex-presidente e nos guiarmos pela máxima de James Madison n’O Federalista: “Se os homens fossem anjos nenhuma espécie de governo seria necessária”. O lulopetismo é uma forma de autoritarismo cínico, travestido das piores heranças do populismo frequentemente manifesto na América Latina, com seus caudilhos e tiranos de todos os gêneros. Auto identificado detentor do monopólio da virtude, pleito da esquerda mundial como um todo, Lula da Silva paira acima das instituições e despreza qualquer forma de controlo indicada por Madison para proteger o governo contra a concentração do poder.

Lula da Silva, Brasil e ONU

Todo movimento do ex-presidente baseia-se no cálculo frio e pragmático que faz para atingir seus objetivos: eleger seu companheiro de partido Fernando Haddad e livrar-se da cadeia. Não importa o custo, desde que seja feita a vontade suprema do petista.  O recurso impetrado pelos advogados de Lula da Silva no Comitê de Direitos Humanos da ONU afronta uma das mais importantes ações de combate à corrupção e à impunidade no Brasil: a Lei da Ficha Limpa. De iniciativa popular, o projeto recebeu mais de um 1,5 milhão de assinaturas, foi aprovado pelas casas legislativas e sancionado, em 2010, pelo próprio Lula da Silva. Insistir neste tipo de estratégia é, para usar um termo jurídico, litigância de má fé. Até o brasileiro comum sabe da legalidade da prisão de Lula da Silva e do seu impedimento eleitoral.
Chama atenção a defesa do ex-presidente buscar abrigo na ONU, uma instituição tantas vezes desrespeitada e ignorada pelos governos de Lula da Silva e Dilma Rousseff. Em 2009, um relatório da Human Rights Watch acusou o Brasil de proteger países que violam direitos humanos. No ano seguinte, sem se intimidar, o petista saiu em defesa de Cuba e da legislação do país caribenho que mantém e executa presos políticos. Disse Lula da Silva à Associated Press naquela altura: “Temos de respeitar a determinação da Justiça e do governo cubanos de deter as pessoas em função da legislação de Cuba. A greve de fome não pode ser utilizada como pretexto de direitos humanos para liberar as pessoas. Imagine se todos os bandidos presos em São Paulo entrarem em greve de fome e pedirem liberdade”.
O recurso impetrado pelos advogados de Lula da Silva no Comitê de Direitos Humanos da ONU afronta uma das mais importantes ações de combate à corrupção e à impunidade no Brasil: a Lei da Ficha Limpa. 
Sob o petismo, como política de Estado, o Brasil alinhou-se a regimes autoritários, passando a acompanhar na organização multilateral as posições de Rússia e China. Sem dar a mínima importância às violações de direitos humanos dos novos aliados, o padrão de votação foi definido pelas ambições geopolíticas de Lula da Silva. O interesse nacional brasileiro, que tradicionalmente se pautou pela obediência às normas e regras das organizações e regimes internacionais, passou a priorizar a política de poder do lulopetismo. Nesta linha, o Brasil fez vistas grossas às violações de direitos humanos na Coreia do Norte e no Irão, ao massacre de cerca de 200 mil pessoas no Sudão, apoiou e financiou os regimes bolivarianos de Chaves e Maduro e demais governos autoritários da América Latina, além de bajular os tiranos Gaddafi, Mubarak e Assad. O ditador Sírio foi honrado com a mais alta condecoração brasileira, o grande colar da Ordem do Cruzeiro do Sul, entregue por Lula da Silva em 2010.
O uso casuístico que o petista faz da ONU não difere muito da estratégia concebida por Rússia e China para enfraquecer a ordem liberal liderada pelo Ocidente, subordinar-se às decisões da organização de acordo com as próprias conveniências. A diferença é que o Brasil não tem recursos próprios de poder para confrontar qualquer potência. Neste momento, não configura sequer como membro rotativo do Conselho de Segurança, sem direito a veto. O país vai ficar fora da mais importante instância da ONU pelo menos até 2033, simplesmente por não apresentar candidatura. Depois de ser um dos principais defensores da reforma do Conselho, no qual pleiteava um assento permanente, o Brasil experimenta um encolhimento no cenário internacional que nada contribui para suas pretensões no mundo.
Dilma sucedeu a Lula em janeiro de 2011 e esteve no poder até agosto de 2016
Por tudo isso, não surpreende a dúvida lançada sobre a capacidade de o Brasil garantir a própria soberania e proteger suas fronteiras. A desatualização das Forças Armadas sob Dilma Rousseff e o contingenciamento de orçamento do ministério da Defesa com Michel Temer tiveram efeitos catastróficos. A inépcia para colocar ordem no ambiente conflagrado na divisa com a Venezuela e a malograda intervenção federal no Rio de Janeiro são provas de que o caos se aproxima. Se é que já não chegou.

De mito a canto de sereia

Estar sob fogo cerrado da Justiça não é privilégio nem exclusividade de Lula da Silva. O petista é vítima dos próprios erros, que não são poucos, e não está sozinho na lama. A América Latina tem uma dúzia de presidentes presos, foragidos ou investigados por corrupção. Boa parte dos casos relaciona-se com a construtora brasileira Odebrecht, que realizava obras superfacturadas e repassava aos políticos vultosas somas de dinheiro. Entre a Odebrecht e os políticos latino-americanos, ligando os pontos, encontra-se Lula da Silva e sua geopolítica de fazer do Atlântico Sul área de influência brasileira. Para irrigar o esquema de corrupção, foi usado o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES). Caso esta instituição pública venha ser submetida a uma operação como a Lavajato, certamente se verificará um rombo muito maior que o do “petrolão”, incluindo agora ditaduras africanas no banquete de abutres.
Contudo, mesmo com tanta exposição de sua imagem à fritura da opinião pública, Lula da Silva mantém-se hidratado, parecendo justificar a declaração de Barack Obama que em 2009 o chamou de “o cara” e de “o político mais popular do mundo”. Segundo sondagens, mais de 30% dos eleitores são fiéis ao petista independentemente de qualquer condenação na Justiça. Os média internacionais mostram-se quase sempre recetivos a reproduzir seu discurso de vítima sem nada questionar. Políticos, autoridades e celebridades de várias partes do mundo hipotecam apoio a Lula da Silva conferindo legitimidade a tudo que ele faça. Pergunta-se o que está por trás deste fenômeno que concede ao petista licença para cometer os maiores absurdos?
Entre a Odebrecht e os políticos latino-americanos, ligando os pontos, encontra-se Lula da Silva e sua geopolítica de fazer do Atlântico Sul área de influência brasileira. Para irrigar o esquema de corrupção, foi usado o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social.
Historicamente, o lulopetismo sempre teve expressiva votação nas mais diversas regiões do Brasil, resultado da presença do PT nos sindicatos, no serviço público, nas universidades e nas comunidades eclesiásticas de base da Igreja Católica, encorajadas por membros da Teologia da Libertação. (Um concerto colaborativo de impressionar o fascismo italiano). A este eleitorado corporativo somou-se uma camada pauperizada da população. A partir do primeiro governo de Lula da Silva em 2003, os programas sociais implementados passaram a responder pelo espraiamento do eleitorado do partido, principalmente para o nordeste do país, que concentra a população mais carente e de baixa escolaridade.
A falta de opção imposta por um sistema político-eleitoral que impede a renovação de seus principais personagens, somada à ilusão de que um segundo milagre possa acontecer, faz de Lula da Silva a esperança de seu votante pobre reviver os melhores dias de suas vidas.Por outro lado, o eleitor corporativo se comporta tal qual membros de uma seita. Entretanto, mais interessado em manter os inúmeros privilégios (denominados por ele próprio de direitos) que por apego ao credo, hipócritas e cativos, seguem sem questionar o seu messias.
No exterior, salvo as costumeiras exceções, a imprensa insiste em tratar o Brasil sob o prisma simplório. Não raro, correspondentes deixam-se capturar pelas distorções sociais que atingem grande parte da população e contribuem negativamente para formar a opinião pública internacional. Não percebem os incautos profissionais que Lula da Silva há muito tempo deixou de ser um cidadão pobre, um retirante nordestino obrigado a aventurar-se em São Paulo para mudar a própria realidade. E mudou. Fez da política sua profissão e amealhou milhões. Só à Justiça Eleitoral declarou possuir patrimônio de 7,9 milhões de reais quando solicitou registro de sua candidatura. Há pelo menos mais 9 milhões de reais bloqueados a pedido do Ministério Público. O rei está nu, e as futuras gerações de brasileiros vão pagar a conta de sua obscenidade.
A falta de opção imposta por um sistema político-eleitoral que impede a renovação de seus principais personagens, somada à ilusão de que um segundo milagre possa acontecer, faz de Lula da Silva a esperança de seu votante pobre reviver os melhores dias de suas vidas. 
É necessário esclarecer à imprensa internacional que Lula da Silva não é Mandela. O petista está preso e impedido de candidatar-se em obediência ao Estado de Direito que ainda funciona no país, apesar da insistência dele em desafiar e desmoralizar suas instituições. A narrativa recheada de ineditismo, ancorada no bordão “nunca antes na história deste país”, precisa ser desconstruída. O artigo de Lula da Silva recentemente publicado pelo The New York Times, por retratar tantas inverdades sobre a história recente do Brasil, mereceu resposta à altura do também ex-presidente Fernando Henrique Cardoso no Financial Times. Cardoso, que entregou ao petista um país organizado e estabilizado, advertiu: “é uma grave distorção da realidade, no entanto, dizer que há uma campanha direcionada no Brasil para perseguir indivíduos específicos. Meu país merece mais respeito”.
Enquanto o respeito não vem, em tendo seus planos frustrados, Lula da Silva manterá o Brasil refém de sua realidade paralela, aprofundando as crises e impedindo o país de superar a fratura política que ele próprio criou para vender sob medida a solução: o lulopetismo numa versão tupiniquim da democracia soberana de Vladimir Putin. Ao judicializar a política e politizar a Justiça, Lula da Silva desmoraliza dois entes da ordem política brasileira, cabendo ao detentor do Executivo, ele próprio de preferência, a prerrogativa de designar a sorte de toda nação.
O ex-presidente brasileiro está preso desde abril
Neste momento de ocaso da democracia no mundo, e diante das ameaças dos inimigos da liberdade às instituições brasileiras, é importante recorrer ao pequeno, mas poderoso livro do professor e historiador americano Timothy Snyder, “Sobre a Tirania: 20 Lições do Século XX”, publicado em 2017. O autor parte da assertiva de que a história não se repete, mas ensina. As duas primeiras lições, “não obedeça de antemão” e “defenda as instituições”, mais que ensinar, servem de advertência aos que pensam que a democracia é um bem inquebrantável.
Continuar agindo como encantado pelo discurso de Lula da Silva, eterno oprimido merecer de toda indulgência popular, é colocar em risco as conquistas da recente democracia brasileira, cujo vigor é demonstrado pela prisão de um dos mais populares presidentes de sua história. A superação de seu legado negativo é central para o Brasil gerir a complexidade das instituições necessárias ao desenvolvimento em todas as suas dimensões.