domingo, 30 de dezembro de 2012

O Primeiro Combate de André Matsangaice - Renamo


Ao clarear o dia a chuva cessou, e os resisten-tes, alarmados, escutaram galos a cantar, portas a bater e vozes! O que durante a chuva e escuridão lhes pa-recera um mato cerrado, era-o de facto, mas minúsculo e vizinho dos quintais de várias casas, ocupadas por guerrilheiros da Zipa, organização que fazia ataques às herdades rodesianas próximas da fronteira! Os terroristas, durante todo o dia passaram muito perto do grupo, conversando des-preocupadamente, com suas AK47 a tiracolo, calções e berrantes chapéus.

Afinal, estavam na sua base! Os resistentes descobririam mais tarde que toda a zona fronteiriça era ocupada por terroristas que habitavam as vilas de onde a população foi obrigada a mudar-se paraas aldeias comunais, nome dado aos aglomerados idênticos aos al-deamentos portugueses, tão combatidos pela Frelimo. Além dos guerrilheiros da Zipa, ocupam postos fortificadosde defesa forças regulares do Exército Tanzaniano, assistidos por técnicos rus-sos e auxiliados por cubanos.

A Frelimo é incapaz de controlar o seu próprio território, e o povo sofre as consequências do racismo e tribalismo das tropas estrangeiras. Os oito homens, deitados, esperavam que chovesse ou que a noite chegasse depressa, mas o céu estava limpo e o dia arrastava-se. Com os ner-vos tensos, aguardavam. Por volta das 16.30, quando só faltavam duas horas para escurecer, vozes começaram a aproximar-se. Silenciosamente as armas foram empunhadasenquanto os terroris-tas entravam pelo matodentro. Provavelmente seguiam a pista deixada pelo grupo.

O comandante Manuel e o Silveira ajoelha-ram-se, lado a lado, e apontaram as suas armas na direcção de onde deveria surgir o inimigo. Os outros, deitados, fizeram o mesmo. Devido à vegetação, os terroristasdeveriam aproximar-se sem vê-los até 4 ou 5 metros de distância. Já podiam distingui-los; um barulho imprevisto, e os ouvidos treinados escutaram o seco som metálico da patilha de segurança duma AK a ser destravada. Um segundo depois, e o mato encheu-se dos estampidos das diversas armas e da estridente rajada das Kalachnikovs. De relance viram as balas a entrar nas árvores e no chão, estraçalhando de passagem as pernas do caçador-guia, ao mesmo tempo que um outro levavaa mão ao braço, atin-gido, mas continuando a disparar.

Viram também os inimigos a cair. Ouviu-se gritar e chorar, se-guido de um gorgolejar, indicativo de balas no pulmão. Os terroristas fugiam, gritando, enquan-to o pânico se apossava da aldeia que acreditou tratar-se de um ataque emmassa da Rodésia. Isso salvou o pequeno grupo. Três inimigos estavam es-tendidos com o peito atingido, mortos. Mais abaixo, outro escapava, ferido. As suas armas foram imediatamente apanhadas juntamente com os cinturões e porta-carregadores. Tinham de sair dali com rapidez.

A sua volta o terreno era aberto, apenas com capim, e teriam que atravessá-lo para chegar a um morropróximo, onde poderiam resis-tir. Cercados de casas, em pleno dia, dentro de uma base inimiga, arrastando um ferido grave, a situação apresentava-se difícil aos oito homens. Foi ordenado a dois que abandonassem as mo-chilas para carregar o ferido. Mas tudo isso tinha que ser feito rápido, antes que o inimigo, des-cobrindo que se tratava deum pequeno grupo, os cercasse. A perna quase seccionada por duas balas balançava quando o caçador-guia era transpor-tado. Gritava de dor.

Pensando rapidamente, o comandante Manuel viu que nadapoderiam fazer para tratá-lo em pleno matoe, além disso, a partir de agora seriam perseguidos; teria que ser sa-crificado, para que o resto do grupo, com apenas um ferido leve, deslocando-se veloz, se salvasse. E sendo capturado, poderia ser tratado, en-quanto que na selva, a gangrena logo tomaria conta da perna. Issofoi-lhe dito, e ele aceitou, sereno. Retirou o anel e o relógio,entregando-os ao chefe, para que, se pudesse, um dia o desse à sua mãe, já idosa. Um aperto de mão e os sete homens corren-do pelo capim aos ziguezagues procuraram atingir o cimo do morro.

Numa protecção há muito de-sejada, começou a chover torrencialmente, fa-cilitando a fuga. Com o coração apertado, es-cutavam os gritos de dorlançados pelo compa-nheiro abandonado. Mas não havia ocasião para lamentos e todos sabiam que se arriscavam ao mesmo, ou à morte, dia a dia. No topo do morro, o ferido leve foi medicado, e seguiram em frente. Duas noites depois, estavam num lugar seguro, tendo despistado o inimigo. Mas haviam sido localizados por alguém que após a notícia do curto combate começara a procurá-los.

— Irmãos!
Os resistentes, surpreendidos, agarraram as
armas e deitados olhavam em torno, desorien-tados.
— Sou amigo!
— Se é amigo, avance!
E um africano, com a farda da Frelimo e armado de AK, aproximou-se com um sorriso nos lábios, estendendo a mão.

— Eu sou o comandante André, e estou lutan-do contra a Frelimo, como vocês. Estão mal aqui! Passa muito "zipa" neste mato! Vêm comigo que acaba problema todo! Conversaram ainda cerca de uma hora, a prin-cípio desconfiados, mas acabaram por se conven-cer. O comandante André lutara muitos anos na Frelimo mas, com a independência, vira que os seus chefes agiam pior que os "colonialistas", e começou a protestar. Enviado para o campo de prisioneiros Sacudzo, na Gorongosa, de lá se evadira. Sendo conhecido e estimado, logo conseguira vários seguidores que agora realizavam ac-ções contra os antigos companheiros de guerra mentalizados por Moscovo.

A união com os gruposdispersos, sonhada pelos C.E., estava a concretizar-se e a Resistência passou a ter um braço maisforte, naquele dia. Guiados por André, caminharam vários dias, tendo-se-lhes juntado mais dois africanos armados, que esperavam pelo seu chefe, num ponto ante-riormente designado. Riam muito do bizarro armamento dos brancos, ao mesmo tempo satisfeitos pelo reforço. A base era uma velha machamba, há muito abandonada e que o mato isolou completamente. Possuíam terrenosminados, como faziam nas antigas bases da Frelimo e inclusive RPGs, Explosivos e armas extras, resultado de vários encontros com o inimigo.

Não tinham problemas de caça, pesca ou água, e sempreque era preciso, um dos homens deslocava-se à vila para comprar o que faltava, passeando muitas vezes pelas ruas, far-dado e armado como sefosse membro das FPLM Forças Populares de Libertação de Moçambique, o exército moçambicano). Durante semanas, os dois grupos trocaram as suas experiências. As 22 com os silenciadores foram de grande utilidade para a obtenção de comida sem problemas de barulho. Já armados de AK, iniciaram as ope-rações, sempre em zonas muito distantes da base. Possuíam também panfletos toscamente feitos, mas que eram entendidos pelos africanos e cujas cópias eram tiradas no próprio quartel da FPLM, por um colaborador!

A luta continua!

Com um grupo forte, o comandante André pôde realizar um velho sonho: libertar na Gorongosa, do campo de prisioneiros Sacudzo, onde es-tivera internado, os restantes prisioneiros. Através de um preciso esquema do campo e conhecedor da rotina de segurança, planeou-se o ataque. 1200 prisioneiros viviam num regime de fome e terror. Dividido em dois complexos, um alojava os elementos da Frelimo e suas famílias, que viviam à grande, usando os presoscomo escravos, com boas casas, fartas "machambas"e criação de aves.

No bom estilo fascista, ascasas do comandante do campo, comissário, etc, eram privilegiadas e separadas das outras onde viviam os elementos mais baixos da Frelimo.No outro complexo, as casas de barro, sem portas, muitas vezes sem telhado, alojavam dez vezes mais pessoas do que a sua real capacidade. Não havia camas, nem ca-deiras, nem mesas. O melhor edifício era a cadeia, sólido, sem janelas, onde às vezes se comprimiam centena e meia de pessoas.

Os prisioneiros eram acordados antes das 04.00 e descalços, com uma sumária tanga confeccionada com sacos de fa-rinha, ou com esfarrapadas calças, eram levados, sem nada comer, para asmachambas, trabalhan-do sem cessar até às 13.00, quando lhes era dis-tribuída uma ração de massa que mal chegaria para uma criança e às vezesum pouco de feijão ou peixe, este geralmente estragado, e que fora re-cusado por qualquer quartel da Frelimo. As visitas dos "altos dignitários" acompanhados por jor-nalistas eram saudadas com real entusiasmo pelos prisioneiros. Simplesmente porque, nesse dia, comiam como seres humanos, massa bem feita, bom caril, vestiam fardas que estavam guardadas no depósito e tinham uma rotina extremamente suave, até com horas de dança e canto!

E os jornalistas, encantados com a farsa, com muitas fotos no bolso, iam fazer o jogodos carrascos elogiando a "candura" com que se tratava dos reaccionários em Moçambique, um país livre...Aos resistentes surgiu o problema de muitos presos não terem condições para lutar nas guer-rilhas e não poderem ser obrigados a isso. Resol-veu-se então, em caso de sucesso na operação, dividir os libertos, sendo que os não combatentes seriam guiados até à fronteira da Rodésia, onde se entregariam às autoridades e poderiam viver li-vremente.

O ataque ao campo foi levado a cabo pelo comandante André, depois de uma longa cami-nhada, e apanhou o inimigo totalmente desprevenido, ao mesmo tempo que o comandante Manuel e seus homens realizavam missões de sabotagem para desorientar a Frelimo. Apenas um dos libertos foi morto durante a fuga, e alguns outros ficaram para trás, esgotados. O grupo que foi até à fronteira interceptou um tractor com um reboque, e seguiram pela estrada asfaltada, tendo até parado para reabastecê-lo, dizendo-se soldados das FPLM que transportavam prisioneiros!

Num ruído infernal, astropas tanzanianas abriram fogo de cima dos morros, com metra-lhadoras pesadas, sobre os fugitivos quando estes já quase alcançavam a liberdade. Dispersaram-se entre as árvores, correndo em direcção às mon-tanhas que assinalavam a Rodésia, e algumas horas depois agrupavam-se, sem forças, feridos, mas salvos, quase todos. Soube-se depois que foram recolhidos numa estrada por civis rode-sianos e entregues às autoridades que os acolheram com simpatia e compreensão.

Os libertos que quiseram ser combatentes, estes, após recuperarem durante quase um mês da subnutrição e sevícias sofridas em Sacudzo, começaram a receber instrução, a cargo do comandante Manuel. Uma visita, com os olhos vendados, foi conduzida até eles: um repórter da Rádio África Livre, porta-voz de todos os resistentes. Gravou uma entrevista com os libertos para que todo Moçambique soubesse o que se passara.

Cerca de dois meses depois de libertados, um jeep da Frelimo foi atacado numa emboscada montada pelos ex-prisioneiros de Sacudzo, que assim se integravam definitivamente na luta contra a escravidão em África. ELNA, ex-Frelimos, ex-prisioneiros, ex-Comandos Especiais, africanos e portugueses, gritam bem alto para os russos e cubanos:
"A luta continua!"

COMANDOS ESPECIAIS EM MOÇAMBIQUE


Kinshasa, Hotel le Fleuve. Um grupo baru-lhento de civis, barbudos e magros, espalha-se pela esplanada, bebendo e conversando. Um papel passa de mão em mão. Escrevem ali um destino para as passagens que dentro em breve lhes serão distribuídas. Saboreavam a paz. O abatimento de ter per-dido uma guerra, estampado nos magros rostos, não atingia porém o sentimento de honra dos que sabiam ter lutado maise melhor que nenhum outro. Durante meses, eles representaram todo um exército.

Lisboa, Madrid, Rio deJaneiro, Londres, Salisbúria, Paris.Os homens que foram expulsos pela máquina de guerra russa da Pátria que es-colheram e ajudaram a construir dissolvem-se apátridas, pelo mundo. Alguns ficam em Kin-shasa. Outro, recém-saído do hospital, recebeu um bilhete para a morte. Inconformado com a derrota, uniu-se aos mercenários apesar dos avisos dos companheiros e morre em combate, dias depois, inutilmente. Não chegou a  conhecer a filha, que nascera em Salisbúria, quando estava já em Ambriz.

Os embarques começaram no dia 14 de Fe-vereiro e, quatro dias depois, apagavam-se os úl-timos sinais do grupo em África. Apagavam-se os últimos sinais do grupo em si, pois mal passaram alguns meses e, já recuperados fisicamente, irritados com a prepotência russo--cubana no continente negro, voltavam à acção, isolados ou em grupos. O gérmen da luta anti-comunista, em defesa da liberdade, contaminara--os.
 
7 de Setembro de 1974... Aqui fala Rádio Moçambique Livre! Os verdadeiros moçambicanos, por nascimento ou por amor àquela terra adoptiva, recusavam-se a deixar a sua pátria morrer sem sequer lutar. Ocuparam o Rádio Clube de Moçambique, em Lourenço Marques, e decidiram lutar pela ver-dadeira independência. O impacto foi tremendo e mostrou o pensamento da maioria: as emissoras de rádio regionais aderiram e todo o país se levantou.
 
Faltou infelizmente continuidade e a força das armas, pois, na sua espontaneidade, o povo não se  preparou contra a brutalidade de um inimigo maquiavélico e não previu a perfídia do governo de Lisboa. A repressão foi indiscutível. Sob o olhar con-descendente das tropas regulares comandadas por oficiais que haviam aderido ao MFA) pois as "es-peciais" estavam, infelizmente, longe de Lourenço Marques), os terroristas da Frelimo, juntamente com os marginais que pululavam na cidade, mataram, violaram, saquearam, na segurança do clima ' 'revolucionário'' sancionado por Lisboa.
 
A voz da esperança foi calada pela repressão brutal. Blindados avançaram contra mulheres e crianças e até tractores foram usados para cercara multidão desarmada. Mas a traição, a covardia e a perfídia não ficaram por aí. Sabendo que lutavam contra a vontade da maioria, os homens da "revolução sem sangue" enviaram, para reforçar as suas posições, a Força Aérea, a Marinha e aviões fretados da DETA, fazendo uma ponte à Tanzânia e trazendo centenas de soldados do exército regularde Nyerere; em cada grupo, um ou outro "frelimo", para melhorar a farsa, pois ninguém ali sabia falar português... Eram as "gloriosas" Forças Populares de Libertação de Moçambique que chegavam a Lourenço Marques transportadas pelos meios postos à disposição pelo próprio MFA!
E a garra de aço foi-se apertando e consolidando...

Esboçaram-se ainda alguns movimentos, na África do Sul e Rodésia, mas sem grandes resul-tados. Num pequeno escritório da Baker Avenue, em Salisbury, Miguel Murupa, intelectual negro de Moçambique, tentava organizar um exército. Mas cercado de oportunistas e incompetentes, falhou no
seu intento. Moçambique, abandonada à sua sorte, foi, de humilhação em humilhação, abusos e massacres, caminhando para a ditadura feroz da Frelimo...Surgem notícias de novoscombates ao Norte de Angola. A dura lição fora aprendida, e o ELNA ensaia novamente os primeiros passos. Voltou ao princípio, à guerrilha. Holden Roberto, depois do resultado negativo dos mercenários, dispensou-os e não voltou a abrir o recrutamento. Os europeus aceites actualmente são osque já combatiam an-tes, todos portugueses, não mercenários.
 
Os cubanos, apesar dos constantes reforços, só lutam nas estradas, temendo entrar nas selvas. As guarnições dos quartéis vivem como que ilhadas, ligadas por picadas perigosas, onde sempre uma emboscada os espera. O Villa voltou à sua antiga zona, com a maior parte dos seus homens. O "Rebel" também lá es-tá, com os velhos amigos. Até agora só tem con-seguido triunfos. A selva é a sua casa e em cada emboscada prova o sabor dadesforra. Já não há "Comandos Especiais", mas alguns destes, ve-teranos, lutam ombro a ombro, em igualdade de condições com seus antigos subordinados, nos mesmos locais onde foram há um ano derrotados. Em Salisbúria, no jornal Rhodesian Herald, uma foto e uma notícia: "Trooper Francisco Duarte da Costa (31) Killed by terrorists at Honde Valley on monday..."

Francisco Costa. Um Comando Especial. Um dos componentes do grupo de combate do transportador blindado. De Kinshasa havia ido para a Rodésia e recuperou-se. Mas considerou Angola apenas uma batalha, a guerra continuava e o inimigo do novo país era o mesmo. Os comandos rodesianos aceitaram-no juntamente com outros companheiros vindos de Angola. O Exército ro-desiano, ao contrário do que se pensa, não é uma organização de mercenários. Todos são tratados da mesma maneira, estrangeiros ou nacionais, todos passam por uma recruta, mesmo os que têm longa experiência militar,e o soldo é equivalente ao de qualquer exército de outros países, e não as "somas fabulosas" que se dizem. A disciplina é rigidamente inglesa, e primam pelo seu cava-lheirismo e eficiência.

Numa épica batalha, em Dezembro de 1976, sessenta comandos, em Honde Valley, comba-teram, de cima de uma colina, contra um grupo inimigo estimado em 200 homens. Durante horas, a situação foi indecisa, e depois começou a pender a favor dos Comandos. As dezenas de cadáveres desencorajaram o inimigo que bateu em retirada. Entre os coman-dos, uma dezena de feridose apenas um morto, Francisco da Costa. A audácia tem sempre um alto preço. Mas outro dos "Especiais" ainda se man-tém de arma na mão, envergando o uniforme rodesiano.

Também de arma na mão, mas com outro uniforme, o comandante Manuel, do grupo blin-dado, sentado na lama e cercado de árvores e cipós, conversa em voz baixa com os seus homens. O local, algures na margem sul do rio Zam-beze, perto de Vila Gouveia, em Moçambique. As armas, AK-47. Os uniformes, uma mistura es-farrapada de roupas civis,fardas da Frelimo, camuflados portugueses, rodesianos, zambianos.

A sua frente, sentado, o condutor da AML 60 que foi atingida a 100 metrosda ponte de Quifangondo e conseguiu voltar; ao lado, encostados a uma árvore, outros dois "especiais". A volta, alguns europeus e muitos africanos. Trata-se de um grupo da Resistência Nacional Moçambicana. O inimigo
aqui é a Frelimo e o exército invasor tanzaniano,  além da famigerada Brigada Internacional e os mercenários cubanos.  Tal como os companheiros no Norte de Angola, também aqui fazem da guerrilha a sua forma de lutar contra os que escravizam o povo em favor do império colonial russo. regressando da Europa e do Brasil, os antigos "especiais" reuniram-se em Salisbúria.

Unia-os a mesma vontade de lutar contra as ditaduras dos seus países adoptivos: Angola e Moçambique. Embora a guerrilha da FNLA em Angola já actuasse com sucesso, em Moçambique a acti-vidade guerrilheira era dispersa, sem orientação, não obstante todo o território pulular de resistentes. Decidiram-se então pelacriação de um grupo que, em contacto com osoutros patriotas moçambicanos espalhados pela selva, os orientasse e pudesse dar um melhor resultado e objectividade à luta. Mas não havia dinheiro nem armas. Havia porém a força de vontade e a confiança inabalável dos Comandos Especiais.

O mais difícil foi passar despercebido dos Serviços de Informação rode-sianos. Apesar do inimigo comum, o governo da Rodésia não permitiria a formação de grupos ar-mados dentro do seu território. Foram contactados vários homens de negócios portugueses e moçam-bicanos, e as contribuições em dinheiro começaram a aparecer. A comunidade portuguesa, apesar de enganada várias vezes por falsos líderes, ajudou o mais que pôde. Desta vez não haveria políticos mas sim sol-dados.

Primeiro a luta armada, depois, quando houvesse condições, é que se trataria da política. Um dos antigos CE., Silveira, comprou um velho Land-Rover e colocou-o à disposição do grupo, além de todo o seu restante dinheiro. Através de consultas aos jornais, as armas foram compradas para o grupo inicial de 8 homens: três carabinas 22, com mira telescópica e silenciador, uma Lee Enfield 303, uma Winchester 33, uma Hornet, uma pistola Colt 32 e uma Beretta 9 mm.

Foi com este heterogéneo armamento, e com a pouca munição disponível que se iniciaram as emboscadas, a fim de conseguir melhor armamento (Kalachnikovs) capturado ao inimigo. Estas armas estiveram guardadas durante algum tempo no ar-mário da pensão onde viviam alguns do grupo. Mas, com receio de uma rusga, alugou-se um pequeno apartamento e numa noite foram transportadas para lá, no Land-Rover, embrulhadas em mantas.

Em casas de campismo, compraram-se mo-chilas, cinturões, cantis, capas, botas. Remédios, vitaminas e carne secacompletavam a carga. Como chefe do grupo ficou o CE. Manuel, ex-comandante do grupo blindado em Angola. Seriam oito homens, mas procurariam angariar voluntários durante a campanha. Um caçador--guia moçambicano, que conhecia várias passagens na fronteira, foi contactado para guiá-los até Moçambique; um português que trabalhava num escritório tirou 400 cópias de um panfleto, escrito para explicar aopovo quem eram e o que pretendiam. Conseguiram ainda camuflados rodesianos e portugueses.

Tudo preparado, e numa noite de Janeiro de 1977, o velho Land Rover, completamente carregado, deixou Salis-búria em direcção a Untali, e dali para a fron-teira. O perigo que se apresentava agora era o de caírem numa emboscada das forças rodesianas, além das minas antipessoais. Deixaram a estrada, internando-se na selva, enquanto que o veículo voltava para Salisbúria, conduzido por outro CE. Esperaram o entardecer e desceram pelo trilho, atravessando a fronteira cautelosamente. As mochilas pesavam, o fraco ar-mamento preocupava-os, mas já se sentiam no seu elemento.

Não haviam perdido a guerra —pois ela continuava — e ali estavam eles, de arma na mão, mais uma vez, para mostrar ao mundo que a ver-gonhosa invasão russo-cubana em África não seria aceite sem reacção. A época de chuvas ajudava-os e, debaixo de um pesado temporal, caminharam despercebidos entre aldeias, até de madrugada. Vencidos pela fadiga devido ao peso que transportavam às costas, entraram por um mato cerrado, para ali dormir e passar o dia, continuando a mar-cha somente ao anoitecer. Só andariam à noite, até encontrar o sítio ideal para a sua guerrilha e para uma base.

O primeiro combate

Ao clarear o dia a chuva cessou, e os resisten-tes, alarmados, escutaram galos a cantar, portas a bater e vozes! O que durante a chuva e escuridão lhes pa-recera um mato cerrado, era-o de facto, mas minúsculo e vizinho dos quintais de várias casas, ocupadas por guerrilheiros da Zipa, organização que fazia ataques às herdades rodesianas próximas da fronteira! Os terroristas, durante todo o dia passaram muito perto do grupo, conversando des-preocupadamente, com suas AK47 a tiracolo, cal-ções e berrantes chapéus.

Afinal, estavam na sua base! Os resistentes descobririam mais tarde que toda a zona fronteiriça era ocupada por terroristas que habitavam as vilas de onde a população foi obrigada a mudar-se paraas aldeias comunais, nome dado aos aglomerados idênticos aos al-deamentos portugueses, tão combatidos pela Frelimo. Além dos guerrilheiros da Zipa, ocupam
postos fortificadosde defesa forças regulares do Exército Tanzaniano, assistidos por técnicos rus-sos e auxiliados por cubanos.

A Frelimo é incapaz de controlar o seu próprio território, e o povo sofre as consequências do racis-mo e tribalismo das tropas estrangeiras. Os oito homens, deitados, esperavam que chovesse ou que a noite chegasse depressa, mas o céu estava limpo e o dia arrastava-se. Com os ner-vos tensos, aguardavam. Por volta das 16.30, quando só faltavam duas horas para escurecer, vozes começaram a aproximar-se. Silenciosamente as armas foram empunhadasenquanto os terroris-tas entravam pelo matodentro. Provavelmente seguiam a pista deixada pelo grupo.

O comandante Manuel e o Silveira ajoelha-ram-se, lado a lado, e apontaram as suas armas na direcção de onde deveria surgir o inimigo. Os outros, deitados, fizeram o mesmo. Devido à vegetação, os terroristasdeveriam aproximar-se sem vê-los até 4 ou 5 metros de distância. Já po-diam distingui-los; um barulho imprevisto, e os ouvidos treinados escutaram o seco som metálico da patilha de segurança duma AK a ser destra-vada. Um segundo depois, e o mato encheu-se dos estampidos das diversas armas e da estridente rajada das Kalachnikovs. De relance viram as balas a entrar nas árvores e no chão, estraçalhando de passagem as pernas do caçador-guia, ao mesmo tempo que um outro levavaa mão ao braço, atin-gido, mas continuando a disparar.

Viram também os inimigos a cair. Ouviu-se gritar e chorar, se-guido de um gorgolejar, indicativo de balas no pulmão. Os terroristas fugiam, gritando, enquan-to o pânico se apossava da aldeia que acreditou tratar-se de um ataque emmassa da Rodésia. Isso salvou o pequeno grupo. Três inimigos estavam es-tendidos com o peito atingido, mortos. Mais abaixo, outro escapava, ferido. As suas armas foram imediatamente apanhadas juntamente com os cinturões e porta-carregadores. Tinham de sair dali com rapidez.

A sua volta o terreno era aberto, apenas com capim, e teriam que atravessá-lo para chegar a um morropróximo, onde poderiam resis-tir. Cercados de casas, em pleno dia, dentro de uma base inimiga, arrastando um ferido grave, a situação apresentava-se difícil aos oito homens. Foi ordenado a dois que abandonassem as mo-chilas para carregar o ferido. Mas tudo isso tinha que ser feito rápido, antes que o inimigo, des-cobrindo que se tratava deum pequeno grupo, os cercasse. A perna quase seccionada por duas balas balançava quando o caçador-guia era transpor-tado. Gritava de dor.

Pensando rapidamente, o comandante Manuel viu que nadapoderiam fazer para tratá-lo em pleno matoe, além disso, a partir de agora seriam perseguidos; teria que ser sa-crificado, para que o resto do grupo, com apenas um ferido leve, deslocando-se veloz, se salvasse. E sendo capturado, poderia ser tratado, en-quanto que na selva, a gangrena logo tomaria conta da perna. Issofoi-lhe dito, e ele aceitou, sereno. Retirou o anel e o relógio,entregando-os ao chefe, para que, se pudesse, um dia o desse à sua mãe, já idosa. Um aperto de mão e os sete homens corren-do pelo capim aos ziguezagues procuraram atingir o cimo do morro.

Numa protecção há muito de-sejada, começou a chover torrencialmente, fa-cilitando a fuga. Com o coração apertado, es-cutavam os gritos de dorlançados pelo compa-nheiro abandonado. Mas não havia ocasião para lamentos e todos sabiam que se arriscavam ao mesmo, ou à morte, dia a dia. No topo do morro, o ferido leve foi medicado, e seguiram em frente. Duas noites depois, estavam num lugar seguro, tendo despistado o inimigo. Mas haviam sido localizados por alguém que após a notícia do curto combate começara a procurá-los.

— Irmãos!
Os resistentes, surpreendidos, agarraram as
armas e deitados olhavam em torno, desorien-tados.
— Sou amigo!
— Se é amigo, avance!
E um africano, com a farda da Frelimo e armado de AK, aproximou-se com um sorriso nos lábios, estendendo a mão.

— Eu sou o comandante André, e estou lutan-do contra a Frelimo, como vocês. Estão mal aqui! Passa muito "zipa" neste mato! Vêm comigo que acaba problema todo! Conversaram ainda cerca de uma hora, a prin-cípio desconfiados, mas acabaram por se conven-cer. O comandante André lutara muitos anos na Frelimo mas, com a independência, vira que os seus chefes agiam pior que os "colonialistas", e começou a protestar. Enviado para o campo de prisioneiros Sacudzo, naGorongosa, de lá se evadira. Sendo conhecido e estimado, logo con-seguira vários seguidores que agora realizavam ac-ções contra os antigos companheiros de guerra mentalizados por Moscovo.

A união com os gruposdispersos, sonhada pelos C.E., estava a concretizar-se e a Resistência passou a ter um braço maisforte, naquele dia. Guiados por André, caminharam vários dias, ten-do-se-lhes juntado mais dois africanos armados, que esperavam pelo seu chefe, num ponto ante-riormente designado. Riam muito do bizarro ar-182  namento dos brancos, ao mesmo tempo satisfeitos pelo reforço. A base era uma velha machamba, há muito abandonada e que o mato isolou comple-amente. Possuíam terrenosminados, como fazi-am nas antigas bases da Frelimo e inclusive RPGs, Explosivos e armas extras, resultado de vários encontros com o inimigo.

Não tinham problemas de caça, pesca ou água, e sempreque era preciso, um dos homens deslocava-seà vila para comprar o que faltava, passeando muitas vezes pelas ruas, far-dado e armado como sefosse membro das FPLM Forças Populares de Libertação de Moçambique, o exército moçambicano). Durante semanas, os dois grupos trocaram as suas experiências. As 22 com os silenciadores foram de grande utilidade para a obtenção de comida sem problemas de barulho. Já armados de AK, iniciaram as ope-rações, sempre em zonas muito distantes da base. Possuíam também panfletos toscamente feitos, mas que eram entendidos pelos africanos e cujas cópias eram tiradas no próprio quartel da FPLM, por um colaborador!
A luta continua!

Com um grupo forte, o comandante André  pôde realizar um velho sonho: libertar na Gorongosa, do campo de prisioneiros Sacudzo, onde es-tivera internado, os restantes prisioneiros. Através de um preciso esquema do campo e conhecedor da rotina de segurança, planeou-se o ataque. 1200 prisioneiros viviam num regime de fome e terror. Dividido em dois complexos, um alojava os ele-mentos da Frelimo e suas famílias, que viviam à grande, usando os presoscomo escravos, com boas casas, fartas "machambas"e criação de aves.

No bom estilo fascista, ascasas do comandante do campo, comissário, etc, eram privilegiadas e separadas das outras onde viviam os elementos mais baixos da Frelimo.No outro complexo, as casas de barro, sem portas, muitas vezes sem telhado, alojavam dez vezes mais pessoas do que a sua real capacidade. Não havia camas, nem ca-deiras, nem mesas. O melhor edifício era a cadeia, sólido, sem janelas, onde às vezes se comprimiam centena e meia de pessoas.

Os prisioneiros eram acordados antes das 04.00 e descalços, com uma sumária tanga confeccionada com sacos de fa-rinha, ou com esfarrapadas calças, eram levados, sem nada comer, para asmachambas, trabalhan-do sem cessar até às 13.00, quando lhes era dis-tribuída uma ração de massa que mal chegaria para uma criança e às vezesum pouco de feijão ou peixe, este geralmente estragado, e que fora re-cusado por qualquer quartel da Frelimo. As visitas dos "altos dignitários" acompanhados por jor-nalistas eram saudadas com real entusiasmo pelos prisioneiros. Simplesmente porque, nesse dia, comiam como seres humanos, massa bem feita, bom caril, vestiam fardasque estavam guardadas no depósito e tinham uma rotina extremamente suave, até com horas de dança e canto!

E os jornalistas, encantados com a farsa, com muitas fotos no bolso, iam fazer o jogodos carrascos elogiando a "candura" com que se tratava dos reaccionários em Moçambique, um país livre...Aos resistentes surgiu o problema de muitos presos não terem condições para lutar nas guer-rilhas e não poderem ser obrigados a isso. Resol-veu-se então, em caso de sucesso na operação, dividir os libertos, sendo que os não combatentes seriam guiados até à fronteira da Rodésia, onde se entregariam às autoridades e poderiam viver li-vremente.

O ataque ao campo foi levado a cabo pelo comandante André, depois de uma longa cami-nhada, e apanhou o inimigo totalmente desprevenido, ao mesmo tempo que o comandante Manuel e seus homens realizavam missões de sabotagem para desorientar a Frelimo. Apenas um dos libertos foi morto durante a fuga, e alguns outros ficaram para trás, esgotados. O grupo que foi até à fronteira interceptou um tractor com um reboque, e seguiram pela estrada asfaltada, tendo até parado para reabastecê-lo, dizendo-se soldados das FPLM que transportavam prisioneiros!

Num ruído infernal, astropas tanzanianas abriram fogo de cima dos morros, com metra-lhadoras pesadas, sobre os fugitivos quando estes já quase alcançavam a liberdade. Dispersaram-se entre as árvores, correndo em direcção às mon-tanhas que assinalavam a Rodésia, e algumas horas depois agrupavam-se, sem forças, feridos, mas salvos, quase todos. Soube-se depois que foram recolhidos numa estrada por civis rode-sianos e entregues às autoridades que os acolheram com simpatia e compreensão.

Os libertos que quiseram ser combatentes, estes, após recuperarem durante quase um mês da subnutrição e sevícias sofridas em Sacudzo, começaram a receber instrução, a cargo do comandante Manuel. Uma visita, com os olhos vendados, foi conduzida até eles: um repórter da Rádio África Livre, porta-voz de todos os resistentes. Gravou uma entrevista com os libertos para que todo Moçambique soubesse o que se passara.

Cerca de dois meses depois de libertados, um jeep  da Frelimo foi atacado numa emboscada montada pelos ex-prisioneiros de Sacudzo, que assim se integravam definitivamente na luta contra a escravidão em África. ELNA, ex-Frelimos, ex-prisioneiros, ex-Comandos Especiais, africanos e portugueses, gritam bem alto para os russos e cubanos:
"A luta continua!"

PORQUE NÃO CONQUISTAMOS LUANDA


Por Gilberto Santos e Castro

Estamos em Agosto de 1975. Um pequeno grupo de portugueses desembarca em Angola  para ajudar a impedir a sua entrega ao colonialismo soviético. Eram poucos. Iriam porém, mostrar em valentia sem par e altruísmo sem preço, a vontade de todo o povo real que, perplexo e traumatizado, estava incapaz de reagir à mais aviltante farsa de toda a sua História. Em nome de um povo ima-ginário e de liberdades paranóicas — aliás tolhidas a cada passo em pesados preços de sangue e de fome — todos assistimos à maior mentira do século: a "independência" de Angola.
Qual Angola? A que víramos próspera, virada ao futuro, na preocupação do bem estar das suas gentes, na riqueza da sua história, no valor da sua cultura, na grandeza e na dimensão do seu viver? Ou a que encontramos destruída, com os povos famintos a fugir de um lado a outro, para morrerem mais tarde? A que encontrámos em gritos de dor e pedindo a nossa ajuda, uma palavra de esperança, uma afirmação de que tudo era pesadelo e de que voltariam à tranquilidade do seu viver?
Qual independência? A que trouxe a Angola a ocupação colonial por um exército estrangeiro, em flagrante conquista militar, sem quaisquer laços que liguem o povo aos ocupantes, para além da anuência de uma minoria dirigente e totalitária e porque um governo, em Lisboa — provisório mas  definitivamente irresponsável — o consentiu também? O que pensa realmente deste facto  trágico o povo português e desgraçadamente o  que pensará o povo de Angola? Foi um grupo pequeno que se bateu contra isto  tudo. Merecem por isso o respeito e a
consideração de todos os portugueses. Por se
terem batido e porque se bateram bem.
Alguns pagaram cara a sua dádiva. E quando
no pequeno cemitério do Ambriz desceram à
terra, com toda a população a assistir em
religioso silêncio, com  as honras devidas e
cobertos com a Bandeira Portuguesa, repetia-se
apenas o que ao longo dos séculos acontecera.
Mais uma vez aquela terra
10
acolhia generoso sangue português. Ali estivemos
também, meditando e sentindo mais vontade para
continuar.
A história deste livro, na simplicidade do
relato de uma boa parte dos combates que tiveram
de travar-se, dá bem conta do que foi essa luta.
Não podemos, porém, deixar de recordar também
com sentido respeito os que pelo sul de Angola e
em combates de gigantes, libertaram sucessi-vamente Pereira de Eça, Sá da Bandeira, Mo-çâmedes e Lobito. Ali tombaram outros tantos,
que recordamos com saudade e a maior veneração.
O relatar de uma guerra, na verdade dos factos
e com humildade, é privilégio dos que sabem
bater-se. É este o caso, na óptica de quem o soube
fazer e fazer bem. A outra história, a dos basti-dores da intriga política, ficará para ser contada
oportunamente. Ela terá de ser contada um dia e
sê-lo-á...
Fomos derrotados naquela batalha, mas ven-cidos ainda não.
*
Em Julho de 1975 os soldados cubanos come-çaram a desembarcar em Angola. Faltavam cinco
meses para a independência estabelecida nos
Acordos de Alvor, e o exército cubano, apoiado
11
por material de guerra russo pesado e sofisticado
(tanques e mísseis), começou a invadir Angola.
O povo português desconhecia em absoluto es-te facto, porque a Informação (imprensa, rádio e
TV) "mais livre do mundo" simplesmente o ocul-tava. Aliás, em Julho de 75 tinha também co-meçado no norte do país o célebre "Verão quen-te". O povo andava atarefado em travar a escalada
comunista e tinha perfeita consciência de que se o
conseguisse a tempo, Angola nunca cairia sob o
domínio soviético. Mas o povo do norte foi traído
pelas mesmas pessoas que traíram os angolanos.
Não foi por acaso que o "25 de Novembro" só
aconteceu depois de consumado o "11 de Novem-bro", data da entrega oficial de Angola à Rússia.
A primeira importância deste livro, escrito por
três Comandos Especiais que tive o orgulho de
comandar, é a de provar, com a simplicidade de
uma prova visível e concreta, que o exército cu-bano invadiu Angola antes da independência. Eu
próprio comandei os combates que os Comandos
Especiais travaram contra os cubanos em Angola,
durante os meses de Agosto, Setembro, Outubro e
Novembro de 1975... Só naparte norte de Luanda,
para "defender" a cidade, estacionavam seis
batalhões cubanos completamente equipados, ar-mados e municiados.
12
Feita a prova desta terrível verdade, surge a
segunda importância deste livro: — Quem au-torizou ou quem facilitou a entrada dos cubanos?
Quem constituía, nessa época, o Poder em Por-tugal? Presidente da República, Governo e Con-selho da Revolução. Muitos membros-desses ór-gãos do Poder continuam hoje a ser governantes.
Grande parte deles são os mesmos. Como é isto
possível? Sobre os ombros desses homens pesa a
responsabilidade da morte de milhares e milhares
de homens, de mulheres e de crianças. Pesa ainda
a gravíssima responsabilidade de terem impedido
a libertação da nação angolana. Que povo pode ser
livre, quando ocupado por um exército de 30 000
soldados estrangeiros?
Quem autorizou a entrada do exército
cubano em Angola, quandoo poder soberano ain-da pertencia (e pertenceria durante vários meses)
ao governo português?
Enquanto esta pergunta não for respondida,
que importância podem ter os escândalos em que
se envolvem altas figuras do regime e o que podem
significar os delitos, os compromissos ou os com-padrios que os levaram ao Poder?
Mas enquanto houver portugueses da raça
destes Comandos Especiais que foram lutar contra
os cubanos, aquela pergunta há-de ter uma res-posta. Não se saberá quando, mas terá de ser dada
13
às centenas de milhar de mortos, aos que per-deram a dimensão de viver e aos que vagueiam
apátridas e atónitos...
*
Visto à luz da História, os Comandos Especiais
eram em número ridiculamente pequeno. Apenas
um punhado de homens: pouco mais de uma cen-tena e meia.
Vieram de todos os cantos do mundo. Alguns
tinham já sido Comandos, ao tempo da sua vida de
militares em Angola ou em Moçambique.
Vieram espontaneamente. Nada lhes foi
oferecido, e eles nenhumas condições impuseram.
Claramente lhes foi dito que os Comandos Es-peciais iriam apenas ser a resposta altiva dum
punhado de portugueses à cobardia e à traição dos
que entregavam a Pátria àspotências estrangeiras.
Vieram por sua própria e livre iniciativa, na
louca esperança de ainda salvar o nosso povo
duma desonra afrontosa e de uma perda irre-parável.
Logo no primeiro recrutamento surgiram
aqueles que iriam constituir a mais extraordinária,
a mais inconcebível, a mais desesperada força
militar que alguma vez sepropôs fazer frente ao
14
império comunista: 156 homens dispondo de
reduzidíssimo armamento, dependendo quase que
exclusivamente de si próprios, pois o apoio logís-tico era praticamente inexistente. Estavam dispos-tos a enfrentar o MPLA comunista, mas não
sabiam ainda que uma das mais poderosas má-quinas político-militares do mundo iria lançar
abertamente todo o seu peso na luta a favor do
MPLA. Igualmente ignoravam que as autoridades
portuguesas iriam dar cobertura aos comunistas.
Mas mesmo que o soubessem, na altura em
que se dispuseram a lutar para defender Angola da
estratégia soviética, isso não os faria recuar.
Na realidade a acção desse punhado de ho-mens começou no Verão de 75. O "Verão Quente"
de Angola.
Quando se verificaram osprimeiros incidentes
graves, em Maio/Junho de 75, em Luanda e nas
áreas que impropriamente designaram como
"zonas de influência", esses incidentes deram-se
apenas entre os "movimentos de libertação",
MPLA incluído.
A cruzada parecia fácil. Se os Comandos Es-peciais tivessem de enfrentar apenas o MPLA, as
coisas teriam seguido um outro rumo: nunca os
comunistas teriam tido a possibilidade de tomar
conta de Angola.
15
*
O Alto-Comissário que representava nessa al-tura o Governo Português em Angola teve uma ac-ção claramente definida: de acordo com a letra e o
espírito dos tratados, não concedeu nem conce-deria qualquer privilégio especial a nenhum dos
três movimentos. Fixada a data da independência
de Angola para 11 de Novembro, seriam até lá
tratados em plena igualdade as três forças que en-tre si disputavam a supremacia em Angola. Mas
essa correcta e imparcial acção contrariava os
secretos desígnios dos chefes comunistas. O Alto-Comissário juntamente com o Comandante
Militar, foram chamados de urgência a Lisboa.
Em contra-partida, Rosa Coutinho foi para Luan-da. Por curiosa coincidência, precisamente na al-tura em que eu próprio cheguei também a Angola.
Estávamos em Agosto: exactamente no dia 5, desse
ano de 1975.
A situação ali já não constituía segredo para
ninguém: desde Junho que cubanos e russos man-tinham, sem quaisquer preocupações de segredo, o
seu Quartel-General em Luanda, na casa que fora
do Administrador da Petrangol. Aí funcionava
abertamente esse Quartel-General, com todas as
secções e com todoo pessoal. Estávamos ainda en-16
tão sob o controle do governo português, esse mes-mo governo que num tratado de cariz interna-cional acordara não dar nem permitir que fosse
dada qualquer espécie de tratamento preferencial
a nenhum dos três movimentos competidores.
No entanto os soldados cubanos desembar-cavam em vagas cada vez maiores em Luanda,
nesse Verão de 75. Todo o material de guerra que
consigo traziam, ali desembarcou à vista de toda a
gente.
Quando os desembarques começaram a ser
feitos em massa, em meados de Agosto, passaram
a ter lugar em Novo Redondo. E era às claras que
diariamente rolavam as colunas militares de sol-dados e material cubano e russo, rumo a Luanda.
Quanto ao MPLA, o movimento que servia de
cobertura a essa clara invasão comunista, estava
completamente subordinado ao Quartel-General
cubano de Angola.
Quem poderia ignorar estes factos? Na rea-lidade, ninguém. Nem em Angola nem mesmo nos
países vizinhos. E muito menos o governo por-tuguês, ou pelo menos o seu ministro dos Negócios
Estrangeiros, Mário Soares.
Foi na própria Emissora oficial de Angola —
ainda sob a tutela de Portugal e das autoridades
portuguesas — foi através da própria Emissora
oficial que se fizeram constantes e insistentes
17
apelos para que voluntários se apresentassem no
cais para trabalhar na descarga desse material
cubano e russo. E muitos foram os trabalhadores
que acabaram por ser apanhados à força — bran-cos e negros — e obrigados a ir para o porto
trabalhar forçadamente no desembarque desse
material.
*
O facto dos Comandos Especiais terem lutado
contra o MPLA — e contra os cubanos e russos
que os apoiavam — ao lado de Holden Roberto,
poderá levar a pensar que esse punhado de homens
fazia parte da FNLA.
Não é verdade.
A FNLA serviu de ponto de apoio para esses
homens, cujo único objectivo não era nem o da
conquista de riqueza ou fortuna, nem sequer o de
passageira glória. Era simplesmente o desejo de
manter Angola como nação livre e sem interferên-cias estrangeiras no caminho do seu progresso.
Os Comandos Especiais e eu próprio demos o
nosso apoio à FNLA, por ser essa a via mais rápida
para tentarmos deter a avalanche comunista que
ameaçava ocupar Angola.
Foi esse o teor do acordo inicial com Holden
Roberto a quem clara e iniludivelmente afirmei
18
que nunca seriamos enquadrados nas fileiras da
FNLA — com o que ele plenamente concordou.
De resto — e importa que se diga — Holden
Roberto mal conhecia a realidade de Angola.
Para todos nós, para os que ali tínhamos nas-cido ou os que dali tinham feito a sua terra-mãe,
era quase chocante ver o espanto que Holden
demonstrava perante o progresso duma terra que
ele tinha esperado encontrar primitiva e escra-vizada, árida e abandonada como a propaganda
estrangeira proclamava. Como nota curiosa, posso
revelar que perante uma barragem (as Molubas) já
colocada fora de uso por obsoleta e apta apenas a
servir em curtos períodos de emergência de apoio à
barragem que servia Luanda, vimos Holden abrir
os olhos de espanto perante tão "extraordinária
realização"...
Noutra ocasião, na Fazenda "Tentativa", Hol-den viu uma fábrica de açúcar também já ul-trapassada por não ter capacidade de laboração
para a matéria prima que ali se produzia e que por
tal motivo estava para ser desmanchada. Era uma
fábrica que eu conhecia desde menino. Pois Hol-den Roberto não escondeu o seu espanto perante a
sua "grandiosidade"...
Talvez por tudo isso, e também porque ele podia
verificar que muitos de nós conhecíamos Angola
19
desde Cabinda ao Cunene e que todos amávamos
aquela terra que queríamos que continuasse a ser
também nossa, talvez por isso ele nos respeitava e
nos dava todo o apoio que podia.
No entanto todo o esforço desesperado desses
homens que quiseram defender Angola do inimigo
soviético se perdeu.
Ingloriamente, diga-se. Por vil traição.
Tanto os angolanos como os portugueses
acreditaram que os representantes do governo por-tuguês honrariam os seuscompromissos de impar-cialidade tal como haviam sido assumidos em Al-vor. Não o fizeram. É já um facto historicamente
comprovado que o governo português apoiou,
muito antes da data da independência, a invasão
dos cubanos, checos, húngaros e russos em An-gola, tal como aprovou e consentiu no estabele-cimento de quartéis e nadistribuição de arma-mento, desde o mais simples ao mais sofisticado,
desde as armas ligeiras aos mísseis russos, os
célebres "órgãos de Staline"...
Quem permitiu, quem sancionou, quem
colaborou nessa monstruosa traição que veio a cul-minar na entrega de Angola e Moçambique ao
colonialismo soviético?
20
*
Muita gente me tem perguntado por que não
entrámos em Luanda, quando a imprensa inter-nacional chegou a noticiar que estávamos à vista
da cidade do dia 10 de Novembro, precisamente no
morro fronteiro ao Cacuaco. Este livro será uma
resposta suficiente, embora muitos aspectos não
possam ainda ser revelados.
Esses heróis que se chamaram Comandos Es-peciais fizeram tudo quanto puderam. Lutando
com desespero contra o tempo, conseguiram de
facto chegar à vista de Luanda antes da data da in-dependência, levando de roldão à sua frente as
sucessivas vagas de cubanos que se interpunham
entre eles e a capital. Se a tivessem conseguido
atingir antes do 11 de Novembro, tê-la-iam to-mado, e não seriam as guarnições cubanas,
inadaptadas para a guerrilha urbana, numa ci-dade que desconheciam e temiam, que o poderiam
ter impedido.
Mas entraves de toda a ordem condicionaram
a ofensiva sobre Luanda, desde o não consenti-mento de manobras de diversão ou alterações de
frente, até ao atrasar sistemático do assalto à
cidade na sequência da primeira arrancada que
em 48 horas nos levou do Ambriz ao Caxito... para
nos quedarmos mais de vinte dias sem gasolina.
21
As pressões que se exerceram sobre Holden
Roberto — constantemente mal esclarecido e en-ganado — no sentido de fazer coincidir o início
do assalto com a véspera do dia marcado para a
independência, funcionaram deliberadamente pa-ra que não entrássemos em Luanda. A artilharia
abandonou as posições sem qualquer aviso e
exactamente quanto mais dela carecíamos para o
assalto ao Morro de Quifandongo o qual, uma vez
tomado, abriria o caminho para a cidade em
terreno plano e sem obstáculos.
Por tudo isto não ocupamos Luanda. Foi-nos
retirado o apoio de fogo pesado dos dois obuses
de 140, abandonados mais tarde em Ambrizete e
transformados em massas deferro inútil porque
as suas guarnições — evacuadas de helicóptero
— levaram as culatras...
Ali ficamos sob intenso fogo do inimigo. O
barulho da onda de mísseis parecia uma terrível
e contínua trovoada. Os Comandos Especiais fi-caram colados ao terreno e impedidos de dar res-posta.
Ali ficou só um punhado de Comandos Es-peciais no dia 10 de Novembro, véspera do dia
fixado para a independência. Tudo havia
retirado. Do nosso posto de observação
sobranceiro à cidade quenão havíamos podido
alcançar, vi sair do porto
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de Luanda a fragata que levava as autoridades
portuguesas.
Eram quatro horas e meia da tarde do dia 10
de Novembro de 1975.
Os Comandos Especiais olharam o silencioso
afastamento daquela fragata que levava no convés
apinhado de gente os últimos restos de uma
presença de cinco séculos. As lágrimas de raiva e
de impotência rolaram pelas faces dos Comandos
que o sol de Angola curtira. A fragata lançou ferro
no limite das águas costeiras e ali ficou parada até
à meia noite. Num arremedo de macabra farsa, à
meia noite em ponto, essenavio da Armada Por-tuguesa iluminou em arco e salvou a terra...
Depois, como que num silêncio de vergonha,
fez-se ao largo.

23

FICHEIROS SECRETOS DA DESCOLONIZAÇÃO DE ANGOLA, por Leonor Figueiredo

 

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Ficheiros_secretos_capa FSdoc1 A todos quantos ainda sofrem as consequências da descolonização que alguns dos "heróis" do 25 de Abril prepararam e perpetraram, recomendo a leitura deste trabalho de Leonor Figueiredo, cujo Pai desapareceu em Angola, ainda antes da independência, isto é, enquanto Portugal era o único responsável pelos seus cidadãos, naquele ainda território nacional.
Documentos importantes são já tornados públicos. Comunicações e listagens são publicadas. Desses trago aqui, além da introdução, a listagem dos desaparecidos naquele conturbado período.
É preciso não ter pingo de honestidade e amor ao próximo para que alguns dos responsáveis de então, incluindo os ainda sobrevivos, apareçam em público, como almas inocentes e ainda sejam tratados como "heróis". Apenas sujaram o "25 de Abril".
Porque foi recusada a colaboração da ONU? Para que tudo acontecesse como os camaradas já haviam combinado: sem olhos e interferências exteriores?
Leia aqui a introdução: Download Introdução
Veja aqui a lista de presos: Download Anexo
Entrevista à RTP2 - http://ww1.rtp.pt/wportal/acessibilidades/legendagem/pecas.php?data=2009-08-06&fic=jornal2_1_20090806&peca=12&tvprog=16478
Contacto autora - ficheirossecretosdeangola@gmail.com
Elêtheia Editores - www.aletheia.pt

Comments

1
Lito said...
Sou angolano e acho que muitos dos nomes citados nesta extensa lista tenham partido a tempo principalmente os portugueses ou angolanos brancos que viviam no sul sudeste e leste de Angola. Estive na Zâmbia, Namíbia, Zimbabué e Africa do sul em busca de parentes desaparecidos a quando da fuga dos portugueses (negros que seguiram os patrões) e nestes países as comunidades portuguesas migradas das ex-colónias é grande. Tentem procurar por estes países e acredito que encontrarão ainda com vida portugueses ou angolanos brancos de certa idade radicados nestes países cujas “fichas de memórias” precisem de refrescamento embora relutem bastante em falar do passado. Pessoalmente obtive resultados embora não sejam os que esperava encontrar.
2
ANA NEVES said...
Sou REFUGIADA, Filha de Refugiados, nascidos e criados em Angola, várias gerações de africanos brancos. Espoliados, maltratados, humilhados. Olhar para este testemunho é reacender em nós a sede de justiça. Que tivemos de calar porque o Portugal em que vivemos tem os "mandantes" da "limpeza física e psicológica" perpetrada em centenas de famílias no poder perpetuado por negociatas e conluios.
Contem comigo para apresentar queixa de crime contra a humanidade. Contem comigo para falar dos "judeus" do século XX e XXI que Portugal tratou como "merchandise" de negócios particulares. Para quê? Para hoje Angola ser de meia dúzia com milhares de esfomeados e estropiados, uma nação despótica dominada por uma família e seus amigos.
Vamos lá. Falar de história real. A que ainda não se escreveu.
Pergunta: Será que a UE e a ONU querem a nossa versão?
REFUGIADA 2009.5ªGERACAO. BRANCA
3
Caetano Martins said...
Fui para Angola em 1966, sendo mais um dos, não retornados mas sim REFUGIADOS, daquele ex-território ultramarino. Saí de Angola em Outubro de 1975, a expensas próprias, com viagem válida para 1 ano, na esperança (vã) de lá voltar, não tendo portanto usufruído nem da chamada ponte aérea nem do denominado IARN, que não apoiou maioritáriamente quem devia, mas antes serviu de guarida e salvaguardou o futuro de imensos parasitas.
Para além do enorme drama dos "desaparecidos" e respectivos familiares e amigos, existe ainda hoje muita outra gente a sofrer os efeitos da vergonhosa descolonização que abandonou e espoliou centenas de milhar de portugueses que lá trabalhavam e viviam como do seu País de origem se tratasse.
ANGOLA ... terra e sol incandescente, estende-se o silêncio impressionante e nota-se a agonia torturante do cais a morrer de sede. E quem lá viveu, na fé que o incandeava, trabalhou, sofreu, amou, esperou, acreditou ... e tornou-se o herói de uma epopeia.
4
O trabalho desta senhora é importante, mas a lista publicada dos prisioneiros desaparecidos, por grande muito grande que pareça, penso que é, apenas, a ponta de um grande iceberg. Por isso, acho que este trabalho não deverá ficar por aqui, porque a memória dessas pessoas nunca foi reabilitada e os responsáveis por essa imensa tragédia continuam impunes. Os crimes cometidos configuram "Crimes contra a Humanidade", pelo que não prescrevem. Penso que se deveria criar um Movimento de Reflecção sobre este assunto e que desemboque numa queixa-crime nas Instâncias Internacionais, a fim de que seja feita a devida justiça.
É tempo de passar à acção.
Pode contar comigo.

FICHEIROS SECRETOS DA DESCOLONIZAÇÃO DE ANGOLA, por Leonor Figueiredo

(2)

Ouvir com webReader
Ficheiros_secretos_capa Este livro da jornalista Leonor Figueiredo é um valioso documento para a História da entrega, sem honra, nem glória, nem dignidade, da província ultramarina portuguesa de Angola. Direi mesmo que, em sentido figurado, é uma Bíblia, porque a autora prova o que escreve. A autora faz uma viagem ao passado na procura do que terá acontecido a seu pai que residia em Luanda, desaparecido ainda na altura em que Angola era portuguesa. Nem as autoridades, nem os políticos/governantes, nem os militares dessa época trágica para Portugal sabem o que terá acontecido a João Cândido Figueiredo (pai da autora deste livro) nem de algumas centenas de Portugueses.
"Quando procurava elementos sobre o meu pai, desaparecido em Angola antes da independência, em 1975, descobri que mesmo tinha acontecido mais de 250 portugueses.".
Ficheiros Secretos da descolonização de Angola é mais um testemunho da maior tragédia sofrida pela Pátria que "deu novos mundos ao Mundo. Mas é também um documento revelador de vilanias, traições, e covardias de muitos. É um grito angustiante e um brado de revolta. O Estado português e os seus agentes culpados uns, responsáveis outros, pela "descolonização", que eles próprios a crismaram de "exemplar", alijaram as suas culpas e responsabilidades para terceiros. Um acto de covardia. Esse Estado "descolonizador" que ainda não ressarciu as vítimas da "descolonização exemplar" (exemplarmente trágica). Outra vergonha. Outra injustiça. Outro crime. Leonor Figueiredo revela nesta sua obra as prisões de compatriotas nossos feitas por alguns militares portugueses que depois os entregavam ao MPLA. Muitos desses prisioneiros foram fuzilados pelo movimento liderado por Agostinho Neto, e todos eles agredidos física e torturados psicologicamente nas masmorras do MPLA.
Ao ler Ficheiros Secretos da descolonização de Angola as lágrimas vieram-me aos olhos e senti repulsa pelos actos vergonhosos (leia-se criminosos) praticados ou consentidos por certos militares nas pessoas de compatriotas nossos, na então ainda terra portuguesa de Angola.
Como foi possível aos governantes, aos políticos, aos militares do MFA, aos "descolonizadores" e ao presidente da República de então terem abandonado portugueses nas cadeias angolanas, alguns dos quais foram fuzilados, sem que até hoje tivessem respondido perante a Justiça por essa omissão do dever de que estavam incumbidos ?
Parabéns Leonor Figueiredo. Prossiga, pois acaba de prestar um valioso contributo para a reposição da verdade sobre um crime contra a Humanidade.
Adulcino Silva – Jornalista (Lisboa, 24/08/2009)


ANGOLA - O princípio do fim da União Soviética, de José Milhazes

 

Angola_jose_milhazes_capa PREFÁCIO
O fracasso do expansionismo soviético
Os maiores acontecimentos e pensamentos [...] são os que mais tardiamente são compreendidos: as gerações que lhe são contemporâneas não vivem tais acontecimentos - sua vida passa por elas.
Aqui acontece algo como no reino das estrelas. A luz das estrelas mais distantes é a que mais tardiamente chega aos homens; e, antes que chegue, o homem nega que ali - haja estrelas. Friedrich Nietzsche, «Para Além do Bem e do Mal Prelúdio de Uma Filosofia do Porvir».1  Todos os homens esperam sempre que aconteçam surpresas especiais. Para os estudiosos em geral a surpresa mais grata é ver surgir nos escaparates das livrarias um novo livro que se distinga pela sua qualidade e contribua decisiva­mente para o avanço e a renovação do conhecimento. O livro de José Milhazes é, sem margem para dúvidas, uma dessas incríveis surpresas. Chega, como diria Juan Villoro, escritor mexicano, qual «um raio verde numa paisagem marítima».
Realmente, o enfoque deste livro, como o próprio tí­tulo sugere, é uma tentativa, agora ensaiada pela primeira vez, de colocar em perspectiva toda uma série de questões altamente controversas (e em grande parte desconhecidas) sobre um passado ainda fechado no «armário obscuro das coisas proibidas»: o expansionismo militar soviético na Africa Austral. Mais propriamente em Angola. É certo que a safra de escritos a este respeito ainda é muito escassa. Nenhum livro, porém, foi tão longe no grau de sistematização e riqueza de in­formações como este. O autor realizou uma empresa dificílima: conseguiu até certo ponto penetrar no mundo desaparecido da documentação fechada dos arquivos russos; entrevistou vete­ranos de guerra que estiveram em Angola; entrevistou perso­nalidades dos altos escalões da política soviética; joeirou a imprensa periódica do país e mergulhou na leitura de memórias e biografias que falam da presença soviética em África. Um trabalho soberbo, não obstante as limitações decorrentes da pró­pria pesquisa.
Podia, é certo, ter sido uma empreitada de maior fôlego. Não que tenha faltado vontade ao autor. Nem sempre o guião de desejos de um estudioso se conforma com a realidade so­cial que o cerca. Ele bem tentou penetrar mais fundo nos sub­terrâneos da memória, quando muito para encontrar respostas incisivas e esclarecedoras a uma questão que continua a ser pre­texto para subjectivismos e manipulações da parte de grupos políticos e intelectuais conhecidos pelo seu anti-sovietismo: a questão da hipotética participação russa na "conspiração de Nito Alves" em 1977 para depor Agostinho Neto.
É verdade: o terreno é tortuoso, cheio de obstáculos e a aridez de informações total. O autor apenas se contentou em desenterrar duas pequenas preciosidades: a entrevista de Leo-nid Sarviro (ex-conselheiro do primeiro presidente de Angola) que saiu nas páginas de um diário bielorrusso; e as observações de Vladimir Chubin, historiador e artífice de um livro sobre Neto. Mau grado as simpatias deste último pelo líder angolano, eis o registo das suas observações que vale a pena reter:
Parece que os rumores sobre a participação soviética na «conspiração de Nito Alves» foram difundidos de propósito por determinados círculos do Ocidente e por alguns angolanos adversários da aproximação a Mos­covo. Contudo, o pretexto foi «maravilhoso»?
No mais, os arquivos permanecem inacessíveis de há uns anos a esta parte. Um dos mais importantes desses arquivos, senão o mais importante, o da KGB, que poderia fornecer dados de interesse capital, também não escapou ao selo da interdição. De novo o transformaram em sepulcro, como já havia sido antes do colapso da União Soviética.
A par disto, outras contrariedades se antepuseram no ca­minho de Milhazes: não conseguiu chegar a todas as pessoas que desejava entrevistar. As poucas com quem conversou e prestaram o seu depoimento num primeiro momento recusa-ram-se a fazê-lo uma segunda vez; e outras que declararam a sua disposição para serem ouvidas acabaram por defraudar todas as expectativas. E assim por diante. O hábito do segredo, como é manifesto, voltou a ser a chave do dia-a-dia do cidadão russo. A grande nação de Solzhenitsyn retrocedeu no túnel do tempo até aos seus piores códigos e refugiou-se num imaginá­rio de silêncio pelo qual se pretende, nas palavras do historia­dor Simon Montefiore, proteger a «Ideia, a União Soviética, o santo graal».3
É bem provável que os altos dignitários do Kremlin te­nham dificuldade em digerir o desastre simbolizado pelo curso da política externa da URSS na África negra. Inclusive no Afe­ganistão. O livro mostra claramente este aspecto: «a ideologi-zação excessiva da política externa, bem como a aposta excessiva no factor militar», tendo por pano de fundo «resquí­cios de uma ideologia "revolucionário-narcisista"»4 e por su porte estratégico de Estado pretensões imperiais. Duas ten­dências, enfim, na opinião de politólogos russos, que fun­cionaram fora dos carris do controlo político e se revelaram fortemente responsáveis pelo fracasso nacional. Na percep­ção de Karen Brutentz, antigo funcionário da Secção Inter­nacional do Comité Central do Partido Comunista da União Soviética [PCUS], estas duas linhas de orientação pesaram - e muito - no processo de enfraquecimento da Rússia co­munista e no seu posterior desabamento como superpotên­cia planetária.
O presente volume oferece, em suma, uma ampla gama de matérias para quantos se ocupam ou venham a ocu-par-se da ingerência soviética em Angola e até no Golfo da Guiné. Toda a sua estrutura narrativa se ampara, do princí­pio ao fim, em fontes russas. Sendo de destacar ainda, como seu principal mérito, o facto de trazer ao conhecimento dos leitores de língua portuguesa um debate que pouco a pouco, apesar de tudo, começa a despontar no firmamento das preo­cupações da intelligentsia russa e a dar os primeiros frutos: o de saber até que ponto a intervenção em África, ditada por objectivos geopolíticos e expansionistas, respondeu efecti­vamente aos interesses globais do Estado russo e quais as causas do fracasso.
A este propósito, e sem me querer dilatar, atrever-me-ia a dizer que o sintoma mais palpável da catástrofe é o facto de os combatentes russos que passaram por Angola hoje nem se­quer serem reconhecidos como tal. E como se nunca tives­sem existido. O fenómeno em si, tratado no capítulo VII, guarda curiosamente algumas similitudes próximas com o que ocorreu na Holanda do século XVII após a perda repentina de Angola, São Tomé, Pernambuco e outras praças do Brasil. Chefes militares, conselheiros de finanças, feitores-mores e governadores, que em terras africanas e brasileiras se haviam coberto de glória, subitamente, após a derrocada, desapare­ceram dos livros e da correspondência da Companhia das índias Ocidentais «[...] para se ocultarem nos nevoeiros cin­zentos das terras baixas e frias do Mar do Norte sem deixar rasto».5 Por longas décadas as Sete Províncias Unidas vive­ram enlutadas pela vergonha.
Claro que muita coisa fica por esmiuçar. Contudo, desde logo surge uma dúvida que poderá servir de reflexão em futuros trabalhos de investigação: será que a direcção política em Moscovo alguma vez se deixou contaminar por resquícios de uma ideologia revolucionária ultrapassada ao ponto de, como asseveram antigos funcionários russos, ter querido exportar a revolução para Angola e para outros ter­ritórios africanos?
Como se sabe, a odisseia militar soviética em África arrancou na década de 60. Já então haviam sido detectados em Janeiro ou Fevereiro de 1961 os primeiros submarinos perto das águas territoriais de Angola, assim como navios de rastreio de telecomunicações dissimulados como barcos pesqueiros. Porém, nada mais do que isso. Para a URSS desse tempo o tabuleiro africano pouco significava do ponto de vista geopolítico e nem a emergência de novos Estados independentes capitalizava a sua atenção. De resto, o co­nhecimento que os políticos russos e os seus estrategas ti­nham da Africa negra e dos movimentos de libertação pouco ia além do exótico. Sirva de exemplo a confusão que se gerou no Kremlin em 1963 quando as autoridades russas se preparavam para reconhecer e apoiar o Governo Revolu­cionário de Angola no Exílio [GRAE] tutelado pela FNLA de Holden Roberto. Os russos mal distinguiam as diferenças e estirpe ideológica entre o MPLA e a FNLA, pois um e outro pareciam-lhes semelhantes e igualmente aptos a servir os desígnios estratégicos da grande potência. Seja como for, o verdadeiro interesse para eles, no «plano do confronto glo­bal com os Estados Unidos», residia então quase que exclu­sivamente no corredor estratégico do Cabo da Boa Esperança que conheciam bem, o que explica a presença tão cedo de sub­marinos devassando as águas do sul do Atlântico.
Entretanto, Nikita Khrushchov é deposto em 1964 por meio de um golpe palaciano e toda a sua política de libera­lização (assente «no fortalecimento da confiança e desen­volvimento da colaboração com todos os países» na base da «coexistência pacífica e cooperação económica»6) é posta de lado. De imediato se assiste no Kremlin ao que Draganov chama de um processo de «reestalinização progressiva». Ou seja, os novos senhores são agora Leonid Brezhnev [pri­meiro secretário do PCUS], Aleksei Kosygin [primeiro-mi-nistro], Nicolai Podgorny, Mikhail Suslov [ideólogo-mor do PCUS] e Piotr Shelest. São eles que vão impulsionar a aber­tura de um período de «transição lenta e paulatina do totali­tarismo "mal desenvolvido" [da era stalinista] para um regime pessoal típico do autoritarismo».7 Encerrava-se assim o efémero e não menos indefinido período de coexistência pacífica e não-agressão. Doravante a URSS iria apostar em novas regras do jogo no choque com o imperialismo norte-americano. A Africa, que até então estivera fora dessa grande disputa, logo iria ser alvo da cobiça dos rus­sos na conquista por novas áreas de influência. «Se os ame­ricanos estão lá e os chineses também, por que não estamos nós também?», eis como em Moscovo se terá equacionado o problema. Havia, portanto, que entrar em força no conflito para disputar pedaços de Africa com os seus reservatórios de matérias-primas e criar problemas ao projecto expansionista dos EUA e da China no continente.
É aqui, creio, que entra a figura de Fidel Castro com o seu pendor populista e paladino de revoluções violentas. Embora, no início, Moscovo se mostrasse pouco receptiva em aceitar os projectos terceiro-mundistas de Castro, com o tempo tolerou-os na condição de tais projectos não interfe­rirem nos assuntos internos dos países da América Latina. Os soviéticos estavam conscientes de que o hemisfério la-tino-americano constituía uma «zona geoestratégica pri­vada» dos Estados Unidos, conforme transparece da doutrina Monroe.8 Por isso, não valia a pena criar na região mais situações de conflito. Na memória dos dirigentes rus­sos permanecia vivo o embate de 1961 motivado pela crise dos mísseis instalados em Cuba que quase levou à deflagra­ção de uma nova guerra mundial. Pressionando o líder cu­bano a moderar os seus ímpetos e a não intervir na crise do Panamá9, nem a deixar-se tentar por lutas armadas, os so­viéticos por fim acabaram por transigir em utilizar a Africa para novas experiências revolucionárias.
Assim, sem se comprometer directamente, a URSS iria utilizar Cuba como ponta-de-lança da sua nova estratégia de expansão. A primeira área de interesse foi a costa ocidental com as suas instalações portuárias em Conakry e Freeport. A faixa litoral de Cabo Verde foi igualmente mapeada e refe­renciados os seus pontos vitais e respectivas infra-estruturas, razão por que se decidiu ajudar o grupo insurgente de Amíl car Cabral na Guiné-Bissau com homens, armas e dinheiro. O primeiro contingente cubano de apoio ao Partido Africano de Independência da Guiné e Cabo Verde [PAIGC], com­posto por instrutores, artilheiros, canhoneiros e médicos, de­sembarcou em Conakry, em 1966, para se juntar às caravanas de guerrilheiros africanos nas regiões sul e leste da Guiné-Bissau. Castro e a URSS tinham em mente, de­pois da independência do arquipélago, fazer estacionar nos seus portos a frota pesqueira cubana e as unidades navais russas. Todavia, como lembra Norberto Fuentes, jornalista cubano exilado nos Estados Unidos, a instalação mais im­portante era o promontório da Ilha do Sal, base aérea de re­serva da OTAN, «[...] 500 quilómetros a oeste do Senegal e próxima das principais rotas dos mares do sul e do norte e considerada pela CIA como "importante estação de comu­nicações" e importante base de reabastecimento de navios e aviões».10
Estava dado o primeiro passo, sem esquecer o apoio em material de guerra ministrado ao MPLA de Agostinho Neto e ao Comité de Libertação Nacional do Congo. Se-guir-se-iam outras investidas: na Guiné Equatorial, Castro obteve em 1972 facilidades de trânsito aeronaval e, sem demora, despachou para Malabo, a capital, 100 peritos mi­litares cubanos. Manobras regulares nas costas atlânticas e do Índico foram realizadas pela armada soviética entre 1968 e 1972. Quer dizer: a África iria exercer o papel de «receptáculo decisivo da logística militar nas campanhas posteriores de Angola e Etiópia». O objectivo da dupla Moscovo-Havana era apoiar os movimentos de libertação, torná-los dependentes e catapultá-los até ao poder como forma de, nas palavras de Benemelis, «privar o Ocidente de recursos e posições vitais».11
Volvo à pergunta inicial: alguma vez a União Soviética teve em mira exportar a revolução para a África? Em ne­nhum momento colhi indícios que façam pensar em tal hi­pótese. Pelo contrário: os russos depressa se deram conta de que as chamadas lutas de libertação estavam infestadas de oportunistas e «vulgares arrivistas»; a mediocridade das li­deranças guerrilheiras e as rivalidades étnicas e tribais que dilaceravam os agrupamentos independentistas saltavam aos olhos. Nos círculos políticos e militares do Kremlin, por exemplo, prevalecia desde o final dos anos 60 a ideia de que Agostinho Neto encarnava uma chefia frágil devido ao seu carácter hermético e intolerante. Longe de representar um factor de união, ele dividia as hostes e concorria para minar o frágil equilíbrio da estrutura colectiva do Movimento e gerar reacções de medo e de inércia, fatalmente causadores de fracassos contínuos. A crise sangrenta de 1973 no Leste de Angola, entre outras tantas (que culminou no fuzilamento de cinco dos melhores comandantes da guerrilha, todos ovim-bundu) é por si um testemunho eloquente. Neto foi o grande culpado dessa crise que quase arrastou o MPLApara o abismo da desintegração. E não só: os soviéticos também se aperce­beram do carácter aberrante do socialismo de Neto - um so­cialismo incerto, de vaga filiação marxista e sem nenhum conteúdo filosófico. O capítulo III deste livro reporta-se, e bem, a esta questão a propósito do I Congresso do MPLA em Dezembro de 1977, cuja orientação ideológica suscitou fortes reparos da parte da direcção soviética. Como seria possível exportar a revolução nestas condições ?

A concluir direi que a prioridade número um do ex­pansionismo russo na África Austral não foi tanto de natu­reza material, mas sobretudo de natureza política. Tal prioridade visava acima de tudo a República da África do Sul e, nesse contexto, Angola apenas cumpria a função de placa giratória de modo a permitir à URSS alargar a sua fronteira de influência ao país de Mandela. Isto mesmo me foi revelado em Budapeste nos anos 80 por um alto funcio­nário húngaro ligado ao COMECON.12
Carlos Pacheco Historiador
Rio de Janeiro, 18 de Setembro de 2009


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