sábado, 28 de março de 2026

Sobre a “doutrina do mosaico”

 Elisio Macamo

Sobre a “doutrina do mosaico”
Tenho observado a forma como algumas pessoas, algumas delas, por sinal, intelectuais, comentam a guerra de agressão conduzida pelos EUA e por Israel contra o Irão. Como qualquer outra pessoa sensata, considero esta agressão uma afronta ao direito internacional e gostaria tanto que os agressores se dessem mal. O problema é que o poderio militar desses dois é impressionante e já o demonstraram. Está mais do que claro que o Irão está militarmente perdido. Incomoda-me que gente formada e que devia ser conhecedora dos assuntos dê credibilidade a análises francamente ignorantes. Preocupa-me que algumas desta pessoas não só acreditem nestas coisas, mas também sejam a fonte de assessoria para os nossos governantes e deem aulas em universidades.
Tenho visto circular nas redes sociais um texto que pretende explicar por que é que o Irão teria neutralizado a estratégia militar americana. O texto apresenta uma narrativa sedutora segundo a qual os Estados Unidos e Israel teriam apostado numa estratégia de “decapitação” do regime, eliminando a liderança iraniana para provocar o colapso do Estado. O Irão, porém, teria antecipado esse cenário e preparado uma engenhosa “doutrina do mosaico”, baseada na descentralização militar, capaz de tornar o país invulnerável a esse tipo de ataque. A conclusão sugerida é que o Irão possui uma estratégia capaz de transformar qualquer vitória americana numa derrota estratégica.
O problema não é apenas que o texto seja fraco. O problema é que ele é intelectualmente descuidado, e isso é facilmente verificável. Começo pelos factos mais elementares. O texto afirma que a estratégia de decapitação americana teria funcionado no Iraque, na Líbia, na Síria e até na Venezuela. Isto é simplesmente falso. O regime sírio não colapsou. Manteve-se no poder durante anos de guerra civil, com o apoio russo e iraniano. Na Venezuela não houve qualquer mudança de regime provocada por intervenção americana. Um texto que contém erros factuais tão básicos já deveria suscitar suspeitas imediatas em qualquer leitor minimamente atento.
Em seguida, aparece um conceito apresentado como revelação estratégica, a chamada “doutrina do mosaico”. Segundo o texto, o Irão teria reorganizado os Guardas da Revolução em unidades provinciais autónomas capazes de continuar a combater mesmo sem comando central. A metáfora é dum mosaico composto por pequenas peças independentes que formam uma imagem. O problema é que a metáfora substitui a explicação. Estruturas militares descentralizadas existem há décadas e são amplamente estudadas na literatura militar sob conceitos como o comando distribuído e a resiliência operacional. O texto apresenta algo conhecido como se fosse uma inovação secreta descoberta por um génio estratégico.
Mais grave ainda é a maneira como o argumento é construído. Num determinado momento, afirma-se que, por uma unidade militar não saber o que outra unidade está a fazer, os satélites de inteligência americanos também não poderiam saber. Este tipo de raciocínio é um salto lógico evidente. Sistemas de inteligência não dependem do conhecimento interno das unidades, mas sim de vigilância electrónica, imagens de satélite, intercepção de comunicações e redes de informação. O argumento funciona apenas porque é apresentado com confiança, não porque faz sentido. E o mais grave é que a autoridade invocada aqui é suspeita. O texto é atribuído a um tal Robert Kiyosaki. Se for o que eu conheço da leitura, trata-se dum autor conhecido por livros de auto-ajuda financeira. Não se trata dum analista militar, dum especialista em estratégia ou de alguém associado a instituições de estudos estratégicos. Mesmo assim, o texto circula como se fosse uma análise geopolítica sofisticada.
Porque é que textos assim circulam com tanta facilidade entre nós? Suspeito que é por confirmarem aquilo que gostaríamos de acreditar. Muitas pessoas sentem, com razão, indignação perante o comportamento das grandes potências. A ideia de que um país aparentemente mais fraco possui uma estratégia secreta capaz de neutralizar esse poder é emocionalmente reconfortante. É tipo David e Golias, só que a satisfação moral não substitui a análise. Há um mínimo de responsabilidade intelectual que precisamos de exercer aqui. Precisamos de ser particularmente cautelosos quando um argumento confirma demasiado facilmente as nossas convicções. A tarefa dum intelectual não é repetir narrativas reconfortantes, mas examinar os factos com rigor, identificar falácias e distinguir entre análise e propaganda.
Quando pessoas com formação universitária partilham textos deste tipo sem qualquer verificação crítica, temos um problema. Não estamos apenas perante um problema de desinformação nas redes sociais, mas também perante um problema de cultura intelectual. Uma cultura intelectual que deveria cultivar o escrutínio crítico, mas que, por vezes, parece preferir narrativas que reforçam convicções prévias. Justamente porque o mundo está a braços com conflitos graves e decisões políticas de grande alcance, precisamos mais do que nunca de análise séria, e não de histórias engenhosas que nos fazem sentir momentaneamente confortáveis. Precisamos de argumentos que resistam ao exame da razão.
Sei que alguns poderão interpretar esta reflexão como fatalismo ou como resignação perante a força das grandes potências. Não é disso que se trata. Trata-se de realismo. Uma análise responsável deve começar pelo reconhecimento das condições efectivas em que os acontecimentos ocorrem. E, gostemos ou não, a realidade estratégica é que o desequilíbrio de poder militar entre os Estados Unidos, Israel e o Irão é enorme. Na semana passada, acompanhei um ‘podcast’ em que um ex-diplomata americano dizia que o verdadeiro golpe militar aconteceria quando os americanos decidissem bombardear a Ilha de Kharg, porque é lá que se concentra a produção de petróleo do país. Ele achava que não fariam isso por ser ilegal. E já está a acontecer. Nada do que digo aqui significa que o Irão não possa resistir, nem que não possa infligir custos aos seus adversários. Significa apenas que, considerando a história recente e a estrutura das forças presentes, a probabilidade de o Irão sair deste confronto muito fragilizado é significativamente maior do que a de sair fortalecido.
Precisamente por isso precisamos de clareza analítica. Países como o nosso não participam nestes conflitos, mas são afectados por eles do ponto de vista económico, diplomático e político. Avaliar as implicações duma guerra desta natureza requer uma compreensão sóbria das probabilidades, dos equilíbrios de poder e das dinâmicas internacionais. O entusiasmo ideológico ou as narrativas reconfortantes não ajudam muito. E quando são os especialistas em relações internacionais ou comentadores com formação académica que mostram dificuldades em distinguir entre propaganda e análise, essa tarefa torna-se muito mais difícil. Se queremos pensar cuidadosamente a nossa posição no mundo, não podemos dar-nos ao luxo de basear as nossas avaliações estratégicas em textos virais da internet.
É por isso que a responsabilidade intelectual começa na resistência à tentação de acreditar demasiado depressa, sobretudo quando o que acreditamos coincide exactamente com o que gostaríamos que fosse verdade.
Brazao Catopola
Eu acho que essa luta já perdi e juro sem ironia, dou lhe força. Eu desisto desta malta. A grande questão não é análise. As questões básicas são: 1) ir contra qualquer coisa do ocidente, mesmo que saiba que o seu pensamento não é correto, deve manter qualquer narrativa anti-ocidente. 2) não se trata de analisar o texto ou falta de capacidade para tal. É uma questão de fazer parte de um grupo que pensa, que assume que é assim.. então, se o texto vem do meu grupo, adeus pensar. Eu perguntei alguém ontem se acredita mesmo que o Irão tem capacidade militar de atacar Ucrânia? Ele disse que sim... Fica difícil
Miro Guarda
Sem mais Professor, sem mais.
Leo D. P. Viegas
Arriscaria em afirmar que não tem necessariamente a ver com a confirmação de determinadas convicções. É precisamente o oposto. Tem muito a ver, na verdade, com o facto de os eventos até agora terem desafiado os prognósticos iniciais. Dai que a propalada doutrina em Moisaco ter caido como uma grande revelação. E até pode ser uma grande falácia presumir tratar-se de uma postura anti-ocidente...
Eduardo J Sitoe
Eu não sou adepto do filibusterismo yanqui onde quer que ele se manifeste; seja no Iraque com Bush, na Líbia com Obama e, agora, com Trump no Irão: as espalhafatosas razões sempre invocadas para tais acções me parecem destinadas a imbecís. Se o Irão se aguenta nisso, melhor para eles!
Abílio Bragança Neto
“Aveces la gente no quiere escuchar la verdad porque no quiere que sus ilusiones se destruyan", Nietzsche.
Kasswamy Tivane
Na guerra o primeiro alvo a ser abatido é a verdade. O que o professor descreve a cerca do autor desse artigo, também é um abate colateral da verdade que ele está a praticar.
Dionisio Da Silva
A minha aversão aos Ianques,me levam a torcer pelos Iranianos e esperar que o stock de drones"baratos"(35 mil US)deles,não acabem antes dos interceptors(4.5 milhões US)
Neste caso,a matemática seria amiga do regime Iraniano.
Calton Cadeado
O autor deste texto é especialista em estudos de segurança, em estratégia ou em geopolítica? Isto é tão fraco argumento para questionar o conhecimento de alguém num dado assunto, num certo momento. O exemplo fenomenal é de muitas pessoas que pesquisaram assuntos que não são da sua área de especialização,mas souberam construir argumentos para interpretar ou explicar alguma coisa. Só que estou a ver aqui é que não se pode ler coisas de pessoas que não sao da área. A pensar assim, então, pessoas que estudaram relações internacionais nunca, que nunca deveriam ler Noam Chomsky porque ele não é de relações internacionais. Mas, curiosamente, goste-se ou não dos argumentos, Chomsky não é uma pesssoa para ser ignorado em assuntos de relações internacionais. O mais curioso do texto, aqui presente é a falsa conclusão, sem nenhuma prova, de que a circulação do texto foi feita sem nenhuma crítica. O facto de não ter visto crítica, aqui nas redes sociais, não significa necessariamente ausência de crítica até porquê o texto está a ser usado até por especialistas militares, incluindo jovens, muitos jovens que supostamente não sabem muitas coisas. Mas, mesmo os que sabem muitas coisa, não sabem tudo, e aprendem com todos. A título de exemplo, neste momento, estão a analisar guerra assimétrica, que é o que está a acontecer na guerra Israelo-Americana contra Irão. A análise inclui recurso a exemplos históricos que alimentaram muitos manuais de estudos de guerra, de estratégia. A derrota "monumental" dos EUA no Vitname é um exemplo. A guerra de Yom Kippur é outro exemplo. Nestas guerras, quem conhece, sabe do debate sobre o significado de vitória/ derrota. O que é vitória/ derrota numa guerra? Vitória/ derrota militar? Vitória/ derrota política?
Calton Cadeado
Em analise de conflitos é preciso saber desenhar cenários: optimo, péssimo e moderado. Isto remete, outra vez, ao debate sobre o conceito de vitória/ derrota para "todos" envolvidos numaguerra. Isto é básico. O mais básico ainda é saber que nem sempre o mais forte ganha a guerra. Ademais, é preciso saber questionar o que é ser forte. O que é, por exemplo, um Estado forte? Um Estado forte é forte por causa de aspectos materiais, capacidades militares, por exemplo? Mas, não se surpreenda ao ver Estados que não tem pujança militar, mas tem a "ideia de Estado" robusta, que faz a coesão socio-política e com sustento de instituições estáveis. Esta discussão é muito bem feita pela Escola de Copenhaga, malta Barry Buzan, Ole Weaver e Jaap de Wilde, no domínio de segurança.
Elisio Macamo
Calton Cadeado, obrigado pela sua resposta. ela é em si mesma, um excelente exemplo do tipo de problema que o meu texto procura identificar. não é que não tenha razão em tudo, mas porque a sua resposta é construída de forma a deslocar a discussão, evitando enfrentar o ponto central que eu levantei e que vou repetir aqui: a fragilidade argumentativa do texto viral e a responsabilidade intelectual de quem o partilha. o primeiro movimento problemático é a deslocação do critério de autoridade para um espantalho. o meu texto não afirma que apenas especialistas podem falar dum assunto. o que digo é que, quando um texto pretende fazer análise estratégica, deve obedecer a padrões mínimos de rigor (factos correctos, lógica consistente, fontes credíveis). a sua resposta transforma isso numa posição absurda (“então não se pode ler pessoas fora da área”) para depois refutá-la com o exemplo de noam chomsky. isto é, em lógica, um espantalho, pois combate uma versão caricaturada do meu argumento, não o argumento real. aliás, o exemplo de chomsky até reforça o meu ponto. chomsky é lido fora da sua área porque constrói argumentos verificáveis (embora eu, pessoalmente, considere as suas análises geopolíticas pobres motivadas apenas pela crítica à política externa dos eua), não porque escreve narrativas virais sem base factual. invocar chomsky para defender um texto frágil é, portanto, uma analogia mal construída. o segundo problema é a confusão entre possibilidade abstracta e avaliação concreta. lembra-me, correctamente, diga-se de passagem, que nem sempre o mais forte ganha uma guerra, evocando exemplos como o vietname ou a guerra do yom kippur. isso é verdade, mas irrelevante para o meu argumento. omeu ponto não é que o mais forte ganha sempre, mas sim que a análise deve partir de probabilidades e condições concretas, não de desejos ou analogias soltas. invocar casos históricos sem estabelecer comparabilidade rigorosa é uma forma de analogia abusiva. nem o vietname é o irão, nem o contexto estratégico actual é o da guerra fria. o terceiro elemento é um desvio temático (aquilo que se chama de red herring em lógica). introduz discussões sobre “o que é vitória/derrota”, “cenários óptimos e pessimistas” e até referências à chamada escola de copenhaga, bom, tudo isto pode ser interessante num seminário de relações internacionais, mas não responde à questão concreta que é a seguinte: o texto viral é ou não intelectualmente rigoroso? trazer teoria para a conversa sem a aplicar ao caso concreto é uma forma de criar impressão de profundidade sem enfrentar o problema. faz também uma afirmação sem prova que espelha aquilo que critica em mim. diz que o texto está a ser usado por especialistas militares, incluindo jovens. não indica quem, onde, nem em que contexto. peço, por favor, para indicar isso. ou seja, critica a ausência de prova no meu texto, mas recorre exactamente ao mesmo tipo de afirmação vaga. isto parece-me um caso de inconsistência argumentativa. outro ponto importante é a leitura imprecisa do meu argumento sobre circulação acrítica. o meu texto não afirma que não existe qualquer crítica em absoluto. sugere, isso sim, que há uma tendência de circulação acrítica em certos meios. interpreta isso como uma afirmação absoluta (“não houve crítica”) para a poder refutar. de novo, estamos no campo da lógica, pois trata-se de uma generalização indevida da minha posição, portanto, um espantalho. o que eu acho mais revelador, cntudo, é que em nenhum momento o calton cadeado enfrenta directamente as fragilidades do texto que eu comentei. não discute os erros factuais (síria, venezuela), não questiona os saltos lógicos, não examina a fonte, não avalia a consistência do argumento, apenas desloca a discussão para princípios gerais sobre guerra, conhecimento e interdisciplinaridade. ao fazer isso, está a fugir à responsabilidade intelectual. o problema não é que a gente discorde. o problema é que, mesmo quando confrontada com fragilidades evidentes, a gente prefere defender a plausibilidade geral da narrativa em vez de examinar o caso concreto. isto sugere que o que está em jogo não é apenas um desacordo analítico, mas uma disposição para proteger certas crenças contra escrutínio. para mim, o verdadeiro teste de seriedade intelectual não é a capacidade de invocar teoria ou exemplos históricos, mas a disposição para responder a uma pergunta simples: este argumento específico é sólido ou não? se prefere evitar esta pergunta, então tira-nos do domínio da análise e leva-nos ao domínio da justificação. o texto em causa não presta como contribuição intelectual e ser incapaz de reconhecer isso parece-me grave. no fundo, confirma a minha intuição inicial de que não basta ter formação ou familiaridade com conceitos. o que distingue a análise da retórica é a disciplina de confrontar argumentos concretos com factos, lógica e evidência, mesmo quando isso contraria aquilo em que gostaríamos de acreditar. peço perdão pela longa resposta, mas deu-me a oportunidade de reforçar o argumento do meu “post”.
Calton Cadeado
Elisio Macamo! Eu respeito o seu argumento, mas tenho profunda discordância em relação a sua opinião e vejo fraqueza conceptual na sua abordagem. Vamos aos factos. Primeiro, a teoria de liquidação da liderança que é um dos pilares da acção estratégia de segurança de Israel. O seu texto põe em causa a teoria de liquidação de liderança na Siria e na Venezuela para presentar um certo negacionismo. Mas, o detalhe está aqui. A teoria de liquidação de liderança tem, por um lado, a dimensão extrema que consiste na eliminação física e, por outro lado, a dimensão político-moral. A eliminação física está confirmado no Iraque e na Líbia. A liquidação político-moral está vista na Síria e na Venezuela. O que se vê na sua intervenção é a visão única de liquidação física. Em relação a Síria, a sua análise não foi fiel ao texto original, pois lá está dito que Bashar Al Asad fugiu, eu acrescento, humilhado. A retirada de um lider poder, de forma humilhante, é parte da decapitação da liderança por via político-moral. A fuga de Asad decapitou politicamente a liderança do regime. Ademais, a fuga de Asad significou o fim humilhante do regime. No caso da Venezuela, o regime não caiu, mas a liquidação político-moral de Maduro é um facto. Então, a visão de liqudação de liderança, no lugar de negar, é fundamental questionar a essência da teoria de liquidação da liderança e as formas de operacionalizar a liquidação da liderança. Segundo, o seu texto desvaloriza a revelação de coisas obvias da "doutrina mosaico. Se perguntar não ofende, será que um texto não deve trazer coisas obvias? Por outras palavras, tudo que nós escrevemos deve ser completa novidade? A minha resposta obvia diz que ao desvalorizar o obvio do texto estamos a assumir a pretenção de quase todos académicos procuram mesmo quando dizem coisas que outros disseram usando outras palavras só para dizer que inventou ou trouxe coisa nova. Terceiro e último, o seu texto evoca o realismo para justificar a firmeza da razão (da sua fidelidade a missão de intelectual) em oposição a emoção dos acríticos (falsos intelectuais) que estão zangados com a agressão Israelo-americana contra Irão. Eu suponho que o realismo que evoca é de senso comum. Não é realismo de relações e de estudos de segurança, que é um paradigma dominante, em Israel e nos EUA, mas não é infalivel. A prova da infalibilidade já foi demonstrada por várias escolas de estudos de segurança (tal como a escola de copenhaga) e por exemplos históricos (como a guerra assimétrica no Vietnam), mas que para si não diz nada. O curioso nisto, é ver a forma com que desvaloriza a história com alegação (corecta) da diferença de contextos. Isto é curioso porque nos estudos de paz e guerra, bem como no inner circle de policemakers, a história, apesar de contextos diferentes, joga um papel importante. Aliás, o texto que é a base da sua crítica aos falsos intelectuais usa a história para mostrar a licção bem estudada do regimedos Ayatola.
Elisio Macamo
Calton Cadeado, mais uma vez, obrigado pela resposta. acho que devo clarificar alguns pontos, porque me parece que estamos a falar de coisas diferentes. o meu texto não tinha como objectivo discutir teoria da guerra, nem avaliar escolas de relações internacionais, nem sequer negar a relevância de conceitos como guerra assimétrica, cenários ou a distinção entre vitória militar e política, coisas que nem domino. tudo isso é importante,mas não é isso que estava em causa. o que estava em causa era a qualidade argumentativa dum texto concreto que circula nas redes sociais. tâo simples quanto isso. e aqui há um primeiro problema na sua resposta. não responde a essa questão. em vez de discutir se o texto em causa é rigoroso ou não, se os factos estão correctos, se os argumentos fazem sentido, se as inferências são válidas, se há alguma coerência, nada, desloca a discussão para a teoria geral. isto é uma forma clássica de fuga ao ponto central, conforme escrevi no comentário anterior. em segundo lugar, continua a deturpar o meu argumento. eu não disse que apenas especialistas podem escrever sobre um tema. o que disse foi que um texto deve satisfazer padrões mínimos de rigor, independentemente de quem o escreve. transformar isso numa posição elitista é um exemplo do que na teoria da argumentação se chama falácia do espantalho, isto é, atacar uma versão distorcida da posição do outro. terceiro ponto: a sua tentativa de “salvar” o texto introduzindo a ideia de “liquidação político-moral” ilustra bem o problema que procurei identificar. o texto original fala de forma bastante clara de eliminação de liderança num sentido operacional, associado a colapso do regime. não há ali qualquer elaboração conceitual sobre dimensões físico-militares versus político-morais. essa distinção é introduzida agora por si para tornar o argumento mais sofisticado. mas isso levanta uma questão. estamos a discutir o texto que circulou ou uma versão melhorada dele? se for necessário reconstruir o argumento para o tornar defensável, então estamos implicitamente a reconhecer que ele, tal como foi apresentado, era fraco. quarto ponto: a questão da síria e da venezuela. dizer que houve “liquidação político-moral” é uma interpretação possível, mas não é aquilo que o texto afirmava, nem resolve o problema factual. no caso sírio, houve de facto um colapso do regime tal como o conhecíamos, com a fuga de bashar al-assad. mas esse desfecho não pode ser reduzido a uma simples “estratégia de decapitação” bem-sucedida, como sugere o texto. resultou duma guerra longa, complexa, com múltiplos actores externos e dinâmicas internas. no caso da venezuela, o regime não caiu. e mais importante ainda, o texto apresentava esses casos como sucessos claros e lineares duma estratégia, o que não corresponde à complexidade empírica desses contextos. quinto ponto: a questão do “óbvio”. é claro que um texto pode dizer coisas óbvias. o problema não é esse. o problema é quando o óbvio é apresentado como revelação estratégica profunda, sem provas, sem enquadramento e sem rigor. isso não é pedagogia. parece-me mais retórica. finalmente, sobre o realismo. tem razão ao dizer que o realismo nas relações internacionais é uma tradição teórica específica e debatida. mas o uso que fiz do termo foi deliberadamente mais simples. refiro-me ao realismo como a atenção às condições efectivas e às probabilidades, e não como adesão a uma escola teórica que, por acaso, nem me convence. e aqui o ponto mantém-se, pois reconhecer assimetrias de poder não é fatalismo. é condição para pensar com seriedade, algo que o elogio a pseudo-análises não promove. vou terminar com uma imagem barata, inspirada na nossa realidade. se, num chapa em maputo, o cobrador disser que o estado é fraco porque não tem monopólio da violência e que, se tivesse, haveria pão para todos, podemos achar aquilo profundo. mas se alguém questionar esse argumento, não faz sentido responder com uma explicação elaborada de max weber, que é o que está a fazer aqui. a questão continua a ser se o argumento inicial faz sentido ou não. é isso que tentei fazer. tentei avaliar um argumento concreto. e continuo a achar que, tal como circulou, ele é fraco. justamente por causa disso, penso que a responsabilidade intelectual começa aí, não em invocar teoria, mas em não aceitar como análise aquilo que é, no fundo, apenas uma narrativa convincente.
Elisio Macamo
outra coisa, quando refere que vê “fraqueza conceitual” na minha abordagem, o que quer dizer exactamente? para mim, uma fraqueza conceitual manifesta-se quando há problemas no uso dos conceitos que estruturam um argumento. isso pode acontecer de várias formas, por exemplo, quando os conceitos são mal definidos, quando são usados de forma inconsistente, quando são confundidos com outros, ou quando não são adequados ao fenómeno que se pretende explicar. ora, no meu texto, o argumento central é bastante simples e não depende duma arquitectura conceitual sofisticada. não estou a propor uma teoria da guerra, nem a mobilizar um quadro teórico específico das relações internacionais. estou a fazer algo mais elementar que é avaliar a qualidade argumentativa dum texto concreto verificando factos, coerência lógica e uso de fontes. para que se pudesse falar de fraqueza conceitual na minha abordagem, seria necessário mostrar, por exemplo, que utilizei um conceito de forma errada ou incoerente, que confundi níveis de análise (por exemplo, misturando avaliação empírica com juízo normativo), ou que mobilizei categorias inadequadas para o tipo de problema em discussão. no entanto, a sua resposta não identifica nenhum desses problemas. o único que faz é introduzir novos conceitos (como “liquidação político-moral”) que não estavam presentes no texto original, e deslocar a discussão para o plano da teoria geral da guerra. isto levanta uma questão importante para mim. estamos a identificar uma fraqueza conceitual no meu argumento, ou estamos a substituir o objecto da discussão por outro mais elaborado? porque, como já referi, o meu ponto não era discutir teoria da segurança, mas chamar a atenção para a necessidade de distinguir entre análise e narrativa. e essa distinção não requer grande sofisticação conceitual. exige apenas lógica e algum rigor. se houver uma fraqueza conceitual no meu texto, terei todo o interesse em reconhecê-la. mas, para isso, ela precisa de ser demonstrada, não apenas afirmada.
Gérard Amougui
Subtile et cohérente analyse
Elisio Macamo
merci pétit frère.

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