domingo, 2 de setembro de 2012

Não tivemos capacidade para gerir as lojas do povo

Não tivemos capacidade para gerir as lojas do povo

Inácio Nunes
Inácio Nunes é um veterano de luta de libertação nacional e um dos fundadores da Frelimo, vindo da UNAMI. Para Nunes, Samora decidiu banir  as lojas do povo “porque realmente nós não conseguimos responder à grandeza e velocidade do povo. Ficámos ultrapassados...”
Inácio Nunes é co-fundador da Frelimo, vindo da União Nacional Africana para Moçambique Independente (UNAMI), criada em 1959. Como é que surgiu a UNAMI e como esta união chega à Frelimo?
Chamo-me Inácio António Nunes e sou, na verdade, um dos fundadores da UNAMI. Nós começámos em Tete, tínhamos a nossa organização que ainda não tinha nome. Tivemos de arranjar uma maneira para nos podermos comunicar e tivemos que criar um espaço para nos encontrarmos. não tínhamos outra maneira para nos encontrarmos, senão fazer um clube a que chamámos Clube Africano de Tete. É ali onde fazíamos os nossos encontros clandestinos, é onde começámos a fazer o nosso trabalho. No entanto, toda a gente julgava que íamos fazer um encontro simples, mas íamos angariando outros membros e tivemos quase metade de Tete com membros da UNAMI.
Estamos a falar de que número?
Entre duzentos e duzentos e pouco. Graças a Deus, eu tinha o controlo dos membros da UNAMI, porque era um dos braços direitos do Baltazar da Costa Tchagonga. Portanto, eu é que comunicava quanta gente entrou, qual a pessoa que estava com intenção, e combinávamos se podíamos admitir o fulano, o fulano não pode, se o fulano é traidor. eu sabia e tratava desses problemas. Era um dos braços da UNAMI. Por ser mais pequenino, na altura, as pessoas não percebiam que era uma pessoa intrometida, um intruso naquela instância. Foi assim que começámos a criar a nossa UNAMI. No Clube Africano de Tete, especificamente no fim-de-semana, que sabíamos que toda a rapaziada estava lá a passar o tempo, a tomar um refresco, vinho, fazíamos o nosso trabalho no escritório. Foi assim que até discutimos como iríamos chamar a nossa organização. E um dia, um dos nossos membros, entusiasmado, grosso, estava num dos bares, muito próximo do nosso clube - graças a Deus não estava no clube, mas no outro bar chamado Bar Melo - diz a um soldado português “Vocês têm de ir embora, estamos cansados de vocês, não vos queremos mais. A África é para nós e a Europa para vocês. Vocês não viram que o Banda já está a expulsar os outros? O que é que vocês estão a fazer? Comecem a arrumar as malas para irem embora”.
Isso significava que existia no seio da UNAMI a crença de que havia coragem suficiente para fazer dessa ameaça uma verdade?
Sim, havia essa ameaça. Penso que ele não tinha a dimensão do problema que estava a levantar. Ele estava a descarregar a raiva. Era ódio que ele tinha dos portugueses, era para fazer entender aos portugueses. O soldado não fez mais nada, telefonou logo para o quartel, e foi naquela noite que a UNAMI ficou desorganizada. Então, para salvarmos algumas pessoas, eu, pessoalmente, escondi a lista de todos os membros. Não sabia para onde levar, se me apanhassem na rua? Não fiz mais nada, fui ao clube e escondi a lata, de uns vinte litros, como ficava perto de casa, corri e fui buscar uma enxada, cavei, escondi a lata e tapei. Porque, realmente, as pessoas já estavam a ficar presas...
Hoje é possível ter acesso a um documento do género, saber quem foram os membros da UNAMI?
Tenho alguns que me ocorrem, mas o presidente tinha muitos documentos em casa dele. A primeira coisa que fizemos foi correr para a casa do presidente e contarmos o sucedido.
Mas, após a independência, não houve um processo de organização de todo o acervo, de toda esta informação que é histórica?
Não foi preciso ir-se até à independência, porque a UNAMI, a partir daquele dia, saiu de Tete e fizemos os possíveis de comunicar o presidente para sair de Tete.
Isso ainda em 1959?
Em 1959. para sair de Tete para qualquer canto. Em Tete não podia ficar mais. E ele, sem mais nem menos, pegou em algumas pessoas e entrou no carro de um dos membros e fugiu para Malawi
É por isso que se confunde e diz-se que a UNAMI nasceu em Malawi?
É por causa disso. Então, está a imaginar, 51 a 58, os principais membros morreram. Ficaram presos. Aquele que falou naquele bar, que insultou os portugueses, acabou morrendo.
Quem era?
É o Ricardo, um dos nossos membros. Era um membro de grande confiança, mas que quando bebia não tinha travões, era rancoroso. Quando as pessoas ficam presas, começam os massacres na prisão. Então, vão denunciando as pessoas e, se tivessem acesso à lista, acho que metade de Tete morria. Mas, graças a Deus, ele falou daquelas pessoas que conviviam com ele, não conhecia toda a lista, porque estava comigo. As cópias todas estavam com o presidente, e penso que este, quando estava no Malawi, se serviu daqueles documentos para reiniciar a UNAMI. Eu fiquei preso e, graças a Deus, fui o último a entrar na prisão.
Por quanto tempo?
Fiquei nove meses. Vou contar-te essa história que é muito bonita. Eu entro na prisão quando o Baltazar da Costa já estava no Malawi, com alguns membros, incluindo o secretário-geral. Nós ficámos presos, e o meu pai, pacientemente, foi falar com um dos irmãos, que era um dos conselheiros do intendente de Tete, que tinha estudado com  Salazar, um senhor chamado Gabriel Maria Nunes. Era um branco que foi expulso de Portugal, formado em Administração Ultramarina. O meu pai foi falar com ele para me soltarem. E o intendente julgou que eu era branco, por causa do nome, e mandou-me soltar, sem se aperceber que era um preto que estava lá. seis meses depois, quando fui ao gabinete do intendente, porque o meu tio disse para esperá-lo lá, ele ordenou a secretária para que eu entrasse. Quando entro no gabinete, ele pergunta: “quem és tu?”. Eu respondo sou Nunes. “És Nunes, preto? Suca daqui, como é que você é Nunes?”. E eu sai, parece que o meu tio se enganou, não era comigo. Mas, pouco tempo depois, chegou o meu tio e foi ter com ele. E ele disse: “Oh! Gabriel, é esse o Nunes de que estavas a falar?”, e ele disse “sim, é esse”. “Mas como é que vocês nasceram pretos uma parte?”. E ele disse “essa é a razão do meu pedido. tenho um irmão um pouco assim. É um mulato que casou com uma preta, e está a nascer esse grupo de gente. Este miúdo é inocente, genuíno, por isso que penso que se juntou com os pretos. Mas ele tem sido bom rapaz”. Foi assim que eu escapei do grupo que foi evacuado para Lourenço Marques. Um dos nossos melhores membros, o engenheiro Mujongo, morreu no avião, foi largado no meio do mar e desapareceu. E muitos morreram no avião, quando vinham para Lourenço Marques. Então, eu mudo de residência, estava já cansado de ouvir “tu és branco, de sangue de cor, por que te estás a juntar aos pretos?”. Então, eu disse desculpe, foi um engano, eu não sabia a quem realmente devia juntar-me (...) e ele disse “Não, tu não podes juntar-te aos pretos. tens sangue branco a correr-te nas veias, tu és branco.” E eu disse sim, eu sei. Então, libertam-me a dizerem que sou descendente deles.
Quando sai da prisão, que rumo toma?
O meu pai toma a decisão de eu viver fora da cidade de Tete. Pensei em ir ao Malawi, mas, a conselho de alguns amigos, fiquei para fazer mais algum trabalho (...). Fui para Beira e empreguei-me ao Dr. Palhinha, que era um advogado. Mas o Palhinha tinha acesso aos cadastros de qualquer pessoa e descobriu que eu era prisioneiro político e disse: “tu não podes trabalhar comigo. Não quero problemas com a PIDE, não quero nada contigo”. Dispensou-me. Fui trabalhar na Sucel, onde também tive problemas. Ali eles provocavam-me. Talvez por causa da raiva, ódio, não resisti àquela brincadeira com um dos colegas com quem trabalhava. bati-lhe. Fui preso novamente, mas, graças a Deus, não chegou aos ouvidos da PIDE, porque, no terceiro dia, o engenheiro das obras apareceu. Quando lhe contei a história, ele disse “não, esse tem direito. Você não é assimilado?”. Eu disse sou assimilado. Mostrei a minha identificação de assimilação. Portanto, tinha direito ao julgamento, antes de ir à PIDE. Foi a minha sorte. Fui absolvido e tinha razão. Mas não continuei na Sucel, fui expulso (...). Fui trabalhar na companhia Cimento de Moçambique, em Dondo. Ali trabalhei sem problemas, só que, durante esse tempo, eles perguntam se eu me apresento todas as semanas à PIDE, na Beira. Eles disseram que não tinham nenhum Nunes. E eles recomendam a minha procura na companhia dos cimentos. Então, aparece um carro idêntico ao que me levou em Tete e percebi que era um perigo. Eu estava a trabalhar nas compras, vinha da Beira. Quando desço do carro, o engenheiro dá-me um sinal para eu me dirigir à varanda, onde estava com um homem da PIDE. Olhei e disse para mim mesmo: “Aquele carro é da PIDE. Aquele senhor, tenho certeza que é da PIDE”. Meti-me na fábrica de cimento, saltei até Mandruce, e foi o último dia de emprego em Moçambique. Foi assim que viajei para Malawi. Juntei-me aos meus companheiros e encontrei as coisas já maduras (...). Já tinham muitos membros, idos da Zambézia, Niassa Tete...
A UNAMI já tinha o sonho de um Moçambique independente, tal como a própria sigla sugere. Como é que se juntam à UDENAMO e a MANU para a constituição da Frelimo?
A própria sigla, nós sempre pensamos na união e sabíamos que não era possível fazer uma independência só em Tete. Estávamos a ver a dimensão do país em si. Estávamos a pensar em procurar uma sede no centro do país. esse era o nosso sonho, porque Tete ficava deslocado do centro para uma organização de Moçambique inteiro. Aliás, tínhamos membros já muito instruídos, tínhamos engenheiros, o Mujungo era engenheiro (...). Tínhamos - parece já ouviu falar - o Cangela, que já morreu, era um dos nossos membros. Era uma pessoa instruída. As nossas reuniões, realmente, tinham visão de nação, não tinham visão local, nem provincial. Porque não víamos uma independência às metades e não víamos as possibilidades de dividirmos Moçambique. Era necessário abranger todo o Moçambique.
Isso para dizer que a UNAMI, quando tomou conhecimento de outros movimentos, houve essa iniciativa de fusão. Estava muita clara dos benefícios que essa união traria...
Muita clara. Aliás, tínhamos contactos com a UDENAMO, nós não sabíamos da existência da MANU. quem nos conta sobre a existência da MANU é o próprio presidente, que nos diz que “existe um outro partido lá em Tanganhica, e que se nos juntarmos, a nossa força será maior”. Nas nossas reuniões, falávamos sempre da união e não só. ele já tinha contacto com o presidente Mondlane. Ele acompanhou as visitas que o presidente Mondlane fez a Moçambique.
A união da UNAMI e UDENAMO aconteceu antes ou depois do encontro com o presidente Mondlane?
Depois do contacto com o presidente Mondlane, todos fomos a Tanganhica para fazermos o I Congresso. A UNAMI foi a última a chegar em Tanganhica. Primeiro, foi a UDENAMO, e nós fomos os últimos. O que fizemos quando chegámos foi a conferência de preparação do congresso.
Qual foi o seu papel para a unificação destes movimentos?
O que eu fiz foi incentivar a união. Sentia a necessidade da união. O próprio Chagona incentivou muito a união e referia-se à importância da união. Com a nossa deslocação a Tanganhica, estávamos a ver o aproximar do início da guerra. Já que acompanhávamos todas as viagens que o presidente fazia, todos os apoios que o presidente angariava com as organizações mundiais, víamos um futuro bom dirigente de Moçambique. Nós sabíamos que ele foi professor, e Nyerere chegou a dizer-nos: “Vocês vão ter um bom professor na vossa união”.
Que papel desempenhou assim que se constituiu a Frelimo?
Quando chego a Tanganhica, curiosamente, quis conhecer Mondlane, porque até os portugueses o temiam. Queria saber que tipo de preto é esse. Queria conhecê-lo e fiz os possíveis para o conhecer. A primeira vez, estávamos eu e ele, e perguntou: “quem és tu?”. Eu disse sou Inácio Nunes. De seguida questionou: “também és delegado?”. Eu disse sim. Voltou a perguntar: “De onde vens?”. E eu disse de Tete. Ele disse “Você é da UNAMI”. E eu disse “sou da UNAMI”. E disse: “Olha, eu tenho um trabalho para ti. Tens tempo para a gente falar? Respondi “Estou cá precisamente para fazer trabalho”. Então disse: “Tens uma audiência marcada. Amanhã a qualquer hora venha falar comigo”. Foi assim como comecei o meu trabalho. No dia seguinte, fui, e ele já estava à minha espera e disse: “nós precisamos de um trabalho organizativo, de organização. brevemente, vamos mandar os nossos soldados treinar. Vamos precisar de pessoas que possam dirigir soldados. Precisamos da população para receber os soldados. Tu podes voltar para Moçambique?”. Eu disse “não, estou com medo, porque acabo de sair do buraco. Sr. Dr. não posso”. E ele disse “não me chame Dr., chame-me camarada Eduardo”. E eu disse: desculpe camarada Eduardo, eu vou chamar-lhe camarada presidente”. Ele disse: “está bem, pode chamar-me camarada presidente, menos Dr.”. Foi assim que ele disse “não se põe muito à vista, porque eu quero que você volte para Moçambique, para fazer o trabalho que te vou dar”.
Então, foi por essa razão que, durante a luta de libertação nacional, teve de trabalhar clandestinamente em Tete e na Beira. Em que consistia esse trabalho?
Está a imaginar entrar na mina e não saber se a mina está segura ou não. Era esse o trabalho. O meu trabalho em Moçambique era procurar saber quantos presos existiam, quem ficou preso, de que organização pertencia. Eu fazia esse trabalho quase todos os dias. Fiz isso até 1965.
Teve alguma preparação para isso?
Tive uma preparação. Havia um amigo do presidente Mondlane, chamado Milas, era muito competente no assunto de segurança (...). Conhecia bem o trabalho da CIA. É ele que me prepara como clandestino e, graças àquela participação, escapei de muitos e muitos perigos em Moçambique.
E qual foi o sentimento que teve quando mais tarde veio a descobrir-se que Leo Milas, o homem de confiança de Mondlane, era um agente infiltrado na Frelimo?
Eu agradeci, porque, realmente, apesar de ter feito aquele trabalho, não me denunciou à CIA, não me ligou mais. E não só. depois dessa preparação, eu tive preparação militar em Kónguè e Nachingwea. É engraçado que eu fui do segundo batalhão que foi a Nachingwea. Depois dessa formação, voltei a fazer trabalho clandestino em Moçambique. Mas, nessa altura, já estava muito preparado.
Não chegou de ter uma participação militar durante a luta armada?
Tive. Estive na companhia do grupo do Silva, ia para a Zambézia, passava por Niassa. Mas esse grupo foi desfeito, por razões muito simples. o nosso comandante não teve muita cautela.
Quem era o comandante?
Silva. Não teve muita cautela. É por isso que o grupo não chegou a Zambézia. Saímos do caminho, fomos atacados e corremos... mas eu voltei a apresentar-me lá. Fui falar com o meu chefe, Sigaúque, apresentei o problema, porque mesmo nesse grupo, ia para lá trabalho clandestino.
Qual foi o seu maior contributo nesse trabalho clandestino?
Muita salvação que proporcionei; muita informação que a Frelimo teve; alguns anúncios que a Frelimo fazia eu é que trazia. Eu sabia quanta gente é que entrou na prisão, porquê(...). O grupo de Josina, quando ficou preso, antes de toda a gente saber, fui o primeiro a saber.
O grupo da Josina era também o de Armando Guebuza?
Era, sim, de Armando Guebuza. Então, a primeira pessoa que disse a Mondlane fui eu. Portanto, penso que tive um papel preponderante, porque a minha defesa era auto-individual. Não podia contar com mais ninguém (...). o que fiz foi evitar dormir em casa de alguém, preferia dormir no cemitério, a dormir em casa de alguém.
Em algum momento sofreu consequências por causa do trabalho clandestino que desenvolvia?
Quase ia ficar preso pelo chefe do posto de Zóbuè. Nesse dia estava a tirar os alunos da missão, no seminário. A PIDE descobre que tinha entrado alguém no seminário. Só não caí não mão dele porque coragem eu sempre tive. Nunca esperei que alguém me apanhasse na mão, corria. não tinha desculpa. Bastasse alguém me perguntar quem és tu? Corria, preferia morrer (...)
Como é que eram orquestrados os ataques militares em Tete?
Quando acabei de fazer os treinos, voltei para Malawi, para o trabalho de organização. Eu pertencia ao Departamento de Organização no Interior (DOI). Foi nessa altura que comecei a criar mais bases. O primeiro meu grupo foi para Chilide, que fica ao Sul do Malawi, ou seja, Norte ou Sudoeste da Zambézia, próximo da margem esquerda do rio Chire e também da margem esquerda do rio Zambeze. A escassos metros ficava Mutarara. É lá onde ficámos a fazer o trabalho. Aconteceu que o meu chefe, que era o Lemos Gouveia, saiu da base com intuito de ir procurar outro trabalho (...). No meu caso, velava pela logística, comida para soldados. O trabalho ou a função dele era de comandante-militar. Nessa viagem é preso, e o português perseguiu-nos até à base. Foi na base onde tentou matar-nos e disparou. Recuámos até à fronteira. Refugiámo-nos na casa de um membro, ficámos ali. O português perseguiu-nos, mas não morreu ninguém, porque a casa estava bem protegida e assim escapámos. Mas voltámos a fazer o ataque. Foi assim que atacámos o posto de Inhagoma e o posto de Mutarara. Parámos porque não tínhamos material suficiente. Estávamos à espera de reforço. E o reforço, pelo caminho, ficou preso no Malawi, pelas autoridades malawianas. Fui um homem de sorte na vida...
Em Niassa, participou num combate onde quase foi alvejado. Foi também numa situação de sorte...
Sim, foi essa brincadeira de sorte. Isso foi contra o comandante Silva. Naquele ataque, fui o único que ficou ferido. E só me apercebi quando quis levantar, e senti o meu braço pesado. Regressei e fui tratado em Dar-es-salaam. Não foi nada grave.
Em algum momento, sacrificou a família pela causa nacional?
Uma das pessoas que foi sacrificada é o meu pai. O meu pai sempre ficou do meu lado, sempre me protegeu. O meu pai sempre me aconselhou a fazer algo de género. A PIDE apercebeu-se do assunto e o meu pai foi preso por um tempo, massacrado. Quando eles viram que ele já estava débil, tiraram-no. Ele veio morrer fora. Foi o massacre que o matou.
Assim que se alcançou a independência, qual foi o papel que desempenhou no Moçambique independente?
Eu, no Moçambique independente, fui o primeiro caixeiro das lojas do povo. Ou melhor, fui o primeiro director da Fundação das Lojas do Povo, em Moçambique
Isso, primeiro, em Cabo Delgado?
Em Cabo Delgado, nós não chamávamos lojas do povo. Era o Departamento de Produção e Comércio das zonas libertadas. Fiz parte da primeira equipa enviada para Moçambique para salvar o comércio que estava nas mãos de Kavandame. Ele estava a fazer o comércio como algo individual. Quando ela chega à fase de fugir da Frelimo, deixou o comércio de qualquer maneira. Foi o meu grupo que foi salvar. Nessa altura, o meu chefe era Joaquim de Carvalho. Fomos salvar a nudez da população de Cabo Delgado. Fizemos esse trabalho até à altura da independência, por isso, a Frelimo indigitou-me para salvar a população que estava a ser abandonada pelos comerciantes nos subúrbios. Não havia comida em Lourenço Marques. E a primeira pessoa que vendeu a comida em cima do camião fui eu, nos subúrbios de Lourenço Marques.
Qual foi a filosofia que norteou a criação das lojas do povo?
Foi da transformação das zonas libertadas...
Como estava estruturada a cadeia de produção?
Pertencíamos ao Ministério da Coordenação Económica. Com o Ministério, fizemos o programa sobre como fazermos o trabalho no subúrbio. Chegámos a criar lojas por cada zona. Em cada loja abandonada, colocávamos alguém para vender à população, por isso, todo o subúrbio tinha loja e tínhamos um preço especial, porque a população estava a sair de uma guerra, de uma desgraça...
Como é que se explica que, mesmo com a existência das lojas de povo, existisse ainda fome e carência de produtos e até houvesse situações em que os produtos pereciam por uma questão de gestão política dos mesmos, uma vez que dependiam de uma decisão do governo central?
O problema daquela altura é que os portugueses continuavam a sabotar a nossa economia. E também não tínhamos capacidade humana para cobrir todos os cantos necessários. Tentávamos fazer o trabalho mais honesto (...) chegámos a um período em que oportunistas roubavam as coisas...
E como é que reagiam às ofensivas de Samora Machel, sobretudo quando fazia as visitas que deixavam em pânico as pessoas que estavam à frente das instituições do Estado, no caso concreto as lojas do povo? Várias vezes lançou críticas sobre a forma como eram geridos os recursos.
Eu fui elogiado pelo presidente Samora, não tive grandes problemas com ele. E algumas críticas que ele fazia eu é que denunciava. Eu sabia onde é que havia problemas e onde não havia. Mas, naquela ofensiva organizacional, eu já não estava nas lojas do povo. Já tinha sido transferido para Mademo, para ir socorrer uma situação de alguns roubos que se faziam, ligados à sobrefacturação de madeira que ia para exterior. Quando o camarada Mariano é indigitado para Mademo, eu fui com ele. Eu é que era director da Mademo da cidade de Maputo. Naquela altura das lojas do povo, eu é que estava a dar as denúncias todas. Razão pela qual algumas coisas ficaram minimizadas
Por que razão, volvidos alguns anos, se notou que as lojas do povo não estavam a responder àquilo que eram os objectivos para os quais haviam sido criadas? A fome continuava a afectar a maior parte da população. Hoje sente que houve um erro na criação das lojas do povo?
Não foi bem um erro. Talvez foi falta de preparação (...). Não organizámos quadros para gerir as lojas do povo. Aquilo ficou grande num pequeno espaço de tempo e nós ficamos ultrapassados, de forma a que não conseguimos controlar. Os nossos responsáveis das lojas do povo esqueceram que deviam abastecer. Tiraram e tiraram até ficar vazio. Razão pela qual Samora decidiu banir, porque, realmente, nós não conseguimos responder à grandeza e velocidade do povo. Ficámos ultrapassados...
A fome continua a ser uma realidade hoje. Olhando para as estatísticas de 2002 a esta parte, mais do que melhorar, piorou. Como é que acha que deve ser preparada a resposta para este mal que afecta a maior parte da população, tendo esta experiência das lojas do povo e olhando para aquilo que foram os fracassos dessa experiência?
Continua a ser a principal riqueza o homem. Não estamos responder ao desenvolvimento, estamos a ser ultrapassados pela velocidade do desenvolvimento. É necessário que voltemos à base e preparemo-nos para atacarmos com muita força a fome que existe, até porque a palavra de ordem hoje é acabar com a pobreza. Temos mais comida, mas temos mais fome em termos da organização, não porque falte dinheiro e comida. Há muita comida. Falta preparação para atacarmos aquilo que já temos. Precisamos de nos preparar para atacarmos a fome, e é fácil fazer isso, se todos voltarmos a ver o que é necessário fazer para acabar com a fome.
Leia mais na edição impressa o "Suplemento Especial- 50 anos- Frelimo "do «Jornal O País»

“É mais mobilizador lutar pelo desenvolvimento do que contra a pobreza”

“É mais mobilizador lutar pelo desenvolvimento do que contra a pobreza”

Graça Machel
Graça Machel em entrevista à Televisão de Moçambique.
Graça Machel diz que falar em combater a pobreza é nivelar por baixo os objectivos a alcançar. Na entrevista conduzida pelo jornalista Simeão Ponguana da TVM, a viúva de Samora Machel refere que adoptámos.
um modelo económico que, mundialmente, provoca graves desequilíbrios sociais, sem, contudo, introduzir os mecanismos de balanceamento necessários para evitar a exclusão. Leia, a seguir, trechos da referida entrevista
Depois da independência, como é que a Frelimo não conseguiu gerir o descontentamento de alguns moçambicanos a ponto de haver um movimento que, depois, se chamou Renamo?
És capaz de me dizer quando, onde e como a Renamo apresentou o seu descontentamento ao Estado? Nós, na pessoa do camarada Mondlane, para ir falar e explicar ao governo português que queremos independência, antes de pegar em armas, sabíamos o que queríamos. O meu problema não é dizer se as pessoas não tinham oposição ou não, o meu problema é que, quando nós temos exigência, é preciso colocar as coisas de uma maneira clara em cima da mesa. Eu não tenho conhecimento, não sei se tu tens, de um momento em que esses moçambicanos colocaram em cima da mesa, um: vamos a isto; dois: vamos àquilo, etc., etc. Se tu tiveres essa informação, diz-me onde e como.
Havia espaço para essas pessoas aparecerem?
Estou a dizer que o espaço se conquista. Teria entendido muito bem se tivesse havido esse diálogo e a Frelimo tivesse dito não. Mas eu não tenho conhecimento ou registo que isso tenha acontecido. Por exemplo, a Frelimo fez exigência da independência, falando com o governo português, depois com as Nações Unidas, OUA, para uma independência por meios pacíficos. Só e só quando os meios pacíficos não resultaram, nós pegámos em armas. Não tenho conhecimento de que esses opositores usaram a via pacífica primeiro para, depois, recorrerem à via armada.
Nós, a Frelimo, respondíamos perante o povo moçambicano. O nosso mandato vinha de lá e voltava para lá. Essas outras organizações, até pode ser motivo de um grande debate, recebiam salário de alguém, recebiam comandantes, instrutores de alguém. O comando, em termos de planificação de operações, de alguém. Mesmo em situação de crise profunda em que nós estivemos mergulhados por causa da guerra, o governo, a unidade do país permaneceram intactos. as Nações Unidas só vieram gerir questões de emergência, mas a transição foi dirigida pelo governo de Moçambique, o que não acontece em muitos países. E esse era o governo da Frelimo.
Também o argumento usado por estes outros teve algum eco por falta de uma abertura política inclusiva e abrangente para os que tinham uma visão diferente da Frelimo. É verdade ou não?
Em termos de abertura e participação popular, eu acho que, na altura, tínhamos maior abertura do que temos agora. Tu te lembras que, em cada aldeia, tínhamos grupo dinamizador, depois, assembleia da aldeia em que se discutia os problemas da aldeia. foi daí que começou a haver a participação das mulheres e dos jovens. O único grupo que não foi integrado foi dos régulos e líderes tradicionais. Ao discutir os problemas do país, tínhamos uma discussão que ia muito mais abaixo do que temos agora.
Hoje, há uma percepção de que há alguns membros da Frelimo que são intocáveis e que podem dizer o que querem.
Há camaradas como nós, eu tenho liberdade para dizer o que penso. Eu penso que o sistema está demasiado centralizado nesta discussão interna. É que, depois da discussão interna, só os órgãos é que podem se pronunciar. E, aqueles que são um pouco liberais, como eu, para além da discussão interna, falam fora, essa é a diferença. Na minha idade, eu gosto de falar, e falar aquilo que a minha cabeça diz. E quando as posições não são exactamente como está no comunicado, há essa tensão.
Teria dito, numa entrevista num canal de televisão, que a agenda de pobreza abraçada pela Frelimo já não é mobilizadora. Foi mal citada?
Não fui mal citada. Posso voltar a dizer. Nós devemos ter uma agenda de desenvolvimento e não de pobreza. Eu posso repetir. Eu não estou a dizer que a Frelimo está errada, estou a dizer que é mais mobilizador lutar pelo desenvolvimento do que apenas lutar contra a pobreza.
Não é a mesma coisa?
Não é. Eu não digo isso a meu filho ou minha filha ou ao meu neto. a maneira como apregoar os sonhos dos meus netos é pelo desenvolvimento e não pela pobreza. A agenda pode ser a mesma, mas projecta para aquilo que queremos ser e não aquilo que somos.
Sendo membro sénior da Frelimo, teria participado da aprovação dessa estratégia?
Eu estou a dizer que estou a aproveitar o privilégio de ser velhinha para dizer o que eu penso e que, naturalmente, pelo facto de eu dizer isso, haverá camaradas que me vão torcer a cabeça e dizer ‘por que é que ela diz isso se é membro do Comité Central’. É ai onde eu digo existir essa tensão. Nos próximos anos, uma mensagem mais mobilizadora será falar do desenvolvimento, daquilo que nós queremos ser, onde queremos chegar, que é para desafiar os jovens que é isto que tens que fazer... é puxá-los para cima e não para baixo. A agenda é a mesma, mas a maneira como a apresentas e maneira como queres tirar o melhor da energia das pessoas é projectá-las para frente e não para trás.
O governo da Frelimo introduziu o capitalismo. E está a pensar-se que há um grupo de moçambicanos que está a acumular mais riqueza do que os outros!
Não está a pensar-se, é verdade. Estamos entre os países com maiores índices de desigualdade social, isso não é segredo. O modelo em que estamos favorece isso. quer dizer, há já pessoas que acumulam mais riqueza, mas isso não é só problema nosso. É o modelo de desenvolvimento, esse de economia de mercado. O problema é que o mercado é que dita as regras e não as pessoas, e o mercado é cego. Mas se eu falar de pessoas, hei-de olhar para as caras das pessoas e vou saber o que o senhor recebe, porque são pessoas que estão à nossa frente. Esse modelo que prioriza o mercado e o dinheiro é que está errado. Esse é que é o problema.
Não é política do governo da Frelimo?
Não. Nós adoptámos um modelo que, mundialmente, está a ser provado que provoca essas profundas desigualdades sociais. Olha para a África do Sul, Brasil, etc. Há países que adoptaram este modelo, mas com cautelas que permitem nivelar as desigualdades sociais. os países nórdicos são exemplo disso.
Graça Machel, viúva de Samora Machel, é empresária?
Eu não me defino como empresária, embora eu tenha uma actividade empresarial, que é mais feita pelos meus filhos. Eu sou um animal social, sou mais do social, eu reconheço que é preciso fazer alguma actividade comercial para o nosso bem-estar, da família. mas por aquilo que me caracteriza neste país, as pessoas não me vão reconhecer como empresária, mas, sim, como activista social.
Não está a trair a memória de Samora Machel?
De maneira nenhuma. Samora nunca disse que nós nunca devíamos fazer alguma actividade social. Se se lembra, quando disse que o Estado não deve vender isto ou aquilo, abriu a economia para que os moçambicanos pudessem gerir negócios privados. É ali que começou. Eu não sou contra o capitalismo como tal, estou por um capitalismo com forte componente social, equilíbrio social. Capitalismo em que todos devessem ter uma vida com dignidade, é o que gostaria que fosse aqui em Moçambique.
O Presidente Samora morreu e, depois de onze anos no poder, não se pode indicar alguma empresa que tenha sido dele ou da família...
Ele não tinha, se for por aí. Vai a Chilembene e irá verificar que a casa onde ele me deixou é uma casinha pré-fabricada com uma sala, um quarto, uma cozinha pequena e uma despensa. Eu é que tive que construir uma casa para os meus filhos. Samora nem isso fez. Em relação aos meus filhos, posso dizer que eles têm um sítio para viver com dignidade, mas eu é que fiquei a fazer isso. Porque por Samora, eu havia de continuar muito, muito, muito, pobre.

“A corrupção é um problema muito grande e visível em Moçambique”

“A corrupção é um problema muito grande e visível em Moçambique”

A chefe da diplomacia sueca no nosso país não percebe como é que um país que recebe ajuda externa suporta uma classe governante que vive faustosamente e anda em carros luxuosos. Por outro lado, Ulla Andrém diz que a corrupção em Moçambique é um problema muito grave e está espalhada em toda a sociedade.
Ulla Andrém, embaixadora da Suécia, país que faz parte do grupo dos doadores do Orçamento do Estado, vulgo G-19, concedeu, ontem, nos seus escritórios, em Maputo, uma entrevista exclusiva ao nosso jornal para falar de vários assuntos ligados ao desenvolvimento e promoção da boa governação no nosso país. Curiosamente, a  entrevista foi no mesmo dia em que o G-19 esteve reunido com o governo no habitual “diálogo político”, onde as duas partes avaliam o cumprimento dos compromissos assumidos pelo governo com os seus parceiros de apoio programático.  Este ano, só a Suécia desembolsou 795 milhões de coroas suecas, o que corresponde, em meticais, a mais de três biliões meticais. Em seguida, as partes mais significativas da entrevista. 
Sra. Embaixadora, qual é a avaliação que faz das relações entre Moçambique e suécia?
Penso que as relações com Moçambique são muito boas, porque temos uma parceria muito longa. Antes da independência, a Suécia esteve a apoiar a Frelimo, a partir de 1964, e depois da independência continuámos a dar o apoio a Moçambique. Temos uma relação muito próxima e apartidária, e estamos muito convencidos de que queremos continuar a apoiar o desenvolvimento de Moçambique.
Quais as principais áreas de intervenção da suécia em Moçambique?
A principal área de apoio é o Orçamento Geral do Estado. Estamos, também, a trabalhar na área de boa governação; área de pesquisa, através do Ministério da Ciência e Tecnologia e UEM;  e também na área de agricultura. Temos prestado apoio à província do Niassa há mais de 10 anos.
Qual é o vosso interesse em apoiar o Orçamento do Estado de Moçambique?
O nosso interesse é ver o país a sair da pobreza. Realmente, a população pobre tem que sair desta situação, no campo e também nas zonas urbanas. As áreas de educação e saúde merecem maior atenção.
Este dinheiro que vem a Moçambique é em forma de empréstimo?
Do nosso lado não se trata de um empréstimo, mas sim donativo.
Há muitos países no mundo que recebem apoio directo da suécia?
Temos muitos parceiros de cooperação, mas, no âmbito do Orçamento do Estado, há poucos países. O nosso governo, neste momento, preocupa-se com este apoio, pois nem sempre dá os benefícios previstos. Então, neste momento, há poucos países a receber o nosso apoio.
Em relação a Moçambique, estão satisfeitos com a forma como o vosso dinheiro é gasto pelo Governo?
De uma forma geral estamos, mas há sempre situações que acontecem e que não nos deixam satisfeitos. É necessário que haja muitas reformas dentro da governação, para permitir melhor gestão dos fundos desembolsados pelos países de cooperação. Moçambique é um país em desenvolvimento, todos os países precisam de reformas. No que diz respeito ao Orçamento do Estado, precisa-se de uma melhor gestão de fundos, principalmente a nível dos distritos. Sabemos, também, que mesmo a nível central existem também problemas.
No ano passado, os parceiros do G-19, incluindo a Suécia, demoraram desembolsar os fundos de apoio ao Orçamento do Estado. Por que razão?
Eu não estava cá nesse tempo, é muito difícil para mim dizer alguma coisa sobre esta situação, mas penso que é muito normal, porque há pessoas nos nossos países,  incluindo os pobres, que estão a pagar impostos para que possa haver dinheiro para vir cá. Então, eu, como representante de Suécia em Moçambique, tenho a obrigação de ver se, de facto, esses fundos que estamos a desembolsar para o Orçamento do Estado estão a ser devidamente utilizados, porque são suecos, incluindo pobres, que estão a pagar impostos, e temos que fazer com que estes fundos sejam bem geridos.
Há relatórios que defendem que a ajuda directa ao Orçamento do Estado não está a ajudar países como Moçambique a resolverem problemas de pobreza. Dizem que este dinheiro só serve para alimentar uma pequena elite local e fortificar o partido Frelimo, em detrimento das restantes forças políticas... qual é a sua opinião sobre isso?
Ninguém pode ter a certeza absoluta sobre este assunto. Nós acreditamos que o nosso apoio vai chegar à população. Se não estivermos convencidos, não vamos dar este apoio. Tem que haver confiança entre o país doador e quem vai receber o apoio. É por isso que temos o diálogo com o Governo. A sociedade civil desempenha um papel importante, porque, como estrangeiro, é-me difícil ver o que se passa por dentro, daí o papel importante também de influenciar tanto o Governo assim como os doadores.

Os doadores sempre se queixam da corrupção em Moçambique. Está satisfeita com a forma como o Governo tem atacado o problema da corrupção?
Penso que ninguém pode ficar satisfeito com a corrupção, porque se trata de uma coisa muito má, e é realmente um grande constrangimento para o desenvolvimento. Entretanto, não é fácil, mas temos muita confiança de que o Governo está empenhado no combate à corrupção, e é necessário um esforço ainda maior. Neste momento, a corrupção está espalhada em toda a sociedade. Sei que é um problema complicado, é necessário melhorar os salários dos funcionários do Estado, de modo a fazer-se um combate efectivo a este mal. É necessária uma boa capacidade de investigação criminal, etc. Não é uma coisa que se vai mudar de um dia para o outro, é um processo, tem que haver um esforço muito grande para este processo estar num caminho correcto.
Acha que a corrupção é um problema muito grave em Moçambique?
A corrupção é um problema muito grande e é visível, as pessoas têm que pagar muitas coca-colas para poderem lograr os seus objectivos, há muitas exigências deste género para as pessoas comuns. Mas o que é ainda mais preocupante é a falta de transparência em alguns lados com relação aos grandes investimentos, contratos, especialmente agora que há recursos naturais em descoberta. Precisa-se de muita transparência para que as pessoas possam ter confiança no governo e na sua governação.
Está a dizer que o governo não tem sido transparente na questão da indústria extractiva?
Penso que os esforços estão a ser feitos, mas é necessário que se faça mais esforço neste sentido. No decurso da Conferência Internacional dos países nórdicos com o governo de Moçambique, há pouco tempo, muitos assuntos foram debatidos, mas é claro que são os moçambicanos que devem ficar à frente deste processo de transparência, não devem ser os países com os quais Moçambique coopera. Eu penso que é de facto um assunto muito importante, porque queremos ver um crescimento inclusivo. Quando os recursos não são explorados de uma forma adequada, também é um problema para o Governo.
Pensa que, neste momento, não tem havido inclusão na distribuição da riqueza em Moçambique?
Nós queremos ver um crescimento mais inclusivo neste país. Eu, particularmente, fico muito preocupada quando vejo pessoas muito pobres. Não estou a dizer que não gosto dos ricos. Penso que tem que haver inclusão no crescimento no país. Penso que o tipo de investimento que está a ser feito neste momento (indústria extractiva) não está a ter muito impacto a nível da qualidade de vida das pessoas a nível local. Tem que haver uma ligação entre os grandes investimentos e o crescimento a nível local. Tem que haver muito mais empresas moçambicanas na indústria extractiva. Há muita coisa que deve ser feita a nível da economia local, na agricultura... e por aí fora.
Partilha da ideia de que o governo moçambicano é corrupto ou é constituído por pessoas corruptas?
Não posso dizer que o governo é corrupto, não quero dizer isso. Estou convencida que o governo moçambicano está a fazer esforço para ultrapassar este problema. Não é fácil, precisa de ser combatida em todos os lados.
Mas considera que não tem havido coragem suficiente para se combater a grande corrupção?
Não sei se há falta de coragem, eu penso que, de facto, existe um problema, porque Moçambique saiu do monopartidarismo para a democracia multipartidária, e também temos esta ligação muito próxima entre o governo e o sector privado, porque houve  transformação de empresas estatais em capital privado. É um círculo um pouco mais fechado.
Considera que há uma promiscuidade entre a política e os negócios?
Não quero dizer que haja uma promiscuidade, mas há uma ligação muito forte.  Penso que o ideal era ter estes diferentes interesses bem claros.
O parlamento aprovou, agora, a lei de probidade pública, mas os deputados vão continuar a gerir empresas públicas controladas pelo governo. Acha isto normal?
Nós, na suécia, temos limites bem claros entre estes interesses. É importante ter empresários que se envolvam na política, mas não podem misturar os seus interesses empresariais com os interesses do Estado. Não é correcto um deputado ser gestor de uma empresa pública. 

Como se sente quando chega a Moçambique e vê um país que recebe dinheiro de doadores, incluindo da suécia, com uma classe política em carros de luxo e a viver em grandes mansões? Os políticos do seu país vivem também de forma muito faustosa à custa dos contribuintes?
O povo sueco não permite isso. No nosso país, todos os políticos têm que declarar os seus bens todos os anos. Por exemplo, eu, como embaixadora, não posso viajar em classe executiva. Temos muitas restrições nesse sentido. Eu, particularmente, não gosto do que acontece em Moçambique. Tenho muitos sentimentos morais. Houve, recentemente, a cimeira do clima no Rio do Janeiro, no Brasil, e a delegação moçambicana estava num dos hotéis mais caros do Rio de Janeiro! Moçambique, sendo um dos países mais pobres do mundo, não creio que isso seja muito bom para a imagem do país.

Como avalia o ambiente político em Moçambique, numa altura em que se fala de um possível retorno ao monopartidarismo, dada a força da Frelimo?
O partido Frelimo tem um papel histórico, ainda não há um sistema onde haja mesmas possibilidades para todos os partidos políticos. Penso que, pouco a pouco, vai haver um crescimento de democracia, mas a democracia não são só partidos políticos. É necessário que haja uma interacção com a sociedade civil, que deve ser activa também. Tem que haver alternância na governação, é necessário que haja partidos políticos fortes, não somente um partido, porque, com um e único partido, não temos democracia.
Numa situação como a de Moçambique, em que nunca houve alternância... é correcto dizer que a democracia está em perigo?
Penso que é muito normal, nesta altura, que o partido Frelimo tenha muita força, porque só foi a partir de 1994 que começou o multipartidarismo em Moçambique. é muito pouco tempo. Na Suécia, o partido social-democrata esteve no poder por muito tempo. Viu-se que não estava a funcionar muito bem, e temos tido esta alternância. 
Acredita que a democracia em Moçambique está no caminho certo?
Estou animada com o desenvolvimento da democracia em Moçambique. Claro que os partidos mais pequenos estão a lutar pelo seu espaço, mas penso que é muito importante o facto de o MDM ter vencido nas eleições intercalares que decorreram em Quelimane. Isso mostra que é  possível  ter uma alternância. O município da Beira está nas mãos do MDM.
A Suécia apoia directamente os municípios de Quelimane e da Beira?
Nós apoiamos Moçambique no seu todo. Não estamos a apoiar partidos políticos, mas sim Moçambique. Os municípios da Beira e Quelimane fazem parte do Estado. Não apoiamos directamente. Mas nós estamos, também, a apoiar a sociedade civil, que é também uma força bastante importante.
Fala do apoio à sociedade civil(...). Há sectores de opinião que acham que a sociedade civil moçambicana é uma farsa, que não passa de instrumento do partido Frelimo. Qual é a sua visão sobre isso?
Eu não tenho este conhecimento. Talvez haja uma verdade nisso, mas, na minha óptica, penso que a sociedade civil também é um produto da sociedade. É preciso ver que a democracia é uma coisa nova em Moçambique e há muito caminho por percorrer. 
A Frelimo vai a Congresso em Setembro. Qual é a sua expectativa sobre esta magna reunião do partido no poder em Moçambique?
Vamos ver o que vai acontecer no Congresso. É muito importante, porque se trata de um partido no poder e com influência neste país. Mas, como disse, nós não apoiamos partidos políticos, incluindo a Frelimo. Temos uma relação apartidária e, para nós, os partidos não têm muita importância.

«No reino das “rapidinhas»

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Ruaaraujo2 Escrito por Renato Caldeira
São 23 horas. Tempo de ir para a montra. Na chamada Rua dos Pecados, despem-se as capulanas e os lenços, surgem os saiotes curtos e transparentes que realçam o fio dental, destapando as pontas dos mamilos. Ancas e coxas ganham bamboleios, pois irão marcar a diferença, no difícil exercício de atrair clientes. Tudo então se altera. Do andar, ao falar… Todas são poliglotas, “spicando” do inglês ao alemão misturado com o bitonga quando necessário. Não há complexos nem inibições, pois os pontapés na gramática até são um modelo de atracção.
O sol já se foi, mas o dia ainda é uma criança no reino das “rapidinhas”, das bebidas ingeridas a contra-gosto, das danças e estilos forçados pelas circunstâncias! Vêm da periferia da capital e de outros pontos do país, a maioria à sucapa de pais ou familiares que as acolhem, rumo à noite maputense. Jovens ainda na puberdade, dos 13 anos em diante, saem de casa como boas meninas, muitas vezes com mochilas de estudante, mas no “triângulo vermelho” operam transformações, vestindo o “fato de trabalho”. Aí, misturam- se com as veteranas. Os cabelos são tratados à medida das posses, desfrizados, substituídos por tissagens ou perucas… tudo, menos a carapinha original.
Ditadura da veterania
O “cartão-de-visitas” da Rua de Bagamoyo é o Luso. Lá, faz-se strip-tease, o serviço é atractivo e há protecção para os clientes, garantido por musculados, espalhados um pouco por todo o lado. É para lá que convergem os mais abastados, ou pelo menos aqueles que não se importam de pagar por cada cerveja um pouco mais do dobro do preço no “dumba-nengue”. Há hierarquia, sobretudo entre as mulheres. Por exemplo: há as “aloiraçadas” veteranas, cujo porte, vestimenta e capacidade de impressionar, lhes garantem à partida o acesso aos mais “tacudos”. Beneficiam da “cunha” dos seguranças, têm um esquema de relações públicas mais sofisticado.
Pelo seu estatuto, posicionam-se por detrás do balcão e observam, altaneiras, as concorrentes, usando um ascendente que não permite discussão, por várias razões: o inglês aprendido em muitas horas de “pontapés na gramática”, cá ou na terra do rand, a peruca tratada no cabeleireiro, os seios, imponentes, sobrando dos “soutiens”, a maquilhagem e a desenvoltura, conferida por vários anos no ofício. Gabam-se de ter conta bancária, apartamento e “taxeiro” privativos. Do seu amante de ocasião, já recebem por antecipação uma grossa quantia para desfrutarem na noite. Não raras vezes, socorrem as “novatas” em situações aflitivas, não por solidariedade, mas para vincar diferenças e prevenir veleidades.
No mundo da prostituição, as regras e os escalões são como no futebol: sub-17, sub-20… e equipa principal. Com a diferença de que aqui, as veteranas no activo são quem estabelece as regras e controla tudo. A concorrência é grande. E por vezes desonesta. O simples facto de alguém possuir uma tez mais clara, uma peruca loira, ou um casaco “chique”, dá-lhe ascendente. Afi nal, todas estão ali em busca de um “jackpot”, o que significa um bolso farto, que permita mitigar a fome do dia seguinte e pagar a matrícula escolar dos filhos. É assim a vida e a sorte das prostitutas na baixa de Maputo, onde as noites se transformam em dia e grande parte das normas que vigoram para lá “desse território” são letra morta. Inclusive, a deliberação governamental que interdita o acesso de menores a locais de diversão nocturna. É normal verem-se moças com saias curtinhas, seios em maturação em rosto “imberbe”, exibido todas as noites.
O drama das taxas
Quando saem de casa, apenas levam consigo míseros trocos para o “chapa”, muitas vezes só para o percurso de ida. O resto depende da sorte e da capacidade de seduzir parceiros. De permeio, há que ter em conta as taxas da longa noite, que começam onde se guardam as roupas, passam pelo pagamento a certos agentes da polícia e terminam nos “gangs” de bandidos que actuam mal lhes cheire a “mola”. Estes e outros são o drama das desfavorecidas, daquelas que, na verdade, não fazem da prostituição um modo de vida, mas apenas uma forma de sobrevivência e que, nalguns casos, acaba por se tornar hábito, porque única alternativa antes de as rugas aparecerem e os seios se assemelharem a autênticas “sapatilhas”.
As jovens, em muitos casos, levam de dia uma vida normal, são estudantes ou trabalhadoras, mas aos fins-de-semana fazem o seu “biscate”. Um outro escalão é o das não dotadas de encantos pela natureza, “semi-mamanas”, por vezes já com “pneus” na cintura. Sem encantos, procuram a concorrência através de outro tipo de estratégias, que passam por menores exigências e trocas de favores na sua humilde dependência, de quarto e casa de banho. Trazem o parceiro pela madrugada e removem os corpinhos inocentes dos filhos, que dormitam de barrigas vazias.
Aí, cumprem a “função”. Muitas vezes, após a relutância do candidato, atraído por jovens mais es- Nessas alturas, os incidentes aumentam como consequência do galopante consumo de álcool, sendo a cerveja a bebida mais consumida. O maior número de desaguisados é entre as mulheres, que não aceitam de ânimo leve a traição, vulgarmente conhecida por “cabeçada”. E quando a moeda em perspectiva é a nota verde, vale tudo, quebrando-se as habituais regras de “sondar antes de atacar”, caso o cavalheiro “esteja com alguém”.
O ponto alto é as duas da manhã, com os corpos cansados e o álcool a atingir o timbre máximo. As que foram “contempladas” procuram desesperadamente atrair os seus amantes para longe da concorrência. As menos “sortudas” vão baixando o seu nível de exigências, ao ponto de uma sandes, uma cerveja e a eventual boleia para casa, poder valer uma “rapidinha” já ao nascer da manhã. Os sonhos do “jackpot” foram-se esvaindo com a noite. Nestes casos, fazem-se juras de amor ao companheiro de última hora, tentando recolher trocos para a salvação do dia...
Este afirma-se “desprevenido”, dá o que entende, sob promessa de novos encontros. Aí, a troca de números de telefones e mesmo de nomes, nem sempre são verdadeiros. culturais, “abrem o jogo”, colocam-lhe as suas dificuldades, que se prendem com as necessidades imediatas do pagamento da renda de casa ou do leite para os meninos.
Fica a promessa de uma posterior partilha daquele leito, em noites de entrega total, com amor pago a prestações, consoante as circunstâncias, através de umas cervejas ou de um pequeno rancho para a família. Rolam as horas baixam-se as exigências. Quando se regista um qualquer acontecimento especial, como a chegada de uma fragata de guerra ou um conjunto de navios no porto, a face da rua muda radicalmente. Os bares regurgitam de gente, o neón começa mais cedo e nalguns casos mantém-se ligado manhã dentro. Aí, a festa é de todo(a)s. Os polícias ficam mais atentos, os “taxeiros” fazem o vaivém, e os “chulos” reclamam a sua quota-parte.
@VERDADE – 16.10.2009

Petição Campanha pela Regulamentação das Agencias de Notação!

Petição Campanha pela Regulamentação das Agencias de Notação!

Para:Parlamento Portugues, Europeu, Primeiro Ministro, ONU

Campanha pela Regulamentação das Agencias de Notação!
(also English version et aussi version en français )
Agências de Rating – Uma Petição Pela Sua Urgente Regulamentação!

São conhecidas por “agências de notação financeira”, enfim, empresas que têm por actividade “atribuir notas de risco ou classificações (ratings) a países, mas também a municípios, empresas ou bancos ou a títulos hipotecários.” Assim, supõe-se que mostrem a capacidade de pagamento de dívidas (valor total e juros) no prazo prometido.
Mas, a verdade está na falta de avaliação, de controlo e de regulamentação da actividade das agências de rating.
Ora, conhecendo-se bem o papel das agências de rating, americanas, na criação da bolha do sub-prime que desencadeou a crise financeira de 2008 e sabendo-se que nem um desses títulos “sub-prime” foi vendido sem a sua avaliação, ninguém as penalizou perante os dramáticos resultados!
Assim, estas agências não evitaram que acontecesse esta crise, nem serviram para permitir que os investidores se sentissem dispensados de avaliar os títulos mobiliários e nem que os investidores soubessem qual o grau de risco inserido no que estavam a adquirir.
Mais, as muitas suspeitas de “amiguismos” e conflitos de interesse neste género de situações acabaram por nunca ser publicamente esclarecidas!
Finalmente, vimos até o esforço europeu para avaliar a solidez dos seus bancos, através dos já famosos “testes de stress”.
Ora a necessidade de ser a Comissão Europeia, o BCE e o comité europeu de supervisores bancários a fazer estes testes é talvez o maior atestado de incompetência alguma vez passado às agências de ratings americanas.
Mais, quando os países europeus se encontravam mais empenhados na recuperação dos seus sistemas financeiros e no combate à recessão que se adivinhava inevitável, surgem as agências de rating no topo das notícias, porque resolveram baixar o rating das dívidas soberanas de vários países da zona euro.
O alvo sempre foi demasiado claro, a União Europeia e: o euro, por ser, uma moeda, demasiado forte para o crescimento da economia maior exportadora do mundo, a Alemanha; forte para o cumprimento das promessas do Presidente dos EUA, de restabelecer a força do dólar e forte para quem não tolera a regulação dos mercados financeiros…

Mas avaliemos o papel das agências de rating, americanas, neste processo e podemos fazê-lo de dois ângulos principais:

1. Reduzir o rating das dívidas soberanas de países europeus, que têm fundamentals económicos muito melhores que os americanos, sem alterar o rating dos bilhetes do tesouro americano, que os chineses compram sem parar, é… estranho!
2. Reduzir estes ratings depois dos governos europeus terem controlado os danos da crise financeira iniciada na América e de terem testado a resistência dos seus bancos ao stress, é… estranho!

Entendemos que a avaliação das agências de rating deve ser feita por dois critérios principais, bem conhecidas dos investigadores científicos: validade e fiabilidade.
Assim, é preciso avaliar se as medidas apresentadas (ratings) medem mesmo o que se pretende (a capacidade dos governos pagarem as respectivas dívidas). Validade!
É preciso avaliar se essas medidas são precisas e dão sempre o mesmo valor, quando aplicadas à mesma situação. Fiabilidade!
Perante o papel das agências de rating seria de esperar que:

• Os critérios usados na atribuição de ratings passassem a ser regulamentados pelas autoridades monetárias, para além de tornados claros e públicos;
• As autoridades monetárias passassem a controlar (certificação de
qualidade) o funcionamento das agências de rating;
• As agências de rating fossem alvo de uma avaliação, de um rating,
anual, possivelmente atribuído pelas autoridades monetárias.

Assim, nós, Cidadãos Abaixo Assinados, afectados pela Crise, não iremos aguardar pela próxima crise financeira provocada pelas agências de rating, sem sabermos se as mesmas obedecem a alguma e estranha estratégias política, ou a interesses comerciais que visam a desvalorização do euro, para facilitar as exportações alemãs, ou se resultam pura e simplesmente de incompetência e negligência
Nós Cidadãos, uns da União Europeia, nacionais ou residentes, outros de outras partes deste Globalizado Planeta,

Exigimos, da União Europeia, das Nações Unidas e dos Estados Nacionais, a Urgente Regulamentação Internacional da Actividade das Agências de Notação


Campaign for the regulation of rating agencies!

Rating Agencies - A Petition For their Urgent regulation!

They are known as “financial rating agencies”. These are companies engaged in “assigning risk prospects or rates to countries, but also to municipalities, corporations, banks or mortgage-backed securities”. As such, they are supposed to deliver debt payment (total value with interest) within the appropriate time frame.
But the truth lies on the lack of evaluation, control and regulation of rating agencies activities.
The part played by rating agencies in creating the subprime bubble that originated the financial crisis of 2008 is well known and not one of those subprime bonds was sold without their evaluation, still no rating agency was penalized by the dramatic results.
Not only did these agencies failed in preventing this crisis, they didn’t allow investors to be dismissed from evaluating real estate bonds or to know the level of risk involved in what they were acquiring.
Adding to this, many suspicions of these companies’ so-called sympathies and conflict of interests in these kinds of situations have never been brought to the public eye for clarification.
Finally, Europe made an effort to evaluate banks solidity, through the famous “stress tests”.
The fact that these tests had to be run by the European Commission, the ECB and the European committee of banking supervisor, is probably the biggest proof of incompetence by the American rating agencies
When the countries in Europe were engaged in recovering their financial systems and committed to fighting the unavoidable recession, the rating agencies came out on the news with their decision to lower the sovereign debt’s rating of several countries in the euro zone.
The target was always too clear: the European Union and the Euro, for being a currency too strong for the growth of the largest export economy in the world, Germany; too strong to allow the President of the United States of America to keep his promise of a strong dollar; too strong for those who do not tolerate regulating the financial markets.

Evaluating the part played by the American rating agencies in this process can be done through two major perspectives:

1. Reducing the sovereign debt’s rating of European Countries with much better economical foundations than that of the American, without altering the rating of the American treasury, which the Chinese have been purchasing non-stop is…. odd!
2. Reducing these ratings after the European governments tested the stress resistance of their banks and controlled the damage of the financial crisis that started in the USA is… odd!

We understand that the evaluation of the rating agencies must be performed under two main criteria, well known by scientific investigators: validity and reliability.
There must be an evaluation to verify if the ratings that were presented actually measure what was intended (the capacity governments have to pay their respective debts). Validity!
Evaluate if those same measures are precise and accurate, resulting in the same value when applied to the same situation. Reliability!

Regarding the part rating agencies Play, it is expected that:

• The criteria used in the attribution of ratings, should be regulated by the monetary authorities, as well as made public and clear;
• The monetary authorities should control (quality certification) rating agencies operations;
• The rating agencies should have an annual evaluation and a rating attributed by the monetary authorities
.
We, the Citizens Undersigned, affected by this crisis, will not wait for the next financial crisis created by rating agencies, not knowing if these same agencies fall under some odd political strategy or commercial interests, aiming at the devaluation of the Euro just to facilitate German export, or if it’s pure and simple negligence and incompetence.
We the Citizen, European nationals or residents, or from other parts of this Globalized Planet, Demand from the European Union, the United Nations and the National States, the Urgent International Regulation of Rating Agencies Activity.


Campagne pour la Réglementation des Agences de Notation - Rating

Une Pétition Pour Son Urgente Réglementation!

Ils sont connus par des «agences de notation financière», des sociétés qui ont pour activité «attribuer à des notes de risque ou des classements (ratings) à des pays, mais aussi à des villes, à des sociétés ou à des banques ou encore à des titres hypothécaire.» Ainsi, on suppose montrer la capacité de paiement de dettes (valeur totale et intérêts) dans un délai promis.

Mais, la vérité est au défaut d'évaluation, de contrôle et de réglementation de l'activité des agences de rating.

Néanmoins, on connait le rôle des agences de rating Américaines dans la création de la bulle de «sub-prime», qui a déchaîné la crise financière de 2008 et en sachant que aucun de ces titres «sub-prime» a été vendu sans son évaluation, personne les a pénalisé devant les dramatiques résultats !

Ainsi, ces agences n'ont pas évité l'arrivée de cette crise, et n’ont pas servi à ce que les investisseurs se sentent dispensés d'évaluer les titres immobiliers, notamment dans la prise de risque qu’ils prenaient.

Plus, trop de soupçons d'«amiguismos» et les conflits d'intérêt dans ce type de situations, ne sont jamais transparents ni révélés publiquement !

Finalement, nous avons observé l'effort européen pour évaluer la solidité de leurs banques, à travers les déjà célèbres «essais de stress».

Néanmoins la nécessité que ce soit la Commission Européenne, la BCE et le Comité Européen de Surveillance Bancaire à faire ces essais, est probablement le plus grand certificat d'incompétence adressé aux agences de ratings américaines.

Plus, quand les pays européens se trouvaient plus engagés dans la récupération de leurs systèmes financiers et dans le combat contre la récession qui se devenait inévitable, apparaissent les agences de rating dans le dessus des observations, pour décider d'abaisser le rating des dettes souveraines de plusieurs pays de la zone euro.

La cible a toujours été trop claire, l'Union Européenne et l'Euro, car c’est une monnaie trop forte, pour la croissance de l'économie de la plus grand exportatrice du monde, l'Allemagne. Trop forte pour l'accomplissement des promesses du Président des E.U.A., de rétablir la force du dollar et trop forte pour qui ne tolère pas le règlementation des marchés financiers…

Mais procédons à l’évaluation du rôle des agences de rating Américaines, dans ce processus et nous pouvons le faire à partir de deux angles principaux :

1. Réduire le rating des dettes souveraines de pays européens, qui ont des fondations économiques bien meilleures que les Américains, sans altérer rating des billets du trésor américain, que les Chinois achètent sans arrêt,…c’est… étrange !

2. Réduire ces ratings une fois que les gouvernements européens aient contrôlé les dommages de la crise financière initiée dans l'Amérique et d'avoir expérimenté la résistance de leurs banques au stress, c’est… étrange !

Nous comprenons que l'évaluation des agences de rating doit être exercée avec deux critères principaux, bien connus des investigateurs scientifiques : validité et fiabilité.

Ainsi, il faut évaluer si les mesures présentées (ratings) mesurent véritablement ce que l’on prétend (la capacité des gouvernements payer les respectives dettes). Validité !

Il faut évaluer si ces mesures sont précises et donnent toujours la même valeur, quand appliquées à la même situation. Fiabilité !

Devant le rôle des agences de rating on pourrait s’attendre à ce que:

• Les critères utilisés dans l'attribution de ratings soient réglementées par les autorités monétaires, et rendues claires et publiques.

• Les autorités monétaires commencent à contrôler (Certification de Qualité) le fonctionnement des agences de rating.
• Que les agences de rating soient soumises à une évaluation, à un rating annuel, possiblement attribué par les autorités monétaires.
Ainsi, nous, Citoyens Soussignés, affectés par la Crise, n'aurons pas à attendre la prochaine crise financière provoquée par les agences de rating, sans savoir si elles mêmes obéissent à une quelconque étrange et stratégie politique, ou à d’intérêts commerciaux qui visent la dépréciation de l'Euro, pour faciliter les exportations allemandes, ou encore, s’il s’agit pure et simplement d'incompétence et de négligence.

Nous, Citoyens de l'Union Européenne, nationaux ou résidants, autres d'autres parties de cette Planète Globalisée,

Nous exigeons, de l'Union européenne, des Nations Unies et des États Nationaux, l'Urgente Réglementation Internationale de l'Activité des Agences de Notation.


!ºs Subscritores

Camilo Tavares Mortagua , BI 6494493, camor@sapo,pt , apartado 12, 7920 -999 Alvito
Joffre António de Souza Justino, BI, 5504325, rua Cidade de Luanda, lote 483, r/c B, 1800-099 Lisboa, jjustino@epar.pt
Berta Ferreira Milheiro Nunes Bi, 3313714, Alfândega da Fé, email: bnunes786@gmail.com

Maria Helena de Sousa Justino Vaz, BI - 2699652 - helenajustino1944@gmail.com - Estrada de Telheiras n º 79 - 3º A - 1600-768 – Lisboa
Eugénio Monteiro Ferreira, BI, 07175067, Angola,
Ana bela Martins Pereira da Silva, 2350740, r. Antonio Pedro 119, 1º dt, Lisboa, absilva@epar.pt
João José Duarte Silva BI 137967, Lx, Neudel Amadora
Maria Albina Sousa Martinho BI 866625 , Lx, Neudel Amadora
Fernando António da Costa Gaspar, BI, 6642717
José Manuel Gomes da Conceição, BI 4588061, Técnico Superior E.E. Reabilitação, ze.m.conceicao@hotmail.com, Rua Amílcar Cabral nº 16 1ºC - 2900-219 SETÚBAL.

João Carlos da Silva Morais, Estrada do Rêgo, Edif. Vitorcel- Ala Sul 1º F, 2655-345 Ericeira, BI: 6075085 de Lisboa
JOÃO ALEXANDRE PAULETA GRAZINA, AV ALMIRANTE REIS, 89 7º DTO, 1150 - 013 LISBOA, B.I.Nº 4 656 329
Miguel Teixeira Justino, BI,11930607, Benfica, Lisboa
Domingos Martinho Lopes da Silva, BI, 1285550, Alverca
Gilberto Jr, BI, 15570096, São Julião do Tojal
Ana Luisa Marques, 11449615, M aceira, Torres Vedras
João Manuel Pires Cebola, Bi nº 4688502, Rua Luísa Tody nº 2, Vale de Milhaços 2855-470 Corroios
António Luís Lopes, BI – 6217320, Lisboa, Av. Padre Alberto Neto, nº21, 3º esquerdo – 2635 346 Rio de Mouro – Sintra,

Patrícia Sofia Ferreira Lourenço, B.I. – 11666909, Calçada do Monte nº18 – 2º - 1100-362 Lisboa, B.I. – 11666909, Email: tita.lourenco@gmail.com
Ricardo Hugo Rebelo Lourenço, C. cidadão, 109693760ZZ4,ricardohugorlourenco@gmail.com, Calçada do Monte nº18 – 2º - 1100-362 Lisboa
Ana Carina Leite Brito da Cruz Rocha Gentil, C. cidadão, 121885089ZZ1, carinarocha14@hotmail.com, Beco do Loureiro nº2 - 2º Dto. – 1100 -314 Lisboa








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