Sobre a “doutrina do mosaico”
Tenho observado a forma como algumas pessoas, algumas delas, por sinal, intelectuais, comentam a guerra de agressão conduzida pelos EUA e por Israel contra o Irão. Como qualquer outra pessoa sensata, considero esta agressão uma afronta ao direito internacional e gostaria tanto que os agressores se dessem mal. O problema é que o poderio militar desses dois é impressionante e já o demonstraram. Está mais do que claro que o Irão está militarmente perdido. Incomoda-me que gente formada e que devia ser conhecedora dos assuntos dê credibilidade a análises francamente ignorantes. Preocupa-me que algumas desta pessoas não só acreditem nestas coisas, mas também sejam a fonte de assessoria para os nossos governantes e deem aulas em universidades.
Tenho visto circular nas redes sociais um texto que pretende explicar por que é que o Irão teria neutralizado a estratégia militar americana. O texto apresenta uma narrativa sedutora segundo a qual os Estados Unidos e Israel teriam apostado numa estratégia de “decapitação” do regime, eliminando a liderança iraniana para provocar o colapso do Estado. O Irão, porém, teria antecipado esse cenário e preparado uma engenhosa “doutrina do mosaico”, baseada na descentralização militar, capaz de tornar o país invulnerável a esse tipo de ataque. A conclusão sugerida é que o Irão possui uma estratégia capaz de transformar qualquer vitória americana numa derrota estratégica.
O problema não é apenas que o texto seja fraco. O problema é que ele é intelectualmente descuidado, e isso é facilmente verificável. Começo pelos factos mais elementares. O texto afirma que a estratégia de decapitação americana teria funcionado no Iraque, na Líbia, na Síria e até na Venezuela. Isto é simplesmente falso. O regime sírio não colapsou. Manteve-se no poder durante anos de guerra civil, com o apoio russo e iraniano. Na Venezuela não houve qualquer mudança de regime provocada por intervenção americana. Um texto que contém erros factuais tão básicos já deveria suscitar suspeitas imediatas em qualquer leitor minimamente atento.
Em seguida, aparece um conceito apresentado como revelação estratégica, a chamada “doutrina do mosaico”. Segundo o texto, o Irão teria reorganizado os Guardas da Revolução em unidades provinciais autónomas capazes de continuar a combater mesmo sem comando central. A metáfora é dum mosaico composto por pequenas peças independentes que formam uma imagem. O problema é que a metáfora substitui a explicação. Estruturas militares descentralizadas existem há décadas e são amplamente estudadas na literatura militar sob conceitos como o comando distribuído e a resiliência operacional. O texto apresenta algo conhecido como se fosse uma inovação secreta descoberta por um génio estratégico.
Mais grave ainda é a maneira como o argumento é construído. Num determinado momento, afirma-se que, por uma unidade militar não saber o que outra unidade está a fazer, os satélites de inteligência americanos também não poderiam saber. Este tipo de raciocínio é um salto lógico evidente. Sistemas de inteligência não dependem do conhecimento interno das unidades, mas sim de vigilância electrónica, imagens de satélite, intercepção de comunicações e redes de informação. O argumento funciona apenas porque é apresentado com confiança, não porque faz sentido. E o mais grave é que a autoridade invocada aqui é suspeita. O texto é atribuído a um tal Robert Kiyosaki. Se for o que eu conheço da leitura, trata-se dum autor conhecido por livros de auto-ajuda financeira. Não se trata dum analista militar, dum especialista em estratégia ou de alguém associado a instituições de estudos estratégicos. Mesmo assim, o texto circula como se fosse uma análise geopolítica sofisticada.
Porque é que textos assim circulam com tanta facilidade entre nós? Suspeito que é por confirmarem aquilo que gostaríamos de acreditar. Muitas pessoas sentem, com razão, indignação perante o comportamento das grandes potências. A ideia de que um país aparentemente mais fraco possui uma estratégia secreta capaz de neutralizar esse poder é emocionalmente reconfortante. É tipo David e Golias, só que a satisfação moral não substitui a análise. Há um mínimo de responsabilidade intelectual que precisamos de exercer aqui. Precisamos de ser particularmente cautelosos quando um argumento confirma demasiado facilmente as nossas convicções. A tarefa dum intelectual não é repetir narrativas reconfortantes, mas examinar os factos com rigor, identificar falácias e distinguir entre análise e propaganda.
Quando pessoas com formação universitária partilham textos deste tipo sem qualquer verificação crítica, temos um problema. Não estamos apenas perante um problema de desinformação nas redes sociais, mas também perante um problema de cultura intelectual. Uma cultura intelectual que deveria cultivar o escrutínio crítico, mas que, por vezes, parece preferir narrativas que reforçam convicções prévias. Justamente porque o mundo está a braços com conflitos graves e decisões políticas de grande alcance, precisamos mais do que nunca de análise séria, e não de histórias engenhosas que nos fazem sentir momentaneamente confortáveis. Precisamos de argumentos que resistam ao exame da razão.
Sei que alguns poderão interpretar esta reflexão como fatalismo ou como resignação perante a força das grandes potências. Não é disso que se trata. Trata-se de realismo. Uma análise responsável deve começar pelo reconhecimento das condições efectivas em que os acontecimentos ocorrem. E, gostemos ou não, a realidade estratégica é que o desequilíbrio de poder militar entre os Estados Unidos, Israel e o Irão é enorme. Na semana passada, acompanhei um ‘podcast’ em que um ex-diplomata americano dizia que o verdadeiro golpe militar aconteceria quando os americanos decidissem bombardear a Ilha de Kharg, porque é lá que se concentra a produção de petróleo do país. Ele achava que não fariam isso por ser ilegal. E já está a acontecer. Nada do que digo aqui significa que o Irão não possa resistir, nem que não possa infligir custos aos seus adversários. Significa apenas que, considerando a história recente e a estrutura das forças presentes, a probabilidade de o Irão sair deste confronto muito fragilizado é significativamente maior do que a de sair fortalecido.
Precisamente por isso precisamos de clareza analítica. Países como o nosso não participam nestes conflitos, mas são afectados por eles do ponto de vista económico, diplomático e político. Avaliar as implicações duma guerra desta natureza requer uma compreensão sóbria das probabilidades, dos equilíbrios de poder e das dinâmicas internacionais. O entusiasmo ideológico ou as narrativas reconfortantes não ajudam muito. E quando são os especialistas em relações internacionais ou comentadores com formação académica que mostram dificuldades em distinguir entre propaganda e análise, essa tarefa torna-se muito mais difícil. Se queremos pensar cuidadosamente a nossa posição no mundo, não podemos dar-nos ao luxo de basear as nossas avaliações estratégicas em textos virais da internet.
É por isso que a responsabilidade intelectual começa na resistência à tentação de acreditar demasiado depressa, sobretudo quando o que acreditamos coincide exactamente com o que gostaríamos que fosse verdade.
Sem comentários:
Enviar um comentário