domingo, 1 de janeiro de 2017

Turquia: ataque a discoteca faz 39 mortos e 69 feridos

Atacantes estavam vestidos de Pai Natal e dispararam indiscriminadamente dentro da discoteca Reina, no distrito de Ortakoy, em Istambul.
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Reuters/OSMAN ORSAL
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Pelo menos 39 pessoas, incluindo 15 estrangeiros, morreram no ataque a uma discoteca em Istambul no sábado à noite, revelou o ministro do Interior turco, Suleyman Soylu.
Segundo Vasip Sahin, governador de Istambul, pelo menos duas pessoas vestidas de Pai Natal abriram fogo indiscriminadamente sobre quem festejava o Ano Novo na discoteca Reina, no distrito de Ortakoy, em Istambul. Foi um "ataque terrorista", não hesitou em dizer o governador.
No último ano e meio, a Turquia tem sido fustigada por vários ataques reivindicados pelo Daesh ou atribuídos à rebelião curda. Segundo as agências de informação internacionais, as autoridades da Turquia já tinham aumentado o nível de segurança, com várias barreiras em locais estratégicos em Istambul e na capital, Ancara.
De acordo com a agência de notícias local, a Anadolu, 17 mil polícias tinham sido colocados de prontidão, alguns disfarçados de Pai Natal e outros como vendedores ambulantes.
"De uma maneira selvagem e implacável ele metralhou pessoas que estavam simplesmente a comemorar o Novo Ano", declarou Sahin.
De acordo com o canal de informação NTV, vária pessoas que estavam na discoteca lançaram-se ao rio Bósforo para escapar ao ataque. Segundo os media turcos, entre 700 e 800 pessoas estavam na discoteca no momento do ataque.
Vaga de ataques
A discoteca Reina está situada a poucas cetenas de metros do local onde decorreram as celebrações oficiais do novo ano, nas margens do Bósforo. Uma dezena de feridos foi de imediato transportada para as urgências, ao mesmo tempo que várias ambulâncias e carros da polícia chegaram ao local. Testemunhas no local citadas pela agência Dogan afirmam ter ouvido alguém gritar palavras de ordem em árabe.
A Turquia tem sido um alvo frequente da rebelião ligada ao Partido dos Trabalhadores do Curdistão (PKK) ou de ataques reivindicados pelo Daesh, que já atingiram Istambul e Ancara.
Em 2016, morreram pelo menos 180 pessoas em ataques na Turquia levados a cabo pelo Estado Islâmico e por rebeldes curdos.
A Casa Branca já condenou o "horrível" ataque contra a discoteca Reina. "Os Estados Unidos condenam veementemente o horrível atentado contra uma discoteca em Istambul", afirmou Ned Price, porta-voz do conselho de segurança nacional. "Estas atrocidades perpetradas contra inocentes que vieram celebrar o novo ano sublinha a selvajaria dos atacantes."
No Twitter, o secretário-geral da NATO, Jens Stoltenberg, lamentou "o início de 2017 trágico em Istambul". A líder da diplomacia europeia, Federica Mogherini, também lamentou o sucedido afirmando que "2017 começava com um ataque em Istambul".

Os últimos ataques na Turquia

Depois de um ano marcado pelo regresso do conflito curdo e a guerra na vizinha Síria, a Turquia sofreu uma vaga de atentados atribuídos ao Daesh e ao Partido dos Trabalhadores do Curdistão (PKK) e as suas derivações:
19 de Dezembro: o embaixador russo na Turquia, Andre Karlov, foi assassinado em Ancara por um polícia turco que afirmou agir em nome do drama vivido na cidade de Alepo fustigada pelas forças fiéis ao regime de Bashar al-Assad.
17 de Dezembro: pelo menos 14 soldados turcos morreram e dezenas de pessoas ficaram feridas depois de um atentado suicida atribuído ao PKK que teve como objectivo um autocarro que transportava militares para a cidade de Kayseri, no centro da Turquia.
10 de Dezembro: um duplo atentado no centro de Istambul causou 44 mortos e uma centena de feridos. Um carro armadilhado explodiu perto do estádio de futebol do Besiktas à passagem de uma carro da polícia e um suicida fez-se explodir menos de um minuto depois no meio de um grupo de polícias perto do local do primeiro rebentamento. O atentado foi reivindicado pelo grupo Falcões da Liberdade do Curdistão (TAK), uma organização curda próxima do PKK.
24 de Novembro: um atentado com um carro armadilhado causou 33 feridos no parque de estacionamento Adana, capital da província com o mesmo nome no sul do país.
4 de Novembro: explosão de um carro armadilhado causou nove mortos, entre os quais dois polícias, em frente do posto da polícia de Diyarbakir, capital do sudeste do país, de maioria curda. Foi atribuído ao PKK, mas o tanto o Daesh como TAK reivindicaram este ataque.
9 de Outubro: 18 mortos depois da explosão de uma camião armadilhado diante de um posto da polícia de Semdinli (dudeste). Ataque atribuído ao PKK.
26 de Agosto: 11 polícias mortos durante um atentado suicida com um carro armadilhado em Cizre, na fronteira com a Síria, reivindicado pelo PKK.
20 de Agosto: 50 pessoa foram mortas por um suicida durante um casamento em Gaziantep. O Presidente Recep Tayyip Erdogan acusou o Daesh.
28 de Junho: 47 pessoas, entre os quais vários estrangeiros, morreram num triplo atentado suicida no aeroporto internacional Atatürk, Istambul. O ataque, não reivindicado, foi atribuído ao Daesh.
7 de Junho: onze mortos, entre os quais seis polícias, depois de um atentado com um carro armadilhado que visou um veículo anti-motim da polícia em Beyazit, bairro histórico de Istambul. Foi reivindicado pelo TAK.
19 de Março: quatro turistas (três israelitas e um iraniano) foram mortos em Istambul depois de um ataque suicida. Pelo menos 36 pessoas ficaram feridas. As autoridades acusaram o Daesh.
13 de Março: 35 mortos e mais 120 feridos depois de um atentado com um carro armadilhado em Ancara. Reivindicado pelo TAK.
17 de Fevereiro: um carro armadilhado conduzido por um suicida causou 28 mortos e 80 feridos em Ancara. O ataque, que tinha como objectivo militares, foi reivindicado pelo TAK.
12 de Janeiro: 12 turistas alemães morreram depois de um atentado suicida no centro histórico de Istambul, muito turístico. O ataque foi atribuído ao Daesh.
Vídeo amador captado na discoteca Reina, onde se vê um dos atacantes

Tudo o que de pior pode acontecer em 2017

Opinião

Internacionalmente, 2017 pode vir a ser o ano a partir do qual passaremos a dizer que antigamente o futuro era tão risonho. Entre nós, a constatação é a de sempre.

sábado, 31 de dezembro de 2016

“Aquela loucura de andar a prolongar a vida não vai ser feita”

Eduardo Barroso sobre Mário Soares:

O sobrinho do antigo chefe de Estado falou aos jornalistas sobre o estado de saúde do tio.
Eduardo Barroso revelou nesta sexta-feira que a família e a equipa médica que acompanha Mário Soares decidiram que a vida do ex-Presidente da República não será prolongada com recurso às máquinas.
"Aquela loucura de andar a prolongar a vida não vai ser feita", disse Eduardo Barroso, em declarações aos jornalistas.
“Essas decisões em relação aos doentes são tomadas pelos médicos em conjunto com as famílias e foi o que aconteceu”, declarou. O sobrinho do antigo chefe de Estado, que diz que a equipa médica está “a fazer tudo o que é correcto”, afirmou ainda que Mário Soares passou bem a noite.
Conforme José Barata, porta-voz do Hospital da Cruz Vermelha, tem vindo a referir em todos os boletins clínicos durante esta semana, Mário Soares não necessita de “suporte externo”.
“Não se vai fazer diálise, não se vai ventilar porque não é preciso. Ele respira melhor que eu”, disse ainda Eduardo Barroso.
O antigo chefe de Estado, de 92 anos, encontra-se internado desde o dia 13 deste mês, onde permanece nos cuidados intensivos.
No boletim clínico emitido nesta sexta-feira, o porta-voz do Hospital da Cruz Vermelha afirmou que Mário Soares continua em situação "muito crítica", embora tenha havido uma estabilização face a quinta-feira, dia em que o estado clínico do ex-Presidente se agravou.

Golpe de teatro de Putin testa primeiros tempos de Trump


Golpe de teatro de Putin testa primeiros tempos de Trump


O Presidente russo não respondeu às sanções dos EUA, ignorando Obama e obrigando Trump a definir mais cedo as relações com a Rússia.


João Ruela Ribeiro 30 de Dezembro de 2016, 18:16




Foto Vladimir Putin durante um discurso recente no Kremlin AFP/MICHAEL KLIMENTYEV
O ano termina com um novo episódio da crescente tensão entre os EUA e a Rússia. Washington anunciou que vai aplicar sanções contra dirigentes russos e expulsar espiões por causa da interferência de piratas informáticos com ligações ao Kremlin nas eleições presidenciais. O Presidente russo, Vladimir Putin, classificou a decisão norte-americana de “diplomacia irresponsável de trazer por casa”, mas optou por não ripostar, deixando a iniciativa do lado do próximo ocupante da Casa Branca, Donald Trump.
O Kremlin planeou um golpe de teatro que surpreendeu. Ao início da manhã desta sexta-feira, o ministro dos Negócios Estrangeiros russo, Serguei Lavrov, tinha anunciado a decisão de expulsar 35 diplomatas norte-americanos da Rússia. Na véspera, o Presidente norte-americano, Barack Obama, tinha anunciado a expulsão de 35 “agentes dos serviços de inteligência russos” e a aprovação de um pacote de sanções económicas dirigidas contra as duas principais agências de informação, o Directório Principal de Inteligência (GRU) e o Serviço Federal de Segurança (FSB), e três empresas suspeitas de terem apoiado as operações de pirataria. Foram ainda fechadas instalações de lazer frequentadas pelas famílias dos diplomatas russos nos EUA.


Putin recusa expulsar diplomatas americanos e espera por Trump


Washington acusa os serviços de informação russos de terem orquestrado uma operação de pirataria informática para acederem aos servidores do Partido Democrata e terem publicado emails do director de campanha de Hillary Clinton com o objectivo de prejudicar a eleição da ex-senadora. Moscovo diz que não há qualquer prova que suporte as acusações da Administração norte-americana.

Horas mais tarde, Putin revelou ter decidido não seguir a proposta de Lavrov, apesar de sublinhar que “a Rússia tem razões para responder” às sanções norte-americanas. “Apesar de termos o direito de retaliar, não iremos recorrer a esta diplomacia irresponsável de ‘trazer por casa’, mas iremos programar os nossos passos seguintes para restaurar as relações russo-americanas tendo por base as políticas da Administração Trump”, disse o Presidente russo.

Putin fez ainda questão de convidar os filhos dos diplomatas norte-americanos na Rússia para as festividades de Ano Novo no Kremlin. “Não iremos criar quaisquer problemas aos diplomatas dos EUA”, garantiu.

Ao optar por não responder às sanções de Obama, Putin acaba por alcançar dois objectivos. Por um lado, reforça a ideia de que o ainda Presidente norte-americano não exerce já qualquer poder real – a que acresce o acordo de cessar-fogo na Síria, em que Washington ficou de lado. “A reacção de Putin às sanções mostra efectivamente que ele sente que Obama acabou, pode ser ignorado e é Trump quem já desenha a política externa dos EUA”, escreveu no Twitter o editor da revista Foreign Policy, David Rothkopf.

Esta ideia esteve presente nas declarações de vários dirigentes russos. “Pensamos que decisões como esta da Administração em exercício, que vai estar em funções mais três semanas, têm dois objectivos: finalmente (irrevogavelmente?) estragar as relações EUA-Rússia e, obviamente, ter um impacto na política externa da futura Administração do Presidente eleito”, disse o porta-voz do Kremlin, Dmitry Peskov. De uma forma mais colorida, a conta oficial da embaixada russa no Reino Unido publicou uma imagem de um pato com a palavra “lame” (a expressão lame duck é usada para referir titulares de cargo em fim de mandato, quando já restam poucos poderes).

Ao mesmo tempo, Putin coloca a tónica do futuro das relações com os Estados Unidos em Donald Trump, com quem espera poder estabelecer ligações mais próximas do que com Obama. Caso respondesse com a expulsão de diplomatas ou com a aplicação de sanções, Putin poderia ainda arriscar um agravamento da tensão entre os dois países. Trump chega assim à Casa Branca com “Putin a ultrapassar as divisões e a dizer ‘vamos fazer isto juntos, vamos ignorar tudo isto e vamos em frente’”, disse à CNN a analista Jill Dougherty.

A decisão de manter as sanções ou removê-las fica nas mãos de Donald Trump, que terá logo nos primeiros tempos na Casa Branca o primeiro teste à nova etapa nas relações entre os EUA e a Rússia que diz querer abrir. Na quinta-feira, o republicano voltou a desvalorizar as acusações dos serviços de informação norte-americanos de que as agências russas estão por trás do ataque informático aos servidores do Partido Democrata. “Acho que devemos continuar com as nossas vidas”, afirmou Trump, deixando, no entanto, a garantia de que se vai reunir com os dirigentes dos serviços de informação na próxima semana.

Em termos teóricos, Trump pode reverter a acção executiva aprovada por Obama e travar a aplicação das sanções à Rússia. “Seria altamente incomum”, disse a conselheira de Obama para a Segurança Nacional e Contra-Terrorrismo, Lisa Monaco. “As sanções normalmente continuam em vigor até a actividade e as razões pelas quais foram aplicadas serem terminadas”, acrescentou.


Rússia quer expulsar 35 diplomatas americanos


O maior entrave de Trump pode estar no próprio partido. Senadores republicanos influentes como John McCain ou Lindsey Graham têm defendido uma postura mais dura em relação à Rússia por causa da suspeita de interferência nas eleições presidenciais. O líder da maioria republicana no Senado, Mitch McConnell disse que as sanções são “um bom passo inicial, embora cheguem tarde”.

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Conversa sobre a ecologia da corrupção

Opinião

De facto, nem é preciso ter grande sofisticação, basta estar lá. No sítio certo.
Salviati, Sagredo, e Simplício encontram-se de novo.
Simplício veio de táxi.
Simplício – Amigos, a rua ferve.
Sagredo – A rua nunca ferve.
Salviati – A rua em Portugal nunca ferve.
Simplício – Ferve, ferve. Deviam ouvir o que ouvi no táxi.
Sagredo – Nunca se deve ouvir os taxistas. Ele não tinha saudades do Salazar? Os taxistas não são a vox  populi.
Simplício – Nem vocês. Continuem a não ouvir nada e depois aparece o Trump.
Salviati – O que é que ouviste?
Simplício – Está tudo corrupto. É só escândalos. Foi o BPN, foi o Sócrates, foi o BES, foi o SEF, foi a Misericórdia, foi o INEM...
Salviati – E depois?
Simplício – A culpa é dos políticos.
Sagredo – Até que ponto a corrupção tem que ver com a política? São os políticos que são corruptos? É o sistema, seja lá que isso for? Vem de fora, vem de dentro? Vem de cima, vem de baixo?
Salviati – Vem de todo o lado, é ecológica. É um ambiente.
Simplício – Explica-te.
Salviati – Uma coisa são os actos concretos de corrupção, que são sempre uma minoria...
Simplício – ... porque muitos não são descobertos...
Sagredo – ... não sei. São certamente muito menos do que a percepção pública que existe desses actos, embora haver esta discrepância aponte para um problema. Por que razão é muito fácil a muita gente acusar tudo e todos de serem corruptos?
Simplício – Por que há muitos corruptos...
Sagredo – Talvez não haja assim tantos, mas os que são movem-se bem e medram...
Simplício – Medram?
Sagredo – Sim, têm carreiras. Enriquecem à nossa vista e nós sabemos que não pode ser assim muito direito. Mas medram: vão de um lugar para outro, sempre fazendo o mesmo e todos sabem.
Simplício – Sabem?
Sagredo – Sabem, sabem. Têm de saber. As secretárias, os colegas, os próximos, os familiares, os inimigos, os empregados, os companheiros de partido. Há sempre muita gente que sabe, mas depois há medo, indiferença, ou vantagem. Mas sabem, não podem deixar de saber, podem não saber os pormenores, mas sabem, ou suspeitam. Daí a dimensão.
Salviati – Reconheço que é um problema, mas podemos avançar sem nos fixarmos aqui. Na verdade, seja qual for a dimensão do fenómeno da corrupção, ele é preocupante. É estrutural ou não?
Sagredo – É sem dúvida estrutural. Basta ver a lista que o Simplício fez. Inclui um primeiro-ministro, uma parte da elite financeira e económica, sectores essenciais da administração pública, instituições de solidariedade social, empresas, bancos, gente com carreira política e profissional, ministros, governantes, autarcas.
Simplício – Mas como nunca mais há julgamentos, tem de se presumir a inocência.
Salviati – Sim, é verdade. Mas vamos fazer como na física, uma experiência mental, como o gato de Schrödinger. Seja qual for a hipótese, isto está muito mal. Se tudo for falso, temos um grave problema com a Justiça; se tudo ou quase tudo for verdadeiro, então a corrupção campeia. Podemos ficar pelo meio termo, ou melhor, deixar de centrar a questão na culpa e na inocência e colocá-la no que se sabe, métodos, práticas, módus operandi, cumplicidades...
Sagredo – Mas muitas dessas coisas não são corrupção.
Salviati – É verdade, mas são o terreno da corrupção. É por isso que eu falo de ecologia. Está nas más práticas da administração, numa cultura de favores, em escolhas por confiança política ou amiguismo, nas cunhas e no patrocinato, na partilha da informação apenas entre os “pares”, nos círculos informais do poder político... Está na ausência de uma cultura anticorrupção nos partidos políticos, que são mais sensíveis à dissidência do que à vergonha...
Sagredo – Nesse círculo de confiança de que tens falado: a gente que pode ser escolhida para tudo porque “é de confiança” é a ecologia da corrupção “alta”. Já se sabe que circula entre os negócios, a política, certas profissões com acesso muito próximo do poder político: grandes advogados, auditores e consultores, gestores, gente ligada à comunicação.
Simplício – Os que bebem do fino...
Sagredo – E deixam pequeno rastro, conversas em almoços, emails e telefonemas. É por isso que as escutas telefónicas têm o papel que têm. Imagina as centenas, milhares de conversas deste género:
“Olha para o teu projecto, devias falar com o A do gabinete do secretário de Estado. Vou-te dar o número privado.”
“Para essa privatização tens de falar com B. Se não falares com B, nada feito.”
“Seria possível agilizar esta autorização? É que o meu cliente tem muita pressa e está a perder muito dinheiro.”
“Sim, eu concorro, mas não posso perder, e tu podes dar outra coisa ao meu concorrente.”
Todas estas conversas são anódinas, nem sequer incluem a parte das vantagens, nem chegam à corrupção. Mas um dos interlocutores fica sempre em vantagem, seja em poder – é por ele que se conseguem algumas coisas –, seja em favores que podem ser retribuídos, seja no resto... a corrupção propriamente dita.
Salviati – E quem pode fazer isto fá-lo porque tem “acesso” – tal acesso que valia um milhão (a frase foi dita) ou que abre “todas as portas” (a frase foi dita). Ou tem informação, sabe com quem falar e o seu nome faz com que outrem atenda os telefonemas e faça os favores. O círculo de confiança que ninguém escrutina, porque a discrição é norma.
Simplício – Bebem do fino, repito.
Sagredo – E ganham do grosso.
Salviati – De facto, nem é preciso ter grande sofisticação, basta estar lá. No sítio certo.

A doutrina Trump-Putin

Opinião


Trump é sensível a este novo statu quo e minimiza as ambições russas, porque não quer saber das várias partes do mundo em que lhe é indiferente serem os russos a mandar.
Está-se a definir, embora ainda de forma muito embrionária e imprecisa, uma doutrina Trump-Putin, sem precedente na geopolítica depois da Segunda Guerra Mundial. Na verdade, a afirmação anterior podia ter algumas nuances, porque houve momentos em que doutrinas semelhantes se esboçaram, em particular na França, com De Gaulle e com o consistente e contínuo antiamericanismo dos gaullistas pós-De Gaulle. Mas os tempos são diferentes e uma coisa é a França, outra os EUA.
Trump, mesmo que seja difícil encontrar uma linha coerente na sua actuação, tem nesta matéria mantido uma constância de posições que podem variar no alcance e na urgência, mas que marcam uma ruptura com toda a política externa americana desde a Guerra Fria e mesmo no pós-Guerra Fria. Estas posições são alicerçadas nas opiniões pessoais de Trump, e na migração para o campo de Estado e da política, nacional e internacional, da única experiência que ele tem, a dos negócios e das empresas. Podemos considerar que é pouco e perigoso, mas é o que é e não penso que vá mudar facilmente, até porque ele é um homem com uma alta noção de si próprio, um “convencido”, e como esses defeitos não foram óbices para ter a presidência, dificilmente mudará de estilo. Ele é um ”convencido”, convencido de que tem razão, e como, contra tudo e contra todos, obteve todos os sucessos que pretendia, não tem nenhuma pressão interior para mudar e não dá muito valor aos conselhos que não venham dos seus fiéis.
De que é que Trump está convencido? De que a política externa americana face à Rússia tem sido desnecessariamente hostil, e que deve haver uma inversão significativa dessa hostilidade. De que os EUA arcam sob os seus ombros os custos de proteger múltiplas nações e áreas do mundo que bem podiam cuidar da sua defesa, mesmo que isso implique adquirir uma capacidade nuclear. De que a NATO é uma organização caduca e, no limite, desnecessária. De que as sucessivas intervenções americanas e europeias no Iraque, na Líbia, na Síria foram monumentais desastres, pouco preparados e pensados, sem medir as consequências, eliminando personagens como Khadafi, ou Saddam, e tentando eliminar Assad, que, mesmo que sejam bad boys, garantiam e garantem uma estabilidade regional cuja perturbação deu origem ao ISIS e ao caos no Iraque, na Líbia e na Síria. De que o único verdadeiro inimigo dos EUA nos dias de hoje é o ISIS, e, em menor grau, o Irão e a China, enquanto a Coreia do Norte devia ser posta na ordem pela China, com os EUA a fazer enormes pressões para que isso aconteça. Há alguns subprodutos destas “opiniões” e algumas contradições, como, por exemplo, a posição face a Cuba, mas é o que Trump pensa, e o que ele pensa é o que vai tentar fazer.
A primeira observação é que há muitas coisas em que Trump tem razão: os aliados dos EUA recusaram, de há muitos anos a esta parte, o chamado “burden sharing”, que implicava maior comparticipação em despesas que eram para a sua própria defesa; e poucas coisas têm sido mais erráticas, caóticas e inconsistentes do que a política face ao Iraque, Afeganistão e, principalmente, Líbia e Síria. A Ucrânia é outro exemplo, de uma política falhada com consequências permanentes na divisão do país e na anexação da Crimeia, que já todos tomam como adquirida.
O desastre sírio, numa guerra civil fomentada pelos americanos, franceses e ingleses, convencidos de que derrubavam Assad sem consequências, um dos raros aliados russos na região, é um dos maiores erros da política externa das potências ocidentais. Os grupos anti-Assad que apoiavam eram uma mescla perigosas de facções, e o vazio do poder na Síria e no Iraque permitiu o aparecimento do ISIS. Criaram assim uma oportunidade valiosa para os russos, que se sentiram legitimados para enviar a aviação, a marinha e tropas para apoiar Assad. Se os EUA, franceses e ingleses, se sentiam com direito, sem mandato da ONU, de participar na guerra civil síria, por que razão os russos não podiam fazer o mesmo? Não custa perceber, para usar uma analogia à Trump, que os russos vissem a tentativa de derrube de Assad, seu aliado, como o equivalente para os EUA, de haver uma guerrilha pró-russa na Ária Saudita, aliado americano.
Na prática, o que Trump fez, com aquela mistura de genuinidade, inexperiência e ignorância, a que se soma alguma intuição, foi interiorizar como suas todas as reservas e críticas russas à política americana da Administração Obama e do Departamento de Estado Clinton, e, ao fazê-lo, num contexto de clara vontade de aproximação a Putin, muda de facto a visão do mundo.
Para os russos, e para Putin, é uma oportunidade de ouro na sua política externa mais agressiva, que já tinha tido resultados na Ucrânia e na Crimeia, e no passado na Geórgia e na Tchetchénia, embora neste último caso dentro do território da Federação Russa. Os objectivos geopolíticos russos não são novos, em bom rigor datam do império czarista, foram adaptados pelos bolcheviques, em particular por Staline, e sofreram consideráveis recuos com o fim da URSS, e a aparição de um mundo unipolar. O significado da ascensão de Putin a nível interno tem muito que ver com essa retomada simbólica e real do poder russo como potência que se mede com todas as outras, a começar pelos EUA. Trump é sensível a este novo statu quo e minimiza as ambições russas, porque não quer saber das várias partes do mundo em que lhe é indiferente serem os russos a mandar. Há um claro recuo do intervencionismo americano, com o retorno do proteccionismo económico, a que se associa uma concepção punitiva das intervenções americanas a fazer, sem qualquer intenção de partilha de espaços e influências. Metem-se connosco, levam forte e feio, mas feito o castigo, as nações e os povos envolvidos que se amanhem no seu destino. Aí está uma política que deixa aos russos uma geopolítica estratégica de mais alcance e aos EUA acções de carácter táctico, tanto mais que o que interessa a Trump é que a fortaleza americana não deixe sair empregos, fábricas, recursos, e não deixe entrar inimigos, a começar pelos muçulmanos. Putin vive bem com esta política, que lhe dá mãos livres num entendimento com o “amigo” Trump na partilha de recursos, e nada mais. Putin tem uma política externa, Trump não tem, nem quer ter, e quando a tiver será pactuada com Putin.
As vítimas desta doutrina Trump-Putin, se se materializar como tudo indica, são os aliados dos EUA, a começar pelos europeus que fazem parte da NATO, mas também os asiáticos e árabes. Para os países bálticos, ou os países do antigo Pacto de Varsóvia, cuja “geografia” os coloca perigosamente perto da Rússia, o caso da Crimeia e da Ucrânia são muito preocupantes. Para o Japão ou a Coreia do Sul, Trump aponta a nuclearização, um enorme risco numa região do mundo onde há uma nação verdadeiramente perigosa, a Coreia do Norte, e a China, uma potência emergente que nunca permitirá sem retaliação as brincadeiras irresponsáveis de abandonar a política de “uma só China” reconhecendo Taiwan.
Trump tem todos os defeitos que já apontámos e aparece agora a brincar com as armas nucleares no Twitter, a doença infantil dos homens maduros, mas sabe o que quer e, acima de tudo, o que não quer. Mesmo que não faça um décimo do que ameaça fazer, basta isso para consolidar um ponto sem retorno da política mundial, e se há homem que é capaz de explorar isso, é Putin. Num certo sentido são parecidos: Putin retratado como macho russo a andar a cavalo, em cima do gelo, a mergulhar, a caçar ursos; Trump apanhando-as pela “pussy”, vivendo entre ornatos de falso ouro, e aquelas cadeiras e móveis que a gente jurava que ninguém comprava, mas compra. Só que há uma enorme diferença, Trump é habilidoso e esperto, Putin é inteligente e frio. E Putin tem um mapa por detrás, com muita história dentro.

A ascensão da nova ignorância

Opinião


Nada é mais significativo e deprimente do que ver pessoas que estão juntas, mas que quase não se falam, e estão atentas ao telemóvel.
Entre os temas tabu dos nossos dias está a ignorância. Parece que falar da ignorância coloca logo quem o faz numa situação de arrogância intelectual, o que inibe muita gente de a nomear. Mas não há muita razão para se enfiar essa carapuça, tanto mais que o problema é enorme e está agravar-se e a assumir novas formas, socialmente agressivas. Acompanha outro tipo de fenómenos como o populismo, a chamada “pós-verdade”, a circulação indiferenciada de notícias falsas, e, o que é mais grave, a indiferença sobre a sua verificação. Não explica, nem é a causa de nenhum destes fenómenos, mas é sua parente próxima e faz parte da mesma família. É, repetindo uma fórmula que já usei, como se de repente se deixasse de ir ao médico, e se passasse a ir ao curandeiro.
Uso aqui uma noção utilitária de ignorância que pode ser simplista, mas que serve. Ser ignorante é não ter os instrumentos para se mover no mundo que nos rodeia, ser sujeito mais do que ser actor, não conseguir atingir o empowerment que é suposto se poder ter para se actuar conforme as circunstâncias, de modo a crescer, ser capaz, viver uma vida qualificada e tirar dela uma experiência enriquecedora, controlando-se a si próprio tanto quanto é possível, e não menosprezando as condições para se ser feliz, “habitualmente” feliz. Isto é muito Dale Carnegie, mas serve, não é preciso complicar à partida.
Percebe-se, usando esta definição, que a ignorância pode ser descrita como a pobreza, cujos efeitos e condições de superação são exactamente do mesmo tipo. A ignorância é uma forma de pobreza e o seu crescimento acentua a pobreza em geral e, mais do que a pobreza, a exclusão e a diferenciação social. É até um dos mecanismos mais eficazes para aumentar a distância entre pobres e ricos, e para estabilizar um status quo nos pobres, que, como a droga, tem efeitos de satisfação instantânea, de paraíso artificial, ou, se se quiser de “ópio do povo”.
Faço uma distinção entre aquilo a que chamo “a antiga ignorância” e “a nova”. A antiga tem muito que ver com a baixa qualificação profissional, com a insuficiente escolaridade, com a má qualidade de muitas escolas, sem meios, sem professores preparados, com o analfabetismo funcional. É um factor do nosso atraso e ajuda a potenciar os efeitos perversos da nova ignorância, mas não a explica por si só.
Contentamo-nos muito com a diminuição estatística da antiga ignorância e isso em Portugal é mais do que compreensível. O sucesso da escola, e da escolarização, o ensino para adultos, as melhorias verificadas em disciplinas como Português e Matemática são instrumentos fundamentais, entre outras coisas, para a mobilidade social, mas, mesmo que tenhamos, como agora se diz, as gerações mais qualificadas, estamos cegos quanto ao crescimento da nova ignorância, não só em aliança e em tandem com a antiga, mas assumindo novas formas e efeitos. O facto de haver um modismo tecnológico e se confundir a utilização de gadgets, aliás bastante rudimentar, com um novo saber, que implica novas competências, esconde essa regra básica de que as literacias para os usar vêm do sistema escolar a montante e a possibilidade de os usar para uma melhoria social só existe a jusante se acompanhar uma evolução social que não se está a verificar. Mais do que uma evolução, há uma involução.
A antiga ignorância assentava numa carência, numa falta, a nova assenta numa ilusão. É por isso que a antiga ignorância era vista como um problema da sociedade e a nova é vista como um “progresso”, ou como uma tendência contra a qual é inútil lutar. Isso tem muito que ver com uma ideologia corrente face às novas tecnologias, em particular aquelas que têm imediatos efeitos sociais como os telemóveis, as redes sociais, e certos modos de usar os videojogos, a realidade virtual e mesmo o computador e a televisão.
O primeiro efeito nefasto dessa ideologia é a crença de que são as novas tecnologias que estão a mudar a sociedade. É o contrário. É a mudança da sociedade que potencia o uso de determinadas tecnologias, que depois acentuam os efeitos de partida. Muitas tecnologias de “contacto” — como programas de “presentificação”, que fazem as pessoas olharem para os seus telemóveis centenas de vezes por dia, e os adolescentes, na vanguarda desta nova ignorância juntamente com os seus jovens pais adultos, passarem o dia a enviarem mensagens sem qualquer conteúdo — só têm sucesso porque se deu uma deterioração acentuada das formas de sociabilidade interpessoais, substituídas por um Ersatz de presença e companhia tão efémero que tem de estar sempre a ser repetido. Sociedades sem relações humanas de vizinhança, de companhia e amizade, sem interacções de grupo, sem movimentos colectivos de interesse comum dependem de formas artificiais e, insisto, pobres, de relacionamento que se tornam adictivas como a droga. Não há maior punição para um adolescente do que se lhe tirar o telemóvel, e alguns dos conflitos mais graves que ocorrem hoje nas escolas estão ligados ao telemóvel que funciona como uma linha de vida.
Nada é mais significativo e deprimente do que ver numa entrada de uma escola, ou num restaurante popular, ou na rua, pessoas que estão juntas, mas que quase não se falam, e estão atentas ao telemóvel, mandando mensagens, enviando fotografias, vendo a sua página de Facebook, centenas de vezes por dia. Que vida pode sobrar?
Ainda há-de alguém convencer-me que este comportamento lá por usar tecnologias modernas representa uma vantagem e não uma patologia. Faz parte de sociedades em que deixou de haver silêncio, tempo para pensar, curiosidade de olhar para fora, gosto por actividades lentas como ler, ou ver com olhos de ver. E se olharmos para os produtos de tanta página de Facebook, de tanta mensagem, de tanto comentário não editado, de tanta “opinião” sobre tudo e todos, escritas num português macarrónico e cheio de erros, encontramos fenómenos de acantonamento, de tribalização, de radicalização, de cobardia anónima, de ajustes de contas, de bullying num mundo que tem de ser sempre excitado, assertivo e taxativo. Um dos maiores riscos para o mundo é ter um presidente dos EUA que governa pelo Twitter como um adolescente, com mensagens curtas, sem argumentação, que, para terem efeito, têm de ser excessivas e taxativas.
Não é por acaso que o grande reservatório do populismo político e social nas sociedades ocidentais são as redes sociais, que, não sendo a causa do populismo, são um seu grande factor de crescimento e consolidação. São como as poças de água estagnada para os mosquitos. Funcionam como o lubrificante do populismo em momentos cruciais, dando-lhe uma rapidez de resposta aos eventos e condicionando o mundo exterior, com jornalistas que “emprenham” pelas redes, tanto mais quanto já não ouvem ou vêem nada fora do seu pequeno ecrã.
A crise das mediações profissionais — que retirou aos jornalistas e aos profissionais da comunicação o papel de transformarem qualitativamente os eventos em notícias, muito, aliás, por culpa própria desde a treta do “jornalismo dos cidadãos” até à divulgação não mediada de tweets e comentários — acompanha um dos aspectos mais agressivos desta nova ignorância: o ataque ao saber, ao conhecimento certificado, em nome de um igualitarismo da ignorância.
O facto de poderem escrever potencialmente para todos não significa que as suas “opiniões” — tanto mais quando pretendem ter um estatuto de idêntica qualidade ao de quem conhece as matérias sobre as quais opina, ou tem uma criatividade evidente — têm um efeito de rasoira por baixo, que se reproduzem sem qualquer verificação. Se acrescentarmos que muitos consumidores das redes sociais obtêm aí quase toda a sua informação, percebe-se os efeitos devastadores no debate público e como  servem para a indústria das notícias falsas e para alicerçarem o populismo com boatos, afirmações infundadas, presunções, invenções. Como, na nova ignorância, se trata de uma atitude hostil ao saber e ao seu esforço, mais do que um efeito de fonte única, há uma guetização da opinião, com arregimentação entre os próximos e a diabolização dos “outros”. Ler só aquilo com que concordamos pode ser satisfatório psicologicamente, mas destrói o debate público fundamental numa sociedade democrática. (Continua.)

A morte de Saddam devia ter marcado uma “nova era”. Não durou nem cinco minutos


Opinião

“Vão desejar ter-me de volta”. É perturbador acolher esta premonição [de Saddam Hussein], expressa como foi por um tirano implacável com tanto sangue nas mãos.
Numa sexta-feira há 10 anos, às seis horas da manhã, hora de Bagdad, Saddam Hussein foi levado por um lance de escadas na antiga sede dos seus serviços secretos, no bairro de Kadhimiyah, na capital iraquiana. O espaço tinha servido, segundo alguns rumores, para abrigar salas de tortura onde alegados “inimigos do Estado” sofreram durante o regime. Oficiais de rosto tapado conduziram o antigo Presidente em direcção a um grande alçapão. Ele seguiu-os obedientemente, sem qualquer medo aparente, recusando-se a usar um capuz. Enquanto palavras de ordem pró-xiita de “Muqtada, Muqtada, Muqtada” rompiam a quietude mórbida, as câmaras giravam e encadeavam, criando uma aura espectral.
Uma voz gritou: “Vai para o inferno.”
Saddam respondeu: “O inferno que é o Iraque?”
A meio da sua recitação da chahada, a profissão de fé do Islão, o piso cedeu por baixo de Saddam, com um estrondo audível ecoando no espaço semelhante a um armazém, enquanto o pescoço se partia. Pouco depois, estava morto.
Num comunicado emitido na sequência da execução, o presidente norte-americano George W. Bush afirmou que, embora este facto não fosse pôr um fim imediato à violência sectária que já estava a despedaçar o Iraque, marcaria “um importante marco no caminho do Iraque em direcção a uma democracia” que pudesse “governar, sustentar e defender-se a si própria, e ser um aliado na guerra contra o terrorismo.” Esperava-se que a morte de Saddam desse início a uma nova era no Iraque e na região.
Mas essa nova era nem durou cinco minutos. Uma pequena multidão de xiitas celebrou efusivamente ao lado do corpo de Saddam, criando a sensação de um linchamento indisciplinado em vez de uma operação calculada e liderada pelo Estado. Em poucas horas, pelo menos 75 pessoas foram mortas em ataques bombistas pelo país, naquilo que terão sido provavelmente ataques sunitas de retaliação com os xiitas como alvo. Os militares dos Estados Unidos, entretanto, anunciaram a morte de seis soldados, transformando aquele Dezembro no mês mais violento para as forças norte-americanas em dois anos.
Fumo crescente turva o nascer do sol nas cidades pelo Médio Oriente dez anos depois da execução de Saddam, e 13 anos depois da promessa de Bush de que um “Iraque livre terá um efeito extraordinariamente positivo na sua vizinhança.” A vizinhança é agora um jazigo.
Na altura da execução, a Primavera Árabe ainda não se tinha inflamado – nem sido impiedosamente extinta. Embora a Síria e a Líbia continuassem a ser ditaduras repressivas, as relações com a Líbia estavam no melhor ponto em décadas, com a administração Bush a retomar por completo as suas relações diplomáticas com o regime de Khadafi. Também o Egipto aparentava uma confiável estabilidade, embora os críticos de Hosni Mubarak permanecessem descontentes com o alcance e o ritmo das reformas limitadas com que tinha concordado avançar. O sempre volátil Iémen continuava sob controlo do corrupto autocrata Ali Abdullah Saleh, que, numa frase que ficou célebre, se referiu ao desafio de unir aquele país fraccionado  como “dançar em cima de cabeças de serpentes”.  As brasas da violência no Iraque, a incandescerem numa sangria sectária que piorava de dia para dia, ainda não tinham deflagrado num incêndio que se espalharia para além das suas fronteiras.
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Mas acabaria por acontecer, no entanto. As ditaduras da região provariam ser uma caixa de fósforos que, depois de acesa, consumiria a vida de mais de 400 mil pessoas na Síria, milhares no Egipto, Líbia e Iémen, e eventualmente entre 200 mil e 500 mil no próprio Iraque. Milhões seriam desalojados, provocando uma crise humanitária para a qual o mundo não estava minimamente preparado. Em alguns anos, os refugiados tornar-se-iam uma ameaça ao tecido social europeu e nasceria uma nova organização terrorista, chamada Estado Islâmico, ainda mais letal e bárbara do que a Al-Qaeda.
Com o inimigo sunita do Irão e Saddam eliminado, a teocracia xiita tornou-se predominante, exercendo uma poderosa influência sobre o novo governo iraquiano, expandindo o seu alcance até ao Iémen com os rebeldes houthi a tomarem a capital, e posicionando-se para contribuir para a vitória de Bashar al-Assad na Síria.
Quem consegue esquecer a declaração de Donald Rumsfeld – marcada pela inabalável confiança que caracterizou a sua liderança – de que a guerra no Iraque poderia durar “cinco dias ou cinco semanas ou cinco meses, mas que certamente não iria durar mais do que isso”? Como se veio a revelar, o actual esforço para libertar Mossul – pela terceira vez, desta vez de uma organização terrorista, o Estado Islâmico, que nem sequer existia quando Saddam foi morto – prevê-se que dure mais do que aquilo que Rumsfeld assegurou que iria durar toda a guerra. Só esta semana, 1700 soldados da 82.ª Divisão aerotransportada do Exército norte-americano despediram-se dos seus ente-queridos antes de serem destacados para o Iraque. Os mais novos tinham apenas cinco anos quando os Estados Unidos iniciaram a invasão para derrubar Saddam.
Pergunta-se como é que alguém, sobretudo os arquitectos da guerra, se pode agarrar à ideia de que encaminhar Saddam para o enforcamento valia milhares de milhões de dólares, já para não mencionar os 4500 oficiais em serviço mortos, os mais de 30 mil feridos, ou as centenas de milhares de mortes violentas que ocorreram pela região desde o seu derrube. Sem contar com os milhões que foram forçados a fugir da violência com pouco mais do que a roupa que tinham no corpo, ou as ameaças terroristas que agora são habituais nos cenários americano e europeu. Nenhum dos legisladores americanos responsáveis por isto foram responsabilizados tal como os seus homólogos britânicos foram no condenatório Relatório Chilcot.
Tudo isso me lembra algo que aprendi enquanto trabalhava no meu livro sobre o Iraque. Saddam expressou repetidamente o mesmo sentimento a algumas das pessoas responsáveis por ele durante os seus três anos de prisão: “Vão desejar ter-me de volta”. É perturbador acolher esta premonição, expressa como foi por um tirano implacável com tanto sangue nas mãos. É especialmente perturbador quando penso em amigos corajosos e soldados cuja crença na sua missão nunca definhou, alguns deles derrubados no melhor tempo das suas vidas. No entanto, quando interpretadas em relação à cadeia sísmica de eventos desencadeada pela guerra para o remover do poder, as palavras de Saddam Hussein parecem perversamente proféticas.
Will Bardenwerper é escritor e foi militar da Infantaria no Exército dos Estados Unidos e, mais recentemente, trabalhou como funcionário público no gabinete do Secretário da Defesa.
Exclusivo PÚBLICO/The Washington Post

A última mensagem de Ano Novo de Barack Obama:

CASA BRANCA 2016

 “Fizemos progressos extraordinários”

O ainda presidente dos EUA fez um balanço dos últimos oito anos, lembrando que o país fez "progressos extraordinários" e que hoje é visto com mais respeito pelos outras nações do mundo.
Foi a última mensagem de Ano novo de Barack Obama. Donald Trump toma posse a 20 de janeior
MICHAEL REYNOLDS/EPA
Barack Obama dirigiu-se pela última vez aos norte-americanos na tradicional mensagem de Ano Novo da Casa Branca. A cerca de 20 dias de passar a liderança dos EUA para o presidente eleito em novembro de 2016, Donald Trump, Obama assinalou “os progressos extraordinários” que o país teve nos últimos oito anos, que fizeram com que a maioria dos países olhasse para os EUA como “mais respeito” e vendo “um país mais forte”.
“No momento em que viramos a página e olhamos para o futuro, quero agradecer-vos por tudo o que fizeram para que os EUA se tornassem num país mais forte, nos últimos oito anos”, disse na abertura da mensagem, sem deixar de lembrar que há oito anos, o país estava”à beira da depressão”, com “quase 800 mil americanos que perdiam os seus empregos por mês e que tinha “80 mil tropas no Iraque e no Afeganistão”.
Obama destacou ainda a captura de Osama Bin Laden, o encerramento do programa de armas nucleares no Irão, “o novo capítulo” que foi aberto na relação com Cuba e as vitórias alcançadas em matéria de clima, para lembrar que hoje, “quase todos os países do mundo olham para uma América mais forte e com mais respeito do que há oito anos”.
“Nada disto foi inevitável. Foi o resultado de escolhas difíceis, do vosso trabalho árduo e da vossa resiliência. Continuar a levar os EUA para a frente é uma tarefa que temos de continuar a realizar. Esta tem sido a nossa história: a história de pessoas banias que juntam, com força, devagar e às vezes de forma frustrada, mas sempre com um trabalho vital de auto-governança”, afirmou.
Sublinhando que ser presidente dos EUA foi o “privilégio” da sua vida, Barack Obama diz que se vai agora preparar para uma função ainda maior: o de ser cidadão. E que vai continuar ao lado dos cidadãos, em todas as passadas, assegurando que as promessas dos fundadores são cumpridas: “que todos são iguais e que merecem todas as oportunidades de viverem os seus sonhos”.