Quatro regras básicas da leitura crítica
Não somos apenas vítimas de desinformação nas redes sociais. Podemos também ser vítimas de credulidade académica, isto é, da tendência de aceitar textos ou narrativas apenas porque confirmam convicções morais ou políticas partilhadas no nosso meio. A universidade deveria ser o lugar onde essa tendência é combatida. Por isso, o primeiro dever intelectual dum estudante não é concordar com o seu professor ou com a sua comunidade política, mas sim examinar os argumentos com rigor.
Ontem discuti um texto bastante pobre sobre uma suposta estratégia militar iraniana que me parece um excelente caso pedagógico. Não é excepcional, mas condensa quase todos os mecanismos retóricos típicos da propaganda digital. Penso que, a partir dele, podemos formular algumas regras simples de vigilância intelectual. Dirijo-as a estudantes e docentes realmente interessados em ensinar o pensamento crítico.
A primeira regra consiste em desconfiar da narrativa heroica. Quando um texto apresenta acontecimentos complexos sob a forma duma história dramática com um plano secreto, um génio estratégico e uma reviravolta surpreendente, é provável que esteja a substituir análise por narrativa. A política internacional, como qualquer fenómeno social complexo, raramente funciona como um romance de espionagem. Quando um texto começa com frases como “O plano era simples” ou “Havia um homem que percebeu tudo”, provavelmente está a construir uma história sedutora em vez de explicar a realidade.
A segunda regra é examinar cuidadosamente a autoridade invocada. Textos pouco rigorosos recorrem frequentemente a especialistas vagamente definidos: “um analista de defesa disse…”, “fontes militares afirmam…”. Nenhuma instituição é citada, nenhum relatório é mencionado, nenhuma evidência pode ser verificada, nada. No caso do texto que analisei, a autoridade final é atribuída a um autor conhecido por livros de auto-ajuda financeira. O problema aqui não é o autor em si, mas o facto de que a sua reputação em finanças não lhe confere competência em estratégia militar. É como eu escrever um texto a explicar a política monetária do Banco de Moçambique...
Uma terceira regra é prestar atenção aos saltos lógicos. Propaganda eficaz não faz afirmações claramente absurdas. Ela funciona por meio de pequenas inferências plausíveis que, quando examinadas com atenção, revelam lacunas. No texto analisado, por exemplo, argumenta-se que se unidades militares não sabem o que outras unidades fazem, então serviços de inteligência estrangeiros também não poderiam saber. A conclusão parece intuitiva, mas não tem fundamento. Sistemas de inteligência dependem de vigilância técnica e não do conhecimento interno das unidades. Isto é trivial.
A quarta regra é desconfiar de conceitos técnicos que parecem profundos, mas não são explicados. O texto apresenta a chamada “doutrina do mosaico” como se fosse uma inovação revolucionária. Contudo, não oferece qualquer referência a documentos estratégicos, debates militares ou literatura especializada. Conceitos técnicos genuínos costumam estar associados a instituições, debates e autores identificáveis. Quando um conceito aparece isolado, sem esse contexto, é, muitas vezes, apenas um recurso retórico. Quem lê isso tem a obrigação de interpelar criticamente.
Uma quinta regra é talvez a mais importante. É preciso perguntar sempre se o texto confirma, com excesso de facilidade, aquilo que gostaríamos de acreditar. A desinformação mais eficaz não é aquela que contradiz as nossas convicções, mas sim a que as confirma. Quando um texto apresenta exactamente a realidade que gostaríamos de ver, neste caso, a ideia de que uma potência militar aparentemente mais fraca possui uma estratégia secreta capaz de derrotar adversários mais poderosos, isso deve levar-nos a redobrar a cautela. Se acreditarmos em muitos textos que andam por aí, o Irão de facto já ganhou esta guerra e, se calhar, o líder supremo não morreu, está vivo, escondido em algum lugar.
Estas regras não sâo para a gente ser cínica ou praticar descrença generalizada. O objectivo é cultivar aquilo que poderíamos chamar de responsabilidade intelectual. A responsabilidade intelectual não exige que sejamos especialistas em todos os assuntos. Exige apenas que não suspendamos o nosso julgamento crítico quando um argumento coincide com as nossas simpatias políticas ou ideológicas.
Para estudantes universitários, esta atitude é particularmente importante, pois a universidade deve ser um espaço onde aprendemos não apenas conteúdos, mas também o pensamento crítico. A tarefa dum estudante não é repetir convicções dominantes, sejam elas políticas, ideológicas ou académicas, mas examinar argumentos e reconhecer quando uma narrativa sedutora não passa duma narrativa.
Um estudante tem que aprender a recusar-se a acreditar depressa demais, por mais que os seus docentes insistam.
Solidariedade social e solidariedade cívica
A sugestão recente do Presidente da República de que os encarregados de educação poderiam contribuir com 20 meticais mensais para apoiar o funcionamento das escolas criou um certo desconforto, o que até era de esperar, pois o país não está em condições de ouvir e discutir ideias sem polarização. A verdade é que, com o acesso à educação pública como direito constitucional e diante das profundas desigualdades socioeconómicas, a ideia de solicitar contribuições directas das famílias pode facilmente ser interpretada como uma transferência indevida de responsabilidades do Estado para os cidadãos. Nesse sentido, a intervenção foi politicamente inapropriada, pois não é ao mais alto magistrado da nação que cabe propor mecanismos que, ainda que modestos, possam parecer uma forma de desresponsabilização estatal.
Mas seria um erro encerrar a reflexão nesse ponto, porque, se deslocarmos ligeiramente o olhar, não para o plano da autoridade política, mas para o da cidadania, a ideia contém um elemento que merece ser levado a sério. Não é porque os 20 meticais resolvam problemas estruturais do sistema educativo, mas porque apontam, ainda que de forma incipiente e mal situada, para uma questão mais profunda sobre o lugar dos cidadãos na sustentação e no cuidado das instituições públicas. Essa coisa encontra-se em algo que chamo de ecologia moral da responsabilidade. A ideia central é que, em qualquer sociedade, a responsabilidade moral não é distribuída de forma homogênea. Ela organiza-se em torno de diferentes esferas, por exemplo, família, redes sociais, comunidade, instituições, Estado, etc., e activa-se com intensidades distintas em cada uma delas. Existem situações em que a obrigação de agir é imediata e indiscutível. Noutras, essa obrigação é difusa ou simplesmente inexistente.
No nosso país, tudo indica que esta ecologia moral está fortemente estruturada em torno do que poderíamos chamar de solidariedade relacional. As pessoas sentem-se profundamente obrigadas a agir quando estão em causa indivíduos com quem mantêm uma relação directa (familiares, amigos, colegas, membros de um grupo social ou religioso). É isso que explica a extraordinária capacidade de mobilização que observamos em múltiplos contextos, a saber, contribuições para funerais, apoio a doentes, redes de ajuda em momentos de crise, casamentos, etc. Os grupos de WhatsApp são hoje uma expressão quase paradigmática dessa dinâmica. Em poucas horas, pequenas quantias são reunidas e uma rede de apoio se forma com notável eficácia.
No entanto, essa mesma energia moral poucas vezes se transfere para o plano do cuidado do espaço público. Quando o problema não é uma pessoa concreta, mas sim uma instituição, tipo uma escola degradada, um bairro inundado, uma vala de drenagem entupida, a praia suja, a responsabilidade tende a deslocar-se imediatamente para o Estado. Não se trata de indiferença. Trata-se duma configuração específica da responsabilidade moral, na qual o domínio público é percebido como território de outrem, portanto, do governo ou do “sistema”. As actuais cheias em zonas urbanas ilustram bem este ponto. Perante a inundação de bairros inteiros, a expectativa dominante é a intervenção das autoridades. Essa expectativa é legítima, porque muitas das causas das cheias têm a ver com o planeamento urbano deficiente, a falta de infraestruturas e a ausência de sistemas de drenagem eficazes, e isso, de facto, é da responsabilidade do Estado. Mas a ecologia moral da responsabilidade tende a operar de forma totalizante. Mesmo acções que poderiam ser parcialmente organizadas ao nível comunitário, como a limpeza regular de valas, a manutenção de espaços comuns, a coordenação local das respostas de emergência, etc., dificilmente emergem como obrigação colectiva. O problema é automaticamente estatal.
É neste contexto que a sugestão de 20 meticais adquire um significado ambíguo. Quando formulada pelo Presidente, ela parece deslocar indevidamente responsabilidades. Mas, se imaginarmos a mesma ideia emergindo duma associação de pais, como uma decisão colectiva de contribuir modestamente para melhorar a escola dos seus filhos, o seu significado muda radicalmente. Nesse caso, não se trata de aliviar o Estado, mas de ampliar o círculo de responsabilidade dos cidadãos. A escola passava de instituição estatal para instituição comunitária. Esta diferença é crucial e nos permite compreender melhor o problema. Não está em causa a contribuição em si, mas sim a direcção da responsabilidade. Quando a iniciativa vem de cima, pode ser interpretada como uma imposição. Quando emerge de baixo, pode constituir um acto de cidadania.
Com o conceito de ecologia moral da responsabilidade, gostaria de deslocar o diagnóstico. O nosso problema pode não ser a ausência de solidariedade. Pelo contrário, a sociedade moçambicana é profundamente solidária. O problema é que essa solidariedade está concentrada no domínio relacional e não se traduz de forma consistente em solidariedade cívica, isto é, em compromisso com o cuidado do bem comum. Isso levanta uma questão decisiva sobre como transformar a solidariedade social existente em solidariedade cívica. A resposta não pode ser moralista. Não se trata de dizer às pessoas que devem ser mais responsáveis ou mais conscientes. Trata-se, antes de tudo, de compreender que a responsabilidade é moldada por instituições e por expectativas socialmente partilhadas. Durante o período colonial, a população era objecto de administração, não sujeito de cidadania. Após a independência, o Estado assumiu um papel central na organização da vida social, muitas vezes em nome do povo, mas nem sempre com o povo. Ao longo do tempo, consolidou-se uma divisão implícita do trabalho moral. Os cidadãos cuidam dos seus e o Estado cuida do resto.
Alterar essa configuração não é fácil, mas faz parte do que os municípios deviam estar a fazer. Exige a criação e o fortalecimento de instituições intermédias, como associações de bairro, conselhos escolares e organizações comunitárias, que funcionem como espaços onde a responsabilidade pode ser exercida colectivamente. São esses espaços que permitem que a obrigação moral se desloque do círculo do conhecido para o círculo do partilhado. Curiosamente, os próprios grupos de WhatsApp, que hoje funcionam como redes de solidariedade relacional, poderiam tornar-se embriões de solidariedade cívica. A infraestrutura social já existe, pois há confiança mínima, capacidade de mobilização, normas de reciprocidade e o sentimento de que é nossa obrigação ajudar. O que falta é a ampliação do horizonte moral. Se um grupo que mobiliza fundos para ajudar um membro em dificuldade decidisse também mobilizar recursos, ainda que modestos, para resolver um problema do bairro ou da escola, estaria a operar uma transformação significativa na ecologia moral da responsabilidade.
No fundo, a questão é que a cidadania não nasce da criação de novas virtudes, mas da expansão do alcance das virtudes já existentes. Não precisamos de aprender a ser solidários. Precisamos de aprender a orientar a nossa solidariedade também para o cuidado do espaço público. Isso implica repensar o papel do Estado, não como substituto da sociedade, mas como parceiro, e, sobretudo, reconstruir a ideia de que o bem comum não é propriedade de ninguém em particular, mas responsabilidade de todos.
Se a sugestão presidencial foi politicamente mal colocada, ela pode, ainda assim, servir de ponto de partida para uma reflexão mais profunda, não sobre quanto os cidadãos devem pagar, mas sobre como podem participar na construção e sustentação das instituições que estruturam a vida colectiva. E isso nem precisa de passar por exigir que se use o dinheiro desviado pela corrupção. Requer apenas um sentido cívico mais apurado.
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