quinta-feira, 2 de agosto de 2012

MEMÓRIAS DE UM REBELDE, de António Disse Zengazenga 3

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O ano de 1994 terminou com as eleições efectuadas em Moçambique, que foram as mais dispendiosas, as mais dramáticas, as mais internacionalmente esperadas como um dos maiores sucessos das Nações Unidas, as mais disputadas tanto na votação como na contagem.
As actividades diplomáticas e jornalísticas que as acompanharam deram ocasião aos dirigentes dos dois grandes partidos de proliferarem extensivamente em detrimento dos outros.
Neste contexto, numa entrevista emitida pela nossa televisão, dada por aquele que recebera muitos elogios do presidente da Renamo por se ter escapado à simulação dum atentado na Zambézia, afirmava, além de outras coisas, que este último representava interesses estrangeiros. A mesma entidade, na mensagem difundida pela rádio e televisão depois da sua eleição como primeiro presidente de Moçambique democraticamente eleito, dizia: «...Doravante, quaisquer discriminações ou abusos sejam tidos como intoleráveis, inadmissíveis, porque se opõem à paz e reconciliação. O novo programa irá iniciar a libertação do país do ciclo da fome, doenças e atraso.»
A nova Constituição de Moçambique, disse Afonso Dlakama, está escrita como a Renamo queria.
Numa outra entrevista, concedida pelo presidente da defunta Assembleia Popular, afirmava esta personalidade que o presidente da Renamo se igualava a Idi Amin.
Finalmente, foi a vez do chefe da Renamo.
Descarrilando o ritmo das eleições, começadas no dia 27 de Outubro, pôs tudo em confusão e dúvidas, pelo anúncio da retirada do seu partido das eleições em curso.
Houvesse razões válidas ou não, esta decisão dum lado custou-lhe votos, enquanto por outro serviu para a sua publicidade, como acontecera na África do Sul com Buthelezi e com o presidente eleito na Zambézia.
No dia 31 do mesmo mês declarava ele a um jornal português: «Eu já ganhei, eu já ganhei, posso não ganhar as eleições presidenciais, pois o ser presidente é uma questão secundária.... Que dia é hoje? Domingo? Sim... Já entrei (para) história deste povo».
No dia 20 de Novembro, convocando uma conferência de imprensa em sua casa, dizia: «Eu? Quem perdeu foi a Frelimo... antes tinha todos os deputados e agora nós temos cento e doze e a União... (como é que eles se chamam) a UD tem nove, portanto nós ganhamos sempre».
Convocar uma conferência de imprensa para colocar perguntas deste género é depreciar o valor das coisas, pois que os jornalistas esperavam ouvir coisas de grande importância, certamente para o desenvolvimento de Moçambique.
Quem conhece a história da Frelimo sabe muito bem que os dois encobriam os seus próprios crimes, que, defendendo-se preventivamente, chamaram sempre à sua vítima criminoso enquanto eles próprios se declaravam inocentes.
Com efeito, ambos sabiam que:
1) Exportando caju, algodão, sisal, etc, para serem processados no estrangeiro, desindustrializavam Moçambique e enriqueciam povos alheios, hábitos coloniais que D. Sebastião Soares de Resende sempre condenou.
2) Fechando as minas de Moatize e desmantelando muitas outras indústrias de produção, cooperavam com a estratégia global dos países desenvolvidos, que consiste em destruir tudo o que é rendoso dos países subdesenvolvidos, para que estes dependam sempre deles.
3) Matando os académicos moçambicanos encontrados no país, impediram a entrada daqueles que estiveram fora. Este facto forçou-os a contratar estrangeiros, privando Moçambique de nativos. Assim beneficiaram os interesses estrangeiros. Esta política traiçoeira continua hoje, todas as vezes que pelo mesmo trabalho se pague melhor ao estrangeiro do que ao nativo. Pois enquanto nos países desenvolvidos os nacionais são preferíveis aos estrangeiros, em Moçambique estes últimos têm prioridade em tudo.
4) Ajudando a ANC, enviando soldados moçambicanos para Uganda e Zimbabwe, não serviam aos interesses de Moçambique. Se não sabiam então olhem como é que retribuem estes países hoje, ensinando que entre nações não existe amizade, mas unicamente negócios.
5) Estando a favor dos fuzilamentos que se seguiram à independência de Moçambique, a Frelimo matou mais gente do que Bokassa e Idi Amin juntos.
As discriminações e abusos a que se refere o presidente eleito dizem respeito à gente de sua região e ao seu partido, que estão no poder desde 1974, sendo ele próprio comandante-chefe.
Finalmente reconhece ele mesmo que em Moçambique nunca houve calamidades naturais senão consequências de guerra, forjada e prolongada pelo seu partido. Mas à custa de quantos moçambicanos e de quanto tempo?
III
Falando do presidente da Renamo, temos que dizer que, quando Paulo VI faleceu em Castelgandolfo, no Verão de 1978, eu e três dos meus colegas estávamos em Verona a caminho de Roma. Passando por Siena, trinta e seis horas depois atingíamos o nosso destino. Pelas 11.00h, visitando o Coliseu, passou pelo Arco de Triunfo o cortejo mortuário daquele Sumo Pontífice, acompanhado por guarda de honra militar para a basílica de S. Pedro.
No dia seguinte, após termos visitado a Capela Sistina, fomos à basílica, para nos despedirmos daquele Vigário de Cristo na Terra, diante do qual todos deveriam flectir os joelhos, quando vivia. Lá estiveram alguns curiosos e turistas como nós.
Aquele homem que presidira ao II Concílio do Vaticano, que era cercado de purpurados e admirado por pessoas de diversas confissões religiosas e ideologias políticas, era guardado apenas por dois cónegos, que se substituíam de hora a hora, como no mausoléu de Lenine, em Moscovo.
Um dos maiores cruéis e mais temidos na História africana foi Samora Machel. Ele também era quase sempre rodeado por militares de uniforme, prontos a parar todo aquele que, sem prévia permissão, quisesse aproximar-se do comandante-chefe das forças armadas de Moçambique. Samora, igualmente como o chefe da Renamo, desejava ardentemente entrar na história deste pobre povo moçambicano.
Quando morreu, os seus amigos, por um lado, construíram monumentos em sua memória, por outro retiraram o seu nome de muitas construções em Moçambique. Hoje em dia, podemos observar tristemente que respeito tem a gente para com as suas estátuas, que saudades tem esse pobre povo do seu tão temido herói.
Por outras palavras, queremos dizer que os homens que impõem um certo respeito, muitas vezes enganam-se quando não tomam em consideração o facto de que são respeitados, lisonjeados, elogiados, etc, enquanto vivem, enquanto existem ainda relações e influências do superior para com os súbditos. Uma vez interrompidas pela morte, cessa tudo. Não pressupõem que estes mesmos homens poderiam falar mal deles logo que morressem.
Não querem crer que uma vez mortos, o facto de os louvar não mais lhes seria útil. Não querem saber que a sociedade humana muitas vezes é ingrata.
Basta ver como foi torturada e morta Sta. Joana d'Arc, onde e como morreu Napoleão, onde param hoje muitas das estátuas de Lenine! Em que situações vivem hoje os desmobilizados da Frelimo, das quais os da Renamo não escaparão! Sr. presidente, não se preocupe com o que dirá a história deste povo, que, ao contrário de muitos outros povos, se tornou pobre por causa de, e apesar dos heróis!
Ao vício de complexo de superioridade ou ao de não querer ser esquecido junta-se muitas vezes aquele outro da presunção. É o de se colocar a si mesmo a um nível tão superior de virtudes espirituais e materiais que não se importe mais com as pequeníssimas coisas, com as coisas que toda a gente sabe, com as coisas do seu nível. E isso é tipicamente dos homens fracos, daqueles que procuram encobrir as suas deficiências. «Que dia é hoje? Domingo? Sim... E a União ... (como é que eles se chamam) a UD...» Aqui o presidente da Renamo dialoga consigo mesmo, porque aqueles que convidara, que quereria fazer de seus alunos, recusaram tomar parte em conversas de nível tão baixo.
O pobre homem esqueceu completamente como é que o povo moçambicano ridicularizava Samora por causa de tal soberba; como o presidente eleito, falando da Renamo numa conferência de imprensa, zombeteiramente perguntava: «Como é que eles se chamam»? Esta maneira vulgar de questionar desonra os seus próprios autores de todas as vezes que estes pensam que este modo de formular a sua artificializada ignorância é a melhor maneira de punir os adversários ou concorrentes. Não se tornam melhores nem mais sábios quando zombam dos outros.
Toma-se ridículo quando uma pessoa dum dos países mais pobres do mundo se preocupa mais consigo mesmo, fingindo esquecer compatriotas em vez de se preocupar em como trabalhar com eles para levantar este país das cinzas em que jaz. E se o Parlamento eleito estiver repleto de gente desta categoria, de gente cheia de si mesma, de gente que despreza outra, então é melhor nem o frequentar.
O que é certo é que quem gosta de publicidade definha logo que os seus admiradores não necessitem das suas asneiras. E, já que o presidente da Renamo ainda é novo, vive na democracia, então o povo moçambicano terá de ouvir muito dele. O nosso único desejo é que não voe sem asas.
O que nos surpreendeu também completamente nesse júbilo desenfreado de desprezar tudo pelo presidente da Renamo foi a afirmação de que o ser presidente para ele era uma questão secundária.
Ora se sinceramente este é o caso, porquê, então, se candidatou para esse posto em vez de o deixar para uma outra pessoa? Não se deslocou ele em viagem de emergência a Harare e Washington? Não andou continuamente atrás da caravana presidencial a mendigar postos ministeriais para si e para os seus mais preciosos adjuntos, caso não fosse presidente de Moçambique?
O Comité Central da Renamo, afirmou Vicente Ululu, decidiu que o futuro governo de Moçambique deverá ser centralizado.
Será que o chefe da Renamo ficou no mato mais de dezassete anos, exposto a todos os perigos de guerra, a todas as chuvas e mosquitos, a serpentes e mosca tsé-tsé apenas para ser membro do parlamento cujo edifício não foi construído para isso? Um edifício que merece comentários pois não dignifica os representantes do povo moçambicano? Uma obra que corresponde a uma pobreza que não merecemos?
Não só no dia 2 de Novembro mas também no dia 20 do mesmo mês deu entrevistas telefónicas à BBC o secretário-geral da Renamo, Sr.Vicente Zacarias Ululu. Em ambas afirmou que o seu partido faria uma oposição construtiva, aconselhando o governo em muitas matérias como deveria agir.
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(Na foto: Da esquerda para a direita: Marcos Milato, António Nunes, Vicente Zacarias Ululu, António Disse, Carlos João Mbwere, Artur da Fonseca, Anélia Aníbal Chiienge, Aníbal Chilenge. Março de 1994.)

MEMÓRIAS DE UM REBELDE, de António Disse Zengazenga (a publicar brevemente)

Zengazenga_gorro1Desta obra, a publicar dentro de pouco tempo, com prefácio do Dr. Máximo Dias, transcrevo o seguinte texto:
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Em Dar-es-Salaam precisavam de mim para defender a política de Mondlane, incluindo certamente a tribal. Se conseguisse, não seria promovido. Se falhasse ou me alinhasse com os discriminados do Norte, viria a ter a sorte deles. No Cairo, o Coseru criticava mais a Frelimo do que Portugal.
No aeroporto de Moscovo estava à minha espera uma representante da Solidariedade Afro-Asiática. Identificada toda a bagagem, levou-me para o internato, que ficava na Rua Krijjinovskovo 18.

De 25 de Dezembro de 1965 a 4 de Janeiro de 1966, estive em Dar-es-Salaam a participar no II Congresso da União dos Estudantes Moçambicanos (Unemo).

Vindos da União Soviética, éramos: Eduardo Mbatiya, Semeão Massango e eu; da Suíça vinha Pascoal Mocumbi; da Argélia, Sérgio Vieira e, dos Estados Unidos da América, João Nyambiu, presidente da Unemo.
No aeroporto estiveram à nossa espera os Srs. Eduardo Mondlane, Uria Simango e Silvério Nungu, personalidades que também nos acompanharam à nossa partida. Por esta tão alta recepção, sentíamo-nos orgulhosos, estimados e muito protegidos pelos nossos chefes.
Durante a minha estadia em Dar-es-Salaam tive encontros separados com Mondlane, Uria Simango e Filipe Magaia, pessoa que me mandara para o Cairo a fim de frequentar a Academia Militar. Quando falei com este último sobre esta questão, ele disse-me simplesmente que o presidente temia que uma pessoa formada militarmente, que não fosse da sua tribo, o golpeasse facilmente. A decisão era unicamente dele, e ele era um tribalista.
O motivo pelo qual Magaia foi morto por um do Sul do Save, substituído por um também do Sul, que não seguia directamente Magaia, que pertencia à tribo de Mondlane, deve ser este mesmo. E este manchá-lo-á irremediavelmente para sempre.
Não perguntei se ele próprio não temia ser assassinado pela mesma razão.
Contentei-me com o pensar que durante a luta de libertação, estando fora do país, nunca houve golpes de estado. Não me ocorreu a ideia de que poderia ser também do superior para o subordinado como medida de prevenção, como era o meu caso. Daí concluí que a vida dele estivesse segura.
Apesar de tantos avisos que tivera no Cairo, enganei-me completamente.
Com efeito, sendo eu o único proveniente do Norte naquele tempo, os do Sul, nomeadamente Paulo Gumane, David Mabunda, Aníbal Chilenge, Manuel Lopes Tembe, Narciso Mbule e Daniel Joel, prometiam-me a morte caso eu fosse frequentar a Academia Militar. Diziam-me que nunca aceitariam um único comandante do Norte a comandar um único soldado do Sul. No Norte também não concordariam, a fim de evitar uma insurreição militar do Norte contra o Sul.
Em 1961, muitos anos antes do assassinato de Filipe Magaia, em Outubro de 1966, Fanuel Mahluza disse a Jaime Khamba e a António Chapo de Chemba, Boaventura Verimbo de Gorongosa, Bernardo Forte Chambata de Murraça, em
Dar-es-Salaam, que os do Norte nunca governariam Moçambique, porque os portugueses haviam educado em primeiro lugar a gente do Sul. Em seguida nomeou as pessoas desta região do país que frequentavam instituições superiores em Portugal e em França. Como os do Norte não podiam digerir tranquilamente este insulto, Jaime Khamba e Bernardo Chambata apoderaram-se de Mahluza.
A luta terminou com a separação dos três, com grandes ferimentos da parte de Mahluza.
No tempo da Renamo, numa reunião realizada em Nairobi, em 1982, na presença apenas da gente do Sul do Save, Artur Xavier Vilankulu afirmou que em Moçambique era preciso acabar só com o comunismo, mantendo o poder intacto nas mãos da gente do Sul. Quando lhe perguntei em Munique, em 1986, se a frase era dele, recusou confirmar, embora tivesse tomado parte no convénio.
Ele disse que fora sempre de opinião de que os governantes deveriam ser escolhidos segundo os seus méritos e capacidades intelectuais e não conforme a sua proveniência regional ou filiação partidária.
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Portanto, é preciso ver a morte de Filipe Magaia neste quadro de afastamentos, perseguições e substituições da gente do Norte pela do Sul; na sequência de assassinar todo o do Norte que estiver a realizar actos heróicos substituindo-o por um do Sul, esteja este em condições ou não.
Houve, e provavelmente existe na mentalidade da gente do Sul, a intenção de não deixar evoluir ao mesmo tempo a gente do Norte. E se esta o conseguir pelos seus próprios meios, terão de utilizá-la e segui-la até certo ponto. Atingido este, executa-se e apagam-se todos os seus vestígios. Na verdade, o que fica hoje na História de Moçambique, destes grandes heróis Uria Simango, Jaime Sigauke, Silvério Nungu e outros?
Impregnado cada um com uma tal ideologia, não se deve admirar que Lourenço Matola, tendo agido «individualmente», Mondlane jubilosamente se apressasse a aproveitar da feliz ocasião para o substituir por pessoas da sua tribo e da do assassino, ordenasse chacinar todos os outros quadros superiores do Norte para evitar mais revelações e barulho e terminar duma vez para sempre com a história de Magaia.
Este processo de purga tribal chamou-se oficialmente estruturação.
Cada pessoa proveniente do Sul recebeu uma promoção, enquanto cada uma do Norte não obteve nem um uniforme para cobrir o seu cadáver, nem caixão de caniços. Apenas algumas balas para certificar a sua morte.
Em retribuição, os promovidos atribuíram a Mondlane todas as virtudes possíveis e retiraram todas as qualidades de Magaia dos anais da Frelimo para que desaparecesse da história de Moçambique.
Antes do assassinato de Mondlane, houve em Dar-es-Salaam descontentamentos que exigiam a realização do congresso conforme estipulava a constituição da Frelimo. O que suscitou e excitou esta turbulência toda foi exactamente esta promoção tribal indiscreta e brutal. A preferência da gente do Sul em detrimento da do Norte tanto no comité central como no exército, facto que humana e democraticamente era inexplicável mesmo pelo próprio Mondlane.
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MEMÓRIAS DE UM REBELDE, de António Disse Zengazenga(4)

Zengazenga_gorro1Desta obra, a publicar dentro de pouco tempo, com prefácio do Dr. Máximo Dias, transcrevo mais o seguinte texto:
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Em linhas gerais, todos os centros de reeducação se assemelhavam.
Eram campos de trabalhos forçados, organizados em moldes militares, com reedcandos divididos em pelotões de vinte e cinco homens cada um com dois reeducandos-chefes.
O castigo mais comum era o de «chamboco». Com toda a gente na formatura, o comandante divulgava as causas da punição e decidia o número de chicotadas. Depois mandava que o prisioneiro se despisse de toda a roupa e se estendesse na areia de barriga para baixo, com os braços amarrados em cruz. Em seguida, os algozes açoitavam-no com chambocos, varas flexíveis ou com bengalas, sulcando-lhe as costas. O desgraçado retorcia-se na poeira, pedia clemência, dizendo: «Ai mamanô, desculpa, camarada comandante. Juro, palavra de honra, nunca mais».
Apesar de toda essa rogação humilhante e contínua, o comandante não dava ordem para parar com as batidas.
Os outros reeducandos, na formatura, assistiam ao castigo batendo palmas cadenciadamente e cantando um hino apropriado como: «Estás a levar porrada como Uria Simango, como Lázaro Nkavandame, como Joana Simeão».
Na Zambézia foi aberto um campo de reeducação perto da Vila de Milange para acolher as Testemunhas de Jeová. Calcula-se que eram mais de dez mil.
A contenda consistia no não reconhecimento das Testemunhas de Jeová da autoridade da Frelimo sobre Moçambique, assim como a negação, em todo o mundo, da autoridade humana sobre a Terra.
Eles recusavam saudar e homenagear a bandeira da Frelimo.
Ao romper do dia, na parada, aquando do içar da bandeira, o comandante dava os vivas da ordem: — Viva a Frelimo!
— Viva! – respondiam todos com o punho erguido, excepto as Testemunhas de Jeová.
O comandante fazia avançar um crente da formatura e repetia:
— Viva a Frelimo!
A testemunha não ecoava!
O comandante insistia:
— Viva a Frelimo!
O crente continuava calado!
O comandante mandava os guardas amarrar o homem ou a mulher ao mastro da bandeira com toda a força, usando uma corda embebida em lama e sal. Depois ia toda a gente para os campos trabalhar e o desgraçado ficava ali o dia inteiro à torreira do sol sem beber até que aceitasse gritar os «vivas». Com o calor, a corda retesava, penetrava-lhe na carne, arrancando horríveis gritos de dor ao supliciado. Enquanto não gritasse vivas o reeducando não era solto. No dia seguinte, o comandante escolhia uma outra vítima, e o ritual recomeçava.
O comandante aplicava torturas às Testemunhas de Jeová com tais requintes de sadismo que o próprio comissário político se afastava, visivelmente incomodado.
Em Cabo Delgado, no campo de Ruárua, onde havia mais de oitocentos prisioneiros políticos, batia-se diariamente, e mensalmente muitos prisioneiros eram executados na presença de outros sem que tivessem cometido um novo crime. Muitos eram metidos em buracos na terra sem roupa só com a cabeça de fora. Ficavam neste estado durante uma semana sem nada para comer.
Em M'sawize, o campo que ficava nas montanhas do distrito de Sanga, existe o mato mais denso de Moçambique. Aqueles que escapavam eram devorados pelas feras ou denunciados pelos camponeses.
O campo de M’Telela foi certamente o mais tenebroso de quantos centros de reeducação existiram em Moçambique. De 1800 prisioneiros que lá entraram, saíram com vida menos de cem, segundo acusações recentes que a Frelimo não desmente.
O campo de M’Telela ocupava as antigas instalações do quartel português de Nova Viseu, em Majume, na província do Niassa. Em 1975 recebeu os prisioneiros políticos que em 24 de Maio de 1974 tinham sido apresentados como traidores em Nashingweya aos presidentes Julius Nyerere e Kenneth Kaunda por Samora Machel.
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Veja http://macua.blogs.com/moambique_para_todos/2012/02/mem%C3%B3rias-de-um-rebelde-de-ant%C3%B3nio-disse-zengazenga-a-publicar-brevemente.html

Comentários do Dr. A.D.Zengazenga a "Vivemos a primeira guerra civil?", de Mia Couto

0 Sr. Mia Couto, no seu trabalho de 13.08.2010 afirmou entre outras coisas não menos importantes:"A guerra com a Renamo não foi exactamente uma “guer­ra civil".Foi um conflito importado de fora, em que forças militarizadas ele­geram quase sempre alvos civis, escolhidos sem claro critério político ou ideológico. Hoje, pela primeira vez, grupos civis atacam sistematicamente não apenas outros civis, mas, sobretudo, quem no exercício da autoridade, pretende consolidar uma sociedade regida pela justiça e pela transparência. Esta É uma guerra civil. Silenciosa. Mas mortal".
É com muito respeito e tranquilidade que me lanço nesta arena de gladia­dores, embora não signifique de nenhum modo que vou deixar ilesas as afirma­ções deste ilustre literato.
A Frelimo é um partido de segredistas. Basta ver o que aconteceu com os inquéritos que a Polícia Tanzaniana e Scotland Yard fizeram sobre a morte de Eduardo Mondlane. Os resultados nunca foram publicados. Por conseguinte, é em vão esperar que as perguntas do Sr. Mia Couto serão devidamente res­pondidas. Os criminosos continuarão a operar incolumemente em proveito dos envolvidos, em prejuízo do Estado, que o Sr. Mia Couto chama de Direito, que é Moçambique.
Em Moçambique o cabritismo não acabou. Existe em forma bem rígida, secre­ta e nos escalões do Estado de Direito.
Pertenço à primeira geração da Frelimo, cujos alvos a atingir eram a li­bertação de Moçambique da colonização portuguesa e a doação ao Povo Mo­çambicano de escolha livre de seus representantes.
Á conquista da independência nacional não seguiu a liberdade de escolher livremente os seus governantes. 0 que se seguiu foi a imposição de partido único e anulação de voto livre, o que não estava nos nossos planos. Estando insatisfeitos com a situação criada, fundou-se um partido a fim de trazer aquela liberdade de voto livre ao Povo Moçambicano. Aquele partido de opo­sição à imposição de votar livremente chamou-se Resistência Nacional de Moçambique ou seja Renamo. Este movimento lutou em condições mais desfavoráveis e mais longo do que a Frelimo contra Portugal. É graças a esta Re­sistência que o Povo Moçambicano, hoje em dia, pode votar livremente. Se o Sr. Mia Couto não aceita que a Renamo tinha a ideologia da antiga Frelimo, a de dar a liberdade de votar livremente ao Povo Moçambicano, não o posso ajudar.
Em todas as guerras quem escolhe os alvos a atacar não é o inimigo. É cada parte nela envolvida. Cada um ataca lá onde o inimigo não espera; lá onde lhe faz doer, para que capitule o mais depressa possível. Infelizmente em todas elas morrem mais civis do que os soldados, que tem armas e tácti­cas para se defenderem. Na maior parte dos que declaram a guerra, não mor­rem no campo de batalha nem envenenados em casa.
A Frelimo pegou em armas contra a governação portuguesa em Moçambique. Como consequência da guerra largou aquilo que considerava seu por direito natu­ral.
A Renamo agarrou em armas contra o governo da Frelimo. Depois de dezasseis anos de luta renhida aceitou o que a Renamo exigia. Voto livre ao Povo Mo­çambicano! Se isto não é resultado duma ideologia? Não o posso o ajudar.
Agora é a vez do Sr. Couto de assegurar também armas contra os criminosos e os que não respondem às suas fáceis perguntas. Isto o fará herói. Maior que Siba-Siba Macuácua; maior que Orlando José; maior que Carlos Cardoso; maior que todos os que foram fuzilados em defesa de Moçambique de Direitos; maior que todos aqueles que aparecem nas suas obras literárias.
Mas retirar-se como se fosse uma mulher, que não tem forças para atacar nem para se defender devidamente; excluir-se para o silêncio por causa de temer ser herói; não ser herói nem como os da Frelimo, nem como os da Renamo. Chamar a toda esta cobardia uma guerra silenciosa, é viver na ilusão ou não ter nojo de mentir, Sr. Mia!...
Como difiro fundamentalmente do Sr. Mia Couto, vou definir o que quer di­zer guerra internacional ou guerra entre nações. O que quer dizer guerra civil ou guerra entre cidadãos da mesma nação, para provar que a guerra da Renamo contra a Frelimo foi uma verdadeira guerra civil e não uma guerra num certo sentido, uma guerra no sentido analógico, uma guerra não exacta­mente guerra, uma guerra que existe apenas na mente do cogitador; uma guer­ra que ainda não existe na realidade para lhe dar o nome apropriado. Para provar que aquilo que ele chama verdadeira guerra é uma falsidade,
1) 0 que é uma guerra? No sentido geral e propriamente dito, a guerra é uma luta de multidões armadas contra outras multidões armadas de pes­soas a fim de resolver fisicamente uma contenda.
2) Chama-se guerra internacional ou entre nações, se aquelas multidões armadas forem de diferentes nações contra uma a outra por razoes terri­toriais.
3) Chama-se guerra civil se aquelas multidões armadas contraentes fo­rem constituídas por cidadãos da mesma nação por razoes políticas.
Assim, a guerra da Frelimo contra Portugal foi uma guerra entre nações. A guerra da nação ocupada contra a nação ocupante, embora, politicamente, Moçambique não fosse reconhecida como uma nação independente. Foi uma guer­ra de cidadãos de um país contra cidadãos de um outro país.
4) Chama-se multidão o ajuntamento de pessoas. Numa guerra não é neces­sário que este ajuntamento de pessoas esteja fisicamente no mesmo lugar. Basta que a sua ideologia seja a mesma e junta.
I) Em Moçambique não temos guerra civil, como o Sr. Mia Couto afirma. Com efeito, conforme acabámos de ver na definição e nos argumentos que seguiram, o Sr. Mia Couto afirma que são grupos de civis que atacam sis­tematicamente outros grupos de civis sem que estes últimos se defendam.
Ora a guerra consiste exactamente em um grupo armado atacar outro grupo também armado que se defende fisicamente. Portanto, como o outro grupo não se defende, não está armado, aceita o mal infligido silenciosamente, etc. não há luta, não há guerra em Moçambique. 0 que existe é olho por nada e dente por nada em vez de olho por olho e dente por dente.
II) A guerra da Renamo contra a Frelimo foi uma verdadeira guerra civil. Na verdade, do lado da Renamo havia multidões de soldados que lu­tavam contra multidões de soldados da Frelimo, sendo os Renamistas e Frelimistas cidadãos do mesmo país. O motivo era politico. Uma multidão guerreava pela conservação de partido único, candidato único, não livre voto ao Povo Moçambicano, enquanto outros guerreava por vários partidos, vários candidatos, voto livre ao Povo Moçambicano. Portanto, a guerra da Renamo contra a Frelimo foi uma guerra civil no seu próprio sentido.
III) Aquilo que o Sr. Mia Couto chama guerra silenciosa mas mortal, não é guerra nenhuma, pois faltam aí elementos essenciais para que se chame guerra propriamente dita. É uma metáfora.
IV) Afirmar que foi um conflito importado de fora (sem concretizar de fora, de que país) é uma evasiva que prova que o Sr. Mia Couto não pode provar. Ê uma afirmação da praça. Uma afirmação não séria.
0 que é certo, a Renamo nunca teve nas suas fileiras nem soldados nem ideologias importados de fora como a Frelimo. Ela lutou para a rea­lização completa daquilo que a Frelimo não queria complementar depois da independência. Para o voto livre do Povo Moçambicano.
V) Quem derrubou o regime de Ceauçescu na Roménia, em 1989, foram o poeta Nircea Dinescu com as suas poesias melancólicas, que verdadeiramente mobi­lizava o Povo Romeno e o padre Láslò Tuke com os seus sermões nacionalis­tas. Quem expulsou do poder o general Musharaf, no Paquistão, foi a Ordem dos Advogados por meio de demonstrações diárias que duraram sete semanas. Em ambas estas terras houve diariamente mortos e feridos do lado dos manifestantes. Ninguém temia morrer pela felicidade daqueles que sobreviveriam. Tan­to no primeiro como no segundo país os protestantes não se refugiaram na confortabilidade de silencio, que o Sr. Mia Couto chama orgulhosamente uma verdadeira guerra civil, enquanto é uma autentica cobardia. As duas Alemanhas atingiram a sua reunificação por causa de reuniões semanais em Leipzig e marchas silenciosas. Elas duraram onze meses.
Em todos estes três países houve guerras morais contra os governantes. En­quanto a Polícia de Intervenção nos dois primeiros países matou centenas e centenas de manifestantes, na Alemanha Oriental não matou ninguém.
Mesmo se com a sua guerra de cobardes conseguir comover os governantes moçambicanos a ponto de levá-los a eliminar todos os criminosos civis, não dará ao Povo Moçambicano um benefício maior do que aquele que a Renamo lhe concedeu. A liberdade de votar livremente. Este é o meu primeiro desafio ao Sr. Mia Couto.
VI) Os criminosos não querem mandar em Moçambique, como afirma o Sr. Mia Couto. Querem que no País não haja a ordem estabelecida pela Lei, para que se movimentem livremente. Pois, se o governo actual capitulasse diante des­tes monstruosos assassinos e protestos, não apareceriam para governar. Este é o meu segundo desafio ao mesmo.
VII) Ora bem. Se “A guerra com a Renamo foi um conflito importado de fora em que forças militarizadas elegeram quase sempre alvos civis escolhidos sem claro critério político ou ideológico” - qual é a ideologia dos estrange­iros feitos moçambicanos, quando também atacam sistematicamente civis? Que­rem governar Moçambique com a ideologia de matar civis?
VIII) Finalmente, a guerra do Sr. Mia Couto nem merece escrevê-la entre » « aspas por a parte do Sr. Couto carecer de consistência.
António Zengazenga – Alemanha (10.09.2010)

AS MULHERES DE GUNGUNHANA, POR MARIA DA CONCEIÇÃO VILHENA

Gg-wifes1. No último quartel do século XIX, nas terras do sul de Moçambique, entre os rios Incomáti e Zambeze, Gungunhana impunha-se como o maior potentado africano. Era o senhor do reino de Gaza, tinha mais de uma centena de vassalos e possuía uma enorme riqueza, constituída por ouro, marfim e rebanhos de gado. O seu prestígio político e social vinha-lhe ainda do facto de possuir entre 200 a 300 esposas: 40 viviam junto da corte e as restantes habitavam nas aldeias circunvizinhas. A aquisição de novas esposas fazia-se a um ritmo quase bimestral; e cada casamento era sempre causa de maior engrandecimento, por permitir novas alianças e atrair grande número de presentes. Era uma grande honra ter o régulo de Gaza como genro e protector. Seria demasiado longo falarmos da vida que levavam estas mulheres,em geral; por isso nos limitaremos às sete que acompanharam o marido no exílio.
2. No dia 28 de Dezembro de 1895, após algumas tentativas de negociações e a derrota de Coolela, seguida do incêndio do Manjacaze, a capital de Gaza, Gungunhana foi feito prisioneiro em Chaimite, por Mousinho de Albuquerque. O oficial português deu então ordem ao régulo para que escolhesse sete de entre as suas mulheres, que o acompanhariam no seu incerto destino. Foram [seis] delas: Namatuco, Patihina, Muzamussi,Machacha, Xesipe e Dabondi. Feitas as suas poucas bagagens, lá seguiram os prisioneiros a pé durante algumas horas, até chegarem a Zimacaze, na foz do Chengane. Aí embarcaram na canhoneira Capelo, que os estava esperando e os transporta até Chai-Chai. A propósito deste embarque, queremos lembrar que, na cultura angune, havia um tabu proibitivo de entrar na água e comer peixe. Os prisioneiros devem, pois, ter sido invadidos pelo horror de viajar de barco, o que irá repetir-se, por várias vezes, até ao fim da deportação. Com os onze prisioneiros do Manjacaze (Gungunhana, o filho Godide, o tio Molungo, o cozinheiro Gó e as sete mulheres), embarcam também o régulo da Zixaxa e três mulheres deste, cuja sorte iria ser igual à dos outros. Em Chai-Chai, na foz do Limpopo, passam então para o navio Neves Ferreira, que os transporta até Lourenço Marques, onde chegam no dia 4 de Janeiro [de 1896]. Aí desembarcam e são mantidos na cadeia homens e mulheres, até serem levados para bordo do África, após o seu reconhecimento oficial, feito em público. Neste navio África fariam uma viagem de 60 dias, até Lisboa. As condições a bordo deviam ser péssimas, pois Gungunhana e seus companheiros, num total de 15 pessoas, ocupavam apenas dois compartimentos pequenos, escuros e mal arejados. Por razões de segurança, aí ficavam fechados à chave, sempre que o barco fazia escala em qualquer porto. E foi o enjôo, a asfixia, a imobilidade, a juntar à angústia da dúvida sobre o futuro que os esperava. Os jornalistas falam mesmo da tentativa de suicídio por parte de uma das mulheres…
3. Na manhã do dia 13 de Março de 1896, desembarcam em Lisboa e são conduzidos em caleches descobertas, do Arsenal até ao forte de Monsanto. Lisboa em festa, a abarrotar de multidões ruidosas. O público, apinhado pelas ruas, empoleirado em postes, debruçado das janelas, aos magotes, como enxames, ri, grita, vaia eufórico. Dentro das carruagens, os prisioneiros olham temerosos e embaraçados; eles com ar estupefacto, perplexo; elas apontando, curiosas e divertidas. Nunca tinham visto casas tão altas, com varandas, ruas calcetadas, praças com fontes e estátuas. E tanta gente alegre, a observá-las, durante todo o percurso. As mulheres africanas parecem bem dispostas. Do Terreiro do Paço seguiu o cortejo pela Rua do Ouro, Avenida da Liberdade, São Sebastião da Pedreira, Sete Rios, Benfica, rumo a Monsanto. Por todo o lado, em todo o percurso, era aquela mole imensa de gente, às gargalhadas e a insultar. Porém o desconhecimento da língua portuguesa dava às prisioneiras a vantagem de não compreenderem o ódio e a ironia da arraia miúda e assim, na sua inocência, poderem continuar a sorrir. Era o dia 13, uma sexta-feira de céu cinzento. Se os africanos tivessem as mesmas superstições que os brancos, tanto bastaria para que os maus presságios agudizassem ainda mais a angústia que os atormentava. A tarde aproxima-se do seu fim, quando chegam ao Forte de Monsanto. São seis horas e, em Março, o sol está a esconder-se. As instalações onde são recebidas nada têm de semelhante àquelas casas que, na Baixa, as haviam deslumbrado. Passada a ponte levadiça, entram numa masmorra, onde a escuridão era quase total. As mulheres estão agora assustadas e o terror estampa-se-lhes no rosto. O quarto que lhes haviam destinado, encontrava-se seis metros abaixo da superfície. Espaço escuro, bafiento, mal cheiroso, húmido e frio. Suspiravam amedrontadas e foi necessário tranquilizá-las; mas continuaram a tremer de frio e talvez de medo. Assim as encontrou o médico encarregado de examinar o seu estado de saúde. São-lhes mostradas as camas e explicam-lhes como são utilizadas. Até então haviam dormido no chão, sobre esteiras. Convencidas finalmente de que não lhes iria acontecer mal, ao entrarem nas camas riram ruidosamente. Nesta fortaleza de Monsanto iriam ficar encerradas durante quatro meses, aproximadamente. Gente habituada a viver ao ar livre, em contacto com a natureza e em constante movimento, vê-se agora privada da largueza dos seus espaços e da quentura do seu clima; imóveis e geladas entre quatro paredes do calabouço, num entorpecimento do corpo e do espírito. Detestam a comida portuguesa e queixam-se constantemente de frio. Entretanto, aprendem a utilizar talheres e passam a usar vestuário europeu.
4. Como passavam o tempo essas mulheres prisioneiras?
Grande parte do seu dia era ocupado a pentearem-se, pois usavam um penteado artístico, alto, entre o cónico e o cilíndrico, que constituía um dos distintivos das mulheres grandes do Gungunhana. As mulheres pequenas, ou seja, as rainhas de segunda classe, não tinham o direito deusar esse tipo de penteado. Quanto à favorita, tinha outra ocupação, pois cabia-lhe o dever de manter sempre brilhante a coroa de cera que o marido usava e que era tecida no próprio cabelo. Além disso, dedicavam-se ao artesanato, fazendo pulseiras e colares de missangas, artisticamente trabalhados. Ao princípio, a monotonia dos dias foi quebrada pelas muitas visitas que recebiam. As esposas de ministros, ou de outras altas individualidades, conseguiam a autorização do Ministério da Guerra e iam até Monsanto, entravam nos calabouços, sorriam, levavam presentes. Por curiosidade ou para cumprir o dever de visitar os presos. Não conheciam a língua, mas comunicavam por gestos de simpatia. Ofereciam fruta e doces, objectos variados, pequenos nadas que davam prazer. Um jornalista referiu uma vez a agilidade e delicadeza com que uma dessas mulheres prisioneiras calçou umas luvas que acabava de receber. Com tanta facilidade e perfeição como se a isso estivesse habituada de longo data; e um dia em que uma senhora lhes ofereceu flores, com elas adornaram alegremente os seus penteados. As prisioneiras mostravam aos visitantes os seus trabalhos em missangas, com cores variadas e caprichosos desenhos. Estes apreciavam, elogiavam-lhes a arte, sorriam. Mas um dia acabaram-se as visitas, por o ministério as ter proibido. E então foi a solidão total. Tensão, crises de mau humor, cólera, emoções descontroladas, transgredindo assim a contenção imposta pela disciplina militar. O recluso tem de obedecer, mas os nervos começam a dar sinais de fadiga. Há gritos e ameaças, intervenção das forças da ordem. As mulheres choram, os homens são punidos. Era muito difícil, para um rei déspota e violento como Gungunhana, a renúncia calma ao prestígio de que gozara e a aceitação submissa do vencedor português. Cada vez mais angustiado e atormentado pelo receio da condenação à morte, Gungunhana atinge o limiar das suas forças. Adoece gravemente e tem de ser hospitalizado. A sua partida para o hospital impressionou de tal modo as rainhas, que estas quase deixaram de comer. Algumas delas adoeceram mesmo e o médico chegou a propor o seu internamento. No dia em que o marido regressou recuperado, foi grande a alegria das esposas, traduzida em carícias, gargalhadas e gritos de prazer que entoaram pelas celas. De repente a imprensa deixa de se interessar pelos prisioneiros africanos. O encanto da novidade tinha-se extinguido; e agora nada mais saberemos a seu respeito, a não ser que passaram os meses de Abril, Maio e Junho, na mais horrível solidão. Dias a decorrer na penumbra, incertos de futuro, exíguos de espaço, longos de monotonia, húmidos e frios. Até que, no dia 23 de Junho [de 1896] os jornais anunciam a partida do Gungunhana e dos seus três companheiros, na véspera, para os Açores. E as mulheres? Não partem, por enquanto. Apesar das visitas simpáticas que haviam recebido, a sociedade lisboeta havia-as rejeitado, escandalizada com a poligamia. Para acabar com o pecado, as autoridades haviam decidido separá-las do marido. Segundo contam os jornalistas, foi muito dolorosa a separação, nesse dia 22 de Junho, pelas 7 horas da manhã. Eles a tremer, de lágrimas nos olhos, convencidos de que iam ser mortos. Elas sem quererem separar-se deles, chorando, gritando, lamentando-se. Esquecidas pela multidão que antes rodeava o forte, abandonadas aparentemente pelas autoridades, a solidão destas mulheres tornou-se insuportável. Tiraram-lhes os seus companheiros; e ali ficam sozinhas, de 22 de Junho a 6 de Julho. Duas longas semanas de dor, de dúvida, de solidão e de medo. Caídas numa apatia total, nem forças tinham para qualquer eventual acesso de fúria. Era a segunda desagregação familiar que sofriam. A voz do sangue silenciada por razões de ordem moral e política. Desprevenidas, indefesas,arrancadas a laços e raízes, elas esperam não sabem o quê. Finalmente vem do Ministério a decisão: despachá-las para a ilha de São Tomé. Pelas 5 horas da manhã do dia 6 de Julho recebem então ordem para se vestir e partir. O sofrimento que deixam transparecer é tão grande que os próprios jornalistas se sentem comovidos e revoltados: “pobres expatriadas”que pareciam nem ter forças para se vestir. Ninguém para se despedir delas. À chegada, estavam as ruas cheias de gente, havia movimento e alegria; agora, à partida, é o desconsolador abandono total.
6. Transportam-nas até ao Arsenal e embarcam-nas no paquete São Tomé. Já no beliche, impressionam por um silêncio desolador. Umas estendidas, de olhos fechados, como se dormissem, outras, acocoradas e lacrimosas, olhando os circunstantes com pavor; duas recusavam-se a mostrar o rosto. Debilitadas pelo entorpecimento de quatro meses, dilaceradas pelo martírio da dúvida, refugiavam-se num mutismo impregnado de horror, receio e solidão. A separação dos régulos africanos das suas esposas, e o envio destas para São Tomé, parece ter sido a resposta a uma campanha de moralização, levada a cabo por um grupo de senhoras de bem, revoltadas contra a poligamia dos negros. Era, pois, uma campanha autorizada, promovida e apoiada por pessoas de bons costumes, que consideravam a presença daquelas mulheres como um insulto à moral pública. Além disso, sendo os Açores uma terra de grande religiosidade e pureza (salvaguardada e assegurada pelas casas de prostituição…), o governo não poderia permitir uma tal promiscuidade. A separação foi, pois, uma operação de limpeza, imposta pela moral tradicional. Digamos a propósito termos a notícia de que, nos Açores, os prisioneiros africanos eram levados, regularmente, às casas de prostituição da cidade de Angra do Heroísmo. Referem alguns jornalistas que se tentou convencer Gugunhana à monogamia. Como a moral portuguesa só admitia, publicamente, uma mulher, o régulo teria de escolher uma entre as setes e repudiar seis; o que, para estas, seria uma humilhação insuportável. Gungunhana amava-as todas igualmente; e não sabia nem quis escolher uma, pois cometeria para com as outras uma afronta que ele nunca se permitiria. Por isso foi firme e enérgico, coerente com os seus princípios. Tendo-se recusado a escolher uma, a separação foi inevitável. Bem pediu o régulo, bem suplicou, mas de nada lhe serviu. Jornais houve que protestaram contra esta decisão, prevendo para Gungunhana uma lenta agonia, minado de uma saudade e tristeza que lhe encurtaria os dias; o que realmente se deu. Nada, porém, abalou as cúpulas; e as suas ordens foram integralmente cumpridas. E lá partem para São Tomé, sozinhas, vazias de sonho, sem ninguém que lhes acene com o lenço da amizade; lá seguem pela imensidão de um mar revolto, sem ninguém que lhes estenda a mão da solidariedade, sem ninguém que lhes dirija um gesto de compreensão. Um jornalista comenta: “Em São Tomé, que sorte desgraçadíssima vão ter? Não seria mais justo, e muitíssimo mais digno, enviá-las para asua terra natal, de onde nunca deveriam ter saído?!” Era muito grave, aqui no continente, ser-se acusado de “propensões benévolas” para com o Gungunhana. Para se tomar o partido deste, era necessário não só muita coragem, como carecia de um preâmbulo filosófico, moral e religioso, com apelo à caridade. De contrário, corria-se o risco de ser acusado de traição à pátria. Ou de imoralidade. Ou de atentado aos princípios cristãos. Só depois de tomadas todas essas precauções,a Folha do Povo arrisca criticar e condenar ferozmente o comportamentodo Ministério da Guerra, que acusa de iníquo e cruelmente bárbaro. Igualmente encontramos críticas violentas no Jornal do Comércio, onde um jornalista, sob o pseudónimo de Fernão Lopes, põe em realce a hipocrisia do governo, escudado no que chama “escrúpulos religiosos” tardios. Fernão Lopes termina o seu artigo relembrando a maneira correcta e hospitaleira como os portugueses foram sempre recebidos por homens e mulheres da corte de Gungunhana.
7. Passados doze dias de náusea e imobilidade, as mulheres chegam a São Tomé e são entregues ao governador da ilha. Em que vão ocupá-las? Em São Tomé havia então um mundo confuso de imigrantes, vindos dos mais variados pontos de África, das mais diversas tribos, odiando-se por vezes. Basta olharmos as listas das levas que chegavam ou partiam, para nos darmos conta dessa variedade. Em comum, tinham apenas a cor da pele; e o trágico destino da falta de trabalho. Falavam dialectos diferentes e desconheciam-se entre si. Foi para o meio desta confusão que as rainhas destronadas foram levadas. Que destino lhes foi dado? A Folha do Povo, de 13 de Novembro desse ano de 1896, e respondendo a vários jornais de Lisboa, dá-nos algumas informações. Recordemos que, juntamente com as sete mulheres de Gungunhana, se encontravam mais três, as do régulo Zixaxa, suas companheiras de infortúnio desde o início do exílio. Eram, pois, dez ao todo. Segundo o citado jornal, oito destas mulheres estavam colocadas no hospital civil e militar; e as duas restantes no palácio do Governo. Constava pouco ou quase nada fazerem; e o articulista lamenta que, dado a falta de braços em São Tomé, as não tenham empregado “em qualquer trabalho útil,mediante remuneração condigna”. Vem a propósito lembrar que se tratava das mulheres grandes do régulo, isto é, as de mais elevada categoria social na hierarquia feminina, que tinham ao seu serviço as mulheres pequenas, espécie de ecónomas encarregadas de dirigir os bandos de escravos a trabalhar na corte. Eram, portanto, rainhas que nada costumavam fazer e sem hábitos de trabalho. J. F. Marques Pereira, na obra intitulada No Tempo de Gungunhana, publicada três anos mais tarde (1899), diz que as mulheres foram para São Tomé “servir de mancebas, em amiganços baratos, e para acarretar pedras”. E António Pedro de Vasconcelos no filme Aqui d’ El-Rei, faz dizer a uma das personagens que elas foram levadas para um “bordel do exército”. Não encontramos documentos oficiais que nos permitam negar ouconfirmar tais informações. Tratava-se de mulheres que só interessaram enquanto rainhas de um reino cobiçado pelos europeus. Destronado e preso o soberano, perdidas as esposas no meio da massa anónima santomense, o governo, não vendo nelas qualquer perigo, deixava-as cair no esquecimento.
8. Em São Tomé, as rainhas africanas dos reinos de Gaza e da Zixaxa foram ultrapassadas e absorvidas pela história. Quinze anos de esquecimento; quinze anos de trabalho silencioso, de dor ignorada, de sofrimento mudo que levaria três delas à morte. Num silêncio de deserto, as rainhas tinham sido tornadas escravas submissas, feitas consentimento e conformismo. Enigmas de uma grandeza descaída. Mas em 1910 é implantada a república; e muita coisa vai mudar. Alguém se lembra dessas mulheres exiladas e decide que regressem ao país. Comédia eleitoralista ou desejo de reparação? Gungunhana já havia falecido em 1906. A ordem de repatriamento, em 1911, foi sem dúvida recebida com euforia; era a esperança do regresso a casa que renascia. Só que já não havia casa. Nem país. Gaza tornara-se num distrito da colónia de Moçambique. Os familiares tinham-se espalhado, cada um para seu lado, alguns presos, outros refugiados no estrangeiro. Era a desintegração progressiva dos pequenos estados indígenas e a substituição dos costumes africanos pelos europeus. Desconfiadas, assustadas, sem o elo de união que era o marido, só o medo as irmanava agora; e cada uma vai para seu lado.
9. Eram sete, regressavam quatro. As três mais vulneráveis haviam atingido o limite que desemboca na morte: Muzamussi, Dabondi e Fussi haviam ficado sepultadas em terra santomense. Patihina volta a casa, mas o medo lavra na família e ela decide fugir para o Transvaal, com o filho Tulimahanche. Foram juntar-se aos milhares de emigrados de Gaza, amigos e familiares de Gungunhana, que se haviam fixado em Spelonken. Tulimahanche seria, em 1932, o chefe de um dos dois grupos de exilados angunes que aí existiam então. Namatuco, Chlézipe e Machacha traziam filhos arranjados em S.Tomé, nos quinze anos de exílio; filhos que, nada tendo com Gungunhana, não corriam o risco de vir a ser presos pelos portugueses. Por isso não recearam em fixar-se na região onde tinham vivido anteriormente: Chaimite, Chibuto e Chai-Chai, respectivamente. Tinham cumprido plenamente o destino ancestral da mulher: resignar-se e sofrer, numa passividade submissa. Já no seu país, continuarão a cumprir o mesmo destino, como “criadas de servir”.
10. E terminamos. Com este trabalho, tivemos a intenção de dar som às vozes silenciosas de mulheres que sofreram cruelmente no todo das suas vidas, o que de mais negativo pôde haver no encontro da cultura africana com a cultura europeia. Mulheres esquecidas, relegadas para a periferia da história, quando elas estavam, afinal, bem no centro dessa história. Elas eram as rainhas do império de Gaza, onde tinham exercido uma importante função política. Elas eram as esposas do então maior potentado da África austral, pelo que pagaram com quinze anos de exílio. Moralmente mutiladas, elas foram as vítimas inocentes de um evoluir da história africana, provocado por decisões e projectos da Europa, os quais levaram a alterações sócio-políticas que as afectaram no mais fundo das suas idiossincrasias. Desfeita a sua vida privada, desagregada a sua família, estas mulheres tornaram-se o símbolo de uma África desmonorada e dividida por ideologias levadas da Europa.
*Autora de Gungunhana no Seu Reino, Gungunhana, entre outros
In http://delagoabayworld.wordpress.com/2012/06/19/as-mulheres-de-gungunhana-por-maria-da-conceicao-vilhena/

Kissinger admite que errou em Angola

O jornal brasileiro " Folha de S.Paulo", publicou uma reportagem sobre a participação americana na história recente de Angola. A matéria é feita com base no livro do ex-secretário de Estado dos EUA - Henry Kissinger e assinada por Elio Gaspari um dos mais competentes jornalista do Brasil ilustra com clareza a posição dos EUA com relação aos três movimentos que lutaram pela independência de Angola, pensamos com a divulgação desta matéria ajudar você a conhecer a história possivel de Angola.
Em livro de memórias, ex-secretário de Estado dos EUA elogia política brasileira para o país africano Kissinger admite que errou em Angola
ELIO GASPARI
Colunista da Folha de S.Paulo - Foram necessários 24 anos e as memórias do ex-secretário de Estado norte americano Henry Kissinger para se confirmar que na crise angolana de 1975, quando o Brasil e os EUA passaram por período de inéditas divergências, o Itamaraty estava fazendo o certo e Washington, bobagens. Em seu livro "Anos de renovação", Kissinger dedica um capítulo à crise ocorrida em 1976. Nela, os EUA tentaram impedir que o MPLA do médico Agostinho Neto assumisse o governo independente de Angola. Conta como foi enganado pelo presidente de Zâmbia, Kenneth Kauda, como acreditou em quem não devia (a CIA) e duvidou de quem sabia (os africanistas do Departamento de Estado). Reconhece uma actuação desastrada e elogia o chanceler brasileiro da época, Azeredo da Silveira. Admite até que lhe faltou tempo para tratar direito do assunto. Silveira, que era chamado de esquerdista em panfletos militares, já morreu. Morreu também o artífice da política do Brasil na África, o embaixador Ítalo Zappa. O reconhecimento do êxito só chegou a um diplomata. Aos 73 anos, aposentado, Ovídio de Mello vive no Leblon. Por causa de Angola foi desterrado para a Tailândia e a Jamaica. Sofreu 90 preterições, até que o presidente José Sarney o promoveu a embaixador. Não reclama do passado, mas da abulia diplomática do presente.
CRONOLOGIA
Entenda o que aconteceu:
Em Abril de 1974, caiu em Portugal a ditadura cinquentenária fundada pelo professor Oliveira Salazar e começou a desmoronar o império colonial de Lisboa. Angola, a mais rica das suas três colónias africanas, tinha 6 milhões de habitantes e era o maior produtor mundial de diamantes.
Lá, três organizações disputavam o poder:
- O Movimento Popular para a Libertação de Angola (MPLA), forte na capital, na intelectualidade e no Partido Comunista Português. Tinha o apoio da URSS e era liderado pelo médico Agostinho Neto.
- A Frente Nacional para a Libertação de Angola (FNLA), de Holden Roberto, aparentado com Joseph Mobutu, governante do Zaire. Forte no norte. Recebia ajuda da CIA.
- A União Nacional para a Independência Total de Angola (Unita), comandada por Jonas Savimbi. A sua base estava no Sul. Tivera apoio da China e viria a ter o da África do Sul.
Adiante, com a ajuda das memórias de Henry Kissinger, uma cronologia do que aconteceu em Angola de Janeiro a Dezembro de 75.
Janeiro
Portugal assina o Acordo de Alvor com as três facções angolanas. Marca-se a independência para 11 de Novembro.
Kissinger pergunta ao Departamento de Estado: Qual dos três grupos de Angola atende melhor aos interesses dos EUA?
A CIA pede um reforço de US$ 300 mil para a FNLA. Vinham dando US$ 100 mil por ano. Resolve também ajudar a Unita.
O chanceler Azeredo da Silveira manda o ministro Ovídio de Mello para Angola, representando o Brasil junto às três facções angolanas. Ovídio, que estava em Londres, reúne-se com Agostinho Neto na Tanzânia, Holden Roberto no Zaire e Savimbi no interior de Angola.
Março
O MPLA recebe armas russas. A FNLA ataca um quartel do MPLA em Luanda. Começa a guerra civil. Ovídio fixa-se em Luanda. Importa um telex, porque não havia.
Abril
A CIA diz a Kissinger que a FNLA vai ganhar a briga. O subsecretário de Estado para Assuntos Africanos, Nathaniel Davis, reclama da ajuda dada à FNLA e à Unita.
O presidente de Zâmbia, Kenneth Kaunda, reúne-se na Casa Branca com o presidente Gerald Ford e Kissinger. Diz que o seu governo, bem como os do Zaire, da Tanzânia e de Moçambique, favorecem a ideia de promover a união da FNLA com a Unita para derrotar o MPLA. Eles acreditam.
Maio
Agostinho Neto se encontra, no Congo, com o primeiro chefe da missão militar cubana, Flavio Bravo. Combate-se em Luanda.
Junho
O ministro da Defesa da África do Sul, Piet Botha, entrega ao primeiro-ministro Vorster um plano de acção para Angola. Kissinger manda dois emissários ao Zaire. Eles voltam dizendo que a coligação Unita/FNLA pode ganhar.
Julho
Gerald Ford se encontra com o líder soviético Leonid Brejnev em Helsinque e não tocam no caso angolano. Uma missão militar cubana volta a Havana. Fidel Castro está preocupado com a defesa do petróleo de Cabinda, explorado pela americana Gulf Oil. Prepara-se em Havana um plano de contingência para entrar em Angola.
Davis insiste com Kissinger pela solução africana. Kissinger diz que não pode deixar os russos botarem o pé em Angola. Davis insiste, dizendo que é tarde e não há como bater o MPLA e pede demissão.
Kissinger manda um emissário ao Zaire com US$ 1 milhão e a promessa de mais US$ 6 milhões.
Descola dos EUA o primeiro avião com armas para a FNLA.
Agosto
A África do Sul move tropas para a fronteira sul de Angola, sob o pretexto de defender a hidroeléctrica de Cunene. O MPLA expulsa as outras facções de Luanda.
Ovídio recomenda ao Itamaraty que em Novembro se reconheça o MPLA. Blinda as janelas de sua casa.
A CIA, que já conseguira autorização para gastar mais US$ 14 milhões em Angola, pede um novo reforço de US$ 10 milhões.
Robert Stockwell, chefe da força da CIA para Angola, encontra dois brasileiros nas tropas da FNLA. Um, jornalista (nome de código Falstaff), estivera na folha da CIA. O outro, fardado, diz que é oficial do Exército. (Kissinger diz que usou mercenários portugueses e brasileiros.) As tropas sul-africanas, apoiando a Unita, entram em Angola. É a Operação Savana.
Setembro
Ovídio fica sem suprimentos. Come carne de cachorro e legumes que plantou no quintal.
Kissinger reclama que o dinheiro da CIA vem sendo liberado burocraticamente. Tinha pouco tempo para cuidar da crise angolana.
Ovidio passa dez dias no Brasil. Sustenta que se deve reconhecer o MPLA.
Outubro
Mobutu pede armas à CIA para atacar Cabinda.
Kissinger insiste: se os EUA deixarem a URSS entrar em Angola, vão dar uma demonstração de fraqueza. Atacado pela FNLA ao norte e pela Operação Savana ao sul, o MPLA teme a invasão de Luanda.
A CIA regista o movimento de 20 aviões russos pousando no Congo-Brazzaville, levando 200 blindados e 20 mil rifles.
A CIA informa a Washington que há apenas 100 ou 150 conselheiros militares da África do Sul com as tropas da Unita que entraram em Angola. Hoje, Kissinger reconhece que essa informação estava errada ou era falsa.
Novembro
Dia 4 - A Varig fecha o seu escritório em Luanda. Ovídio fica sem mala diplomática e sem jornais brasileiros. Informa-se pela BBC.
Dia 5 - A CIA diz a Kissinger que a guerra está ganha pela UNITA/ FNLA e, portanto, pelos EUA.
Dia 7- O cônsul americano deixa Luanda. Despede-se de Ovídio dizendo que o reconhecimento do Brasil para o MPLA está certo.
Dia 6 - Geisel resolve reconhecer o MPLA. Zappa diz a Azeredo da Silveira que esse foi o maior feito da diplomacia brasileira nos últimos 30 anos.
Dia 9 - Chega a Ovídio o telegrama do Itamaraty, autorizando que ao primeiro minuto do dia 11 ele se apresente ao governo de Luanda.
Dia 10 - O embaixador russo na Guiné diz a Moscovo que aviões cubanos pediram escala em Conacri, a caminho de Angola. O chanceler soviético Andrei Gromiko não sabe de nada. Quando os russos descobrem que é uma força expedicionária, não conseguem pará-la.
Os portugueses deixam Angola.
Tropas cubanas usando foguetes russos dissolvem a coluna da FNLA que ia entrar em Luanda. (Há um mistério nesse combate. Ele pode ter ocorrido antes do dia 11. Nesse caso, as baterias de foguetes teriam sido operadas por cubanos que já estavam em Angola. Kissinger não toca nesse ponto.)
Dia 11- Um batalhão de elite cubano começa a descer em Luanda. É a Operação Carlota.
Dia 13 - Ovídio é acusado de ter reconhecido o MPLA sem autorização. Já está decidida a sua remoção de Luanda. Discute-se em Brasília o nome do substituto. Kissinger denuncia, pela primeira vez, a presença de cubanos em Angola.
Fim do mês - O Itamaraty determina a Ovídio que se afaste do governo angolano. Ovídio protesta.
Dezembro
O "The New York Times" denuncia as actividades da CIA contra o MPLA. Azeredo da Silveira reúne-se com Kissinger em Nova York. O secretário reclama da posição brasileira e ele lhe diz que em Angola o Brasil segue a sua própria política. O Senado americano proíbe operações clandestinas da CIA em Angola. A África do Sul retira suas tropas. O Itamaraty retira Ovídio de Luanda. Ele volta a Londres e, em Junho, é removido para a Tailândia, onde fica cinco anos.
Entretanto, durante o mesmo período da ditadura militar no Brasil :
" O episódio específico que mais me chamou a atenção foi a participação directa do mesmo grupo de extermínio no golpe organizado pela CIA para derrubar o governo do MPLA em Angola, com viagem secreta em avião da FAB (Força Aérea Brasileira)."
In
http://correiodobrasil.com.br/memorias-de-uma-guerra-suja-e-a-participacao-da-midia-no-apoio-a-ditadura/456768/

quarta-feira, 1 de agosto de 2012

Governo da Frelimo viola AGP

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Mediador de Roma acusa
– afirma Dom Jaime Pedro Gonçalves em Nova Sofala, sua terra natal, em homilia em que falou da Integração da Segurança da Renamo na PRM e formação integral de exército único, na presença de um ex-ministro do Interior, coronel Manuel António
Adelino Timóteo
O recém-reformado Arcebispo da Beira, Dom Jaime Pedro Gonçalves, manifestou-se insatisfeito pelo incumprimento do postulado do Acordo Geral de Paz (AGP), por parte do Governo, o que resulta no facto de a Renamo dispor ainda de força residual em Marínguè, oficialmente tida em número de 150 elementos, mas que tem vindo a oscilar, chegando o próprio presidente da “perdiz” a afirmar que dispõe de uma segurança armada de três mil homens. Falando há dias em Nova Sofala, sua terra natal, onde foi realizar missa no âmbito da sua aposentação, num estilo didáctico que perpassou pelo memorial do tempo em que ele próprio foi mediador do AGP, assinado há 20 anos em Roma, capital da Itália, Dom Jaime Gonçalves historiou à população local o labiríntico processo que foi a ardilosa negociação que levou ao entendimento entre os então beligerantes (Frelimo e Renamo), isto é, ao Acordo de Paz de Roma a 04 de Outubro de 1992, que permitiu que terminasse a Guerra Civil que durava há 16 anos.
Incidindo sobre a formação de um exército único e uma polícia única, protocolos que o Governo não cumpriu tal como devia ser, Dom Jaime afirmou que a solução do dossier Marínguè (segurança armada) inscreve-se no diálogo entre as duas partes, conforme preconizado no AGP. “Está escrito no AGP, que podeis ler, que era preciso garantir a segurança, pois a Frelimo não confiava na Renamo, nem esta confiava na Frelimo. Esta justificava a desconfiança no facto de a Renamo a ter combatido, e vice-versa.
Não queriam ficar juntos e ambos diziam “capaz”! Nós perguntamos-lhes se queriam ficar juntos, ao que eles afirmaram que “sim”.
Dissemos: vocês Renamo arranjem homens da segurança de confiança, eles vão guarnecer Afonso Dhlakama e Raul Domingos, entre outros.
Assim, a Frelimo ficaria com a sua gente de confiança. Acordámos que depois das primeiras eleições gerais de 1994 a Renamo teria que integrar os seus homens na Polícia, apresentar uma lista e entregá-los ao Governo”, recordou o emérito Arcebispo Dom Jaime.
O prelado jubilado prosseguindo o esclarecimento afirmou que: uma vez que a segurança do mato é diferente da segurança na cidade, acordou-se que os homens da Renamo teriam que ser preparados para funcionar na cidade, de modo que passassem a reunir requisitos de uma segurança de cidade, e não da Gorongosa.
“Perguntámos aos ex-beligerantes se concordavam, ao que disseram que “sim””.
“Depois da eleições de 1994, constatou-se que o ministro do Interior de então, Manuel António, foi à Gorongosa pedir os nomes daqueles que tinham sido escolhidos para a segurança da Renamo”.
“A Renamo entregou-os”. “O problema começou quando para se fazer treinos o Governo [Frelimo] disse: não posso misturar a minha segurança com a da Renamo”, recordou Dom Jaime, rebatendo esse conflito que se arrasta vão 20 anos.
“E vocês jornalistas tratam-nos (à segurança da Renamo) por Homens Armados, mas não são Homens Armados. São Segurança da Renamo. São aqueles que deveriam estar na Polícia da República de Moçambique (PRM), mas o Governo os marginalizou”, concluiu Dom Jaime Gonçalves.
Para o prelado que fez parte da equipa de mediadores do Acordo de Paz entre a Frelimo e a Renamo, na esteira dos entendimentos de Roma, a segurança armada da Renamo devia ser enquadrada na Polícia, o que, transcorridos quase vinte anos não sucedeu, resultando daí terror e morte numa sociedade que quer caminhar rumo ao desenvolvimento.
“O que se põe é que o problema de acomodação ou enquadramento daqueles seguranças do líder da oposição ficou resolvido em Roma, faltando aqui o bom censo dos moçambicanos,” repisou Dom Jaime falando na sua terra natal.
Para o Arcebispo jubilado, se tal “tivesse sido cumprido evitava-se o ambiente de desconfiança por parte dos ambos lados e haveria garantia de que o país jamais retornaria à guerra.” Moçambique precisa de homens corajosos com capacidade de interromper o plano de derrame de sangue para aplicar o acordado em Roma, disse também Dom Jaime.
Sobre as Forças Armadas
O prelado reformado afirmou ainda que quanto ao exército, Forças Armadas de Defesa de Moçambique, foi também protocolado no âmbito do AGP (Acordo Geral de Paz) que integrariam um exército único de 12 mil homens de cada lado, mas o Governo esquivou-se a misturar as suas tropas com as da Renamo.
Isso que estava previsto no AGP não aconteceu integralmente. “Para resolver esse diferendo é preciso diálogo, nem que envolvam pessoas de bem. Podemos dizer às nossas autoridades que não acreditamos numa solução de Marínguè, de recurso às armas, para a resolução deste problema. O Governo tem obrigação de garantir segurança para todos. A Renamo e a Frelimo têm que aceitar introduzir a confiança”, apelou Dom Jaime.
“Agora Afonso Dhlakama questiona o que pode fazer com os seus seguranças, uma vez que o guarnecem.
O número de soldados que deviam integrar o exército nacional foi contado. Foram aceites poucos.
Os outros ficaram de lado. Afonso Dhlakama pergunta o que irá fazer com aqueles homens, ao que lhe respondem que o problema é dele.
Assim surge o problema do dossier Marínguè: é uma questão de desconfiança.
Não fizeram o que concordamos lá em Roma. A Frelimo não teve confiança que lhe levasse a fazer uma Polícia e Exército de todos os moçambicanos. Não aceitou. E a Renamo está com os seus homens”, elucidou o mediador de Roma falando na sua terra natal a sul da província de Sofala.
Dom Jaime Pedro Gonçalves aposentou-se devido à sua idade avançada. Encontrava-se em funções desde 1976, na Beira. Dom Jaime tem-se destacado pelas suas posições frontais e críticas ao despotismo frelimista, partido esse que se mantém atento às suas homilias, e não raras vezes, reage com recados. Por exemplo, em momentos diferentes Dom Jaime causou ataques de nervos a três figuras do partido Frelimo.
Recorde-se que o então secretário- geral da Frelimo, Manuel Tomé, e Felisberto Tomás, antigo governador de Sofala, já chegaram a advertir Dom Jaime Gonçalves a não se meter na política.
Pronunciamentos bastantes contundentes de Dom Jaime também já levaram, no passado recente, Filipe Paúnde, então secretário provincial da Frelimo em Sofala e agora secretário-geral da Frelimo, a lançar contra o antigo prelado, ataques velados.
Dom Jaime, no entanto, tem-se revelado um homem de fortes convicções e coerente para consigo próprio continuando a dizer o que lhe vai na alma e continuando a ignorar as ameaças dos seus detractores.
Nasceu no dia 26 de Novembro de 1936 em Nova Sofala, na província de Sofala. Tem agora 74 anos. O arcebispo do Chiveve é vertical pela forma como fixa a realidade socio-política moçambicana e a repreende. Entrará para a história como um dos impulsionadores da cidadania activa e mediador do Acordo Geral de Paz, que em 1992 pôs fim a 16 anos de guerra entre o governo frelimista e a Renamo.
Ele não só se desentendeu com o partido Frelimo, mas também com o partido Renamo, de Afonso Dhlakama, com a qual o partido no poder o suspeitava de ter vinculações.
Mas a rota de colisão com a Renamo veio ao de cima depois da revolução de 28 de Agosto de 2008, na Beira. Foi quanto Dhlakama o acusou de traição, alegadamente por apoiar Daviz Simango. Dom Jaime nunca reagiu às observações de Dhlakama.
Numa conferência de Imprensa realizada no ano transacto, Dom Jaime afirmou que as declarações do líder da Renamo, Afonso Dhlakama, de aquartelar os seus ex-guerrilheiros não lhe causam espanto, tendo em conta os seus discursos anteriores.
O arcebispo da Beira, Dom Jaime Pedro Gonçalves, afirmou mesmo que não ficou surpreendido nem tão pouco alarmado com as recentes declarações do líder da Renamo, segundo as quais pretende criar quartéis em diversos pontos do país para aquartelar os seus ex-guerrilheiros e militares que estão alegadamente a ser desmobilizados sem justa causa do exército nacional.
“É que Moçambique, nos seus poucos anos de independência, está a experimentar a diversidade de partidos, diversidade de ideias e de opiniões quase sempre oposta à dos seus habitantes. Ainda não acabamos de viver as ideias que estão na cabeça de cada moçambicano.
Por isso, não me admira que ainda haja pessoas que de alguma maneira possam prever alguma desordem e alguma falta de paz nas nossas cidades”, rematou.
Um dos assuntos que terá levado a azedar a relação de Dom Jaime com a Frelimo é o da segurança armada de Afonso Dhlakama, que o prelado disse não haver motivo de se lhes chamar “homens armados”.
Dom Jaime defende que a segurança armada da Renamo está a coberto do protocolo número IV do AGP. Voltou a repisar numa conversa que manteve com o Canal de Moçambique.
A despeito de escaramuças que amiúde envolve estes homens da Segurança da Renamo e a Polícia da República de Moçambique Dom Jaime tem uma posição: “Sofala não deve ser província de tumultos, que se pauta pelo diálogo com o cano das armas, mas, sim, uma terra dos homens que privilegiam o diálogo com recurso às palavras”.
“Pedimos aos homens sábios moçambicanos para que não nos matem gratuitamente”. Este é um aviso à navegação deste religioso que se mantém atento aos sinais.
Lançou por várias vezes apelos nesse sentido, em várias das suas homilias.
Aos dois antigos beligerantes, Dom Jaime apelou amiúde no sentido de se sentarem para resolverem pacificamente os seus problemas como é o caso dos alegados homens da Segurança de Dhlakama e da Renamo.
Governo e Renamo devem honrar o combinado
Numa alusão implícita à Frelimo e a Renamo, Dom Jaime Gonçalves recordou que “os homens de facto deveriam aplicar aquilo que foi combinado perante testemunhas oficiais sob a mediação das conversações que culminou com a assinatura de AGP, testemunhado pela Organização Nações Unidas (ONU) e outros governos considerados mais solenes do mundo.”
Refira-se que assistiu ao encontro de Dom Jaime com a população de Nova Sofala o antigo ministro do Interior, Manuel António, o qual não desmentiu as alegações do arcebispo jubilado.
Canal de Moçambique – 25.07.2012

Lady SOAS ou o diálogo com os mortos

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(A propósito de uma entrevista de Graça Machel)
Por: Barnabé Lucas Ncomo
Há afirmações de figuras políticas nacionais que são de tal forma controversas e desfasadas da realidade que acabam por assumir foros surrealistas. Viu-se isso numa entrevista recente ao canal televisivo, TVM, em que Graça Machel se viu confrontada com perguntas acutilantes do jornalista Simião Ponguane. Graça Machel reclamou representar uma ala liberal no seio da Frelimo e, por inerência, do regime que essa formação política tem dirigido desde há mais de três décadas. Quando o entrevistador indagou sobre as razões da Frelimo não ter conseguido gerir o descontentamento de alguns moçambicanos a ponto de haver um movimento que, depois, se chamou Renamo, Graça Machel descartou-se com algo inesperado, afirmando desconhecer que alguma vez os cidadãos moçambicanos tivessem colocado as suas posições perante o regime, tal como a Frelimo havia feito em relação ao governo português antes do início da luta armada. Graça Machel rematou o seu argumento, afirmando:
“És capaz de me dizer quando, onde e como a Renamo apresentou o seu descontentamento ao Estado? Nós, na pessoa do camarada Mondlane, para ir falar e explicar ao governo português que queremos independência, antes de pegar em armas, sabíamos o que queríamos. O meu problema não é dizer se as pessoas não tinham oposição ou não, o meu problema é que, quando nós temos exigência, é preciso colocar as coisas de uma maneira clara em cima da mesa. Eu não tenho conhecimento, não sei se tu tens, de um momento em que esses moçambicanos colocaram em cima da mesa: 1. Nós nos opomos a isto; 2. Nós nos opomos àquilo; 3. etc., etc. Se tu tiveres essa informação, diz-me onde e como!”.

Graça Machel reafirma este seu pensamento tentando fazer passar a ideia da existência, em toda a história da Frente de Libertação de Moçambique (movimento) e da Frelimo (partido), de abertura política que os opositores não aproveitaram ou não quiseram aproveitar, num “diálogo” pacífico visando fazer valer os seus ideais. Prossegue:
“Teria entendido muito bem se tivesse havido esse diálogo e a Frelimo tivesse dito não. Eu não tenho conhecimento ou registo que isso tenha acontecido. Por exemplo, a Frelimo fez exigência da independência, falando com o governo português, depois com as Nações Unidas, OUA, para uma independência por meios pacíficos. Só e só quando os meios pacíficos não resultaram é que nós pegámos em armas!”.
Para quem não está divorciado da realidade, nem de costas viradas para a História, a posição ora assumida por Graça Machel faz dela uma pessoa que vive num mundo à parte, desconhecedora de tudo quanto a rodeia, da História recente do nosso país, e do flagelo que se abateu sobre todas as vozes discordantes deste país. Graça aparenta não acompanhar a evolução da linha política definida pelo partido a que pertence, o que faz dela um péssimo quadro, uma militante inconsequente, que não cumpre nem estuda as orientações e as directivas saídas de sessões dos órgãos centrais do poder partidário e estatal em que teve assento, mormente o Comité Central, a Assembleia Popular, o Conselho de Ministros, em suma, em todo o aparelho de uma formação politica que constitucionalmente se autoafirmou como “força dirigente do Estado e da Nação”.
Aperceber-se-á ela da posição macabra e da imagem surrealista que constrói em seu redor quando opta por uma postura desse tipo?
Recuemos no tempo:
Há um golpe de Estado na metrópole colonial que abre os caminhos que conduziriam as independências das colonias portuguesas em África. A FRELIMO, que Graça Machel acabava de integrar com efetividade um ano antes, aposta numa política de exclusão. Quer um diálogo condicionado; um diálogo somente entre Lisboa e Nachingwea sem envolver outras sensibilidades políticas em Moçambique. Faz valer esta sua posição perante Lisboa com recurso à força e a chantagem política: ou dás o que quero, ou continuo a matar.
Os que rejeitam esta sui generis paternidade, e que exigem, colocando sobre a mesa as suas legítimas reivindicações de independência nacional por um processo democrático e pluralismo político, são apelidados de reaccionários; agentes do neocolonialismo e do imperialismo. Tinham, estatutariamente, de ser destruídos.
Na sequência dos acordos de Lusaca em Setembro de 1974, instala-se no país o Governo de Transição chefiado pela FRELIMO. Graça Machel integra esse governo na qualidade de Secretário de Estado. A pasta que lhe está reservada, para depois do fim do exercício desse elenco governativo de transição encontra-se nas mãos de Gideon Ndobe.
Graça Machel entra, assim, para a primeira máquina governamental da sua vida. De entre várias atribuições públicas e secretas conferidas ao elenco governamental de que faz parte, a partir de Lourenço Marques, está a perseguição, detenção e deportação para o Centro de Preparação Politico militar da FRELIMO em Nachingwea de todos os que, segundo hoje nos conta, “não colocaram em cima da mesa, 1. Nós nos opomos a isto; 2. Nós nos opomos àquilo; 3. etc., etc”.
Graça Machel assiste a um “diálogo” que se revelaria humilhante e ultrajante entre a direcção máxima do seu partido e aqueles que, sob ameaças de espingardas de guerra, ela e os seus camaradas no governo transitório encaminharam a Nachingwea. Em conluio com os capitães de Abril, a Special Branch de Banda e a TIS de Mwalimu Nyerere, o “diálogo pacífico” dos aspirantes a governantes no novo Moçambique começa com amordaçados em Lourenco Marques, na Matola, na Beira, em Milange, na Base Moma, em Chileka, Blantyre, em Dar es Salaam, em Arusha, no Cairo, em Nairobi e Mananga. Não faltam locais de desterro, nem camiões fechados com lonas para o sufocante transporte de gado humano em longos itinerários Norte-Sul, ou do Maputo ao Rovuma.
Em Nachingwea, perfilham-se diante de Samora Machel; dos dirigentes da FRELIMO, e de outros dignatários da Tanzania e Zâmbia, centenas de moçambicanos que a FRELIMO foi, desde a tomada de posse do Governo de Transição, paulatinamente prendendo ou ardilosamente atraindo para o seu regaço. Tanto em Moçambique, na própria Tanzânia, como em outros países estrangeiros.
O “diálogo”, naquele Centro de Preparação Político-militar, é rígido e com regras: monocórdico e pré-determinado. Os oradores não se podiam desviar do discurso que lhes era colocado nas mãos. Não havia, portanto, 1), 2) e nem 3). Tão pouco o “vamos a isto” ou “vamos àquilo”. Há apenas o “ir”. De uma viagem de ida sem regresso: de Nachingwea para M’telela, via Metangula; de Nachingwea para Ruarua, Bilibiza ou Namuli atravessando o rio Rovuma. Isto, à revelia de todos: dos tribunais, dos juízes, dos advogados, dos familiares e dos entes queridos.
Proclama-se a “independência nacional” a 25 de Junho de 1975. Graça Machel tem assento no Conselho de Ministro por inerência do novo cargo que ocupa. Assiste ainda a uma outra etapa do “diálogo” desta feita entre governantes (ela e seus camaradas) e governados (nós, o povo). O novo “diálogo” entre “nós” e “eles” é igualmente monocórdico; orientado e directivado. Volta a haver o “ir”. De uma viagem de ida. Sem regresso. Desta feita, com guia de marcha. Para Machava ou para M’sawize; para Ulumba, Mossurize ou Maua 1; para Unango, Sacuzo, Macoloje ou Bilibiza, etc. Termina com fuzilados em M’telela em “diálogo de balas”.
Assassinados em Ruarua em “diálogos de cordas ao pescoço” amarradas a ramos das árvores, com mesas ou bancos a servirem de patíbulos pontapeados pelos homens de Lagos Lidimo e de Salésio Nalyambipano.
Perante todo este quadro macabro e arrogância assassina, do seu leito na Ponta Vermelha em Maputo, a liberal Lady SOAS acalentava ainda ser possível o diálogo. Os que nas matas viriam a recorrer à via armada para fazer valer os valores da democracia e da liberdade deviam, primeiro, fazer um Requerimento ou Petição, reconhece-los nos Serviços Notariais e depois fazê-lo chegar as mãos de Sua Excelência Senhor Presidente da Republica Popular de Moçambique. Como não o fizeram, não eram, portanto, quer para os liberais como Graça Machel, quer para os não liberais da mesma formação do pensamento comum, interlocutores válidos! É isto que Graça quis dizer?
…

É estranho que a ilustre presidente do SOAS se tenha esquecido de alguns factos. Por exemplo, que aos carcereiros a quem se incumbiu a missão de fechar as celas onde se pôs alguns dos discordantes (que ela assistiu dialogando com o malogrado marido em Nachingwea), também se lhes exigiu que depois atirassem as chaves para o fundo do poço. E que, desde então, lá dentro – isto é, nas celas – iniciara-se, por vontade do malogrado Samora e seus pares um outro “diálogo”, monocórdico, em que os que estavam encarcerados passaram a falar para as paredes, consigo próprios, escutando as suas próprias vozes, num diálogo de loucura e de desespero, impedindo-se assim que colocassem na mesa “as coisas” – como afirma a ilustre senhora.
Esqueceu-se, a senhora Graça Machel, que tal como os partidários do nazismo na Alemanha empenharam-se “em prol dos ideais do “Führer”, em Moçambique, o carcereiro que atirou as chaves das celas para o fundo do poço fê-lo com conhecimento do Chefe Máximo local e de alguns que o rodeavam, daí que a par das promoções por “bons serviços prestados em prol do “Führer”, não há memória que lhe tenham sido aplicadas sanções por excesso de zelo, o que prova que estava, o carcereiro e todos outros, em consonância com a vontade partidária/estatal mais superior.
Graça Machel não fica de fora dos crimes cometidos em Moçambique. Esqueceu-se também que daquelas celas já não se podiam escutar vozes, mesmo que sumidas, a balbuciar o 1 e o 2 do “queremos isto” ou “queremos aquilo”, o que parece explicar a resposta que dá ao entrevistador Simião Ponguane: “(…). O meu problema não é dizer se as pessoas não tinham oposição ou não, o meu problema é que, quando nós temos exigência, é preciso colocar as coisas de uma maneira clara em cima da mesa. Eu não tenho conhecimento, não sei se tu tens, de um momento em que esses moçambicanos colocaram em cima da mesa, um: nós nos opomos a isto; dois: nós nos opomos àquilo, 3). etc., etc. Se tu tiveres essa informação, diz-me onde e como. Onde e como esses moçambicanos apresentaram o seu descontentamento ao Estado!”.
Fica-nos uma mensagem confusa. Uma afronta de Lady SOAS. Não sabemos se por imprudência ou por descuido. Em suma, Lady SOAS pretende um diálogo, que só pode ser com os mortos. Que ressuscite então os mortos para que sejam eles a dizer-lhe quando, onde e em que mesa expuseram as suas reivindicações. Porque para quem chegou a pagar (como ela afirma) avultadas somas para que se desvende de uma vez por todas o “mistério” da morte de Samora Machel, e não se cansa de lamentar a prematura orfandade dos próprios filhos, não deixa de ser estranho que nos atire agora com uma imagem que destoa toda a personalidade que lhe conferiu o direito de ocupar um prestigiado e cimeiro cargo na Universidade de Londres: Presidente da SOAS.
Graça Machel oferece-nos agora a imagem duma dama sem sentimentos para com outros seres humanos. Desrespeita não só os que o regime liderado pelo antigo marido injustamente matou, como também os familiares (pais, filhos, irmãos, etc) daqueles, cujos destinos a Frelimo impede que tenham nas suas sepulturas um ramo de flores de quem os amou. É estranho que Graça Machel venha hoje dizer-nos que a pouca “liberdade política” de que desfrutamos carecia de um Requerimento ou Petição por escrito, conhecido que estava o destino de outros moçambicanos por ousarem contrariar o que a Frelimo impôs por forças de armas e intimidação.
Seria interessante que Graça Machel não só desse “graças ao apartheid” na África do Sul por ter poupado a vida ao seu novo marido (senão não teria segundas núpcias com uma figura do mundo como Nelson Mandela), mas também que procurasse conhecer a fundo a origem dos valores monetários que gravitavam nos bolsos dos líderes da FRELIMO em Dar-es-Salam, antes de vir a público afirmar que os líderes da RENAMO eram pagos por alguém para desestabilizar. E se o colonialismo português negou qualquer espécie de diálogo pacífico com os moçambicanos que aspiravam a liberdade e independência, que ponha, a senhora Graça Machel, mão a consciência, para ver se ela; o seu malogrado marido Samora Machel, e seus camaradas, agiram de forma contrária a de Salazar e Caetano.
Seria, por outro lado, também interessante que as instituições públicas ou privadas de prestígio mundial investigassem primeiro o passado social de algumas figuras que pretendem promover a posições de destaque, sob o risco de caírem no ridículo de promoverem ou homenagearem figuras como um Charles Taylor, que recentemente acabou condenado por abuso e crimes contra outros seres humanos.
Para refrescar a memória, juntamos a este artigo de opinião algumas fotografias que ilustram o “diálogo” havido em Nachingwea entre a direcção da FRELIMO e “algumas vozes discordantes” em 1975. É importante que a ilustre Presidente do SOAS entenda que o Estado moçambicano que alude na entrevista com Simião Ponguane teve o seu prelúdio exactamente nesse local (Nachingwea), dez anos depois duma sangrenta luta contra a teimosia de Salazar e Caetano. André Matsangaice e outros moçambicanos viriam então a fazer a sua história da sua maneira, muitos deles partindo das masmorras do regime que Graça abraçava “em prol dos ideais do seu Führer”.
* Graça Machel foi recentemente nomeada Presidente do SOAS, o famoso Instituto de Estudos Orientais e Africanos da Universidade de Londres.
Canal de Moçambique - 25.07.2012
NOTA: Legendas das fotos da esquerda para a direita:
- Grupo de vítimas do tal “diálogo” de Nachingwea
- Joana Simião também no “diálogo” de Nachingwea. Foi assassinada.
- Samora Machel levando pelo braço José Eugénio Zitha no “diálogo” de Nachingwea. Foi assassinado.
- Outra imagem do “diálogo” que para muitos não passou de um monólogo a que se seguiu um passaporte para a eternidade.
- Judas Honwana a ser empurrado em Nachingwea. Seria libertado de M´telela. Veio a falecer em Maputo.
(Click nas imagens para ampliar)