sexta-feira, 31 de agosto de 2012

Edição de 31 de Agosto de 2012

Augusto Paulino reconduzido a Procurador Geral da República

Maputo (Canalmoz) – O juiz Augusto Paulino foi reconduzido ontem ao cargo de Procurador Geral da República (PGR), que vinha ocupando nos últimos anos.
  Desde a fundação da República  
Governo reúne pela primeira vez com cônsules moçambicanos

Os lugares reservados aos cônsules de Israel e Líbano não estavam ocupados até ao primeiro intervalo

Maputo (Canalmoz) – Pela primeira vez desde a fundação do Estado moçambicano, o Ministério dos Negócios Estrangeiros e Cooperação reuniu com os cônsules honorários da República de Moçambique no estrangeiro.
  Parou em local proibido  
Polícia algema motorista de “chapa” ao volante

Maputo (Canalmoz) - Seis agentes da Polícia Municipal protagonizaram uma cena pouco comum na via pública.
  Exploração de carvão mineral em Moatize  
Vale investe 6 biliões de dólares na expansão

Maputo (Canalmoz) - A mineradora brasileira Vale Moçambique, que está a explorar a produção de carvão mineral de Moatize, está a investir 6,4 biliões de dólares norte-americanos no projecto de expansão das suas actividades.
TDM constrói salas de aulas em Massangulo

Maputo (Canalmoz) – A empresa TDM-Telecomunicações de Moçambique procedeu, recentemente, à entrega de duas novas salas de aula e duas casas de banho para professores à Escola Primária do 1º Grau, localizada no Posto Administrativo de Massangulo, Distrito de Ngaúma, na província do Niassa.
Canal de Opinião
Por Matias Guente

Quando o Estado laico é louco

“O argumento da raça ou da tribo é um expediente fácil de usar, não precisa de manual de instruções e pode ter efeitos espectaculares. Em vez de se debater ideias, abate-se o outro” – Mia Couto in os Falsaportes.

Maputo (Canalmoz) – A recente agitação dos muçulmanos veio mais uma vez mostrar o tipo de Estado que temos e qualidade do nosso debate público.
  Escreve a revista FORBES  
Valentina Guebuza: a princesa milionária

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Maputo (Canalmoz) – A revista FORBES, especializada em matérias sobre a riqueza das celebridades mundiais, dedica na edição deste mês de Agosto um trabalho de três páginas sobre a riqueza da filha do Presidente da República, Armando Guebuza, a famosa Valentina da Luz Guebuza.
Análise
Por Simon Muteerwa*

Guerra Civil e Dinâmica

Maputo (Canalmoz) – Na entrevista concedida ao Canal de Moçambique, o Dr. Eric Morier-Genoud referiu-se à questão da guerra civil.

quinta-feira, 30 de agosto de 2012

David Aloni (RENAMO) sobre arrogância de Guebuza

04.09.2007
Pages: 123456

David Aloni (RENAMO) sobre arrogância de Guebuza

04.09.2007
 
Pages: 123456
O académico e quadro sénior do partido Renamo com a pasta de ministro “sombra” da Indústria e Comércio e membro do Conselho de Estado, Doutor David Aloni, numa longa entrevista ao MAGAZINE, quebrou o “silencio” ao acusar o Presidente da República de ser prepotente e arrogante, cujo comportamento “vai incendiar Moçambique a qualquer momento”. Aloni recorda os momentos críticos da Frente de Libertação de Moçambique sem deixar de manifestar a sua preocupação em relação ao estágio actual do País, pois para ele, Moçambique está a mudar para o abismo. “Se continuarem fechados, empurrando o diálogo para o lixo, o que não acontecia na governação de Joaquim Chissano, a situação vai ficar feia”, avisa Aloni para quem dirigir a Renamo não faz parte da sua agenda, pelo que prefere deixar o lugar para os jovens. Siga os trechos mais significativos da conversa concedida ao jornal MAGAZINE INDEPENDENTE.
Nelo Cossa*
O Dr. Aloni andou desaparecido da vida sócio-política e cultural do País por causa de doença. Como se sente hoje?
— Não estou cem por cento bem de saúde, mas dá para trabalhar, pois durante um período estava interdito pelo meu médico de exercer qualquer actividade intelectual. Mas agora ele disse que já posso voltar a ler e escrever. Muito obrigado por se terem preocupado com a minha saúde, pois agradeço também a oportunidade que me dão para poder dizer aos moçambicanos aquilo que penso do nosso belo País.
Académico, intelectual, político como é que vê o País?
— Esta é uma pergunta difícil de responder sr. Cossa, porque cada um de nós vê o País à sua maneira; cada um de nós vê o País sob seu ponto de vista, sob uma determinada perspectiva. Como sabe, diz-se que a prática é critério da verdade e eu digo que a experiência também o é. Diante de um objecto, a gente diz que está aí uma mala bordada, porque a vejo numa determinada perspectiva, enquanto uma outra pessoa enxerga a mesma mala numa outra perspectiva, por estar sentada numa determinada posição diferente da que me encontro.
Mas o objecto da nossa atenção, da nossa análise é a mala no seu todo. Se digo que a mala que enxergo é bonita, a outra pessoa pode dizer que vê a mesma mala e não a acha tão bonita como eu a vejo. Mas atenção que estamos a falar da mesma mala, que é vista por duas pessoas em perspectivas diferentes. Onde está a verdade? A verdade é a própria mala, pelo que nem Aloni e muito menos a outra pessoa têm a verdade. Aquela mala é que é a verdade, objectivamente falando. Mas a mala existe ou não existe? Claro que existe e eu estou a vê-la, e a outra pessoa também diz que existe e esta a enxergá-la. Ou o senhor vê a mala na esquina e eu na sua plenitude. Então, a prática é a mala. Isto para dizer que vejo o País de uma maneira diferente, porque eu venho desde o tempo colonial, o tempo da luta armada de libertação nacional; eu vivi a independência. Eu vivi o desenrolar do processo político moçambicano, desde a proclamação da Independência até, por exemplo, a criação do Partido de Vanguarda da Aliança Camponesa, cuja síntese está neste livro que lhe mostrei sobre o terceiro Congresso da Frelimo que se realizou de 3 a 7 de Fevereiro de 1977. O que se seguiu depois foi aquilo que obrigou aos moçambicanos a começar a dividir-se, porque uns pensavam de uma maneira e outros de outra, o que é natural.
Dentro de vinte 20 milhões de moçambicanos podemos dizer que há 20 milhões de pensamentos a reflectir sobre o mesmo objecto, que é mala, neste caso a mala é todo o País como já referi. E como tal, por exemplo, temos que admitir que sr. Cossa pense de uma forma diferente, porque é uma personalidade distinta da minha; o senhor pensa à sua maneira e eu penso à minha maneira. O seu pensamento e o meu, bem conjugados vão dar-nos uma síntese do que é o País. Por isso, a verdade não é mais do que o somatório de pequenas verdades de cada um de nós, que são os vários pontos de vista; as várias perspectivas, que cada um vê num determinado ângulo.
Portanto, estamos a falar do País. Porque não viu o País antes, naturalmente, poderá não concordar com aquilo que vou dizer. Mas, devo referir que o depois nunca o é sem o antes. Este é que é o ponto. Quando dizem que os velhos são uma biblioteca, acumuladores de experiência da vida, é porque de facto, viram o antes, o hoje, e estão a ver o depois, que é o amanhã. E porque o homem é ser projectado, pelo que vivemos o ontem; vivemos o hoje a partir de ontem, vamos viver o amanhã a partir de hoje. Então, a projecção consiste em estarmos lançados para o amanhã. Anda hoje na moda que temos que ser pro-activos, o que quer dizer que temos de agir em função do futuro. Este País podia estar melhor do que está, porque quanto mais eu analiso a situação sócio-política, económica, cultural e até histórica eu fico preocupado. Mas a minha preocupação pode ser interpretada de várias maneiras, pois uns dirão que Aloni é radical e, outros, é pessimista, porque vêem tudo com óculos escuros; bem como dirão que Aloni não é patriota.
Embora não tenha dito o que lhe está preocupar no País, o Dr. não tem medo de ser radical? 
Medo! Não tenho medo, porque já estou morto. A pessoa nunca morre duas vezes. Quem define quem deve ser patriota? Somos todos iguais perante a lei, pois o artigo 35 da Constituição da República é muito claro e o Artigo 48 da Lei-mãe diz que eu sou livre de pensar e escrever, expressar o que me vai na alma. É como a estória dos reaccionários e não reaccionários; os revolucionários e os contra-revolucionários. No meu trabalho de reflexão sobre os 45 anos da Frelimo, eu interrogo-me: quem define quem é reaccionário; quem não é reaccionário; quem é revolucionário e quem não o é, pois quem tem competência para definir?. Sou considerado reaccionário, mas até hoje ninguém me disse em quê fui reaccionário.
Já procurou saber?
— Várias vezes. A resposta é: Aloni já passou, é assunto para esquecer e seguem-se palmadinhas nas costas. Esquecer não posso, mas perdoar sim. Há uma canção que diz que “não vamos esquecer aquilo que passou”, pelo que o que passei nunca vou esquecer, porque foi terrível meu filho.
Obviamente que continua com as marcas e, certamente, elas influenciam a sua forma de pensar e/ou e ver Moçambique?
— Continuo com marcas e nunca mudei a minha forma de pensar. O pensamento continua o mesmo que eu tinha em 1952. Sempre vi as coisas à minha maneira. Quando atingi os dezoito anos, estava em Boroma na Escola de Formação de Indígenas na província de Tete. Em Agosto de 1958, fui de férias a Angónia, minha terra natal, e como sempre, gostei de andar com meu pai, pessoa influente na zona. Ele convidou-me a uma reunião em Lisulo. Lisulo é a corte real dos angoni, no Malawi, cuja zona fica localizada ao longo da fronteira.
O meu pai disse-me que o salvador do Malawi ia falar. Estava a referir-se ao Dr. Kamuzu Banda que ia dirigir um comício pela primeira vez. Nós de Angónia fomos em massa e eu ouvi o discurso do Dr. Banda. Não faz a mínima ideia de como eu vibrei perante aqueles dizeres, pois relacionei-os com a situação que se estava a passar em Moçambique. O meu régulo era primo do inkosi Gomane Kuende. As conversas deles, já em ’52 e ’53”, incidiam numa eventual independência do Malawi integrando Angónia, cuja intenção foi descoberta pelos portugueses. Para os portugueses aquilo que se passava no Malawi era confusão, pelo que queriam manter o seu regime aqui no País, mas Banda podia falar em público naquele ponto do nosso País. Nós queríamos independência de Moçambique, bem como os malawianos queriam também ser livres.
Naquele tempo ainda não estávamos organizados, naturalmente. Willard Gomane Kuende disse ao seu primo que nós ficaríamos independentes se nos encostássemos a eles. Em termos sociológicos e políticos, isto queria dizer que era anexação de Angónia ao Malawi. E o meu inkosi queria que isso acontecesse, mas foi descoberto pelos portugueses, o que lhe custou a prisão. Quando regresso daquele comício eu galvanizei os meus colegas na Escola normal, até que houve uma agitação que me valeu a acusação de mentor da rebeldia. Foi atrevimento demais, o que nos valeu uma punição até dizer basta. Nessa altura, não sei se existiam a UNAME, o MANU e a UDENAMO. Passado um tempo, mantenho contacto com o fundador de UNAMI, o moçambicano Cândido Gadaga. Ele e Baltazar Chagonga, pai de Filipa Baltazar, que foi deputada na Assembleia da República, foram os fundadores da UNAMI, cuja agremiação passaria automaticamente a ser o meu movimento, porque congregava o distrito de Tete e parte da Zambézia. Mas, os fundadores estavam escondidos no Malawi. Nas celebrações dos 45 anos da Frelimo perguntei se conhecem uma tal carta de Eduardo Mondlane dirigida a Baltazar Chagonga.
O que é que dizia essa carta?
— Não posso revelar agora o conteúdo da mesma. É a partir dessa correspondência que a UNAMI aceita integrar um movimento único para a libertação de Moçambique. O MANU e a UDENAMIO devem ter mantido correspondência com Mondlane para se unirem. Nasce, deste modo a Frente de Libertação de Moçambique, a qual todos nós pertencemos. Estou a falar do famoso dia 25 de Junho de 1962, pois o que se discutiu no primeiro congresso está muito claro. Foi no primeiro congresso onde se institucionalizou a Frente de Libertação de Moçambique como um movimento de libertação, pelo que foi muito aliciante e interessante. Perante o que se passou naquele congresso ninguém duvidou que devíamos nos unir para conquistar a independência, dentro de uma perspectiva democrática. Daí que houve eleições. É evidente que todos achavam que Eduardo Mondlane era aquele que devia liderar a frente.
Além disso, tinha que se eleger um vice-presidente: o Reverendo Urias Simango foi eleito vice-presidente da Frente de Libertação de Moçambique e os dois são reeleitos no segundo congresso em 1968. Sabe que este ano foi conturbado na história da Frente de Libertação de Moçambique, pois foi nessa altura que começa a fermentar e, depois, nascer uma nova ideologia, que já não era de carris democrático. Independentemente da frente ser apoiada por países diversos, uma vez que estávamos na fase critica da guerra fria entre este e oeste, as coisas complicaram-se. Naturalmente, os de leste, que constituam o bloco socialista estavam interessados na libertação das antigas colónias, tendo dado apoio possível, nomeadamente a ex-União Soviética com todos países satélites e a China, justamente para conquistarmos a nossa independência, a nossa soberania.
Mas é preciso ter presente isto: Mondlane foi formado no ocidente, portanto, num país capitalista. Toda a sua intelectualidade e estrutura mental estavam em conformidade com a ideologia capitalista; por isso, leia com muita atenção a obra “Lutar por Moçambique”, onde vai perceber qual era o pensamento politico de Mondlane, o que Mondlane queria para este Moçambique. Ele fala de socialismo, de justiça social, mas a pergunta que devemos colocar é: de que socialismo falava Mondlane? É uma pergunta que muitas pessoas não colocam, mas eu a coloco. A crise na frente acontece numa altura em que dentro do bloco socialista começa a haver divergências muito sérias, pois os chineses e os soviéticos entraram em rota de colisão, apesar de ambos serem da mesma ideologia. E isto reflectiu-se na Frente de Libertação de Moçambique, uma vez que houve correntes ideológicas diferentes. Uns defendiam a sintonia com a União Soviética e outros com a China, por razões que não sei. Ressalta a pergunta: de que corrente pertencia Eduardo Mondlane? Não pertencia a nenhuma delas, porque ele pensava com a sua cabeça. Ele foi professor universitário, funcionário das Nações Unidas e tinha uma estrutura de pensamento diferente de outros camaradas seus, pois não era fácil de o manipular: era um osso duro de roer.
O facto de ele ter uma estrutura de pensamento diferente, custou-lhe a vida?
— No meu artigo sobre os 45 anos da Frelimo eu pergunto: não terá sido precisamente por pensar diferente que lhe tiraram a vida? Porque ele podia constituir um obstáculo para a implementação de uma das ideologias, mais tarde num Moçambique independente. Este é um raciocinou lógico.
Mondlane é assassinado, mas deixa um vice-presidente, que automaticamente devia liderar a frente. Na sua opinião o que aconteceu para que isto não acontecesse?
— Está a colocar uma questão pertinente. Esta é uma pergunta que é colocada por muita gente que se interroga e pensa com a sua própria cabeça. Os estatutos da Frente de Libertação de Moçambique rezam que a estrutura orgânica da frente tinha o ponto máximo o congresso, depois o presidente e vice-presidente. Porque é que depois do bárbaro assassinato de Mondlane o Reverendo Urias Simango não assumiu automaticamente a liderança da Frente? Começa outro problema, pois as tais duas correntes não estavam interessadas em ver o vice-presidente a liderar a frente. Quando dizemos Reverendo logo estamos a falar de um homem de Deus, um homem que acreditava nos valores mais sublimes, acreditava na existência do Senhor e rezava. Mas outros camaradas seus defendiam que a religião era o ópio do povo. E pergunta quem disse isso? A resposta é: foi Karl Max. Mas não interpretaram correctamente o seu raciocino. Está imaginar um reverendo a dirigir uma frente de libertação. Todos os valores éticos, morais e toda a ambiência que rodeava o reverendo não permitiriam trafulhices. Foi nessa altura em que começa a hegemonia política de uma região sobre outra, daí que era preciso neutralizar Urias Simango.
Criaram um triunvirato para o abater. Os estatutos previam a criação de um triunvirato? A questão da Frelimo pontapear as leis, pontapear a Constituição da República não é de hoje. É óbvio que naquela altura não havia Constituição da República, mas sim estatutos, que foram pontapeados. Havia um objectivo, pois o vice-presidente não se sentiu confortável. Que o pusessem como presidente e num congresso extraordinário elegessem um vice-presidente, era uma saída justa e coerente de acordo com os próprios estatutos. Não quiseram, prefiram criar um triunvirato composto por Samora Machel, Marcelino dos Santos e Urias Simango. Não gosto de falar de pessoas que nos deixaram, mas veja essas duas primeiras figuras tenebrosas e tenebrosas... E tudo fizeram para que o Reverendo se revoltasse, pelo que as duas ideologias continuaram a avançar em paralelo até à proclamação da independência. De acordo com alguns pensadores, analistas, historiadores e políticos, o que estava na cabeça de Mondlane é que após conquistarmos a independência, devia agir-se em conformidade com as regras universais que regem os princípios democráticos. No governo de transição deveria ser permitida a constituição de partidos que seriam os mesmos a concorrer às eleições na altura da independência. Mas, isso não aconteceu, abocanharam o poder. Tenho a certeza de que este não era a ideia de Eduardo Mondlane. Sabe que na altura existiam Gumo, Fumo e outros partidos e o próprio Reverendo tinha um partido dele, queria também participar, mas a Frelimo esmagou a todos, à força: implantou a ditadura e o totalitarismo; prenderam a gente.
Onde estava quando se proclamou a independência?
- Quando se proclamou a independência eu não estava cá, estava na Holanda a fazer a última formação académica em Relações Internacionais e Diplomacia. O meu estágio foi no Tribunal Internacional de Haia. Eu conheço aqueles corredores, pois assisti a dois julgamentos, o que me galvanizou para a causa de Relações Internacionais. No dia em que Moçambique fica independente, os meus colegas fizeram-me uma grande festa para, depois, no dia 27 eu ser graduado. A Reitoria convidou-me para dar aulas na mesma universidade, mas como fui à Europa para “roubar” conhecimentos para poder fazer crescer o meu País, decidi voltar. Desembarco no aeroporto internacional da Beira, exactamente no dia em que Samora Machel decretou através de um discurso, num comício as nacionalizações. Estava uma agitação terrível; pelo que vim a saber, mais tarde, outros moçambicanos que tinham estado a estudar nos Estados Unidos e noutros cantos do mundo, a formarem-se, ao desembarcarem no aeroporto foram presos; não foram vistos pelos familiares, depois de muito tempo fora de Moçambique. 
Quando outros, ainda no exterior, se aperceberam desta situação, não voltaram. Não quiseram vir viver um comunismo “puro” que a Frente de Libertação de Moçambique implantara. Vivia-se um terrorismo de Estado e, eu não estava habituado a esse tipo de vida. Fiquei hospedado em casa dum irmão meu que era chefe regional dos aeroportos da região Centro. Entre várias estruturas, onde me apresentei, quando cheguei a Moçambique, foi o Ministério da Educação e Cultura em Maputo. Na altura, era ministra a senhora Graça Simbine. A minha audiência não passou de uma inquisição. Chegou a ponto de questionar os meus conhecimentos. “O senhor pensa que é quadro? Quadro formado por quem e para quem? Estou a citar alguns excertos da inquisição. O fim foi muito triste, pois prefiro não dizer, pelo que, não insista. Regressei à Beira e encontrei uma crise tremenda de falta de professores, porque estavam a abandonar as escolas. Apareceu alguém que tinha uma empresa que operava na indústria e comércio, pela qual fui convidado a ocupar o cargo de sub-gerente, embora não tivesse feito um curso específico; tinha noções de gestão com base na filosofia económica. Por causa da minha entrega e rápido enquadramento, fui evoluindo até ao ponto de ser responsabilizado outros cargos. É através do sócio-gerente que venho a conhecer Orlando Cristina. Que coincidência! É preciso dizer que, nessa altura, 1976, André Matsangaisa e Afonso Dhlakama estavam na Beira.
Teve algum contacto com eles?
- Não tive contacto com eles. Mas já sentia que alguma coisa iria acontecer, no País. Também fui abordado para dar aulas, e expus logo o assunto ao meu patrão. Este deu-me a luz verde para aceder ao convite, mas sem me esquecer da empresa. Comecei a dar aulas no Liceu e no Instituto Industrial e Comercial, mas sempre deixei claro aquilo que fui dito no Ministério da Educação e Cultura. Encontrei três professores que tinham sido enviados aos Estados Unidos, por Eduardo Mondlane, a darem aulas, e um deles era Joaquim Marungo, hoje chefe do Gabinete Central de Eleições da Renamo e deputado da Assembleia da República. Havia quatro negros com formação superior nas duas instituições supra, o que se traduziu num delírio, no Liceu e no Instituto.
Mas isto foi sol de pouca dura. Num belo dia 17 de Setembro de 1976, fui convidado por um casal amigo para jantar em casa deles. Dei deveres aos meus alunos. Os meus colegas foram dar aulas; foi precisamente nesse dia que o Dr. Marungo estava a explicar Matemática, quando aparece alguém, por trás, a dizer-lhe para o acompanhar. Quando chega na sede do SNASP, apercebe-se que outros dois colegas já lá estavam. No dia seguinte, fui a uma exposição de livros, entre os quais estavam meus dois. Quando, no intervalo, regressei à casa para almoçar, minutos depois de me sentar à mesa, toca a campainha, e abro a porta. Deparo-me com uma figura alta, grande e feia com uma notificação que dizia para o acompanhar. Essa notificação há-de sair no meu livro.
Tenho seis livros à espera de oportunidade para serem publicados. Veja que eu não sabia que os meus colegas tinham sido detidos. O fulano que me veio prender era meu aluno; veja até onde vai a baixeza dos homens! Então, lá fomos ao sítio, onde fiquei mais de três horas, de pé, sem ninguém me dizer nada, e a minha falecida esposa (que Deus a tenha em paz), estava grávida. Foi um psicodrama que não se pode esquecer!... Horas depois, o meu irmão toma conhecimento e vem ao meu encontro. Minutos depois alguém vem e diz-me para o acompanhar à cela e eu recuso. Depois, aparecem três para me pegarem, à força, e eu sacudi-os, porque eu já estava uma fera. Nunca fiquei tão nervoso como naquele dia, mas o meu irmão aconselhou-me a acompanhá-los. Meteram-me na cela 11. Mais tarde, vim a saber que o meu crime tinha a ver com o facto de ser contra-revolucionário e reaccionário. Mas quem prova isso? Não gostaria de entrar em detalhes, porque os momentos que se seguiram foram violentos para mim. Ficámos presos durante um mês na Beira e não nos comunicávamos. Houve uma confusão na Beira, protagonizada pelos alunos. Eles questionavam o porquê de até professores negros serem presos e afastados quando havia crise de professores? Este questionamento foi levantado, porque muitos professores brancos estavam a abandonar o País. Todas as escolas queriam entrar em greve, tendo o SNASP se apercebido de que nós tínhamos influência. Entretanto, este senhor que é Presidente da República faz uma visita à Beira, porque era ministro do Interior. Ele queria saber se havia ou não presos políticos. E nós ficámos satisfeitos, porque vimos que era uma oportunidade para expor o nosso problema. Esconderam os nossos nomes, para, depois, sermos desterrados para a Zambézia. O senhor Bonifácio Gruveta, que era governador na Zambézia, impressionou-nos, pela positiva, pois ele quis saber que crime cometêramos na Beira. Não levámos nenhum documento ou guia de marcha que informasse o mal que nós havíamos feito. O Gruveta fez diligências na Presidência da República Popular de Moçambique para poder agir em consciência. Recebeu instruções para fazer coisas que não lhe posso dizer.
Essas coisas eram mortais? 
Não posso revelar, porque é muito chocante. Chegou, depois, uma ordem que mandava que fôssemos para a reeducação, uma vez que o governador não quis cumprir a primeira. Até hoje não recebi nenhum documento a dizer que “já fui reeducado, se já estou identificado com o povo”. “E para eu me identificar com o povo, tinha que ser submetido a trabalhos forçados e violentos”. Tudo quanto disse atrás é, exactamente, para afirmar que eu defendi sempre a democracia pluralista; nunca aceitei o monopar-tidarismo, embora numa determinada fase tivesse defendido só a existência de dois partidos em * +qualquer pais africano ou uma outra hipótese que eu me colocava, era um partido único, sim, mas de cariz, efectivamente, democrático. Por quenão se aceitou que os moçam-bicanos se congregassem em partidos, em Moçam-bique? Tivemos e continua-mos a viver um regime de terror. Este regime terrorista está disfarçado de democracia. Não é por acaso que os partidos políticos da oposição são hostilizados, amordaçados e perseguidos. A governa-ção de Guebuza está a levar o País para o abismo. Tudo está claro que este regime de Guebuza está a voltar ao monopartidarismo, pois, o meu presidente Dhlakama já chamou a atenção.
O Presidente Armando Guebuza, durante as celebrações dos 45 anos da Frelimo disse que não há razões para se voltar ao monopartidarismo...
Isso é conversa fiada. É uma afirmação para enganar o outro, pois eles estão a conduzir o País para uma situação a que chamo altamente perigosa. Tudo indica que pode rebentar uma convulsão social e política de consequências imprevisíveis. Numa das intervenções desse mufana, Edson Macuácua, diz que a Frelimo “é o partido do povo para o povo”. O que é que ele está a dizer? Eles pensam que nós estamos a dormir? Pelo menos eu não estou. Falar de “partido do povo para o povo”, é o mesmo que dizer um partido de todo o povo moçambicano, um partido aglutinante, de que todos nós fazemos parte. E no substrato de um partido aglutinante, o que é que está lá é o monopartidarismo, totalitarismo. É preciso prestar muita atenção ao que dizem. Um parênteses: aqueles números da composição da Comissão Nacional de Eleições significam o processo de triunvirato; pois nota-se uma hegemonia de uma determinada região sobre outras, o que é perigoso. Devo dizer que com a situação que o País atravessa, de enormes dificuldades, há maior probabilidade de se incendiar um barril de pólvora que, a qualquer momento, poderá explodir. E a explodir, não sei quem vai aguentar os efeitos. Ilusoriamente, a comunidade internacional continua a dizer que Moçambique é um exemplo de reconciliação nacional. Onde está essa reconciliação nacional? É uma reconciliação fictícia e teórica. Esta não interessa, porque queremos uma efectiva. Se Guebuza continuar com a atitude arrogante, o País pode arder, sim! Se continuarem fechados, empurrando o diálogo para o lixo, o que não acontecia na governação de Joaquim Chissano, a situação vai ficar feia.
Qual é o papel da oposição perante este cenário que está a levantar?
- A oposição está a ter dificuldades em desempenhar o seu papel. Há quem diga que “a oposição está de férias”, o que não é verdade. A oposição está a ter dificuldades em desempenhar a sua função, pelo que essas dificuldades, hoje são mais salientes e altamente perigosas. Porque, quando faço referência ao antigo presidente Joaquim Chissano, não é por acaso: ele é o expoente máximo da diplomacia moçambicana, se não africana. Admiro-o bastante. Estou a distinguir Chissano de Guebuza, embora todos sejam do mesmo partido. Por que Chissano dialogava e Guebuza não? Segundo a nossa tradição, o diálogo é uma das vias indispensáveis para a busca de soluções. Hoje, o País está a enfrentar dificuldades de vária ordem, porque não se abre espaço para que a oposição contribua, também, com as suas ideias. Não é a Frelimo que vai construir o País, sozinha; cada moçambicano tem a sua parte. Pois, bem disse o actual Presidente da República que, “cada um, faça a sua parte”. Então, como vai fazer a sua parte se não lhe dá oportunidade? Logo, é conversa fiada. Veja como o sindicato do crime organizado tomou conta do Estado. Isto é vergonhoso! O sindicato do crime está a governar, porque não há autoridade. Como se pode combater o crime, enquanto as próprias forças ditas de defesa e segurança estão envolvidas nesses crimes? Quando não se entendem, baleiam-se. Tenho pena de José Pacheco, pois nem sabe o que está a dizer; Pacheco está feito um fanfarrão. Esse comandante geral descoberto nas Forças Armadas de Defesa de Moçambique, que nem se quer patente tinha para exercer as funções de Comandante Geral da Polícia, é uma vergonha Nacional. Consultaram a Lagos Lidimo, Chefe do Estado Maior? Que compromissos é que há? Um general fabricado à última hora: isto é palhaçada demais! Os moçambicanos não merecem esta vergonha, merecem mais consideração, respeito e auto-estima, mas Guebuza fala de auto-estima, só que não a pratica. Ele é que se auto-estima; está a utilizar o povo para os interesses pessoais inconfessados. Até quando o povo vai ter que aturar isto?
Se se criasse uma oportunidade para que a oposição se sentasse à mesma mesa com o governo para, em conjunto encontrarem alguma solução dos problemas que levanta, quais seriam os pontos prioritários a debater? 
A primeira coisa, para se abrir um diálogo, é haver eleições livres, justas e transparentes. É aqui onde começa o diálogo, pelo que quem não é transparente só quer ganhar com base em esquemas. Só dizem que a Renamo ou Dhlakama fala em fraudes; pois, é verdade, não são estórias. Quem ganha eleições com base em esquemas, sejam eles informáticos, sejam de intimidação, à boca das urnas, sejam eles em manipulações de recenseamento, é porque não está seguro.
Temos uma nova Comissão Nacional de Eleições?
- Outra fantochada. Já escrevi sobre a nova CNE, pelo que respeito muito as pessoas que lá estão. Espero que o Professor Doutor Leopoldo da Costa seja coerente com a sua intelectualidade, que se distancie do comportamento da performance daqueles dois reverendos que apareceram misteriosamente por obra da Frelimo. Eram fantoches. Aquela composição em si é sugestiva, pelo que, sugere-nos que pode haver uma jogada qualquer. Temos seis, naturais de Maputo, três, naturais de Gaza, dois, de Inhambane, um, de Tete e, um, da Zambézia. Querem manter o poder no sul? As três províncias do sul o que representam em relação às sete?. Não sei se o total da população de Nampula não supera a do sul todo, particularmente Maputo. Faço esta analise com muita preocupação e mágoa, porque sou patriota. Estiveram reunidos, recentemente, a apreciar “a estratégia da revolução verde”. Temos a jatropha, a luta contra a pobreza e agora a revolução verde. São palavrões bonitos e tudo conversa. Agora se me disser que está a lutar por maior riqueza, isso posso acreditar. Estão a deixar o povo moçambicano a vegetar. Uns dizem que o povo moçambicano é pacifico, eu digo que não é pacifico, é passivo de mais, até um dia. Temos chefes que dão cinco mil meticais aos filhos para esbanjarem ao fim de semana, enquanto o trabalhador mal ganha o salário mínimo. Onde está a justiça social de que tanto se fala? Onde está a distribuição equitativa da riqueza nacional? Se eu fosse Presidente, não abriria a boca, ficaria pasmado perante a desgraça e miséria que enferma os moçambicanos, em vez de dizer que “a pobreza está a fragilizar-se”.
Sente que o Conselho de Estado é um órgão moribundo?
- Não há vontade política para que este órgão funcione, de facto. Há quem pense que eu quero que se reúna o Conselho de Estado (CE). Negativo. Quanto mais tempo livre me dão, melhor para mim, de forma a ocupar-me de outras coisas, e se calhar, ate mais importantes para o Pais. Outros pensam que o membro do CE ganha 50 mil meticais, o que não é verdade, pois, nem um cêntimo de dólar recebem para fazer cantar um cego. Há que se respeitar o preceituado na Lei-Mãe. A tragédia de Malhazine e o crime violento que tomou conta do País, são motivos suficientes para se convocar o CE. O actual Chefe de Estado é prepotente e arrogante. Se quisesse ver o País a andar, havia de ouvir aqueles velhos que perfazem o CE. Mas ele se intitula sabichão e omnisciente. Como sabe, nós só reunimos uma única vez, para tratarmos da questão do regimento interno, cartão de identificação, e de lá a esta parte, não sabemos o que se passa com o CE. Ele diz que Moçambique está a mudar. Sim, está a mudar, mas para o abismo. Moçambique está a regredir em termos de democracia.
Tirando a questão da sua saúde, vozes há que dizem que Dr. Aloni está a ser isolado no seu partido...
- Não é verdade. Na Renamo há democracia. Sou membro do Conselho Nacional, e lá digo aquilo que penso e ninguém me trava a palavra. Igualmente, estou no governo sombra, onde ocupo a pasta de ministro da Indústria e Comércio. Tenho liberdade de pensar e dizer o que eu quiser na Renamo. Portanto, não estou isolado.
Fala-se na figura de David Aloni ou Davis Simango como os prováveis sucessores de Afonso Dhlakama. Pensa em candidatar-se?
- Recuso-me a ocupar esse lugar, porque a idade já não me permite correr. Deixo este tipo de cargos para jovens, porque a vida deste País está nas mãos da juventude.
Acha que a liderança de Afonso Dhlakama chegou ao fim?
-Recuso-me a responder a essa pergunta.
Na qualidade de ministro “sombra” da Indústria e Comércio, qual é o comentário que faz em torno da integração económica na Comunidade para o Desenvolvimento da África Austral?
- É sobejamente visível que vamos ser engolidos, até porque já o estamos. Houve uma precipitação em se querer meter neste processo, sem fazer um sério trabalho de casa. Em que sector vamos ser competitivos, se não se produz nada competitivo? Faliram os sectores têxteis e do caju, onde havia sinais de nos impormos na região. É claro que se a Renamo governasse, tudo faria para revitalizar estes sectores. Podíamos criar formas de actualizar, em formação e capacitação, o exército de trabalhadores que tanto produziu quando estava no activo. Podíamos criar formas competitivas de produção de batata como as produzidas em Moamba e em Angónia. São saídas viáveis...
*(nelo_mz@yahoo.com.br)




ENFº BALTAZAR CHAGONGA

ENFº BALTAZAR CHAGONGA

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Coluna de João CRAVEIRINHA
email: craveirinhajoao@mail. pt

ARQUIVOS IMPLACÁVEIS (1)

ENFº BALTAZAR CHAGONGA, HERÓI ESQUECIDO e CO-FUNDADOR da FRELIMO
Nesta nova Coluna periódica no CORREIO da MANHÃ a partir da “minha TRIBUNA”, inicio uma série de comentários sobre a consulta feita a arquivos e de testemunhos pessoais relacionados com a luta anti-colonial dos moçambicanos contra o colonialismo português…Iniciamo-la com um dos fundadores da Frente comum de Libertação de Moçambique…Trata-se do Enfermeiro “Baltazar Chagonga” nascido na cidade de Tete em 6 de Janeiro de 1905 e falecido em Maputo em 25 de Setembro de 1988. Outro Herói do nosso tempo…
Foi preso político da PIDE em Lourenço Marques depois de raptado em Malaui em Março de 1965 para Milange na Zambézia… Em Junho de 1974 era enfermeiro no Posto de Socorros nº 2 da Soberana Ordem de Colombo no bairro da Munhuana. Este Posto como muitos outros de solidariedade social no campo da saúde pública, seriam extintos ou nacionalizados pela Frelimo ao tomar o poder. Chagonga em 1961 foi um dos líderes das manifestações anti-coloniais em Tete contra as brutalidades e torturas praticadas pelos administradores coloniais portugueses sobre as populações, em particular a do Administrador do Concelho de Moatize, Edgar Nazi Pereira, cronista na Rádio Clube de Moçambique. Várias décadas mais tarde deixaria escrito o livro “Mitos, Feitiços e Gente de Moçambique”, editado em 1998 pela Caminho de Portugal associada da Ndjira de Maputo. Na altura o seu nome escrevia-se Nazi com Z. Depois do 25 de Abril de 1974 mudou para Nasi…”Mudam-se os tempos mudam-se as vontades – O Tempora – O Mores”…Lá dizia o velho advogado romano, Marco Túlio Cícero, muitos anos antes de Cristo.
Voltando a “Chagonga” este seria preso em 1961 em Moatize – Tete e libertado por ordem do Governador-geral. Funda na clandestinidade em Tete a UNAMI – União Nacional Africana de Moçambique Independente… Continua a ser perseguido pelo administrador Nazi Pereira. Foge para a então Niassalândia onde é protegido pelo médico e líder político – Inguazi, Dr. Kamuzu Banda, futuro Presidente do Malaui da ex- Niassalândia…Ainda em 1961 é enviado por Banda a Dar-es-Salaam …Note-se Malaui (Malawi), Zâmbia e Tanzânia ainda não estavam Independentes… Os líderes nacionalistas de Tanzânia – Julius Kambarage Nyerere e Rashid Kauaua(Kawawa), da TANU, instalam-no no Princess Hotel. Na cidade de Dar-es-Salaam instalar-se-iam outros movimentos políticos de Moçambique : - a UDENAMO de Adelino Guambe e de Machuza (Mahluza), fundada na Rodésia (gente do centro – sul de Moçambique) e a MANU de predominância maconde de Mola e Vanomba de ligações a Tanzânia e a Mombaça – Quénia. Dos três, a UNAMI era o único movimento político fundado em Moçambique e na clandestinidade. Em 1962 Chagonga e outros nacionalistas moçambicanos assistem à Conferência da PAFMECA em Adis- Abeba, na Etiópia do Imperador Hailé Selassie. Orientou a Conferência o então secretário-geral Mbyu Kuinangue. Após a reunião Baltazar Chagonga e outros nacionalistas regressam a Dar-es-Salaam…A PAFMECA era a Pan – African Freedom Movement for East and Central Africa …é mais ou menos isso – Movimento Pan – Africano de Libertação da África Central e Oriental...mais tarde da África Austral…No início era composto por Tanganhica(Tanganyika), Quénia, Uganda, Rodésia do Norte(Zâmbia) e Niassalândia( Nyasaland – Malawi)…De Moçambique além da UNAMI de Chagonga tínhamos a UDENAMO – União Democrática NAcional de Moçambique e a MANU – posteriormente Mozambique African National Union antes MAkonde National Union…decalque da TANU de Tanganhica anterior à Independência de 09.12.1961. No ano seguinte, em 25 de Junho de 1962 é criada a FRE.LI.MO em Dar-es-Salaam. O Uganda Independente em 09.10.1962…Zanzibar a 10.12.1963. Fusão de Tanganhica com Zanzibar em 27.04.1964 passando a Tanzânia. Malaui Independente em 06.07.1964 e a Zâmbia a 24.10.1964…
O Enfermeiro independista, José Baltazar da Costa, conhecido por Chagonga – outro Herói esquecido pela história moçambicana, assistiria como observador convidado a 3 dessas Independências africanas – a do Tanganhica; do Malaui e da Zâmbia que seriam muito importantes para o futuro de Moçambique

Angola - Contexto Cronológico do ano de 1961

Contexto Cronológico do ano de 1961

Obs: As entradas dessa cronologia estão a ser adicionadas conforme são publicados os artigos da série "Foi há 50 anos...". Por esse facto, só estarão completas quando a série acabar, no final do ano.

JANEIRO
3 a 7 de JaneiroConferência dos Chefes de Estado Africanos em Casablanca
4 de Janeiro Revolta da Baixa de Cassanje
9 de Janeiro – Fuga de José Mendes de Carvalho “Henda” para o Congo
16 de Janeiro – Agostinho Neto envia carta desde Ponta do Sol (Cabo-Verde) ao Ministro do Ultramar pedindo transferência para Angola e reafirmando a sua posição nacionalista
17 de Janeiro – Assassinato de Patrice Lumumba. Generalização de uma onda de protestos a nível internacional.
20 de Janeiro – John F. Kennedy é investido como 35º Presidente dos E.U.A.
21 de Janeiro – Eduardo Mondlane, a convite de Adriano Moreira efectua uma visita a Moçambique onde permanecerá até Maio.
21 a 22 de Janeiro – Sessão Extraordinária do Comité de Solidariedade dos Povos Afro-Asiáticos no Cairo
22 de Janeiro – Desvio do paquete Santa-Maria por Henrique Galvão que ameaça dirigir-se para Angola.
26 de Janeiro – Artigo de Per Wästberg no jornal sueco “Dagens Nyheter” com o título “Angola e Moçambique”, dá a conhecer a situação em Angola, bem como a prisão de A. Neto.
28 de Janeiro – José Gilmore (Holden Roberto) da UPA, é recebido em Túnis pelo Neo-Destour.
Janeiro – Regresso de Holden Roberto a Leopoldville e tentativa de mudança da direcção da UPA;

FEVEREIRO
4 de Fevereiro – Primeira acção armada de Libertação Nacional em Luanda
9 de Fevereiro – Savimbi escreve a Holden Roberto propondo união MPLA-UPA e envia cópia ao MPLA;
10 de Fevereiro – Savimbi informa a direcção do MPLA em Conakry que enviou uma carta a Holden Roberto e solicita o envio de um documento que o “identificasse como falando em nome do MPLA” na Suíça. Foi registado como membro do MPLA número nº20016.
28 de Fevereiro – São enviados a partir de Leopoldville Manuel Bernardo Pedro, Pedro Santos Rodrigues e Pedro Vida Garcia da UPA para organizar um levantamento no interior
Princípio de 1961 – Criação da FUA – Frente Unida de Angola.

MARÇO
1 de Março – O MDIA (Movimento para a Defesa dos Interesses de Angola) divulga o seu afastamento da UPA.
3 de Março – Hassan II é coroado Rei do Marrocos sucedendo ao seu pai.
3 de Março – Jonas Savimbi dá a conhecer ao CD do MPLA em Conakry que manteve um encontro com Holden Roberto e solicita apoio financeiro.
8 de Março – O Governo americano alerta Portugal sobre a possibilidade da eclosão de uma revolta em Angola na semana seguinte, mas Portugal não presta
a devida atenção.
8 de Março – Holden Roberto dá a conhecer ao CD do MPLA não poder responder ao convite para participar na Conferência de Casablanca (criação da CONCP).
14 de Março – Uma Revolta inicia na Fazenda Primavera e alastra-se por Santo António do Zaire, São-Salvador do Congo, Maquela do Zombo seguido por
Ambrizete, Negage, Mucaba, Sanza-Pombo, Nambuangongo, Quicabo e Quitexe, passando a controlar grande parte destes territórios durante cerca de cinco
meses.
15 de Março - Moção do Conselho de Segurança da ONU condena Portugal pela situação em Angola. Pela primeira vez, votam juntos os Estados Unidos e a União Soviética.
20 de Março – O New York Times, jornal americano, publica uma entrevista de Holden Roberto em que este deplora a extrema violência dos africanos no Norte de Angola referindo que alguns membros da sua organização estavam implicados nestes ataques mas negando que agissem sob as ordens da UPA. Dias depois, viria a assumir a paternidade plena da sua organização sobre os acontecimentos.
22 de Março – Manifestação de colonos em Luanda contra a representação americana.
25 a 31 de Março – 3ª Conferência dos Povos Africanos no Cairo, em que é aprovada uma moção sobre Angola apresentada pelo MPLA. Savimbi, na Suíça, informa Mário de Andrade que não consegue estar presente por falta de visto.
31 de Março – Aviação portuguesa bombardeia as áreas de Quimbele fazendo vários mortos e feridos.
31 de Março – Prisão do Cónego Manuel das Neves em Luanda.
Março – Início do treino militar de 24 elementos da UPA num campo militar argelino em território Tunisino.
Março ou Abril - J. Savimbi adere à UPA depois de longos contactos com o MPLA.

ABRIL
18-20 de Abril - 1ª Conferência das Organizações Nacionalistas das colónias Portuguesas CONCP em Casablanca (Marrocos) tendo como membros fundadores: Comité de Libertação de São Tomé e Príncipe – CLSTP; Goan League; Goan Liberation Council; Goan Peoples’ Party; Movimento de Libertação da Guiné e Cabo Verde – MLGC; Movimento Popular de Libertação de Angola – MPLA; National Congress (de Goa); Partido Africano da Independência da Guiné e Cabo Verde – PAIGC; União Democrática Nacional de Moçambique – UDENAMO; União Nacional dos Trabalhadores de Angola – UNTA. 
Mário de Andrade é eleito Presidente, Marcelino dos Santos – Secretário-Geral e Aquino de Bragança – Secretário para a Informação com Amália Lopes Fonseca (Cabo Verde).
20 de Abril - Resolução 1603 (XV) na 15ª Sessão da Assembleia-Geral das Nações Unidas incita o Governo português a promover urgentes reformas nas colónias. A resolução é aprovada também pelos EUA e é formado um Subcomité para investigar os acontecimentos em Angola.
25 de Abril - Joaquim P. Andrade é transferido de Príncipe para Aljube em Portugal.
Abril-Maio - Revoltas na Damba e regiões vizinhas. Revolta no Kunene, nas minas de Kassinga, e alastrando-se ao Cuvelai.
Abril-Maio - Edmundo Rocha e Graça Tavares seguem de Lisboa para França e Alemanha onde procedem ao contacto com organizações ecuménicas para a organização da saída de estudantes africanos de Portugal.

MAIO
de Maio - Queixa do Governo Português ao embaixador americano por causa de contactos entre o Gov. americano e Holden Roberto.
               - Chegada do Navio Niassa a Luanda, com o primeiro contingente de militares portugueses.
               - Perante o ataque de forças da UPA a Mucaba, a aviação portuguesa larga bombas de napalm na área.
8-12 de Maio - Conferência dos Chefes de Estados Africanos e Malgache em Monróvia (Libéria) contando com a participação de cerca de duas dezenas de Estados Africanos. Por Angola estavam presentes os presidentes do MPLA e da UPA, Mário P. de Andrade e H. Roberto.
12 de Maio - Mário de Andrade, Presidente do MPLA, encontrase com H. Roberto em Monróvia e apresenta a proposta de criação de uma frente unida e a criação da “Frente de Libertação de Angola” (FLA). Documento posteriormente rejeitado por H. Roberto.
13 de Maio - Início da ofensiva das forças coloniais portuguesas de forma violenta e indiscriminada com cerca de 6.000 homens no norte de Angola.
19 de Maio - H. Roberto critica posição de K. Nkrumah e S. Touré por apoiarem o MPLA.
20 de Maio - Começam as negociações entre o Governo Provisório Revolucionário Argelino (GPRA) e o governo Francês em Evian (França) com vista à independência da Argélia.
24 de Maio - O MPLA informa que estão a ser discutidas as modalidades para a criação duma Frente de Libertação de Angola com a UPA, e saúda a iniciativa de Nkrumah para a realização de um encontro de Chefes de Estado Africanos para analisar a situação de Angola.
25 a 31 de Maio - Conferência Sindical Pan-Africana realizada em Casablanca. Bernard Dombele participa pela UNTA que na altura já estava em contacto com o MPLA.
26 de Maio - 40 países apelam ao Conselho de Segurança para que se debruce sobre a situação em Angola. A 20 de Abril de 1961, na sua 15.ª Sessão, a Assembleia-Geral da ONU tinha aprovado a Resolução 1603(XV), que reconhecia o direito de Angola à independência, na base da qual foi criado o ‘Sub-Comité dos Cinco’ para acompanhar a situação em Angola. Pela 1ª vez os EUA votavam uma resolução sobre Angola contra Portugal.
28 de Maio - Partida de mais um contingente militar de Portugal para Angola.
30 de Maio - Nkrumah intervém no Parlamento com um longo discurso sobre Angola, apelando à unidade entre a UPA e a FRAIN.
31 de Maio - Forças do exército português, depois de vários combates, atingem a Damba no norte do Uíge.
Maio - A CONCP participa na Conferência de Accra onde Kwame Nkrumah apresenta o “My Point of View” sobre a luta contra o colonialismo português e o caso angolano.MAIO – Vários ataques da UPA a Sanza-Pombo, Mucaba, Damba, São-Salvador, Úcua, Santa-Cruz, Macocola, Bungo.
Maio - Cerca de 60.000 refugiados angolanos estão no Baixo-Congo (Congo-Léopoldville). Mais tarde, em Setembro de 1962, a Cruz Vermelha anunciaria 251.000 refugiados.
Maio - O Jornalista sueco Sven Öste do jornal Dagens Nyheter, acompanhado do Comandante Tomás Francisco Ferreira, visita áreas do MPLA na fronteira do Congo-Léo com Angola.
Maio - Dias depois de uma conversa de Falcão com Adriano Moreira, são presos pela PIDE e deportados para Portugal, elementos da Frente Unida de Angola (FUA).
Maio - Criado no Lobito o Comité Secreto Revolucionário do Sul de Angola (CSRSA) por jovens trabalhadores do Porto. Têm ligações com a UPA. Em Maio 63 transformam-se na União Nacional dos Africanos do Sul de Angola (UNASA).
Maio - O Pastor Jacques Beaumont do CIMADE estabelece contactos em Portugal para a organização da designada “Operação Angola”.

Junho
9 de Junho - Conselho de Segurança da ONU aprova resolução considerando os massacres e repressão da população angolana um risco para a paz e segurança internacionais.
15 de Junho - Saída clandestina de Portugal do 1º grupo constituído por 19 estudantes que passa pela Espanha e França e estabelece-se na Suíça.
23 de Junho - Início da saída clandestina de Portugal do 2º grupo com cerca de 50 elementos entre os quais mulheres e crianças em direcção à França via Espanha.
23 a 30 de Junho - ‘Semana de Angola’ decorre em vários países, por iniciativa da Organização de Solidariedade dos Povos da Ásia e da África (OSPAA). Em Conakry, o Presidente do MPLA, Mário de Andrade, apela ao boicote económico e diplomático de Portugal pelos países africanos.
28 Jun a 5 Jul - Em Winneba (Ghana), Conferência dos líderes nacionalistas de países africanos não independentes.
30 de Junho - O primeiro balanço oficial português da guerra em Angola refere 50 militares mortos, entre 4 de Fevereiro e 30 de Junho.
Junho - MPLA e UPA trocam correspondência com vista à constituição de uma Frente de Libertação de Angola (FLA), que não se concretizará.
Junho - Congo-Léopoldville - Marcos Kassanga é nomeado Chefe de Estado Maior do Exército de Libertação Nacional de Angola (ELNA), da UPA. Com apoio de Carlos Cassel (enviado pela Union Générale Tunisienne du Travail) e da Fédération Générale du Travail du Kongo, a UPA cria a Liga Geral dos Trabalhadores de Angola (LGTA) liderada por André Kassinda.

Julho
1 de Julho - Detenção do 2º Grupo durante mais de 24 horas pela polícia espanhola na fronteira com a França. Depois de libertos fruto de pressão de certos círculos internacionais, seguem para o CIMADE (Paris) onde se juntam a uma quinzena de estudantes saídos legalmente de Portugal. Entram em contacto com Mário de Andrade, Eduardo Mondlane e Marcelino dos Santos.

Agosto
2 de Agosto – Congo Léopoldville: Após o assassinato de Patrice Lumumba, Cyrille Adoula é eleito Primeiro-Ministro do governo de Kasavubu.
17 de Agosto - Chegada de Eduardo Mondlane ao CIMADE onde mantém contacto com os estudantes das colónias portuguesas.
21 de Agosto - São aprovados os Estatutos do CVAAR (Corpo Voluntário Angolano de Assistência aos Refugiados). A organização é dirigida por um Comité de Administração presidido por Américo Boavida.
23 de Agosto - 41 dos estudantes ainda no CIMADE, próximos do MPLA e do PAIGC, com o apoio da embaixada do Ghana e do advogado Jacques Vergés, saem clandestinamente de França e seguem para o Ghana via Alemanha onde tomariam diferentes rumos em função das indicações dos Movimentos ou por decisão particular.
26 de Agosto - Mário de Andrade e Gentil Viana têm um encontro com o ministro marroquino
para as questões africanas, Dr. Abdelkrim Khatib, que garante o apoio para a realização de uma Conferência de Estudantes em Casablanca.

Setembro
22 a 26 de Setembro - 1ª Conferência da UGEAN realizada em Marrocos com 31 estudantes das colónias portuguesas (22 de Angola, 3 da Guiné, 3 de São Tomé, 2 de Cabo Verde e 1 de Moçambique).

Outubro
7 de Outubro – Léopoldville: O MPLA abre oficialmente as suas instalações em Léopoldville, iniciando igualmente as actividades do CVAAR.
Outubro - A CONCP participa no Seminário em Nova Delhi sobre “Problemas das Colónias Portuguesas”.

Novembro
23 de Novembro - Chega a Winneba (Ghana) o primeiro grupo de jovens do MPLA para treino político-militar, liderado por José Mendes de Carvalho (Hoji-ya-Henda).
Novembro – Léopoldville: Publicação do primeiro boletim do CVAAR.

Dezembro
8 a 10 de Dezembro - Reunião de Estudantes Africanos das Colónias Portuguesas em Camp Green Lane, Pensilvânia nos EUA.

Obs: As entradas dessa cronologia estão a ser adicionadas conforme são publicados os artigos da série "Foi há 50 anos...". Por esse facto, só estarão completas quando a série acabar, no final do ano.

Angola - O 4 de Fevereiro – início da luta armada de libertação nacional

Um Acontecimento Decisivo

UM ACONTECIMENTO DECISIVO


A história faz-se de pequenos nadas, de muitas iniciativas, factos dispersos, que se vão juntando, ganhando coerência, quais pequenas linhas de água, afluentes que acabam por formar um rio, cujo início, o ponto a partir do qual o traço já não é mais possível dissimular no mapa da região, é marcado normalmente por um acontecimento que o torna irreversível.
Há 50 anos, o 4 de Fevereiro de 1961 foi esse acontecimento, na nossa história recente. O início do rio que aumentou de caudal, até desembocar no dia da independência nacional.
Todo esse percurso foi gerando sinais, deixando a sua marca através dos mais diversos testemunhos, inscrevendo na memória das pessoas novos acontecimentos, preocupações, motivos de reflexão. Dos pedaços de papel, às publicações, das entrevistas, aos livros, foi-se escrevendo a história, fazendo possível uma reconstituição dos acontecimentos tantos anos depois, mesmo se, muitas vezes, se geram visões diversas.
A história escreve-se com documentos, memórias, ...
Pretende assim a ATD, com recurso ao acervo documental que possui relacionado com o percurso do país rumo à sua independência, contribuir com a divulgação de documentos que permitam o estudo dos factos mais marcantes da história recente de Angola.
O 4 de Fevereiro não foi um acontecimento isolado. Foi o culminar de um processo de despertar de consciências, que se tinha iniciado nos finais do século XIX, com nomes ilustres da intelectualidade angolana, e se prolongou pelo século XX, num movimento que envolveu nacionalistas de toda a África, e que culminou com a independência das primeiras ex-colónias europeias em África, ainda na década de 50.
Nesse turbilhão de acontecimentos, em que nomes míticos da consciência negra, como W. B. Du Bois e Marcus Garvey, ou de nacionalistas africanos, como Nkrumah, Senghor, Kenyata e Lumumba, pontificavam, a participação de nacionalistas angolanos passou a ser uma constante. Foi um período de rara riqueza documental. O hábito da missiva, o recurso ao manifesto, a força do comunicado, permitem assinalar o percurso através de documentos únicos, ricos, que transmitem com particular transparência, a determinação, o espírito de missão, a enorme generosidade e ingenuidade de muitos dos seus actores, a par do calculismo, oportunismo e ganância, de outros.
Angola estava sob o domínio de uma potência colonial retrógrada, que era completamente cega aos sinais dos tempos. Com o agitar da situação política em África, em vez de se procurarem caminhos para uma resolução pacífica das legítimas reinvindicações dos povos dos países colonizados, incrementaram a repressão. O processo dos 50, o massacre da Baixa de Cassanje, são apenas dois exemplos dessa marcha no sentido oposto ao sentido da história.
O 4 de Fevereiro de 1961 marca o momento em que o nacionalismo angolano decidiu negociar por outros meios, recorrendo à luta armada. A natureza do acontecimento levou a que o secretismo tivesse mantido muita informação difícilmente acessível, o que torna a procura documental ainda mais pertinente. Na pesquisa cuidadosa, nomes míticos, heróis, vilões...
Cónego Manuel das Neves, Neves Bendinha, Paiva Domingos da Silva, inscreveram, entre tantos outros, os seus nomes na guerra de comunicados e nas análises que se seguiram.
O enorme simbolismo da tentativa de libertação dos companheiros encarcerados teve um significado que perdura. O quebrar das grilhetas, num hino que ecoou pelo país, e que ajudou a cerrar fileiras ao longo da dura guerra de libertação nacional. Foi há 50 anos...
A ATD, Associação Tchiweka de Documentação não podia deixar de assinalar esta data com um apelo para que um esforço de estudo das peças que compõem o puzzle da nossa história, se incremente. Que a juventude se interesse, para que as bases de uma consciência nacional saiam reforçadas com o estudo do passado, do percurso daqueles que caíram, para que hoje possamos construir o nosso próprio futuro.
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